Um Planeta Americanizado Os Últimos e os Primeiros Homens · Capítulo 4 de 16
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Um Planeta Americanizado

IV

Um Planeta Americanizado

I

A Fundação do Primeiro Estado Mundial

Chegamos agora àquele ponto da história dos Primeiros Homens em que, cerca de trezentos e oitenta anos terrestres depois da Guerra Europeia, a meta da unidade mundial foi afinal alcançada — não, porém, antes que a mente da espécie tivesse sido seriamente aleijada.

Não há necessidade de relatar em detalhe a transição das soberanias nacionais rivais para o controle unitário pela Diretoria Financeira Mundial. Basta dizer que, por ação concertada na América e na China, os governos militares se viram paralisados pela resistência passiva do grande capital cosmopolita. Na China, esse processo foi quase instantâneo e sem sangue; na América houve grave desordem por algumas semanas, enquanto o governo perplexo tentava reduzir seus rebeldes pela lei marcial. Mas a população estava então ávida pela paz; e, embora alguns magnatas dos negócios tenham sido fuzilados, e uma multidão de trabalhadores aqui e ali abatida a tiros, a oposição era irresistível. Muito cedo a camarilha governante ruiu.

A nova ordem consistia em um vasto sistema aparentado ao socialismo de guildas, mas individualista no fundo. Cada indústria era em teoria governada democraticamente por todos os seus membros, mas na prática era controlada por seus indivíduos dominantes. A coordenação de todas as indústrias era efetuada por um Conselho Industrial Mundial, no qual os líderes de cada indústria discutiam os assuntos do planeta como um todo. O estatuto de cada indústria no Conselho era determinado em parte por seu poder econômico no mundo, em parte pela estima pública. Pois as atividades dos homens já começavam a ser consideradas “nobres” ou “ignóbeis”; e as nobres não eram necessariamente as mais poderosas do ponto de vista econômico. Assim, no Conselho surgiu um círculo interno de “indústrias” nobres, que eram, em ordem aproximada de prestígio, as Finanças, a Aviação, a Engenharia, a Locomoção de Superfície, a Indústria Química e o Atletismo Profissional. Mas o verdadeiro centro do poder não era o Conselho, nem sequer o círculo interno do Conselho, e sim a Diretoria Financeira. Esta consistia em uma dúzia de milionários, com o Presidente americano e o Vice-Presidente chinês à frente.

Dentro desse augusto comitê, as dissensões internas eram inevitáveis. Pouco depois da inauguração do sistema, o Vice-Presidente tentou derrubar o Presidente publicando sua ligação com a mulher mestiça que agora se intitulava Filha da Humanidade. Esperava-se que esse escândalo enfurecesse o virtuoso público americano contra seu herói. Mas, por um golpe de gênio, o Presidente salvou a si mesmo e a unidade do mundo. Longe de negar a acusação, gloriou-se nela. Naquele momento de triunfo sexual, disse ele, uma grande verdade lhe fora revelada. Sem esse ousado sacrifício de sua pureza privada, jamais teria estado realmente apto a ser Presidente do Mundo; teria permanecido simplesmente americano. Nas veias daquela senhora corria o sangue de todos os povos, e em sua mente todas as culturas se misturavam. Sua união com ela, confirmada por muitas visitas posteriores, ensinara-o a penetrar o espírito do Oriente e dera-lhe uma ampla simpatia humana, como exigia seu alto cargo. Como indivíduo privado, insistia ele, continuava monogamista, com esposa em Nova York; e, como indivíduo privado, pecara, e devia sofrer para sempre as dores da consciência. Mas, como Presidente do Mundo, competia-lhe desposar o Mundo. E, como nada podia ser considerado real sem uma base física, essa união espiritual precisava ser encarnada e simbolizada por sua união física com a Filha da Humanidade. Em tons de grave emoção, descreveu pelo microfone como, na presença daquela mulher mística, triunfara subitamente sobre seus escrúpulos morais privados; e como, num súbito acesso da energia divina, consumara seu casamento com o Mundo à sombra de uma bananeira.

A forma admirável da Filha da Humanidade, decentemente vestida, foi transmitida por televisão a todos os receptores do mundo. Seu rosto, mescla de Ásia e Ocidente, tornou-se símbolo poderosíssimo da unidade humana. Todo homem do planeta tornou-se, em imaginação, seu amante. Toda mulher se identificou com essa mulher suprema.

Sem dúvida havia alguma verdade na alegação de que a Filha da Humanidade alargara a mente do Presidente, pois sua política fora inesperadamente hábil em relação ao Oriente. Muitas vezes ele moderou a exigência americana de americanização imediata da China. Muitas vezes persuadiu os chineses a acolher alguma política que, a princípio, haviam encarado com suspeita.

A explicação dada pelo Presidente para sua conduta aumentou seu prestígio tanto na América quanto na Ásia. A América foi hipnotizada pela religiosidade romântica da história. Muito cedo se tornou moda ser monogamista estrito, com uma esposa doméstica, e uma esposa “simbólica” no Oriente, ou em outra cidade, ou numa rua vizinha, ou com várias dessas em diversas localidades. Na China, a tolerância fria com que o Presidente fora tratado de início foi aquecida por esse incidente até algo semelhante à afeição. E foi em parte por seu tato, ou pela influência de sua esposa simbólica, que a aceleração da americanização da China se efetuou sem desordem.

Durante alguns meses depois da fundação do Estado Mundial, a China esteve inteiramente ocupada em lidar com a peste de insanidade, chamada “loucura americana”, com a qual seu antigo inimigo a envenenara. A região costeira do Norte da China fora completamente desorganizada. Indústria, agricultura, transporte, tudo estava paralisado. Enormes turbas, dementes e famintas, cambaleavam pelo país devorando toda espécie de matéria vegetal e brigando pela carne de seus próprios mortos. Demorou muito até que a doença fosse posta sob controle; e, de fato, durante anos depois, um surto ocasional ainda ocorreria, causando pânico por toda a terra.

