A Escada de Heitor A Noiva do Lago · Capítulo 6 de 16
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A Escada de Heitor

Heitor desceu a escada com uma lanterna pequena na mão esquerda e um corte fino na sobrancelha. A camisa branca vinha amarrotada, a manga dobrada até o cotovelo, e o sapato dele trazia barro seco nas laterais. Isadora ergueu a própria lanterna sem baixar a arma, e Miguel tomou a frente por reflexo, com o corpo pronto para o pior. Heitor parou no último degrau e olhou os dois com a calma de quem já sabia que seria recebido com desconfiança. Disso ele não fugiu. Disse apenas que esperava a visita antes da meia-noite e que Davi deixara a casa pronta para quem soubesse abrir os olhos. A frase saiu baixa, sem pressa, e foi suficiente para prender os dois no mesmo lugar.

Miguel exigiu a verdade sobre a presença dele ali. Heitor apoiou a mão no corrimão, respirou fundo e contou que Davi ligara no começo da tarde, vindo de um telefone que já não existia no registro da operadora. O aviso era curto. Manter a casa aberta, deixar a porta destrancada e impedir que Marta chegasse primeiro ao compartimento sob a escada. Isadora pediu prova. Heitor tirou do bolso uma chave velha amarrada num fita azul, mostrou o verso e disse o nome de Davi gravado no metal. Explicou que a família de Clara tinha pressionado pela união, que Marta queria o casamento sem testemunha fora da ilha e que Davi começara a guardar recibos, fitas e nomes porque a mesma mão que assinava na capela também limpava rastros no lago.

Miguel abriu o compartimento sob o primeiro lance de degraus e encontrou um envelope pardo, duas fotos de Clara sentada no trapiche e um papel timbrado do cartório de São Bento. Havia ali uma declaração de união assinada por três testemunhas, uma marca de tinta azul no canto e um bilhete de Davi com a ordem de ler antes da segunda chamada. Isadora passou os olhos pela folha, leu o nome de Marta entre as testemunhas e viu a data do registro recuar uma semana antes do noivado oficial. Heitor ficou parado, mas o maxilar dele endureceu. Disse que a assinatura de Marta aparecia porque ela escolheu cada nome da lista e revisou o papel antes de mandar o documento para a gaveta do cartório.

O barulho de pneus no cascalho cortou o resto da explicação. Heitor foi até a janela, olhou para o portão e xingou baixinho ao ver os faróis subindo a curva da estrada. Isadora juntou os envelopes de volta contra o peito, Miguel guardou o papel do cartório dentro da camisa e os dois ouviram o motor desligar fora da casa. Heitor disse que Marta vinha com gente armada para recolher tudo, e mandou os dois seguirem pelo corredor lateral até o depósito de barcos. Antes de voltar para a porta, ele deixou a chave azul na mão de Isadora e falou que Davi tinha escolhido o lago porque qualquer papel jogado ali voltaria pela maré certa. Quando a primeira pancada soou no vidro da frente, Isadora já corria com Miguel pela passagem estreita, e a lanterna de Heitor ficou para trás, acesa no centro da sala.

Isadora caminhou até a janela e viu no reflexo o próprio rosto ao lado do de Miguel, os dois cercados pelo quarto de Davi e pela noite do lago. A proximidade ali parecia inevitável. Ele estava a menos de um braço de distância, a camisa aberta no colarinho, os dedos manchados de poeira de livro e fita cassete. Ela virou o rosto e encontrou nele um cansaço calmo, atento, sem pressa de pedir nada além do que já tinham de enfrentar juntos. O toque veio quando Miguel afastou de leve uma mecha do rosto dela para que pudesse ler a assinatura na última fotografia. Isadora não se afastou. Ficar parada exigia mais coragem do que avançar. Ele percebeu isso e deixou a mão cair devagar. Não havia promessa naquela cena, só uma linha fina entre dois adultos tentando não repetir a vida de antes.

Antes de sair, Isadora tirou uma foto da carta de Marta, outra do gravador e uma terceira do conjunto de envelopes. Miguel guardou o pendrive no bolso interno da camisa e apagou as luzes do quarto, deixando apenas o contorno do lago aceso atrás do vidro. Quando desciam a escada, um ruído veio do piso térreo, seco demais para vento e pesado demais para animal. Miguel puxou Isadora para trás da parede antes de virar o corredor. A porta da sala principal se abriu devagar e uma sombra masculina atravessou a faixa de luz do deck. Isadora reconheceu a postura antes do rosto. Heitor Amaral estava dentro da Casa de vidro, olhando para os mesmos papéis que eles acabavam de ler.

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