O Verniz Levantado
Nina ficou com a prancheta vazia na mão enquanto a galeria fingia que nada havia acontecido. A luz voltara inteira, as taças continuavam subindo em bandejas e Bárbara Avelar sorria para uma fotógrafa perto da parede vermelha. Teo pegou a foto antiga de volta e guardou no paletó sem pressa, porém o rosto dele já tinha perdido a segurança da primeira hora. Nina olhou para o chão, para a bancada lateral e para a bolsa aberta de uma assistente que passara perto durante o apagão. O laudo tinha sido levado em poucos segundos, num ponto cego escolhido por alguém que conhecia o salão. A Mulher de Luvas Verdes seguia exposta, com a placa nova e o número de lote trocado.
Bárbara veio até os dois com uma calma ensaiada e pediu que Nina não tratasse um extravio de papel como crime. Disse que a galeria tinha cópias de todos os registros técnicos e que qualquer observação seria recomposta depois da festa. Nina respondeu que o laudo preliminar continha uma suspeita de falsificação e que a obra deveria ser lacrada antes da venda. A diretora segurou o sorriso por mais um segundo, virou o rosto para Teo e perguntou se ele pretendia permitir uma cena diante dos compradores. Teo não respondeu de imediato. Ele olhou para o quadro, depois para Nina, e pediu que as câmeras internas fossem separadas antes que qualquer gravação fosse apagada.
A sala de segurança ficava no subsolo, atrás de uma porta cinza sem identificação. O funcionário responsável parecia nervoso demais para uma pane de luz comum. Teo digitou a senha, mandou abrir o registro do salão principal e chamou Nina para perto da tela. As imagens mostravam convidados parados no escuro, telefones acesos, garçons imóveis e a sombra de alguém entrando pelo corredor de serviço. A pessoa usava casaco preto, cabelo preso e maleta de restauro na mão. Nina reconheceu a própria silhueta antes de entender o resto. O vídeo colocava ela ao lado da prancheta no instante em que o laudo desaparecia. O problema era que, naquele segundo, Nina estava perto da parede lateral, vendo o quadro voltar ao salão.
O funcionário da segurança jurou que o arquivo vinha direto do sistema. Nina pediu o backup bruto, sem edição, e recebeu uma negativa seca. Bárbara apareceu na porta antes que Teo insistisse. Disse que a galeria já tinha o suficiente para encerrar a noite sem escândalo, e que a equipe jurídica avaliaria o dano causado por um procedimento técnico não autorizado. A frase atingiu Nina no lugar exato. Ela fechou a maleta devagar, pegou o celular e fotografou a tela antes que o funcionário conseguisse desligar o monitor. Teo viu o gesto e não a impediu. Quando Bárbara mandou a sala ser esvaziada, ele ficou para trás, bloqueando a porta por alguns segundos úteis.
Nina voltou à sala de restauro com a foto da tela salva no celular e uma raiva silenciosa que deixava as mãos mais firmes. Sobre a bancada ainda havia resíduos mínimos do verniz removido da luva. Ela guardou o material em um tubo pequeno, lacrou com etiqueta própria e escreveu a data de novo, desta vez em três lugares diferentes. Teo entrou logo depois, fechou a porta e colocou sobre a mesa um catálogo de quinze anos atrás, com a mesma obra reproduzida em página dupla. Na foto antiga, o fundo da pintura era escuro, quase marrom. Na obra exposta, o fundo tinha um azul frio, visível mesmo sob a iluminação do salão. A troca não estava só na assinatura. A pintura inteira tinha sido refeita.
Teo contou que o pai desconfiava da galeria antes de morrer, e que Bárbara assumira o acervo com pressa depois do inventário. Nina ouviu sem soltar o tubo de amostra. Ela não confiava nele, ainda que o catálogo em cima da mesa ajudasse a provar a fraude. Ele pareceu entender a resistência e não pediu confiança. Pediu apenas que ela aceitasse levar a amostra para um laboratório independente antes que a galeria a acusasse formalmente. Nina guardou o tubo no bolso interno do casaco e pediu a foto antiga. Teo arrancou a página do catálogo com uma decisão brusca, dobrou o papel em quatro e entregou a ela. O gesto dizia muito sobre o lugar dele na própria família.
Quando Nina saiu pela porta lateral, a primeira notificação já brilhava no celular. A Galeria Avelar informava aos convidados que a obra principal havia sofrido interferência técnica indevida durante a preparação da mostra, e que uma restauradora terceirizada seria investigada. O nome dela não aparecia, ainda. A foto sim. Uma imagem cortada do circuito interno mostrava a mulher de casaco preto perto da prancheta vazia. Nina parou no meio da calçada, abriu a foto antiga entregue por Teo e viu, no canto inferior da reprodução, uma etiqueta de transporte com o mesmo número do lote novo. A peça falsa não tinha entrado na galeria naquela noite. Ela já estava ali havia anos.