A alguns chineses mais antiquados parecia que toda a população fora levemente afetada pelo germe; pois, por toda a China, uma nova seita, aparentemente um crescimento nativo espontâneo, chamando a si mesma Energista, começou a pregar uma nova interpretação do budismo em termos da santidade da ação. E, coisa estranha, esse evangelho prosperou a tal ponto que em poucos anos todo o sistema educacional foi capturado por seus adeptos, embora não sem luta contra os membros reacionários das universidades mais antigas. Curiosamente, porém, apesar dessa aceitação geral do Novo Caminho, apesar do fato de que os jovens da China eram agora ensinados a admirar o movimento em todas as suas formas, apesar de uma escala salarial muito aumentada, que punha todos os trabalhadores em posse de transporte mecânico privado, as massas da China continuaram no fundo a considerar a ação como mero meio para o repouso. E, quando por fim um físico nativo apontou que a expressão suprema da energia era o equilíbrio tenso de forças dentro do átomo, os chineses aplicaram a doutrina a si mesmos e afirmaram que neles a quietude era o equilíbrio perfeito de forças poderosas. Assim contribuiu o Oriente para a religião dessa era. O culto da atividade passou a incluir o culto da inatividade. E ambos foram fundados nos princípios da ciência natural.

II

O Domínio da Ciência

A ciência ocupava agora uma posição de honra única entre os Primeiros Homens. Isso não se devia tanto ao fato de que fora nesse campo que, muito antes, durante seu meio-dia, a espécie pensara com maior rigor, nem ao fato de que fora por meio da ciência que a humanidade havia adquirido alguma compreensão da natureza do mundo físico; devia-se antes ao fato de que a aplicação dos princípios científicos revolucionara suas circunstâncias materiais. As doutrinas outrora fluidas da ciência tinham agora começado a cristalizar-se em dogma fixo e intricado; mas a inteligência científica inventiva ainda se exercia brilhantemente no aperfeiçoamento da técnica industrial, e assim dominava por completo a imaginação de uma espécie na qual a pura curiosidade intelectual havia minguado. O cientista era considerado uma encarnação, não apenas do conhecimento, mas do poder; e nenhuma lenda sobre a potência da ciência parecia fantástica demais para ser acreditada.

Um século depois da fundação do primeiro Estado Mundial, começou a correr na China um rumor sobre o segredo supremo da religião científica, o terrível mistério de Gordelpus, por meio do qual seria possível utilizar a energia encerrada na oposição entre próton e elétron. Descoberto havia muito por um físico e santo chinês, esse conhecimento inestimável era agora reputado como preservado desde então entre a elite da ciência, pronto para publicação assim que o mundo parecesse apto a possuí-lo. A nova seita dos Energistas afirmava que o jovem Descobridor era ele próprio uma encarnação de Buda, e que, como o mundo ainda era inapto à revelação suprema, ele confiara seu segredo aos Cientistas. Do lado do cristianismo, uma lenda muito semelhante se ocupava do mesmo indivíduo. A Fraternidade Cristã Regenerada, então, de longe, a mais poderosa das Igrejas ocidentais, considerava o Descobridor como o Filho de Deus, que, nessa sua Segunda Vinda, propusera-se a instaurar o milênio publicando o segredo do poder divino; mas, encontrando os povos ainda incapazes de pôr em prática até o evangelho mais primitivo do amor, anunciado em sua Primeira Vinda, sofrera martírio pelo bem humano e confiara seu segredo aos Cientistas.

Os trabalhadores da ciência do mundo havia muito se haviam organizado como uma corporação fechada. A entrada no Colégio Internacional de Ciência só podia ser obtido por exame e pelo pagamento de altas taxas. A filiação conferia o título de “Cientista” e o direito de realizar experimentos. Era também qualificação essencial para muitos postos lucrativos. Além disso, dizia-se que havia certos segredos técnicos que os membros se comprometiam a não revelar. Corria o rumor de que, em pelo menos um caso de pequena indiscrição verbal, o traidor morrera misteriosamente pouco depois.

A própria ciência, o corpo efetivo do conhecimento natural, tornara-se então tão complexa que apenas uma fração minúscula dela podia ser dominada por um cérebro. Assim, estudantes de um ramo da ciência não sabiam praticamente nada do trabalho de outros em ramos aparentados. Isso se dava especialmente com a enorme ciência chamada Física Subatômica. Dentro dela estavam contidos uma dúzia de estudos, qualquer um dos quais era tão complexo quanto toda a física do Décimo Nono Século Cristão. Essa complexidade crescente tornara os estudantes de um campo cada vez mais relutantes em criticar, ou mesmo tentar entender, os princípios de outros campos. Cada pequeno departamento, ciumento de suas próprias reservas, era meticulosamente respeitoso das reservas dos outros. Num período anterior, as ciências haviam sido coordenadas e criticadas filosoficamente por seus próprios líderes e pelos filósofos técnicos. Mas a filosofia, como disciplina técnica rigorosa, já não existia. Havia, naturalmente, uma vaga moldura de ideias, ou pressupostos, baseada na ciência e comum a todos os homens, uma pseudociência popular construída pelos jornalistas a partir de frases notáveis em circulação entre cientistas. Mas os trabalhadores da ciência de fato se orgulhavam de rejeitar essa estrutura mal-ajambrada, mesmo enquanto, sem perceber, eles próprios a pressupunham. E cada qual insistia que sua própria especialidade deveria inevitavelmente permanecer ininteligível até para a maioria de seus colegas cientistas.

Nessas circunstâncias, quando o rumor declarou que o mistério de Gordelpus era conhecido pelos físicos, cada departamento da física subatômica relutou em negar explicitamente a acusação em seu próprio caso, e ao mesmo tempo estava pronto a acreditar que algum outro departamento realmente possuía o segredo. Consequentemente, a conduta dos cientistas como corpo fortaleceu a crença geral de que eles sabiam e não queriam contar.

Cerca de dois séculos depois da formação do primeiro Estado Mundial, o Presidente do Mundo declarou que o tempo estava maduro para uma união formal entre ciência e religião, e convocou uma conferência dos líderes dessas duas grandes disciplinas. Naquela ilha do Pacífico que se tornara a Meca do sentimento cosmopolita, e era então um vasto Templo da Paz de muitos andares e topo nas nuvens, os chefes do budismo, do islamismo, do hinduísmo, da Fraternidade Cristã Regenerada e da Igreja Católica Moderna na América do Sul concordaram que suas diferenças eram apenas diferenças de expressão. Todos, sem exceção, eram adoradores da Energia Divina, quer expressa em atividade, quer em tensa imobilidade. Todos reconheciam o santo Descobridor como o último e maior dos profetas ou como uma encarnação efetiva do Movimento divino. E esses dois conceitos eram facilmente mostrados, à luz da ciência moderna, como idênticos.

