A Arte Contra-ataca!
A exposição na antiga escola abriu sem tapete vermelho, sem champanhe e sem segurança na porta. Havia café em garrafa térmica, cadeiras emprestadas, alunos do bairro e jornalistas que chegaram cedo demais para fingir desinteresse. A Mulher de Luvas Verdes ocupava a parede do fundo, restaurada apenas no necessário, com a assinatura de Olívia Vale limpa no canto inferior. Ao lado, a vitrine mostrava a fita de vídeo, o catálogo azul, a etiqueta da moldura antiga e a primeira página da pasta A Arte Contra-ataca. Nina ficou perto da entrada, observando as pessoas lerem cada documento antes de olhar para o quadro. Pela primeira vez, a obra não precisava seduzir comprador. Bastava dizer de quem era.
Elisa falou pouco na abertura. Agradeceu à irmã, à escola e a quem ajudou a tirar a pintura do depósito. Depois pediu que ninguém chamasse Olívia de artista esquecida, porque esquecimento involuntário não assina recibo, não troca placa e não rouba contrato. A frase saiu seca e ficou no salão por alguns segundos. Sérgio anotou sem pedir repetição. Teo ouviu ao lado da porta, com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. Nina percebeu que ele aceitava a cobrança sem tentar escapar dela. Aquilo valia mais que outra defesa bonita.
O processo contra Bárbara seguiria por meses. Rui Fontana aceitara prestar depoimento em troca de proteção, Otávio Lemos tentava salvar o próprio nome e o conselho da galeria contratara uma auditoria externa para revisar vinte anos de acervo. Nada disso cabia inteiro naquela sala. O que cabia estava pendurado na parede, escrito em fichas simples, diante de gente que podia ler sem pedir licença. Nina recebeu duas propostas de trabalho naquela manhã e recusou responder na hora. Queria terminar a exposição de pé, sem transformar a vitória em agenda.
Teo encontrou Nina no pátio depois da fala de Elisa. Trouxe dois copos de café e entregou um a ela sem comentário. Durante alguns minutos, ficaram olhando crianças desenharem a luva verde em folhas brancas. Ele disse que havia vendido o carro preto e comprado uma mesa de arquivo para a escola. Nina riu baixo, o primeiro riso solto em muitos dias, e disse que aquilo talvez fosse a coisa menos Avelar que ele poderia fazer. Teo aceitou a provocação com um sorriso curto. Depois perguntou se podia continuar aparecendo no ateliê, agora sem crachá, sem pasta escondida e sem urgência batendo na porta.
Nina bebeu o café antes de responder. Olhou para a sala onde Olívia voltava ao próprio nome, para Elisa conversando com Lúcio, para Malu fotografando a vitrine e para o catálogo novo aberto sobre a mesa. Disse que ele podia aparecer, desde que não tocasse em nada sem luva e aprendesse a esperar laudo antes de opinar. Teo assentiu com seriedade exagerada. A resposta dela vinha com regra, convite e limite, exatamente nessa ordem. Quando voltaram para dentro, a luz da tarde alcançou a pintura e fez a luva verde parecer acesa. A arte tinha feito o trabalho dela. Contra-atacou com prova, nome e parede cheia.