A Sala de Restauro
Teo levou Nina para uma entrada de serviço atrás de um prédio antigo, três ruas depois da molduraria de Lúcio. O lugar funcionava como depósito particular da Galeria Avelar, embora a placa na porta dissesse apenas Conservação Técnica. Nina reconheceu o endereço porque já tinha feito orçamento ali dois anos antes e nunca recebeu resposta. O porteiro deixou Teo passar sem pedir documento, o que confirmou uma coisa simples. O prédio pertencia à família. No terceiro andar, uma sala comprida guardava bancadas, cavaletes, lâmpadas frias, rolos de espuma, caixas de luvas e uma pia manchada por solvente velho. Nina parou na porta antes de entrar. A sala estava montada para restaurar obra cara longe do salão principal e longe de qualquer visita de comprador.
Teo abriu um armário com chave própria e retirou uma caixa de arquivo com etiquetas antigas. Disse que o pai mantinha ali os catálogos recusados pela direção e as fotos de obras vendidas em leilões menores, peças que nunca apareciam nos livros de mesa da galeria. Nina colocou a maleta sobre a bancada, tirou o tubo de pigmento do bolso e conferiu o lacre outra vez. Em seguida pediu luvas, saco de prova e uma câmera sem conexão com a rede interna. Teo obedeceu sem tentar conduzir a análise. Esse silêncio ajudava, embora não apagasse o fato de ele conhecer fechaduras demais dentro de um esquema que jurava combater.
Nina examinou a página arrancada do catálogo, a foto antiga de Olívia Vale e a imagem do lote novo. A primeira diferença estava no fundo da pintura. A segunda, no contorno da taça. A terceira apareceu quando ela aumentou a reprodução sob a lente da bancada e encontrou uma marca circular na madeira da moldura original. Era o sinal de um prego antigo usado para prender certificado de transporte. Na obra exibida na vernissage, a moldura dourada trazia o mesmo desenho, só que sem a marca circular. A peça atual fora montada para parecer antiga, com douração envelhecida à força e etiquetas coladas na ordem errada.
Teo abriu a caixa do pai e encontrou uma pasta com o nome Olívia Vale escrito à mão. Dentro havia três fotografias de ateliê, uma carta sem envelope e uma nota de compra assinada por Ernesto Avelar, avô dele. Nina leu a carta de pé, apoiando os punhos na mesa para manter a folha reta. Olívia pedia que a galeria retirasse uma pintura da venda porque a obra tinha sido alterada sem autorização. Citava uma mulher de luvas verdes e uma camada azul escondida sob o verniz. A carta era antiga demais para ter sido inventada depois da crise. Teo ficou parado atrás dela, perto o bastante para ver a assinatura, distante o bastante para não tocar no papel.
O telefone de Nina vibrou com uma nova mensagem. A Galeria Avelar convocava a imprensa para uma declaração oficial ao meio-dia e prometia apresentar provas de dano causado por procedimento externo. O texto vinha acompanhado de uma imagem ampliada dela na sala de restauro da vernissage, com a mão sobre o canto da pintura. Nina fechou a mensagem e pediu a Teo acesso ao arquivo de entrada daquele prédio. Ele hesitou pela primeira vez. Disse que o sistema registrava quem entrou na sala nos últimos cinco anos e que Bárbara controlava as exclusões. Nina entendeu o receio dele antes que ele explicasse. Se o prédio guardava restauração clandestina, o nome Avelar apareceria em todas as portas.
Teo acessou o computador antigo da bancada, digitou duas senhas e puxou uma lista de entradas por data. O nome de Bárbara aparecia dezenas de vezes. O de Ernesto Avelar surgia nos arquivos anteriores à morte dele. Entre os dois, havia uma sequência repetida de visitas noturnas feitas por uma restauradora chamada Célia Ramos. Nina conhecia o nome de seminários e notas técnicas, uma profissional respeitada que tinha sumido do mercado depois de um acidente de carro. Quando abriu o último registro associado a Célia, a tela exibiu uma fotografia de inventário. A Mulher de Luvas Verdes aparecia sobre aquela mesma bancada, sem moldura, com a assinatura de Olívia Vale inteira no canto inferior.
Antes que Nina conseguisse fotografar a tela, o computador apagou. A sala perdeu energia em seguida, primeiro nas lâmpadas, depois no exaustor. Teo pegou o celular e iluminou a bancada. Do corredor veio o som da porta de emergência abrindo. Nina guardou a pasta de Olívia dentro da maleta, prendeu o tubo de pigmento no bolso interno e puxou a página do registro de entrada ainda presa na impressora. Teo ficou entre ela e a porta, segurando a lanterna do celular na altura do peito. Quando o trinco girou, Nina viu pela fresta uma luva verde presa à maçaneta do lado de fora, recém-pintada, pingando tinta sobre o piso claro.