O Laudo Roubado
Nina passou a madrugada no ateliê, sentada diante da bancada de madeira onde costumava limpar molduras antigas e recuperar papel atacado por umidade. A notificação da Galeria Avelar tinha sido republicada por três perfis de arte, dois colecionadores conhecidos e uma coluna de negócios que adorava transformar suspeita em sentença. O nome dela já circulava nos comentários, junto da imagem cortada do circuito interno. Nina colocou o celular virado para baixo, abriu o tubo de amostra retirado da luva verde e fotografou o lacre por todos os ângulos. O laudo da galeria tinha sumido, porém a tinta ainda estava com ela.
Às sete da manhã, Teo apareceu na porta do prédio com café, uma pasta cinza e o rosto de quem também não dormira. Nina desceu sem convidá-lo a subir. Ele entregou a pasta e explicou que conseguira uma cópia parcial do registro de segurança, retirada antes de Bárbara bloquear o sistema. A imagem mostrava a mesma mulher de casaco preto perto da prancheta, só que havia uma falha de dois segundos entre a entrada dela no salão e o ponto em que a mão se aproximava do papel. Nina examinou a sequência no tablet dele e apontou a diferença no reflexo da vitrine. A sombra do brinco não batia. Alguém tinha sobreposto a imagem dela sobre outro corpo.
Teo pediu que ela levasse a amostra para um laboratório fora do circuito da galeria. Indicou o nome de Lúcio Ferraz, químico aposentado do museu estadual, conhecido por trabalhar sem assessor e por devolver ligação apenas para quem chegava com material sério. Nina desconfiou do favor, porém aceitou o endereço. Antes de entrar no carro, fez Teo assinar no verso da foto antiga de Olívia Vale a hora exata em que entregara aquela cópia. Ele assinou sem reclamar. A letra dele era limpa, quase escolar, destoando da pressa com que fechava a pasta e conferia a rua. Teo parecia vigiar o próprio sobrenome.
O laboratório de Lúcio ficava nos fundos de uma casa baixa, atrás de uma loja de molduras perto do mercado municipal. O velho químico recebeu Nina com luvas já calçadas e uma lupa pendurada no pescoço. Não perguntou sobre reputação, acusação ou galeria. Pediu apenas a amostra, a foto antiga e o local exato de retirada. Em vinte minutos, colocou o pigmento sob análise e confirmou uma coisa simples. A tinta azul encontrada sob a luva tinha composição usada depois de dois mil e oito. A obra atribuída ao catálogo original era de mil novecentos e noventa e quatro. A data destruía a versão oficial.
Lúcio preparou um parecer curto em papel timbrado, com fotografia da amostra, número do tubo e assinatura manual. Nina guardou a cópia dentro da maleta e pediu uma segunda via digital. O químico negou. Disse que rede aberta entregava prova mais depressa que porta destrancada. Enquanto ele falava, um ruído seco veio da frente da loja. A funcionária da molduraria chamou Lúcio pelo nome e avisou que um homem procurava serviço urgente para uma moldura dourada. Nina viu pela câmera interna a manga azul do visitante e a aliança grossa no dedo. Era o mesmo segurança que retirara a pintura da sala de restauro na noite anterior.
Lúcio apagou a luz da bancada e mandou Nina sair pelo corredor dos fundos. Ela pegou a maleta, a amostra e a folha assinada, mas deixou a cópia fotográfica sobre a mesa por um segundo inteiro. Quando voltou para buscá-la, a porta da frente já tinha sido forçada. O segurança entrou com outro homem, ambos sem uniforme, e foi direto à bancada. Nina se escondeu atrás de um armário de solventes, segurando a respiração enquanto via a mão dele recolher o parecer de Lúcio. O original foi dobrado, colocado dentro do paletó e levado em silêncio. A prova tinha sido roubada duas vezes em menos de um dia.
Nina saiu pelo portão dos fundos com Lúcio logo atrás e encontrou Teo esperando na esquina, dentro de um carro preto que não era da galeria. Ele viu o rosto dela e abriu a porta sem perguntar. Nina entrou, colocou a maleta no colo e mostrou apenas o tubo de amostra salvo no bolso interno. O parecer tinha sido levado, mas o pigmento continuava ali, lacrado e fotografado. Teo acelerou antes que os homens saíssem da molduraria. Quando o carro dobrou a rua, Nina recebeu uma mensagem de número desconhecido. A foto mostrava o laudo de Lúcio em cima da mesa de Bárbara Avelar, ao lado de um convite para o leilão fechado da semana seguinte.