Numa era anterior, fora costume selecionar a heresia e extirpá-la com fogo e espada. Mas agora o anseio de uniformidade era satisfeito explicando as diferenças até que desaparecessem, sob aplauso universal.

Quando a Conferência registrou a unidade das religiões, passou a estabelecer a unidade entre religião e ciência. Todos sabiam, disse o Presidente, que alguns dos cientistas estavam em posse do segredo supremo, embora, sabiamente, não o admitissem de modo definido. Era hora, então, de que as organizações da Ciência e da Religião se fundissem, para melhor orientação dos homens. Ele, portanto, convocava o Colégio Internacional de Ciência a nomear, dentre seus membros, um corpo seleto, que seria santificado pela Igreja e chamado Sagrada Ordem dos Cientistas, a S.O.S. Esses guardiões do segredo supremo deveriam ser mantidos às custas públicas. Deveriam dedicar-se inteiramente ao serviço da ciência, e em particular à pesquisa da maneira mais científica de adorar o Divino Gordelpus.

Dos cientistas presentes, alguns poucos pareceram nitidamente desconfortáveis, mas a maioria mal disfarçou seu deleite sob uma hesitação digna e pensativa. Entre os sacerdotes também eram visíveis duas expressões; mas, no conjunto, sentiu-se que a Igreja só podia ganhar ao reunir em si o prestígio único da ciência. E assim foi fundada a Ordem destinada a tornar-se a força dominante nos assuntos humanos até a queda da primeira civilização mundial.

III

Realização Material

Salvo ocasionais pequenos conflitos locais, facilmente sufocados pela Polícia Mundial, a espécie formou então uma única unidade social por cerca de quatro mil anos. Durante o primeiro desses milênios, o progresso material ao menos foi rápido, mas depois houve pouca mudança até a desintegração final. Toda a energia humana se concentrou em manter em tom constante a rotina furiosa de sua civilização, até que, depois de mais três mil anos de gasto pródigo, certas fontes essenciais de poder se esgotaram subitamente. Em parte alguma havia agilidade mental para enfrentar essa nova crise. Toda a ordem social colapsou.

Podemos passar por alto as etapas iniciais dessa civilização fantástica e examiná-la como se apresentava antes que a mudança fatal começasse a ser sentida.

As circunstâncias materiais da espécie nessa época teriam assombrado todos os seus predecessores, até aqueles que eram, no sentido verdadeiro, seres muito mais civilizados. Mas para nós, os Últimos Homens, há profundo pathos e até comicidade, não apenas nessa confusão tão completa de desenvolvimento material com civilização, mas também na própria pobreza do tão alardeado desenvolvimento material, quando comparado ao de nossa própria sociedade.

Todos os continentes, de fato, estavam então minuciosamente artificializados. Com exceção das muitas reservas selvagens, estimadas como museus e campos de recreio, não restava uma milha quadrada de território em estado natural. Também já não havia distinção entre áreas agrícolas e industriais. Todos os continentes estavam urbanizados; não, naturalmente, à maneira das cidades industriais congestionadas de uma era anterior, mas ainda assim urbanizados. Indústria e agricultura se interpenetravam por toda parte. Isso foi possível em parte pelo grande desenvolvimento da comunicação aérea, em parte por uma melhoria não menos notável da arquitetura. Grandes avanços em materiais artificiais haviam permitido a construção de edifícios em forma de pilones esguios que, elevando-se muitas vezes a três milhas de altura, ou ainda mais, e assentados um quarto de milha abaixo do solo, podiam ainda ocupar uma planta de menos de meia milha de largura. Em seção, essas estruturas eram frequentemente cruciformes; e em cada piso, o centro da cruz de longos braços consistia em um plataforma aérea, oferecendo acesso direto do ar aos pequenos aeroplanos privados, que eram então essenciais à vida de todo adulto. Esses gigantescos pilares de arquitetura, proféticos das estruturas ainda mais poderosas de uma era futura, estavam espalhados por todos os continentes em densidade variável. Raramente lhes era permitido aproximar-se uns dos outros por uma distância menor que sua altura; por outro lado, salvo no Ártico, muito raramente estavam separados por mais de vinte milhas. A aparência geral de todo país era assim bastante semelhante a uma floresta aberta de troncos de árvores podados, gigantescos em estatura. Nuvens muitas vezes circundavam as alturas médias desses picos artificiais, ou apagavam tudo salvo os andares inferiores. Os moradores dos cumes estavam familiarizados com o espetáculo de um oceano deslumbrante de nuvens, pontilhado de todos os lados por ilhas íngremes de arquitetura. Tão grande era a altitude dos andares superiores que às vezes era necessário manter neles não apenas aquecimento artificial, mas pressão de ar e suprimento de oxigênio artificiais.

Entre essas colunas de habitação e indústria, a terra estava em toda parte verde ou marrom, segundo as variações sazonais da agricultura, dos parques e das reservas selvagens. Largas vias cinzentas para o tráfego pesado de carga enredavam todos os continentes; mas o transporte mais leve e os serviços de passageiros eram inteiramente aéreos. Sobre todos os distritos mais populosos, o ar estava sempre enxameado de aviões até a altura de cinco milhas, onde os gigantescos transatlânticos aéreos circulavam entre os continentes.

O empreendimento de um passado já distante havia trazido todas as terras para dentro da civilização. O Saara era um distrito de lagos, apinhado de estâncias de férias orgulhosas do sol. As ilhas árticas do Canadá, engenhosamente aquecidas por correntes tropicais dirigidas, eram lares de robustos nortistas. As costas da Antártida, descongeladas da mesma maneira, eram permanentemente habitadas por aqueles que se ocupavam de explorar a riqueza mineral do interior.

