Os Marcianos Os Últimos e os Primeiros Homens · Capítulo 8 de 16
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Os Marcianos

VIII

Os Marcianos

I

A Primeira Invasão Marciana

Nas colinas ao pé das novas e titânicas montanhas que um dia foram o Hindu Kush, havia muitos centros de férias, de onde os jovens homens e mulheres da Ásia costumavam buscar perigos e durezas alpinos para o refrigério de suas almas. Foi nesse distrito, e pouco depois de uma alvorada de verão, que os marcianos foram vistos pela primeira vez pelos humanos. Caminhantes matinais notaram que o céu tinha uma tonalidade inexplicavelmente esverdeada, e que o sol ascendente, embora livre de nuvens, estava pálido. Os observadores logo se surpreenderam ao ver que o verde se concentrava em mil nuvículas minúsculas, com azul claro entre elas. Binóculos revelaram, dentro de cada mancha verde, algum vestígio tênue de um núcleo avermelhado, e filamentos móveis de uma cor infravermelha, que teria sido invisível à espécie humana anterior. Esses extraordinários pontos de nuvem eram todos mais ou menos do mesmo tamanho, os maiores parecendo menores que o disco da lua; mas em forma variavam muito, e eram vistos mudando de configuração mais rapidamente que os cirros naturais aos quais se assemelhavam de leve. De fato, embora houvesse muito de semelhante a nuvem em sua forma e movimento, havia também algo definido neles, tanto em seus traços quanto em seu comportamento, que sugeria vida. Na verdade, lembravam fortemente organismos ameboides primitivos vistos ao microscópio.

Todo o céu estava salpicado deles, aqui e ali em concentrações de verde ininterrupto, em outros pontos mais esparsamente. E observou-se que se moviam. Uma deriva geral de toda a população celeste se estabelecia em direção a um dos picos nevados que dominavam a paisagem. Logo os indivíduos da dianteira alcançaram a crista da montanha e foram vistos rastejando pela face rochosa com uma ação ameboide muito lenta.

Enquanto isso, um par de aeroplanos, movidos eletricamente, havia subido ao céu para investigar de perto o fenômeno estranho. Passaram entre as nuvículas à deriva, e de fato através de muitas delas, sem impedimento, e quase sem ficarem obscurecidos à vista.

Na montanha, um vasto enxame de nuvículas se reunia, rastejando pelos precipícios e campos de neve para dentro de um alto vale glacial. Em certo ponto, onde a geleira caía abruptamente para um nível inferior, a vanguarda diminuiu a marcha e parou, enquanto hostes de seus semelhantes continuavam a comprimir-se sobre ela por trás. Em meia hora, todo o céu estava outra vez claro, salvo por nuvens normais; mas sobre a geleira jazia algo que quase poderia ter sido uma nuvem de tempestade excepcionalmente escura e de aparência sólida, não fosse por sua tonalidade verde e seu movimento fervilhante. Durante alguns minutos, viu-se que esse objeto estranho se concentrava num volume um tanto menor e se tornava mais escuro. Depois moveu-se novamente para a frente e passou sobre a extremidade escarpada da geleira para dentro do vale vestido de pinheiros. Um contraforte interposto ocultou-o então de seus primeiros observadores.

Mais abaixo no vale havia uma aldeia. Muitos dos habitantes, quando viram o misterioso vapor denso avançando sobre eles, tomaram seus veículos mecânicos e fugiram; mas alguns esperaram por curiosidade. Foram engolidos por uma névoa turva marrom-oliva, atravessada aqui e ali por estranhos veios cintilantes de tom mais rubro. Logo houve completa escuridão. Luzes artificiais eram apagadas quase ao alcance do braço. Respirar tornou-se difícil. Gargantas e pulmões foram irritados. Todos foram tomados por violento ataque de espirros e tosse. A nuvem escoava pela aldeia, e parecia exercer pressões irregulares sobre os objetos, nem sempre na direção geral do movimento, mas às vezes na direção oposta, como se ganhasse apoio sobre corpos humanos e paredes, e de fato abrisse caminho à força. Em poucos minutos, a névoa clareou; e logo deixou a aldeia para trás, salvo por alguns filamentos e lufadas de sua substância semelhante a fumaça, que haviam se enredado em ruas laterais e ficado isolados. Muito cedo, porém, estes pareceram livrar-se e apressar-se para alcançar o corpo principal.

