A Noite do Acervo A Arte Contra-ataca! · Capítulo 10 de 16
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A Noite do Acervo

A Sala 9 ficava no subsolo de um prédio de armazenamento privado, longe da galeria e registrada sob a Bruma Serviços de Arte. Teo usou o crachá de Henrique na entrada de serviço e segurou a respiração até a luz verde acender. Nina entrou atrás dele com a maleta no ombro, a lista de Olívia dentro do casaco e o celular gravando desde a recepção. O corredor tinha piso de borracha, portas numeradas e câmeras antigas que giravam com atraso. A porta nove abriu com um estalo seco, revelando um acervo que ninguém anunciava em vernissage. Havia telas sem moldura, molduras sem tela, caixas de catálogo e placas de proveniência empilhadas em bandejas.

Nina começou pelas placas. Em quinze minutos encontrou quatro nomes trocados, duas datas raspadas e um conjunto de etiquetas idênticas às usadas em A Mulher de Luvas Verdes. Teo abriu uma caixa marcada com o ano da morte de Henrique e encontrou cadernos de transporte assinados por Rui Fontana. Cada folha tinha uma sigla no canto superior, AV, seguida por número de lote e destino privado. Nina cruzou a sigla com a lista de Elisa. As onze obras apareciam ali, uma por uma, saindo da galeria em datas de restauro e voltando com autor diferente. A fraude tinha rotina, veículo e mão conhecida.

No fundo da sala, sob uma capa cinza, havia uma tela menor virada de costas. Nina puxou a capa e reconheceu a mulher da taça antes de ver o rosto inteiro. Era a versão original, sem vidro, sem moldura e com a assinatura de Olívia Vale preservada no canto inferior. A luva tinha o verde antigo, gasto no ponto certo, e o fundo mantinha o marrom visto no catálogo azul. Teo ficou parado ao lado dela, sem tocar na obra. Nina fotografou o verso primeiro. Ali havia um recibo colado parcialmente, com o nome de Henrique Avelar e a assinatura de Olívia em tinta preta. A galeria tinha guardado a prova por orgulho ou descuido.

Enquanto Nina lacrava o registro, o elevador do corredor abriu. Teo apagou a luz da sala e puxou a porta quase até o fim, deixando uma fresta suficiente para ver dois seguranças entrarem com Bárbara. A diretora caminhava depressa, usando luvas claras e segurando a pasta preta vista nas fotos de Malu. Ela mandou retirar a tela original antes da vistoria de seguradora e falou o nome de Rui com irritação. Um dos homens perguntou se Teo ainda tinha acesso ao prédio. Bárbara respondeu que, depois daquela noite, o sobrinho perderia acesso ao acervo, ao conselho e ao próprio sobrenome se insistisse em brincar de herdeiro moral.

Nina gravou cada palavra com o celular escondido entre duas caixas. Teo ouviu sem se mexer, os dedos presos à borda da porta. Quando os passos chegaram perto demais, ele abriu uma caixa vazia e empurrou Nina para trás dela. Bárbara entrou na Sala 9, acendeu a luz e parou diante da capa cinza já removida. A tela original estava exposta. Por um segundo, ninguém falou. Depois a diretora virou o rosto para o corredor e chamou os seguranças. Nina segurou a maleta, Teo pegou o recibo do verso da obra e os dois entenderam ao mesmo tempo que não sairiam pela porta principal.

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