Muito do poder necessário para manter essa civilização em existência era extraído dos restos enterrados da vegetação pré-histórica, na forma de carvão. Embora, depois da fundação do Estado Mundial, o combustível da Antártida tivesse sido muito cuidadosamente administrado, a nova reserva de petróleo se esgotara em menos de três séculos, e os homens foram obrigados a mover seus aeroplanos por eletricidade gerada a partir do carvão. Logo se tornou evidente, contudo, que mesmo as inesperadamente ricas jazidas de carvão da Antártida não durariam para sempre. A cessação do petróleo ensinara aos homens uma lição muito necessária, fizera-os sentir a realidade do problema da energia. Ao mesmo tempo, o espírito cosmopolita, que aprendia a considerar toda a espécie como compatriota, começava também a assumir uma visão temporal mais ampla e a ver as coisas com os olhos de gerações remotas. Durante os primeiros e mais sãos mil anos do Estado Mundial, havia uma determinação generalizada de não incorrer na censura do futuro pelo desperdício de poder. Assim, não apenas houve economia séria, o primeiro empreendimento cosmopolita em larga escala, como também se fizeram esforços para utilizar fontes de poder mais permanentes. O vento foi usado extensamente. Em cada edifício, enxames de moinhos de vento geravam eletricidade, e cada cadeia de montanhas era decorada de modo semelhante, enquanto toda queda d’água considerável forçava sua passagem por turbinas. Ainda mais importante era a utilização do poder derivado de vulcões e de perfurações até o calor subterrâneo. Esperava-se que isso resolvesse todo o problema da energia, de uma vez por todas. Mas, mesmo no período mais antigo e mais inteligente do Estado Mundial, o gênio inventivo já não era o que fora, e nenhum método realmente satisfatório foi encontrado. Consequentemente, em nenhum estágio dessa civilização as fontes vulcânicas fizeram mais que suplementar as espantosamente ricas camadas de carvão da Antártida. Nessa região, o carvão se preservava a profundidade muito maior que em outras partes porque, por algum acidente, o calor central da Terra não era ali bastante feroz, como o era em outros lugares, para transformar os leitos mais profundos em grafite. Sabia-se que outra possível fonte de poder existia nas marés oceânicas; mas seu uso era proibido pela S.O.S. porque, como o movimento das marés era de origem tão obviamente astronômica, passara a ser considerado sagrado.

Talvez a maior realização física do Primeiro Estado Mundial, em sua fase mais antiga e mais vital, tenha sido a medicina preventiva. Embora as ciências biológicas houvessem, havia muito, se tornado estereotipadas em suas teorias fundamentais, continuavam a produzir muitos benefícios práticos. Já não precisavam homens e mulheres temer, por si mesmos ou por aqueles que lhes eram caros, aflições como câncer, tuberculose, angina pectoris, doenças reumáticas e os terríveis distúrbios do sistema nervoso. Já não havia súbitas devastações microbianas. Já não era o parto uma provação, nem a própria condição feminina uma fonte de sofrimento. Já não havia inválidos crônicos, nem aleijados por toda a vida. Só restava a senilidade; e mesmo esta podia ser repetidamente aliviada por rejuvenescimento fisiológico. A remoção de todas essas antigas fontes de fraqueza e miséria, que antes haviam mancado a raça e assombrado tantos indivíduos, seja com terrores definidos, seja com vaga e mal consciente prostração, produziu então uma flutuante confiança geral e um otimismo impossíveis aos povos anteriores.

IV

A Cultura do Primeiro Estado Mundial

Tal foi a realização física dessa civilização. Nada sequer pela metade tão artificial, intricado e próspero havia existido antes. Uma era anterior, de fato, havia colocado diante de si algum ideal semelhante; mas sua mania nacionalista a impediu de alcançar a unidade econômica necessária. Essa civilização tardia, porém, havia superado por completo o nacionalismo e passara muitos séculos de paz consolidando-se. Mas com que fim? Abolidos os terrores da indigência e da má saúde, o espírito do homem estava livre de uma carga mutiladora e poderia ter ousado grandes aventuras. Infelizmente, sua inteligência já havia então declinado seriamente. E assim essa era, muito mais que o famoso “século dezenove”, foi a grande era da complacência estéril.

Cada indivíduo era um animal humano bem alimentado e fisicamente saudável. Era também economicamente independente. Sua jornada de trabalho nunca passava de seis horas, muitas vezes apenas quatro. Desfrutava de uma parte razoável dos produtos da indústria; e, em suas longas férias, estava livre para vagar em seu próprio aeroplano por todo o planeta. Com boa fortuna, podia ver-se rico, mesmo para aqueles dias, aos quarenta; e, se a sorte não o favorecesse, ainda podia esperar a afluência antes dos oitenta, quando teria diante de si um século de vida ativa.

Mas, apesar dessa prosperidade material, era escravo. Seu trabalho e seu lazer consistiam em atividade febril, pontuada por momentos de ociosidade sem ânimo, que ele considerava ao mesmo tempo pecaminosa e desagradável. A menos que fosse membro da minoria furiosamente bem-sucedida, estava sujeito a ser assombrado por momentos de cisma, demasiado informes para serem chamados meditação, e de anseio, demasiado cego para ser chamado desejo. Pois ele e todos os seus contemporâneos eram governados por certas ideias que os impediam de viver uma vida plenamente humana.

Uma dessas ideias era o ideal de progresso. Para o indivíduo, a meta imposta por seu ensino religioso era o avanço contínuo em perícia aeronáutica, liberdade sexual legal e condição de milionário. Para a espécie também o ideal era o progresso, e progresso do mesmo tipo pouco inteligente. Aviação cada vez mais brilhante e extensa, relações sexuais legais cada vez mais amplas, fabricação e consumo cada vez mais gigantescos deveriam ser coordenados num sistema social cada vez mais intrincadamente organizado. Nos últimos três mil anos, de fato, o progresso mesmo desse tipo rude fora mínimo; mas isso era fonte de orgulho mais que de pesar. Implicava que a meta já estava quase alcançada, a perfeição que justificaria a liberação do segredo do poder divino e a inauguração de uma era de atividade incomparavelmente mais poderosa.

Pois a ideia onipresente que tiranizava a espécie era o culto fanático do movimento. Gordelpus, o Primeiro Motor, exigia de suas encarnações humanas atividade veloz e intrincada, e a perspectiva de vida eterna do indivíduo dependia do cumprimento dessa obrigação. Curiosamente, embora a ciência tivesse destruído havia muito a crença na imortalidade pessoal como atributo intrínseco do ser humano, cresceu uma crença complementar segundo a qual aqueles que se justificavam pela ação eram preservados eternamente, por milagre especial, no espírito veloz de Gordelpus. Assim, da infância à morte, a conduta do indivíduo era determinada pela obrigação de produzir tanto movimento quanto possível, seja por sua própria atividade muscular, seja pelo controle das forças naturais. Na hierarquia da indústria, três ocupações eram honradas quase tanto quanto a Sagrada Ordem dos Cientistas: voar, dançar e praticar atletismo. Todos praticavam esses três ofícios em alguma medida, pois eram impostos pela religião; mas os aviadores e engenheiros aeronáuticos profissionais, e os dançarinos e atletas profissionais, eram uma classe privilegiada.