Quando os aldeões ofegantes se haviam recuperado em alguma medida, enviaram uma mensagem de rádio à pequena cidade mais abaixo no vale, instando uma evacuação temporária. A mensagem não foi radiodifundida, mas transmitida por um feixe estreito de raios. Aconteceu que o feixe tinha de ser dirigido através da própria matéria nociva. Enquanto a mensagem era dada, o avanço da nuvem cessou, e seus contornos se tornaram vagos e esfarrapados. Fragmentos dela de fato se desprenderam ao vento e se dissiparam. Quase tão logo a mensagem terminou, a nuvem começou a se definir novamente, e ficou em repouso por um quarto de hora. Uma dúzia de jovens ousados da cidade aproximou-se então da massa escura por curiosidade. Mal se viram face a face com ela, ao contornar uma curva do vale, a nuvem se contraiu rapidamente, até não ser maior que uma casa. Parecendo agora algo entre um vapor denso e opaco e uma geleia efetiva, ficou imóvel até que o grupo se aventurasse a poucos metros dela. Evidentemente, a coragem deles falhou, pois foram vistos se voltando. Mas, antes que tivessem recuado três passos, uma longa probóscide disparou da massa principal com a velocidade da língua de um camaleão e os envolveu. Retirou-se lentamente; mas os jovens tinham sido recolhidos com ela. A nuvem, ou geleia, agitou-se violentamente por alguns segundos, depois expeliu os corpos num único bolo mastigado.

A coisa assassina abriu então caminho à força pela estrada em direção à cidade, encostou-se à primeira casa, esmagou-a, e passou a vaguear de um lado para outro, derrubando tudo diante de si, como se fosse uma corrente de lava. Os habitantes fugiram a toda pressa, mas vários foram lambidos e massacrados.

Poderosa radiação em feixe foi então despejada na nuvem a partir de todas as instalações vizinhas. Sua atividade destrutiva diminuiu, e mais uma vez ela começou a se desintegrar e expandir. Logo se ergueu como uma enorme coluna de fumaça; e, a grande altitude, dissipou-se outra vez num enxame das nuvículas verdes originais, visivelmente reduzidas em número. Estas voltaram a esmaecer numa tonalidade esverdeada uniforme, que gradualmente desapareceu.

Assim terminou a primeira invasão da Terra por Marte.

II

A Vida em Marte

Nossa preocupação é com a humanidade, e com os marcianos apenas em relação à humanidade. Mas, para compreender o encontro trágico dos dois planetas, é necessário lançar um olhar às condições em Marte e conceber algo daqueles seres fantasticamente diferentes e, no entanto, fundamentalmente semelhantes, que agora buscavam tomar posse do lar da humanidade.

Descrever a biologia, a psicologia e a história de um mundo inteiro em poucas páginas é tão difícil quanto seria dar aos próprios marcianos, no mesmo espaço, uma ideia verdadeira da humanidade. Enciclopédias, bibliotecas, seriam necessárias em ambos os casos. Contudo, de algum modo, preciso conseguir sugerir os sofrimentos e deleites alheios, e os muitos éons de luta, que entraram na formação dessas estranhas inteligências não humanas, em certos aspectos tão inferiores e em outros decididamente superiores à espécie humana que encontraram.

Marte era um mundo cuja massa era cerca de um décimo da massa da Terra. A gravidade, portanto, desempenhara papel menos tirânico na história marciana que na terrestre. A fraqueza da gravidade marciana, combinada à pobreza do invólucro de ar do planeta, fazia com que a pressão atmosférica geral fosse muito mais leve que na Terra. O oxigênio era muito menos abundante. A água também era comparativamente rara. Não havia oceanos nem mares, mas apenas lagos rasos e pântanos, muitos dos quais secavam no verão. O clima do planeta era em geral muito seco e, no entanto, muito frio. Sem nuvens, ele era perenemente claro sob os raios fracos de um sol distante.

