A Versão de Marta
Marta entrou no posto de saúde com o advogado da família e dois homens que ficaram do lado de fora, perto do carro preto estacionado em frente à calçada. Heitor já tinha trancado a caminhonete de Tereza e guiado Isadora, Miguel e Tereza para dentro da sala de atendimento, onde Vânia mantinha a porta fechada e os papéis longe da janela. A voz de Marta veio do corredor curto, limpa e sem pressa, dizendo que a família tinha vindo buscar os documentos retirados do cartório. Vânia respondeu pela fresta que os documentos agora estavam sob registro e que qualquer pedido teria de passar pela delegacia da cidade. A frase travou Marta por um segundo, o bastante para Isadora notar a mão da mulher apertando a pasta contra o corpo.
O advogado de Marta pediu conversa reservada. Heitor negou sem levantar a voz. Disse que tudo que fosse dito ali poderia ser ouvido de uma vez, porque o caso já tinha saído do quintal e entrado no registro. Marta então ergueu o queixo e acusou Isadora de espalhar folhas sem valor jurídico, alegando que a assinatura de Clara fora obtida em meio a confusão e que Davi vinha agindo por conta própria desde a primeira semana da noiva no lago. Miguel abriu a própria pasta, retirou a cópia da procuração e colocou sobre a mesa com os dedos retos, sem pressa. A cópia trazia o nome de Marta na lateral e a data anterior ao jantar da casa de vidro. O advogado silencioso olhou o papel e deixou a borda da pasta baixar.
Vânia saiu da sala com o formulário da casa de apoio e voltou minutos depois com o carimbo do posto e a folha de observação assinada por ela. Disse, diante de Marta, que Clara chegou ferida, sem telefone e com medo de voltar para a ilha. Disse também que a jovem recebeu visita de Davi na madrugada e que o envelope entregue por ele ainda estava guardado sob registro, porque a própria Clara pediu que ninguém deixasse Marta tocá-lo. A sala inteira ficou presa no mesmo silêncio por um instante curto, sem saída limpa. Isadora abriu a carta e leu em voz alta o trecho em que Clara afirmava ter sido levada para São Bento por ordem de família, sem escolha real, e que o casamento havia sido montado antes da mudança para a cidade.
Marta tentou cortar a leitura com uma ordem direta para o advogado resolver o caso na delegacia. Heitor respondeu primeiro, dizendo que a delegacia já tinha sido informada por Vânia e por Tereza. A mulher virou o rosto na direção dele e exigiu o nome de quem autorizara a cópia do cartório. Miguel levantou a procuração e apontou para a assinatura de Davi no rodapé. Disse que a movimentação da casa de vidro, a saída de Clara e o registro em São Bento apareciam ligados por papéis da fundação, todos com o mesmo fluxo de assinatura. Marta deu um passo à frente, mas não entrou na sala. O advogado dela puxou o braço da cliente e pediu que esperasse do lado de fora. Isadora viu o maxilar duro dela sem precisar de aproximação.
Quando Marta saiu para a varanda, Vânia chamou Isadora até a mesa de atendimento e entregou uma cópia extra da ficha da casa de apoio. No verso, havia um número de pousada na cidade alta e o nome de uma mulher que tinha buscado Clara no terceiro dia. A anotação vinha com letra diferente da usada nos formulários do posto, como quem quis deixar rastro sem assumir a mão. Miguel comparou o nome com a lista do cartório e reconheceu a funcionária que Marta usava para recolher assinaturas. Heitor, parado no canto da sala, disse que a mulher saía da cidade toda quinta-feira e fazia o caminho do lago até São Bento sem parar no posto. A rede que prendia Clara ficava mais visível a cada folha.
Do lado de fora, Marta chamou Isadora pelo nome de batismo da família, um nome que ela só usava quando queria trazer a outra pessoa de volta para o lugar que escolheu para ela. Isadora saiu até a varanda com a carta de Clara na mão. Marta disse que ainda dava tempo de resolver tudo sem polícia, sem jornal e sem nome manchado. Isadora respondeu que o nome já estava manchado desde a primeira assinatura falsa. A mulher apertou os dentes, olhou para a rua e viu um carro da delegacia parar na esquina. Tereza tinha cumprido o aviso. O delegado desceu, cumprimentou Vânia e pediu que todos os documentos fossem entregues ali mesmo, em cima da mesa do posto, para anexar ao inquérito de São Bento.