A Testemunha de São Bento
O cartório fechou atrás deles com o ferro correndo pesado no trilho. Heitor levou a mão ao bolso, conferiu a chave azul e entrou na caminhonete de Tereza sem dizer palavra. O relógio da praça marcava pouco depois das duas, e a cidade de São Bento parecia dormir de olhos abertos, com a farmácia fechada, o açougue de porta abaixada e um vento quente varrendo papel seco pela calçada. Isadora ficou no banco de trás com a pasta parda contra o peito. Miguel sentou ao lado dela, passou os dedos pela dobra da procuração e disse que a cópia de Marta já bastava para abrir a frente do caso. Heitor respondeu que ainda faltava a voz de alguém que tivesse visto Clara antes do sumiço. Ele virava o volante com a mão boa e guiava o carro para a rua do posto de saúde, onde a enfermeira Vânia atendia até o fim da tarde.
Vânia trabalhava numa sala pequena, com um ventilador de parede e um armário branco onde se empilhavam caixas de gaze. Era uma mulher seca no falar, de jaleco preso por um botão torto, e não fez pergunta quando viu Heitor encostar a caminhonete perto da rampa lateral. Tereza já tinha ligado antes. Isadora entrou primeiro, mostrou a foto de Clara encontrada no cartório e viu a expressão da enfermeira endurecer sem surpresa. Vânia abriu uma gaveta da mesa, retirou um envelope de papel pardo e colocou sobre a bancada um formulário da casa de apoio em São Bento, assinado com a letra de Marta e com a data da semana em que Clara sumiu do lago. Miguel puxou uma cadeira, sentou sem pedir e leu o campo de observação escrito por Vânia. A frase dizia que Clara chorava durante a noite e pedia para falar com Davi.
Vânia contou que Clara chegara ao posto com o pulso marcado por fita e a garganta inflamada de tanto chorar no caminho. Disse que a jovem tinha sido deixada ali por uma mulher do cartório, sob ordem de família, para esperar transporte em outro endereço, longe da ilha e longe do noivado. A casa de apoio era apenas um ponto de passagem. Na madrugada seguinte, Clara recebeu visita de Davi. Ele entrou sozinho, deixou uma carta no colo dela e pediu que Vânia guardasse o envelope até a hora certa. A enfermeira mostrou o original, dobrado em quatro e selado com a fita amarela da mesma chave que Tereza tinha retirado da gaveta do fogão. Isadora segurou o papel e leu o nome da irmã no alto da página, escrito com a pressa de quem quer se salvar antes de ser levado.
A carta de Clara vinha curta, sem enfeite, e pedia que Isadora não acreditasse na versão de Marta sobre fuga voluntária. Dizia que o casamento fora montado antes do primeiro brinde no lago, que o dinheiro da fundação tinha servido para esconder dívida antiga e que Davi tentara desfazer o plano sem falar com a família. No fim, havia um endereço no bairro alto e um recado para procurar a chave de acesso ao quarto da pousada onde ela ficara dois dias. Miguel comparou o endereço com a cópia da ficha da casa de apoio e encontrou a mesma numeração de porta. Vânia explicou que Clara partira no terceiro dia, escoltada por um motorista da fundação e sem o próprio nome no registro. Não houve grito ali. Houve o tipo de silêncio que nasce quando uma mentira antiga perde o lastro.
Heitor recebeu uma ligação no meio da leitura. Atendeu de pé, afastado da mesa, e voltou com o rosto cortado por uma sombra dura. Marta havia saído da casa no lago e seguia para São Bento com o advogado da família. A enfermeira fechou o envelope de Clara, empurrou para Isadora uma segunda cópia do formulário e mandou os quatro saírem pela porta lateral antes que alguém do outro lado da rua começasse a olhar demais. Miguel guardou a carta dentro da camisa, Heitor recolheu o livro do cartório e Tereza enfiou um boné na cabeça de Isadora, dizendo que a cidade reconheceria menos a família se ela mantivesse o rosto baixo. O movimento inteiro aconteceu depressa, sem corrida, com cada um sabendo exatamente onde colocar as mãos.
Do lado de fora do posto, o carro preto de Marta já tinha parado na esquina. Isadora viu a sobrinha do cartório descer com uma pasta presa ao antebraço, seguida por um homem magro de terno claro e sapato muito limpo para aquele chão de terra. Vânia fechou a porta por dentro e apagou a luz da sala. Miguel puxou Isadora para trás da caminhonete de Tereza, Heitor ficou ao lado da porta com a chave azul pendurada no dedo e esperou o primeiro movimento do outro lado da rua. Marta atravessou a calçada sem pressa, olhou os três pelo vidro da caminhonete e disse que já sabia da visita ao cartório. Disse também que a assinatura de Clara ainda podia ser anulada. A frase veio fria, sem grito, do tipo que depende de documento e não de volume.