Mais cedo na história de Marte, quando havia mais ar, mais água e temperatura mais alta pelo calor interno, a vida aparecera nas águas costeiras dos mares, e a evolução prosseguira de maneira muito semelhante à da Terra. A vida primitiva se diferenciara nos tipos fundamentais animal e vegetal. Estruturas multicelulares apareceram e se especializaram de diversas maneiras para adequar-se a ambientes diversos. Grande variedade de formas vegetais revestia as terras, muitas vezes com florestas de plumas gigantescas e de caule esguio. Animais semelhantes a moluscos e a insetos rastejavam ou nadavam, ou se lançavam daqui para ali em saltos fantásticos. Enormes criaturas aracnídeas de um tipo não inteiramente diverso dos crustáceos, ou de gafanhotos gigantescos, saltavam atrás de suas presas e desenvolveram uma versatilidade e uma astúcia que lhes permitiram dominar o planeta quase como, numa data muito posterior, a humanidade inicial viria a dominar a natureza selvagem terrestre.

Mas, enquanto isso, uma rápida perda de atmosfera, e especialmente de vapor d’água, alterava as condições marcianas além dos limites de adaptação dessa fauna e flora iniciais. Ao mesmo tempo, um tipo muito diferente de organização vital começava a tirar proveito da mudança. Em Marte, como na Terra, a vida surgira de uma dentre muitas formas “subvitais”. O novo tipo de vida em Marte evoluiu de outro desses tipos subvitais de organização molecular, um que até então não conseguira evoluir de modo algum e desempenhara papel insignificante, salvo ocasionalmente como vírus raro nos órgãos respiratórios de animais. Essas unidades fundamentais subvitais de organização eram ultramicroscópicas, e de fato muito menores que as bactérias terrestres, ou mesmo que os vírus terrestres. Originalmente ocorriam nos lagos pantanosos, que secavam a cada primavera e se tornavam depressões de lama cozida e poeira. Certas espécies suas, levadas para o ar sobre partículas de poeira, desenvolveram um modo de vida extremamente seco. Mantinham-se absorvendo substâncias químicas da poeira transportada pelo vento, e uma quantidade muito pequena de umidade do ar. Absorviam também a luz solar por uma fotossíntese quase idêntica à das plantas.

Até esse ponto eram semelhantes às outras coisas vivas, mas tinham também certas capacidades que o outro estoque perdera logo no início de sua carreira evolutiva. Organismos terrestres, e organismos marcianos do tipo terrestre, mantinham-se como unidades vitais por meio de sistemas nervosos, ou outras formas de contato material entre as partes. Nas formas mais desenvolvidas, um sistema “telefônico” neural imensamente complicado conectava cada parte do corpo a uma vasta central, o cérebro. Assim, na Terra, um organismo singular era, sem exceção, um sistema contínuo de matéria, que mantinha certa constância de forma. Mas, da unidade subvital distintamente marciana, evoluiu por fim um tipo muito diferente de organismo complexo, no qual o contato material das partes não era necessário nem à coordenação do comportamento nem à unidade da consciência. Esses fins eram alcançados sobre uma base física muito diferente. Os membros subvitais ultramicroscópicos eram sensíveis a todos os tipos de vibrações etéreas, diretamente sensíveis, de uma maneira impossível à vida terrestre; e podiam também iniciar vibrações. Sobre essa base, a vida marciana desenvolveu enfim a capacidade de manter a organização vital como um único indivíduo consciente sem continuidade de matéria viva. Assim, o organismo marciano típico era uma nuvícula, um grupo de membros livres em movimento dominado por uma “mente de grupo”. Mas em uma espécie a individualidade passou a inerir, para certos fins, não apenas em nuvículas distintas, mas em um grande sistema fluido de nuvículas. Tal era a hoste marciana de mente única que invadiu a Terra.

O organismo marciano dependia, por assim dizer, não de fios “telefônicos”, mas de uma imensa multidão de “estações sem fio” móveis, transmitindo e recebendo diferentes comprimentos de onda segundo sua função. A radiação de uma unidade isolada era, naturalmente, muito fraca; mas um grande sistema de unidades podia manter contato com suas partes errantes a distância considerável.

