A Pintora Sem Nome A Arte Contra-ataca! · Capítulo 9 de 16
Obra Menu

A Pintora Sem Nome

Depois do leilão interrompido, Nina e Teo deixaram a galeria por portas diferentes e se encontraram no estacionamento de um supermercado fechado. Malu chegou logo depois, trazendo a câmera escondida dentro de uma bolsa térmica e o rosto branco de quem acabara de desafiar o próprio salário. As imagens da sala reservada estavam salvas em dois cartões. Um ficou com Teo, outro com Nina. No visor pequeno da câmera, a etiqueta da moldura vazia aparecia sobre a mesa de lances ao lado do catálogo de venda. O nome de Olívia Vale surgia limpo na foto, sem recorte, sem placa nova, sem a mão da galeria apagando a origem.

Malu também trouxe um endereço antigo encontrado nos arquivos de imprensa da galeria. Olívia morara num sobrado na Vila Mariana antes de desaparecer dos eventos. Nina insistiu em ir naquela noite, apesar do horário. Teo dirigiu, Malu ficou no banco de trás e ninguém falou durante boa parte do caminho. O sobrado tinha grade baixa, campainha quebrada e uma pequena placa de cerâmica com o nome Vale pintado à mão. Quem abriu a porta foi uma mulher de cabelo grisalho, olhar duro e avental manchado de tinta. Chamava-se Elisa Vale, irmã de Olívia, e reconheceu a foto da pintura antes de Nina terminar a primeira pergunta.

Elisa levou os três para uma sala cheia de telas viradas para a parede e caixas de fotografias guardadas sob a mesa. Disse que Olívia vendeu A Mulher de Luvas Verdes à Galeria Avelar com uma condição escrita. O nome dela deveria permanecer no catálogo, e parte da venda seria destinada a uma escola de arte do bairro. O contrato sumiu depois de uma briga com Bárbara. Olívia tentou buscar a pintura de volta, perdeu acesso ao prédio e passou a receber avisos para parar de procurar comprador. Duas semanas depois, saiu de casa para uma reunião com Henrique Avelar e voltou sem falar. No mês seguinte, seu nome desapareceu dos convites.

Nina pediu documentos. Elisa não respondeu de imediato. Foi até o armário, tirou uma caixa de sapatos e abriu sobre a mesa. Dentro havia cartas de Olívia, fotos do quadro ainda sem verniz, cópias de catálogo e uma folha escrita com tinta azul. A folha listava onze obras vendidas pela Galeria Avelar sob autoria trocada. A Mulher de Luvas Verdes era apenas a primeira. A última linha trazia um título estranho, escrito com força. A Arte Contra-ataca. Elisa explicou que Olívia chamava assim a pasta onde juntava provas, pois dizia que obra boa guarda a mão de quem tentou roubá-la.

Quando Nina fotografou a lista, Elisa segurou seu pulso por um instante. Pediu que não transformassem a irmã em notícia de uma noite. Queria nome, contrato e devolução das obras. Teo, pela primeira vez desde o leilão, pareceu sem resposta pronta. Tirou do bolso o crachá antigo de Henrique e colocou sobre a mesa. Disse que o pai havia guardado parte do acervo num depósito chamado Sala 9 e que talvez o contrato de Olívia estivesse lá. Elisa pegou o crachá, olhou para o sobrenome Avelar e devolveu sem suavidade. Disse que sobrenome só serve quando alguém tem coragem de usá-lo contra a própria casa.

1/1
Menu

Fazer anotação