A Entrega
A antiga escola de arte ficava numa rua estreita, com portão verde descascado e janelas altas fechadas por venezianas. Elisa Vale esperava na calçada, usando o mesmo avental manchado da noite anterior e segurando uma chave presa a uma fita vermelha. Disse que Olívia dava aulas ali aos sábados, antes da briga com a galeria. A associação mantinha o prédio vazio por respeito, e ninguém entrava desde a última tentativa de venda do imóvel. Nina abriu a porta com cuidado, sentindo o cheiro de tinta seca, armário antigo e piso encerado. Nas paredes, desenhos de alunos ainda guardavam nomes escritos com lápis.
No armário da sala três, Elisa encontrou uma caixa de madeira com o nome de Olívia marcado no fundo. Dentro havia cópias de contratos, fotografias de obras vendidas pela Galeria Avelar e uma fita de vídeo pequena, dessas usadas em câmeras antigas. A pasta chamada A Arte Contra-ataca estava ali, amarrada por elástico azul. Nina abriu sobre uma mesa escolar e viu que Olívia havia preparado tudo para denúncia. Cada obra tinha foto original, data de entrega, preço combinado e o nome usado pela galeria depois da troca. Em duas folhas, a assinatura de Bárbara aparecia inteira.
Teo fotografou os documentos com a câmera analógica e, dessa vez, pediu permissão antes de se aproximar da mesa de Nina. Ela assentiu sem olhar para ele. O gesto pequeno bastou. Elisa observava os dois com dureza menor, talvez porque o sobrenome Avelar finalmente estivesse servindo para abrir armário, e não para fechar porta. Quando a fita de vídeo foi colocada num aparelho antigo da escola, a tela mostrou Olívia em pé diante da obra original, falando o próprio nome, a data da entrega e a condição da venda. No fim, ela dizia que, se a galeria tentasse apagar sua assinatura, a cópia daquela gravação deveria ir para jornal, museu e polícia.
Malu chegou com um jornalista cultural de confiança, Sérgio Meira, homem de fala baixa que já investigara venda irregular de acervo público. Nina não queria entregar tudo a um repórter antes de registrar prova formal. Sérgio concordou e levou os documentos apenas para inventário fotográfico, sem publicar até receber o protocolo policial. Lúcio, por telefone, confirmou que a amostra de pigmento já tinha resultado externo. Teo ligou para um advogado do conselho da galeria que devia favores a Henrique. Pediu uma reunião urgente e ouviu a resposta óbvia. Bárbara já preparava medida judicial contra ele e Nina.
Quando deixaram a escola, um carro da galeria esperava do outro lado da rua. Dois homens desceram, um deles com envelope de notificação. Teo saiu primeiro e recebeu o papel para impedir que chegassem a Nina. A acusação era clara. Furto de documento, invasão de armazenamento, dano à imagem da galeria e tentativa de extorsão. Nina tomou a notificação da mão dele e leu até o fim. No rodapé, o prazo de resposta terminava antes da exposição final marcada para o dia seguinte. Bárbara queria encerrar a história com ordem judicial e nota de imprensa. Nina fechou a pasta de Olívia e decidiu entregar a primeira cópia à delegacia econômica naquela mesma tarde.