Outra característica importante distinguia a forma dominante de vida em Marte. Assim como uma célula, na forma terrestre de vida, muitas vezes tem o poder de alterar sua forma, donde procede todo o mecanismo da atividade muscular, na forma marciana a unidade ultramicroscópica flutuante podia ser especializada para gerar ao redor de si um campo magnético, e assim repelir ou atrair suas vizinhas. Desse modo, um sistema de unidades materialmente desconectadas possuía certa coesão. Sua consistência era algo entre uma nuvem de fumaça e uma geleia muito tênue. Tinha um contorno definido, embora sempre mutável, e uma superfície resistente. Por repulsões mútuas concentradas de suas unidades constituintes, podia exercer pressão sobre objetos circundantes; e em sua forma mais concentrada a nuvem-geleia marciana podia aplicar forças imensas, que também podiam ser controladas para manipulação muito delicada. Forças magnéticas eram também responsáveis pelo movimento, semelhante ao de molusco, da nuvem como um todo sobre o solo, e ainda pelo transporte de material sem vida e de unidades vivas de região para região dentro da nuvem.

O campo magnético de repulsão e atração gerado por uma unidade subvital era muito mais restrito que seu campo de comunicação “sem fio”. O mesmo ocorria com sistemas organizados de unidades. Assim, cada uma das nuvículas que os Segundos Homens viram em seu céu era uma unidade motora independente; mas estava também numa espécie de comunicação “telepática” com todas as suas semelhantes. De fato, em todo empreendimento público, como as campanhas terrestres, uma unidade de consciência quase perfeita era mantida dentro dos limites de um enorme campo de radiação. Contudo, somente quando toda a população se concentrava numa nuvem-geleia pequena e relativamente densa é que se tornava uma única unidade motora magnética. Cumpre notar que os marcianos tinham três formas, ou formações, possíveis: primeira, uma “ordem aberta” de nuvículas independentes e muito tênues em comunicação “telepática”, muitas vezes em unidade estrita como mente de grupo; segunda, uma nuvem coletiva mais concentrada e menos vulnerável; e terceira, uma nuvem-geleia extremamente concentrada e formidável.

Salvo por essas características muito notáveis, não havia diferença realmente fundamental entre as formas de vida distintamente marciana e distintamente terrestre. A base química da primeira era um tanto mais complicada que a da segunda; e o selênio desempenhava nela um papel ao qual nada correspondia na vida terrestre. O organismo marciano, além disso, era único por cumprir em si mesmo as funções de animal e vegetal. Mas, salvo por essas peculiaridades, os dois tipos de vida eram bioquimicamente muito semelhantes. Ambos precisavam de matéria do solo, ambos precisavam de luz solar. Cada um vivia nas mudanças químicas que ocorriam em sua própria “carne”. Cada um, naturalmente, tendia a manter-se como unidade orgânica. Havia certa diferença, de fato, quanto à reprodução; pois as unidades subvitais marcianas conservavam o poder de crescimento e subdivisão. Assim, o nascimento de uma nuvem marciana surgia da subdivisão de miríades de unidades dentro da nuvem-mãe, seguida de sua ejeção como novo indivíduo. E, como as unidades eram altamente especializadas para diferentes funções, representantes de muitos tipos precisavam passar para a nova nuvem.

Nos primeiros estágios da evolução em Marte, as unidades tornavam-se independentes umas das outras assim que se separavam na reprodução. Mais tarde, porém, o poder até então inútil e rudimentar de emitir radiação foi especializado, de modo que, após a reprodução, indivíduos livres passaram a manter contato radiante uns com os outros e a comportar-se com coordenação sempre crescente. Ainda mais tarde, esses grupos organizados mantiveram também contato radiante com grupos de sua prole, constituindo assim indivíduos maiores com membros especializados. A cada avanço em complexidade, a esfera de influência radiante aumentava; até que, no zênite da evolução marciana, todo o planeta, salvo pelos representantes animais e vegetais remanescentes do outro tipo de vida malogrado, constituía às vezes um único indivíduo biológico e psicológico. Mas isso ocorria em regra apenas em questões que diziam respeito à espécie como um todo. Na maior parte do tempo, o indivíduo marciano era uma nuvícula, como aquelas que primeiro assombraram os Segundos Homens. Mas, nas grandes crises públicas, cada nuvícula despertava subitamente para se descobrir a mente de toda a espécie, sentindo através de muitos indivíduos e interpretando suas sensações à luz da experiência da espécie inteira.