Várias causas haviam elevado a aviação a uma posição de honra única. Como meio de comunicação, era de extrema importância prática; e, como a mais veloz locomoção, constituía o ato supremo de culto. O acidente de que a forma do aeroplano lembrasse o principal símbolo da antiga religião cristã emprestava à aviação uma significação mística adicional. Pois, embora o espírito do cristianismo estivesse perdido, muitos de seus símbolos haviam sido preservados na nova fé. Uma fonte mais importante do domínio da aviação era que, como a guerra há muito deixara de existir, a aviação de espécie gratuitamente perigosa era o principal escoadouro da aventureirice inata do animal humano. Jovens homens e mulheres arriscavam fervorosamente a vida pela glória de Gordelpus e pela própria salvação, enquanto os mais velhos recebiam satisfação vicária desse festival interminável de proeza juvenil. De fato, à parte os arrebatamentos da acrobacia aérea devocional, é improvável que a raça houvesse preservado por tanto tempo sua paz e sua unidade. Em cada um dos frequentes Dias de Voo Sagrado, rituais especiais de aviação comunal e solitária eram executados em todos os centros religiosos. Nessas ocasiões, todo o céu se desenhava intrincadamente com milhares de aviões, girando, tombando, alçando-se, mergulhando, em perfeita ordem e a várias altitudes, a dança em um nível sendo sutilmente complementar à dança nos outros. Era como se as evoluções espontâneas de muitos bandos distintos de maçaricos e pilritos fossem multiplicadas mil vezes em complexidade e subordinadas a um único tema terpsicoriano sempre em desenvolvimento. Então, subitamente, o conjunto se dispersava até o horizonte, deixando o céu aberto para os quartetos, duetos e solos das mais brilhantes estrelas do voo. À noite também, regimentos de aviões portando luzes coloridas inscreviam no zênite padrões de fogo sempre mutáveis e simbólicos. Além dessas danças aéreas, existira por oitocentos anos o costume de soletrar periodicamente, num voo denso de aviões com seis mil milhas de extensão, as rubricas sagradas do evangelho de Gordelpus, de modo que a palavra viva pudesse ser visível a outros planetas.

Na vida de cada indivíduo, o voo desempenhava grande papel. Imediatamente depois do nascimento, ele era levado às alturas por uma sacerdotisa do voo e solto, agarrado a um paraquedas, para ser habilmente apanhado sobre as asas do avião de seu pai. Esse ritual servia como substituto da contracepção, proibida como interferência na energia divina; pois, como em muitos bebês o antigo instinto símio de agarrar estava atrofiado, grande proporção dos recém-nascidos se soltava e era esmagada sobre as asas paternas. Na adolescência, o indivíduo, homem ou mulher, assumia pela primeira vez o comando de um avião, e sua vida passava então a ser pontuada por severos testes aeronáuticos. A partir da meia-idade, isto é, como centenário, quando já não podia esperar subir na hierarquia do voo ativo, continuava a voar diariamente por motivos práticos.

As duas outras formas de atividade ritual, a dança e o atletismo, eram pouco menos importantes. Nem estavam confinadas inteiramente ao solo. Certos ritos eram celebrados por danças sobre as asas de um avião em pleno ar.

A dança era especialmente associada à população negra, que ocupava uma posição muito peculiar no mundo desse tempo. Na verdade, as grandes distinções de cor da humanidade começavam agora a esmaecer. O aumento da comunicação aérea fizera os estoques negro, marrom, amarelo e branco se misturarem de tal modo que, por toda parte, havia então uma grande maioria racialmente indistinguível. Em nenhum lugar existia grande número de pessoas de caráter racial marcado. Mas cada um dos tipos antigos estava sujeito a reaparecer de vez em quando em indivíduos isolados, especialmente em sua terra natal antiga. Esses “retornos” eram costumeiramente tratados de maneiras especiais e historicamente apropriadas. Assim, por exemplo, era aos “desvios” de caráter negro definido que se confiava a dança mais sagrada.

Nos dias das nações, os descendentes dos escravos africanos emancipados na América do Norte haviam influenciado grandemente a vida artística e religiosa da população branca, e haviam inspirado um culto da dança negroide que sobreviveu até o fim dos Primeiros Homens. Isso se devia em parte ao caráter sexual e primitivo da dança negra, tão necessário numa nação acossada por tabus sexuais. Mas havia também uma fonte mais profunda. A nação americana adquirira seus escravos por captura e continuara por muito tempo a desprezar seus descendentes. Mais tarde, compensou inconscientemente sua culpa por meio de um culto do espírito negro. Assim, quando a cultura americana dominou o planeta, os negros puros se tornaram uma casta sagrada. Privados de muitos dos direitos de cidadania, eram considerados servos particulares de Gordelpus. Eram ao mesmo tempo sagrados e excluídos. Esse papel duplo era epitomado em um ritual extravagante que ocorria uma vez por ano em cada um dos grandes parques nacionais. Uma mulher branca e um negro, ambos escolhidos por sua proeza na dança, executavam um longo balé simbólico, que culminava em um ato ritual de violação sexual, realizado à vista dos espectadores enlouquecidos. Terminado isso, o negro esfaqueava sua vítima e fugia pela floresta, perseguido por uma turba exultante. Se alcançasse o santuário, tornava-se objeto particularmente sagrado pelo resto da vida. Mas, se fosse apanhado, era despedaçado ou encharcado de espírito inflamável e queimado. Tamanha era a superstição dos Primeiros Homens nesse tempo que os participantes dessa cerimônia raramente relutavam; pois se acreditava firmemente que ambos tinham assegurada a vida eterna em Gordelpus. Na América, esse Linchamento Sagrado era o mais popular de todos os festivais; pois era ao mesmo tempo sexual e sangrento, e oferecia uma alegria feroz às massas cuja vida sexual era restrita e secreta. Na Índia e na África, o violador era sempre um “inglês”, quando tal criatura rara podia ser encontrada. Na China, todo o caráter da cerimônia se alterava; pois a violação tornava-se um beijo, e o assassinato, um toque com um leque.

