A Chegada de Clara
O carro da delegacia subiu a rua principal de São Bento perto do fim da tarde, com o giro da luz azul batendo nas fachadas e parando nas janelas fechadas da praça. Isadora viu a viatura antes de ouvir o freio. Clara desceu pelo lado direito com a mão apoiada na porta e o olhar preso no chão por alguns passos. Vinha mais magra do que a fotografia do cartório, o cabelo cortado na altura do ombro e um curativo fino no pulso esquerdo. Quando levantou o rosto, reconheceu Isadora no mesmo instante e deixou o ar sair de uma vez, sem frase pronta. Tereza foi a primeira a abraçá-la, depois veio Heitor, que segurou a irmã pelos ombros com cuidado demais para um homem acostumado a esconder medo. Miguel ficou a um passo de distância, dando espaço para o encontro inteiro caber no chão da delegacia.
O delegado levou Clara para a sala de registro e pediu que o papel fosse lido devagar. A jovem sentou diante da mesa, tomou água em dois goles e contou que Marta a retirara da ilha com a promessa de um exame e de alguns dias em São Bento. O exame virou quarto alugado, telefone confiscado e visita vigiada por uma funcionária da fundação. Davi apareceu uma vez, de madrugada, com a carta e a fita que Isadora já conhecia. Clara disse que ele tentara tirá-la da cidade, porém a chegada dos homens de Marta à pousada rompeu a fuga antes da saída. O delegado anotou tudo, sem levantar a voz, e pediu a data exata da primeira ameaça.
Clara respondeu com detalhes que não cabiam em boato. Falou do nome do motorista, da assinatura do cartório que antecedeu o noivado e do café servido na casa de apoio por uma funcionária que sempre repetia as mesmas palavras sobre silêncio e gratidão. Quando mencionou Marta, a voz ficou mais baixa, porém firme. Disse que a tia do noivo sabia de cada deslocamento dela e que o casamento seria usado para fechar a conta antiga da fundação antes que os papéis de Davi chegassem à rua. Isadora ouviu sem interromper, com a mão apertada na borda da cadeira. A cada frase, o desenho da noite no lago ganhava corpo dentro da sala de registro, e a mentira perdia espaço no papel.
Depois da declaração, Clara pediu para ficar alguns minutos com Isadora sem a mesa do delegado no meio. As duas foram para o corredor externo, onde a parede branca recebia a luz reta do fim de tarde e o cheiro de café do posto ainda vinha da copa. Clara encostou a testa no ombro da irmã e ficou ali um instante, respirando devagar. Disse que pensou muito em fugir para outra cidade, porém Davi tinha deixado a carta certa no lugar certo e isso a obrigou a voltar. Isadora respondeu que a casa de vidro, o cartório e a fita já bastavam para virar a chave do caso. Clara balançou a cabeça e puxou do bolso interno da blusa um papel dobrado pequeno, guardado dentro do forro. Era o último bilhete de Davi.
O bilhete trazia um desenho simples da janela da cozinha da tia, aquele ponto da casa onde a luz da manhã caía direto sobre o fogão. Davi escrevia que Marta escondera a segunda cópia dos documentos dentro da moldura azul pendurada na parede da sala de jantar do lago. O recado também pedia que Heitor retirasse a chave antes do retorno da família à ilha. Clara contou que viu a moldura no dia em que foi levada, porém não teve chance de tocar o quadro. Tereza fechou os olhos por um segundo e disse que a moldura nunca saía do lugar sem poeira na borda, o que facilitava achar o encaixe falso. Miguel pegou a informação de imediato, pois a solução final já tinha endereço conhecido.
Quando a noite caiu, o grupo voltou para a estrada com o delegado em outra viatura e Clara no banco do meio, abraçada ao bilhete de Davi e à fita amarela. Isadora foi no carro de Tereza com Miguel ao lado. Os dois ficaram em silêncio por metade do caminho, olhando os postes curtos da rodovia e o reflexo do lago aparecendo entre as árvores. Depois, sem aviso, Miguel tocou de leve a mão de Isadora sobre o banco e manteve os dedos ali até a caminhonete entrar na curva da casa da tia. Não houve frase longa, só a certeza quieta de que a parte mais pesada da história ainda exigiria voltar à casa de vidro uma última vez. Clara estava de volta. O resto do segredo continuava em pé.