A vida que dominava Marte era assim algo entre um exército extremamente bem disciplinado de unidades especializadas e um corpo possuído por uma só mente. Como um exército, podia assumir qualquer forma sem destruir sua unidade orgânica. Como um exército, era às vezes uma multidão de unidades livres e errantes, mas em outros momentos se dispunha também em ordens muito especiais para cumprir funções especiais. Como um exército, era composta de indivíduos livres, dotados de experiência, que voluntariamente se submetiam à disciplina. Por outro lado, diferentemente de um exército, despertava ocasionalmente para a consciência unificada.

A mesma flutuação entre individualidade e multiplicidade que caracterizava a espécie como um todo caracterizava também cada uma das próprias nuvículas. Cada uma era às vezes um indivíduo, às vezes um enxame de indivíduos mais primitivos. Mas, enquanto a espécie só raramente se elevava à plena individualidade, as nuvículas decaíam dela apenas em circunstâncias muito especiais. Cada nuvícula era uma organização de grupos especializados formados de grupos menores especializados, que por sua vez se compunham das variedades fundamentais especializadas de unidades subvitais. Cada grupo livre e errante de unidades livres e errantes constituía um órgão especial, cumprindo alguma função particular no todo. Assim, alguns eram especializados em atração e repulsão, alguns em operações químicas, alguns em armazenar a energia do sol, alguns em emitir radiação, alguns em absorver e armazenar água, alguns em sensibilidades especiais, como a consciência da pressão e vibração mecânicas, ou de mudanças de temperatura, ou de raios luminosos. Outros ainda eram especializados para cumprir a função do cérebro humano; mas de maneira peculiar. Todo o volume da nuvícula vibrava com inúmeras mensagens “sem fio” em muitos comprimentos de onda vindas dos diferentes “órgãos”. Era função das unidades “cerebrais” receber, correlacionar e interpretar essas mensagens à luz da experiência passada, e iniciar respostas nos comprimentos de onda apropriados aos órgãos envolvidos.

Todas essas unidades subvitais, salvo alguns tipos especializados demais, eram capazes de vida independente como bactérias ou vírus aerotransportados. E, sempre que perdiam contato com a radiação do sistema inteiro, continuavam a viver suas próprias vidas simples até serem novamente controladas. Todas eram unidades flutuantes livres, mas normalmente estavam sob a influência do sistema de campos eletromagnéticos da nuvícula e eram dirigidas daqui para ali em suas funções especiais. E, sob essa influência, algumas delas podiam ser mantidas rigidamente em posição umas em relação às outras. Tal era o caso dos órgãos da visão. Em estágios iniciais da evolução, algumas das unidades haviam se especializado em carregar diminutos glóbulos de água. Mais tarde, gotículas muito maiores eram carregadas, milhões de unidades sustentando entre si um glóbulo ainda microscópico do fluido mais precioso da vida. Finalmente, essa função foi bem aproveitada na visão. Lentes aquosas tão grandes quanto o olho de um boi eram sustentadas por um andaime de unidades; enquanto, à distância focal da lente, uma retina rígida de unidades era mantida em posição. Assim, o marciano podia produzir olhos de toda variedade quando quisesse, e telescópios e microscópios também. Essa produção e manipulação de órgãos visuais era, naturalmente, em grande parte subconsciente, como o mecanismo de focalização no homem. Mas, ultimamente, os marcianos haviam aumentado muito seu controle consciente dos processos fisiológicos; e foi essa conquista que facilitou seus notáveis triunfos ópticos.