Outro povo, os judeus, era tratada com combinação semelhante de honra e desprezo, mas por razões muito diferentes. Nos dias antigos, sua inteligência geral, e em particular seu talento financeiro, cooperara com sua falta de pátria para torná-los excluídos; e agora, no declínio dos Primeiros Homens, conservavam a ficção, senão estritamente o fato, da integridade étnica. Ainda eram excluídos, embora indispensáveis e poderosos. Quase o único tipo de atividade inteligente que os Primeiros Homens ainda podiam respeitar era a operação financeira, privada ou cosmopolita. Os judeus se haviam tornado inestimáveis na organização financeira do Estado Mundial, tendo ultrapassado de longe os outros povos porque só eles haviam preservado um respeito furtivo pela pura inteligência. Assim, muito depois de a inteligência passou a ser considerada desonrosa em homens e mulheres comuns, ela era esperada dos judeus. Neles era chamada astúcia satânica, e eram considerados encarnações dos poderes do mal, atrelados ao serviço de Gordelpus. Desse modo, com o tempo, os judeus fizeram algo como um “monopólio” da inteligência. Essa mercadoria preciosa eles usaram em grande parte para seus próprios fins; pois dois mil anos de perseguição havia muito os havia tornado permanentemente tribalistas, subconscientemente, se não conscientemente. Assim, quando conquistaram o controle das poucas operações restantes que exigiam originalidade, e não rotina, usaram essa vantagem sobretudo para fortalecer sua própria posição no mundo. Pois, embora relativamente brilhantes, haviam sofrido muito do embrutecimento e da limitação geral que acometera o mundo inteiro. Embora capazes, em certa medida, de criticar os meios práticos pelos quais os fins deveriam ser realizados, eram então inteiramente incapazes de criticar os fins maiores que haviam dominado seu povo por milhares de anos. Neles, a inteligência se tornara completamente subserviente ao tribalismo. Havia, assim, alguma desculpa para o ódio universal e até a repulsa física com que eram encarados; pois só eles haviam falhado em realizar o grande avanço, do tribalismo para um cosmopolitismo que, nos outros povos, já não era meramente teórico. Havia também boa razão para o respeito que recebiam, pois conservavam e usavam de modo um tanto implacável certo grau do atributo mais distintamente humano, a inteligência.

Nos tempos primitivos, a inteligência e a sanidade da espécie haviam sido preservadas pela incapacidade de seus membros malsãos sobreviverem. Quando o humanitarismo entrou em voga, e os deficientes foram cuidados a custas públicas, essa seleção natural cessou. E, como esses infelizes eram incapazes tanto de prudência quanto de responsabilidade social, procriavam sem freio e ameaçavam infectar toda a espécie com sua podridão. Durante o zênite da Civilização Ocidental, portanto, os subnormais foram esterilizados. Mas os adoradores tardios de Gordelpus consideravam tanto a esterilização quanto a contracepção interferência perversa na potência divina. Consequentemente, a única restrição à população era a suspensão dos recém-nascidos em aeroplanos, processo que, embora eliminasse os fracos, favorecia entre os bebês saudáveis mais o primitivo que o altamente desenvolvido. Assim, a inteligência da espécie declinou sem cessar. E ninguém lamentou isso.

A repulsa geral pela inteligência era um corolário da adoração do instinto, e esta, por sua vez, era um aspecto do culto da atividade. Como a fonte inconsciente do vigor humano era a energia divina, o impulso espontâneo não deveria ser frustrado, tanto quanto possível. O raciocínio era de fato permitido ao indivíduo dentro da esfera de seu trabalho oficial, mas jamais além dela. E nem mesmo especialistas podiam entregar-se ao raciocínio e à experiência sem obter uma licença para pesquisa particular. A licença era cara, e só era concedida se a meta em vista pudesse ser apresentada como aumento da atividade mundial. Nos velhos tempos, certas pessoas de curiosidade mórbida haviam ousado criticar os métodos consagrados de fazer as coisas e sugerido métodos “melhores”, inconvenientes para a Sagrada Ordem dos Cientistas. Isso teve de ser detido. No quarto milênio do Estado Mundial, as operações da civilização se haviam tornado tão intrincadamente estereotipadas que jamais ocorriam situações novas de ordem maior.

Um tipo de busca intelectual além das finanças era, de fato, honrado: o cálculo matemático. Todos os movimentos rituais, todos os movimentos da maquinaria industrial, todos os fenômenos naturais observáveis precisavam ser minuciosamente descritos em fórmulas matemáticas. Os registros eram arquivados nos arquivos sagrados da S.O.S. E ali permaneciam. Esse vasto empreendimento de descrição matemática era o trabalho principal dos cientistas, e dizia-se que era o único meio pelo qual a coisa evanescente, o movimento, podia passar para o ser eterno de Gordelpus.

O culto do instinto não resultava simplesmente numa vida de impulso sem governo. Longe disso. Pois o instinto fundamental, dizia-se, era o instinto de adorar Gordelpus na ação, e este deveria governar todos os outros instintos. Desses, o mais importante e sagrado era o impulso sexual, que os Primeiros Homens sempre tenderam a considerar ao mesmo tempo divino e obsceno. O sexo, portanto, era agora controlado com extremo rigor. A referência à sexualidade, salvo por circunlóquio, era proibida por lei. Pessoas que observavam o óbvio significado sexual das danças religiosas eram severamente punidas. Nenhuma atividade sexual e nenhum conhecimento sexual eram permitidos ao indivíduo até que ele ganhasse suas asas. Muita informação, de natureza distorcida e pervertida, podia de fato ser obtida nesse intervalo pela observação dos escritos e práticas religiosas; mas, oficialmente, essas matérias sagradas recebiam sempre uma interpretação metafísica, não sexual. E, embora a maturidade legal, a Conquista das Asas, pudesse ocorrer já aos quinze anos, às vezes não era alcançada antes dos quarenta. Se nessa idade o indivíduo ainda falhasse no teste, fosse homem ou mulher, ficava proibido para sempre de relações sexuais e de informação sexual.

Na China e na Índia, esse tabu sexual extravagante era um tanto mitigado. Muitas pessoas acomodadas haviam passado a sentir que transmitir conhecimento sexual aos “imaturos” só era errado quando o meio de comunicação era a sagrada língua americana. Portanto, usavam o patois local. Do mesmo modo, a atividade sexual dos “imaturos” era permissível desde que realizada unicamente nas reservas selvagens, e sem fala americana. Esses subterfúgios, contudo, eram condenados pelos ortodoxos, mesmo na Ásia.

