O Curador Avelar
Teo dirigiu sem falar até o estacionamento de um prédio vazio perto da avenida. Nina ficou com o cartão de memória fechado na mão, sentindo a textura do plástico contra a palma. A reunião de Bárbara aconteceria em menos de uma hora, e a galeria já preparava a versão oficial para investidores. Teo estacionou no último andar, desligou o motor e entregou a Nina um crachá antigo do pai. Disse que o cartão de Malu talvez abrisse a área restrita do acervo, pois Henrique nunca cancelara as próprias permissões. A informação era útil. O modo como ele a guardara por anos era outro problema.
Nina perguntou por que Teo não procurara polícia, museu ou imprensa quando encontrou o primeiro sinal de fraude. Ele segurou o volante com as duas mãos antes de responder. Henrique morrera cercado de documentos que desapareceram antes do inventário, e Teo recebeu uma carta da própria galeria avisando que qualquer denúncia sem prova seria tratada como tentativa de tomar controle familiar. Aos vinte e nove anos, com o sobrenome Avelar e nenhum documento no bolso, ele escolheu ficar dentro do prédio e esperar uma falha. Nina ouviu tudo sem conceder absolvição. O medo dele era compreensível. O silêncio custara caro.
O cartão de memória mostrou cinquenta e duas fotos feitas por Malu no depósito antigo. Nelas, A Mulher de Luvas Verdes aparecia sem moldura, apoiada em cavaletes, ao lado de Rui Fontana e de um caminhão branco sem logotipo. Em três imagens, Bárbara aparecia no canto, segurando uma pasta preta. Na última, Teo jovem surgia ao fundo, de camisa clara, olhando para outra parede. Nina virou o notebook para ele e esperou. Teo reconheceu a data. Naquele dia, Bárbara o mandara acompanhar uma entrega de escultura no andar de cima, longe do depósito. Ele estava na foto porque tinha voltado antes da ordem.
O rosto dele mudou pouco, apenas o bastante para Nina entender que a lembrança voltou inteira. Teo contou que viu Rui sair com uma moldura vazia e ouviu o pai gritar no escritório naquela mesma tarde. À noite, Henrique pediu que o filho nunca assinasse catálogo sem verificar a sala de restauro. Teo achou a frase exagerada na época. Agora, diante das fotos de Malu, cada detalhe ganhava endereço. Nina fechou o notebook e disse que precisavam encontrar Rui Fontana antes que Bárbara o escondesse de novo. Teo informou que o restaurador mantinha um ateliê fechado no bairro portuário, registrado em nome de uma empresa de armazenamento.
Antes de saírem, Nina recebeu nova mensagem anônima. Desta vez havia apenas uma foto de Lúcio entrando num táxi e uma frase curta mandando que ela devolvesse a amostra. Teo tentou pegar o celular, e Nina retirou a mão na mesma hora. Ele pediu desculpa sem teatro. Disse que estava acostumado a resolver coisas comprando silêncio, acesso ou tempo, e que aquilo já não funcionava com ela. A frase ficou entre os dois de maneira prática, sem promessa. Nina guardou o celular, abriu a porta do carro e disse que começaria a confiar nele quando as escolhas dele deixassem prova sobre a mesa.