Uma outra função fisiológica devemos notar antes de considerar a psicologia marciana. O marciano plenamente evoluído, embora ainda incivilizado, havia muito deixara de depender, para suas substâncias químicas, da poeira vulcânica trazida pelo vento. Em vez disso, repousava à noite sobre o solo, como uma névoa à altura do joelho em prados terrestres, e projetava no solo grupos tubulares especializados de unidades, como radículas. Parte do dia também tinha de ser ocupada dessa maneira. Algum tempo depois, esse processo foi suplementado pela devoração da vida vegetal declinante do planeta. Mas os marcianos civilizados finais haviam melhorado muito seus métodos de explorar o solo e a luz solar, tanto por meios mecânicos quanto pela especialização artificial de seus próprios órgãos. Mesmo assim, contudo, à medida que suas atividades aumentavam, essas funções vegetais tornavam-se para eles um problema cada vez mais grave. Praticavam agricultura; mas apenas uma área muito pequena do planeta árido podia ser induzida a produzir. Foram a água terrestre e a vegetação terrestre que enfim os decidiram a fazer a grande viagem.

III

A Mente Marciana

A mente marciana era de tipo muito diferente da terrestre, diferente, mas no fundo idêntica. Num corpo tão estranho, a mente era inevitavelmente equipada com anseios alheios e maneiras alheias de apreender seu ambiente. E, com uma história tão diferente, era confundida por preconceitos muito diversos dos humanos. Contudo, não era menos mente, preocupada em última instância com a manutenção e o avanço da vida, e com o exercício das capacidades vitais. Fundamentalmente, o marciano era como todos os outros seres vivos, pois se deleitava no livre funcionamento de seu corpo e de sua mente. Mas, superficialmente, era tão diverso dos humanos em mente quanto em corpo.

O traço mais distintivo do marciano, comparado ao humano, era que sua individualidade era ao mesmo tempo muito mais sujeita à ruptura e incomensuravelmente mais capaz de participação direta nas mentes de outros indivíduos. A mente humana, em seu corpo sólido, mantinha sua unidade e seu domínio sobre seus membros em todas as circunstâncias normais. Somente na doença o humano estava sujeito à dissociação mental ou física. Por outro lado, era incapaz de contato direto com outros indivíduos, e a emergência de uma “supermente” em um grupo de indivíduos era completamente impossível. A nuvícula marciana, contudo, embora se desmanchasse física e também mentalmente muito mais facilmente que um humano, podia também a qualquer momento despertar e tornar-se a mente inteligente de sua espécie, podia começar a perceber com os órgãos sensoriais de todos os outros indivíduos e experimentar pensamentos e desejos que eram, por assim dizer, a resultante de todos os pensamentos e desejos individuais sobre algum assunto de interesse geral. Mas infelizmente, como contarei, a mente comum dos marcianos jamais despertou para qualquer ordem de mentalidade mais alta que a do indivíduo.

Essas diferenças entre a psique marciana e a humana acarretavam vantagens e desvantagens características. O marciano, imune ao egoísmo inveterado humano e ao isolamento espiritual em relação a seus semelhantes, carecia da coerência mental, da atenção concentrada e da análise e síntese de longo alcance, e ainda da vívida consciência de si e da implacável autocrítica, que até os Primeiros Homens, em seus melhores momentos, haviam alcançado em alguma medida, e que nos Segundos Homens estavam ainda mais desenvolvidas. Os marcianos, além disso, eram entravados por serem quase idênticos em caráter. Possuíam perfeita harmonia; mas apenas por estarem quase inteiramente em uníssono temperamental. Eram todos manietados por sua semelhança uns com os outros. Faltava-lhes aquela rica diversidade de caráter pessoal que permitia ao espírito humano cobrir um campo tão amplo da mentalidade. Essa variedade infinita da natureza humana acarretava, de fato, conflitos pessoais infinitos, desperdiçadores e cruéis, na primeira espécie humana, e até certo ponto também na segunda; mas permitia também que todo indivíduo de simpatia desenvolvida enriquecesse seu espírito pelo contato com indivíduos cujo temperamento, pensamento e ideais diferiam dos seus. E, enquanto os marcianos eram pouco perturbados por lutas intestinas e pela paixão do ódio, eram também quase inteiramente desprovidos da paixão do amor. O indivíduo marciano podia admirar e ser inteiramente fiel ao objeto de sua lealdade; mas sua admiração era dada, não a pessoas concretas e de caráter único da mesma ordem que ele próprio, mas, no melhor dos casos, ao vagamente concebido “espírito da espécie”. Indivíduos semelhantes a si ele considerava apenas instrumentos ou órgãos da “supermente”.