Quando um homem conquistava suas asas, era formalmente iniciado no mistério do sexo e em toda a sua significação “biológico-religiosa”. Também lhe era permitido tomar uma “esposa doméstica” e, depois de um teste de aviação muito mais severo, qualquer número de “esposas simbólicas”. O mesmo valia para a mulher. Esses dois tipos de parceria diferiam grandemente. O marido e a esposa “domésticos” apareciam juntos em público, e sua união era indissolúvel. A união “simbólica”, por outro lado, podia ser dissolvida por qualquer das partes. Além disso, era sagrada demais para jamais ser revelada, ou mesmo mencionada, em público.

Um número muito grande de pessoas jamais passava no teste que sancionava a sexualidade. Estas ou permaneciam virgens, ou se entregavam a relações sexuais não apenas ilegais, mas sacrílegas. Os bem-sucedidos, por outro lado, tendiam a consumar sexualmente todo conhecimento casual.

Nessas circunstâncias, era natural que existissem, entre a parte sexualmente submersa da população, certos cultos secretos que buscavam escapar da realidade áspera para mundos de fantasia. Dessas seitas ilícitas, duas eram as mais difundidas. Uma era uma perversão da antiga fé cristã em um Deus de Amor. Todo amor, dizia-se, é sexual; portanto, no culto, privado ou público, o indivíduo deve buscar uma relação sexual direta com Deus. Daí surgiu um culto grosseiramente fálico, muito desprezível para aquelas pessoas mais afortunadas que não tinham necessidade dele.

A outra grande heresia derivava em parte da energia dos impulsos intelectivos reprimidos, e era praticada por pessoas de curiosidade natural que, no entanto, compartilhavam a escassez universal de inteligência. Esses patéticos devotos do intelecto eram inspirados por Sócrates. Aquele grande primitivo insistira que o pensamento claro é impossível sem definição clara dos termos, e que, sem pensamento claro, o ser humano perde a plenitude do ser. Esses seus últimos discípulos eram pouco menos fervorosos admiradores da verdade que seu mestre, mas perderam completamente o espírito dele. Somente conhecendo a verdade, diziam eles, pode o indivíduo alcançar a imortalidade; somente definindo pode conhecer a verdade. Portanto, reunindo-se em segredo, e em constante perigo de prisão por atividade intelectual ilícita, disputavam interminavelmente acerca da definição das coisas. Mas as coisas que se ocupavam de definir não eram os conceitos básicos do pensamento humano; pois estes, afirmavam, haviam sido fixados de uma vez por todas por Sócrates e seus seguidores imediatos. Portanto, aceitando-os como verdadeiros e compreendendo-os de modo grosseiramente equivocado, os socráticos derradeiros se dedicaram a definir todos os processos do Estado Mundial e o ritual da religião estabelecida, todas as emoções humanas, todas as formas de narizes, bocas, edifícios, montanhas, nuvens e, de fato, toda a superfície de seu mundo. Assim acreditavam emancipar-se do filistinismo de sua era e assegurar camaradagem com Sócrates no além.

V

Queda

O colapso dessa primeira civilização mundial deveu-se à súbita falha dos suprimentos de carvão. Todas as jazidas originais haviam sido sugadas séculos antes, e deveria ter sido óbvio que as descobertas mais recentemente não poderiam durar para sempre. Durante alguns milhares de anos, o suprimento principal viera da Antártida. Tão prolífico era esse continente que, ultimamente, surgira nas mentes enevoadas dos cidadãos do mundo a superstição de que ele era, de alguma maneira misteriosa, inesgotável. Assim, quando por fim, apesar da censura estrita, começaram a vazar as notícias de que mesmo as perfurações mais profundas possíveis não haviam revelado outros depósitos vegetais de qualquer espécie, o mundo a princípio não acreditou.

A política sã teria sido abolir o enorme gasto de energia com o voo ritual, que consumia mais recursos da comunidade que toda a indústria produtiva. Mas, para os crentes em Gordelpus, tal caminho era quase impensável. Além disso, teria minado a aristocracia voadora. Essa classe poderosa declarou então que chegara a hora da liberação do segredo do poder divino, e convocou a S.O.S. a inaugurar a nova era. Agitação vociferante em todas as terras colocou os cientistas em difícil situação. Ganharam tempo declarando que, embora o momento da revelação se aproximasse, ainda não havia chegado; pois haviam recebido uma intimação divina de que essa escassez do carvão fora imposta como teste supremo da fé humana. O serviço de Gordelpus no voo ritual devia ser aumentado, e não reduzido. Gastando um mínimo absoluto de seu poder em assuntos seculares, a espécie deveria concentrar-se na religião. Quando Gordelpus tivesse provas de sua devoção e confiança, permitiria aos cientistas salvá-los.

Tal era o prestígio da ciência que, a princípio, essa explicação foi aceita universalmente. Os voos rituais foram mantidos. Todos os comércios de luxo foram abolidos, e até serviços vitais foram reduzidos ao mínimo. Trabalhadores assim lançados fora do emprego foram transferidos para o labor agrícola; pois se sentia que o uso de poder mecânico no simples cultivo deveria ser abolido o quanto antes. Essas mudanças exigiam capacidade de organização muito maior do que restava na espécie. A confusão era generalizada, salvo aqui e ali, onde organização séria era tentada por certos judeus.

O primeiro resultado desse grande movimento de economia e autonegação foi provocar algo como um despertar espiritual entre muitos que antes haviam vivido uma vida de conforto entediado. Isso foi aumentado pelo sentimento disseminado de crise e prodígios iminentes. A religião, que, apesar de sua autoridade universal nessa era, se tornara uma questão de ritual mais que de experiência interior, começou a se agitar em muitos corações — não, de fato, como momento de verdadeiro culto, mas antes como vago assombro, não sem mistura de autoimportância.

Mas, à medida que a novidade desse entusiasmo diminuía, e a vida se tornava cada vez mais desconfortável, até os mais zelosos começaram a perceber com horror que, em momentos de inatividade, eram propensos a dúvidas demasiado chocantes para confessar. E, à medida que a situação piorava, nem mesmo uma vida de ação incessante conseguia suprimir essas fantasias perversas.

