A Casa de Vidro A Noiva do Lago · Capítulo 5 de 16
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A Casa de Vidro

A lancha velha deixou um rastro curto no lago e parou numa enseada escondida por pedras escuras e juncos altos. Miguel amarrou a corda num poste torto, apagou o motor e ficou alguns segundos olhando a margem oposta, onde a Casa de vidro aparecia entre árvores podadas e cercas baixas. Não era uma casa de família nem um anexo qualquer. Tinha paredes inteiras de vidro fumê, estrutura de ferro preto e um deck de madeira que descia em degraus até a água. Isadora saltou primeiro, molhando a barra da calça, e levou a mão à armação da lanterna presa ao colete. Miguel veio logo atrás, com a foto de Davi protegida dentro da camisa e a pasta preta sob o braço. O lago ali parecia mais quieto, porém Isadora sabia que silêncio em casa rica costuma esconder gente em movimento.

O acesso pelo pomar exigia passar por um corredor de mangueiras antigas e laranjeiras mal cuidadas. Miguel abriu caminho com a lanterna baixa, sempre um passo à frente e sempre olhando os cantos antes de pisar. Isadora percebeu o detalhe sem comentar. Ele fazia aquilo com o corpo todo, não por exibição, e sim por hábito de quem vira porta fechada virar armadilha. Quando chegaram ao deck, a porta principal da Casa de vidro estava destrancada. Miguel olhou para Isadora, levantou dois dedos para pedir calma e empurrou a folha de vidro com cuidado. O interior vinha iluminado por refletores frios, móveis de linhas retas, uma mesa de centro sem livros e uma escada estreita que levava ao andar superior. No canto da sala, uma jarra de cristal vazia refletia a lanterna em fragmentos pequenos. Isadora entrou depois dele, o coração acelerado pelo tamanho do lugar e pela certeza de que Davi não deixara o endereço por capricho.

A sala principal estava vazia, porém a casa cheirava a gente recente, café frio, perfume masculino, madeira encerada e ar condicionado ligado demais. Miguel foi até a bancada lateral e encontrou uma chave reserva colada na parte de baixo com fita. Abriu um armário embutido, retirou uma caixa de correspondência e mostrou a Isadora um conjunto de envelopes numerados à mão. Havia quatro com o nome de Clara, dois com o nome de Davi e um sem identificação, marcado apenas com a palavra lago. Isadora abriu o envelope sem nome e encontrou recibos de transferência, um croqui da capela dos Amaral e uma anotação no verso de uma conta de luz. A frase dizia que os casamentos do lago sempre começavam antes do pedido. Miguel leu em silêncio, recolocou os papéis sobre a mesa e apontou para a escada. Se a caixa estava ali, o resto da resposta também deveria estar.

No andar de cima, os quartos davam para o lago por uma parede inteira de vidro. Isadora reconheceu o quarto de Davi pela bagunça controlada, livros espalhados, uma cadeira girada de lado e um toca-fitas antigo sobre a cômoda. Miguel encontrou uma gaveta falsa atrás da escrivaninha e retirou um maço de fotografias, um pendrive e uma carta dobrada em três partes. A carta era de Marta Amaral e falava da compra de silêncio com o dinheiro da Fundação, da necessidade de fazer Clara aceitar o casamento e da promessa de que Isadora ficaria longe, porque não deveria voltar para Santa Lúcia se continuasse fazendo perguntas. Isadora leu o nome dela em cada linha com a mesma raiva limpa de quem vê a própria ausência virar plano. Miguel ficou ao lado, sem tocar, porém sem sair de perto. Era o tipo de presença que ela aprendia a aceitar porque vinha junto de prova, e não de discurso.

O toca-fitas tinha uma fita marcada com a data da última reunião de Davi. Miguel girou o aparelho duas vezes até a fita correr, e a voz que saiu primeiro foi a dele, baixa, pressa cansada, pedindo que alguém guardasse a gravação caso ele não voltasse. Depois entrou a voz de Heitor, distante, avisando que Clara seria levada ao barco apenas depois de assinar um recibo de entrega. A terceira voz era de Marta, cortando a conversa com frases curtas sobre dívida, nome e fachada. Isadora parou de respirar por um segundo quando ouviu Davi dizer que não entregaria a irmã para apagar o nome dos Amaral. A fita chiou, voltou com ruído alto e trouxe uma última frase. Se eu desaparecer, procurem no vidro que fica sobre a água. Miguel desligou o aparelho e olhou para a parede inteira diante deles. A casa inteira estava cercada por uma superfície que devolvia imagem e escondia fundo.

Isadora caminhou até a janela e viu no reflexo o próprio rosto ao lado do de Miguel, os dois cercados pelo quarto de Davi e pela noite do lago. A proximidade ali parecia inevitável. Ele estava a menos de um braço de distância, a camisa aberta no colarinho, os dedos manchados de poeira de livro e fita cassete. Ela virou o rosto e encontrou nele um cansaço calmo, atento, sem pressa de pedir nada além do que já tinham de enfrentar juntos. O toque veio quando Miguel afastou de leve uma mecha do rosto dela para que pudesse ler a assinatura na última fotografia. Isadora não se afastou. Ficar parada exigia mais coragem do que avançar. Ele percebeu isso e deixou a mão cair devagar. Não havia promessa naquela cena, só uma linha fina entre dois adultos tentando não repetir a vida de antes.

Antes de sair, Isadora tirou uma foto da carta de Marta, outra do gravador e uma terceira do conjunto de envelopes. Miguel guardou o pendrive no bolso interno da camisa e apagou as luzes do quarto, deixando apenas o contorno do lago aceso atrás do vidro. Quando desciam a escada, um ruído veio do piso térreo, seco demais para vento e pesado demais para animal. Miguel puxou Isadora para trás da parede antes de virar o corredor. A porta da sala principal se abriu devagar e uma sombra masculina atravessou a faixa de luz do deck. Isadora reconheceu a postura antes do rosto. Heitor Amaral estava dentro da Casa de vidro, olhando para os mesmos papéis que eles acabavam de ler.

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