A Moldura Vazia A Arte Contra-ataca! · Capítulo 7 de 16
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A Moldura Vazia

O ateliê de Rui Fontana ficava atrás de um armazém de peças náuticas, numa rua onde caminhões antigos dormiam encostados na calçada quebrada. A porta de aço estava fechada por fora, mas Teo conhecia a fechadura e trouxe uma chave retirada do arquivo de fornecedores da galeria. Nina não gostou da facilidade. Ainda assim entrou primeiro, com luvas, lanterna e celular gravando vídeo desde a calçada. O espaço tinha cheiro de verniz velho, madeira cortada e pano úmido. Havia molduras empilhadas contra a parede, telas cobertas por plástico leitoso e uma mesa central marcada por manchas de tinta azul.

Nina encontrou a moldura vazia no fundo do ateliê, coberta por jornal antigo e presa por dois elásticos ressecados. A lasca dourada no canto superior batia com a foto do catálogo azul. No verso, a etiqueta original trazia o título da obra, o nome de Olívia Vale e a data de entrada na Galeria Avelar. Teo passou a mão pelo cabelo e ficou parado perto da porta, olhando a peça sem tocar. Era a primeira prova física de que a pintura exposta na vernissage tinha perdido a moldura original antes da troca de placa. Nina fotografou cada canto, mediu a etiqueta e retirou uma partícula de cola seca para comparar com a placa nova.

Dentro de uma gaveta metálica, Teo achou recibos de pagamentos em dinheiro, todos assinados por uma empresa chamada Bruma Serviços de Arte. O nome parecia inofensivo, quase burocrático, até Nina encontrar a mesma empresa no verso de uma nota fiscal presa ao cavalete. A nota descrevia limpeza, reenquadramento e correção cromática da obra de Olívia Vale, três anos antes da exposição atual. Não havia menção a falsificação. Havia instruções suficientes para refazer o quadro sob outra assinatura. O ateliê de Rui guardava o manual do crime em recibo simples.

Um som veio da entrada dos fundos. Teo apagou a lanterna e puxou Nina para o vão entre duas estantes. O movimento foi rápido, e o corpo dele ficou perto demais no escuro apertado. Nina segurou a respiração por prudência, não por delicadeza. Dois homens entraram carregando caixas plásticas e falando sobre limpar o lugar antes da vistoria da seguradora. Um deles citou o nome de Bárbara. O outro perguntou se a moldura antiga já tinha sido retirada. Teo fechou os dedos em torno do próprio celular, mantendo a câmera ligada no bolso do casaco. Nina sentiu o aparelho vibrar contra a lateral dele e percebeu que ele também gravava.

Os homens saíram levando duas caixas, porém deixaram aberta a porta dos fundos. Nina e Teo esperaram até o motor do carro desaparecer na rua. Só então ela voltou à moldura, retirou a etiqueta original com espátula e guardou dentro de um envelope. Teo pegou um recibo de Bruma Serviços de Arte e encontrou, no rodapé, um endereço de armazenamento privado chamado Sala 9. O mesmo número aparecia no verso da foto enviada a Nina após o roubo do laudo. Antes que pudessem sair, o alarme do armazém disparou. Do lado de fora, uma sirene baixa começou a chamar a rua inteira.

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