Pois a espécie entrava agora numa crise psicológica sem precedentes, produzida pelo impacto do desastre econômico sobre uma mentalidade permanentemente malsã. Cada indivíduo, é preciso lembrar, fora um dia uma criança interrogadora, mas havia sido ensinado a evitar a curiosidade como o hálito de Satanás. Consequentemente, toda a espécie sofria de uma espécie de repressão invertida, uma repressão dos impulsos intelectivos. A súbita mudança econômica, que afetou todas as classes por todo o planeta, lançou ao foco da atenção uma curiosidade chocante, um ceticismo obsessivo, até então enterrado nos recantos mais profundos da mente.

Não é fácil conceber a estranha desordem mental que então afligiu toda a espécie, simbolizando-se em alguns casos por ataques de vertigem física real. Depois de séculos de prosperidade, rotina e ortodoxia, as pessoas foram subitamente possuídos por uma dúvida que consideravam diabólica. Ninguém dizia uma palavra a respeito; mas, na mente privada de cada pessoa, o demônio erguia a cabeça sussurrante, e cada um era assombrado pelos olhos inquietos de seus semelhantes. De fato, todas as circunstâncias alteradas de sua vida zombavam de sua credulidade.

Mais cedo na carreira da espécie, essa crise mundial poderia ter servido para despertar a humanidade para a sanidade. Sob a primeira pressão da aflição, poderiam ter abandonado as extravagâncias de sua cultura. Mas agora o modo antigo de vida estava profundamente enraizado demais. Consequentemente, observamos o espetáculo fantástico de um mundo dedicado, devota e até heroicamente, a desperdiçar seus recursos em vastas exibições aeronáuticas, não por fé sincera em sua retidão e eficácia, mas apenas por uma espécie de automatismo desesperado. Como aqueles pequenos roedores cuja migração foi barrada por um avanço do mar, de modo que se afogavam anualmente aos milhares, os Primeiros Homens continuaram sem defesa em seu comportamento ritualístico; mas, diferentes dos lêmingues, eram humanos o suficiente para serem ao mesmo tempo oprimidos pela incredulidade, uma incredulidade que, além disso, não ousavam reconhecer.

Enquanto isso, os cientistas remexiam séria e secretamente a literatura antiga de sua ciência, na esperança de descobrir o talismã esquecido. Empreenderam também experimentos clandestinos, mas numa pista falsa deixada pelo astuto inglês contemporâneo do Descobridor. Os principais resultados foram que vários pesquisadores foram envenenados ou eletrocutados, e um grande colégio explodiu. Esse acontecimento impressionou a população, que supôs que o acidente se devia a um exercício excessivamente ousado da potência divina. O mal-entendido inspirou os cientistas desesperados a montar outros “milagres” impressionantes, e além disso a usá-los para dissipar a crescente inquietação dos trabalhadores industriais famintos. Assim, quando uma delegação chegou diante dos escritórios da Agricultura Cosmopolita para exigir mais farinha para os industrialistas, Gordelpus miraculosamente explodiu o chão sobre o qual estavam e arremessou seus corpos entre os espectadores. Quando os agricultores da China entraram em greve para obter uma provisão razoável de energia elétrica para o cultivo, Gordelpus os afetou com uma atmosfera maligna, de modo que sufocaram e morreram aos milhares. Estimulados dessa maneira por intervenção divina direta, os elementos duvidosos e desleais da população mundial recuperaram sua fé e sua docilidade. E assim o mundo seguiu aos trancos por algum tempo, tão próximo quanto possível do modo como vivera nos últimos quatro mil anos, salvo por um aumento geral da fome e da má saúde.

Mas inevitavelmente, à medida que as condições de vida se tornavam cada vez mais severas, a docilidade deu lugar ao desespero. Espíritos ousados começaram a questionar publicamente a sabedoria, e mesmo a piedade, de tão vasto gasto de energia em voo ritual, quando necessidades primárias como alimento e vestuário se tornavam tão escassas. Essa devoção impotente não os ridicularizava aos olhos divinos? Deus ajuda quem se ajuda. A taxa de mortalidade já subira de modo alarmante. Pessoas emagrecidas e esfarrapadas começavam a mendigar em lugares públicos. Em certos distritos, populações inteiras passavam fome, e a Diretoria nada fazia por elas. No entanto, em outros lugares, colheitas se perdiam por falta de energia para ceifá-las. Em todas as terras ergueu-se um clamor irado pela inauguração da nova era.

Os cientistas estavam então tomados de pânico. Nada resultara de suas pesquisas, e era evidente que no futuro toda energia eólica e hidráulica deveria ser dedicada às indústrias primárias. Mesmo assim, havia fome adiante para muitos. O Presidente da Sociedade de Física sugeriu à Diretoria que o voo ritual fosse imediatamente reduzido pela metade, como compromisso com Gordelpus. Imediatamente, a verdade hedionda, que poucos até então haviam ousado admitir sequer a si mesmos, foi lançada no éter por um judeu proeminente: toda a lenda vetusta do segredo divino era mentira, caso contrário por que os físicos ganhavam tempo? Desânimo e fúria se espalharam pelo planeta. Em toda parte o povo se levantou contra os cientistas e contra a autoridade governante que eles controlavam. Massacres e medidas de retaliação logo se transformaram em guerras civis. China e Índia declararam-se Estados nacionais livres, mas não conseguiram alcançar unidade interna. Na América, sempre uma fortaleza da ciência e da religião, o Governo manteve sua autoridade por algum tempo; mas, à medida que seu poder se tornava menos seguro, seus métodos se tornaram mais implacáveis. Finalmente cometeu o erro de usar não apenas gás venenoso, mas micróbios; e tal era o estado decadente da ciência médica que ninguém conseguiu inventar meio de conter suas devastações. Todo o continente americano sucumbiu a uma peste de doenças pulmonares e nervosas. A antiga “Loucura Americana”, usada havia muito contra a China, devastava agora a América. As grandes estações de energia hidráulica e eólica foram destruídas por turbas lunáticas que buscavam vingança contra qualquer coisa associada à autoridade. Populações inteiras desapareceram numa orgia de canibalismo.

Na Ásia e na África, alguma aparência de ordem foi mantida por algum tempo. Pouco depois, contudo, a Loucura Americana se espalhou também para esses continentes, e muito cedo todos os traços vivos de sua civilização desapareceram.

Somente nas áreas naturalmente mais férteis do mundo o remanescente doente de uma população podia agora arrancar do solo alguma subsistência. Em outros lugares, desolação absoluta. Com passos fáceis, a selva retomou o que era seu.

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