Isso não teria sido mau, se a mente da espécie, na qual ele tão frequentemente despertava sob a influência da radiação geral, fosse de fato uma mente de ordem mais alta que a sua. Mas não era. Era apenas uma reunião da percepção, do pensamento e da vontade das nuvículas. Assim se desperdiçava a soberba lealdade dos marcianos em algo que não era maior que eles em calibre mental, mas apenas em mero volume.

A nuvícula marciana, como o animal humano, tinha natureza instintiva complexa. De noite e de dia, respectivamente, era impelida a cumprir as funções vegetativas de absorver substâncias químicas do solo e energia da luz solar. Ar e água também desejava, embora lidasse com eles, naturalmente, à sua maneira. Tinha ainda seus impulsos instintivos característicos para mover seu “corpo”, tanto para locomoção quanto para manipulação. A civilização marciana oferecia vazão a esses anseios tanto na prática da agricultura quanto em intrincadas e maravilhosamente belas danças de nuvens e ginásticas. Pois esses seres perfeitamente flexíveis se rejubilavam em executar evoluções aéreas, lançar para fora selvagens flâmulas rítmicas, entrelaçar-se uns aos outros em espirais, concentrar-se em esferas opacas, cubos, cones e toda sorte de volumes fantásticos. Muitos desses movimentos e formas tinham para eles intensa significação emocional em relação às operações de sua vida, e eram executados com fervor e solenidade religiosos.

O marciano tinha também seus impulsos de medo e pugnacidade. No passado remoto, estes muitas vezes tinham sido dirigidos contra membros hostis de sua própria espécie; mas, desde que a espécie se unificara, encontravam exercício apenas sobre outros tipos de vida e sobre a natureza inanimada. O gregarismo instintivo era, naturalmente, extremamente desenvolvida no marciano, à custa da autoafirmação instintiva. Sexualidade o marciano não tinha; não havia parceiros na reprodução. Mas seu impulso de fundir-se física e mentalmente com outros indivíduos, e despertar como a supermente, continha muito do que era característico do sexo humano. Impulsos parentais, de certa espécie, ele conhecia; mas mal eram dignos desse nome. Importava-lhe apenas ejetar de seu sistema matéria viva excessiva e manter-se em sintonia com o novo indivíduo assim formado, como faria com qualquer outro indivíduo. Nada sabia da devoção humana às crianças como personalidades em broto, nem do sutil interação dos temperamentos masculino e feminino. Na época da primeira invasão, porém, a reprodução havia sido grandemente restringida; pois o planeta estava plenamente povoado, e cada nuvícula individual era potencialmente imortal. Entre os marcianos não havia “morte natural”, nenhuma morte espontânea por mera senilidade. Normalmente, os membros da nuvícula se mantinham em reparo indefinidamente pela reprodução de suas unidades constituintes. Doenças, de fato, eram muitas vezes fatais. E a principal entre elas era uma praga correspondente ao câncer terrestre, na qual as unidades subvitais perdiam a sensibilidade à radiação, de modo que passavam a viver como organismos primitivos e a reproduzir-se sem freio. Como também se tornavam parasitárias sobre as unidades não afetadas, a nuvícula morria inevitavelmente.

Como os tipos superiores de mamíferos terrestres, os marcianos tinham fortes impulsos de curiosidade. Tendo também muitas necessidades práticas a cumprir como resultado de sua civilização, e sendo extremamente bem equipados pela natureza para a experiência física e a microscopia, haviam avançado muito nas ciências naturais. Em física, astronomia, química, e mesmo na química da vida, a humanidade nada tinha a lhes ensinar.

O vasto corpo do conhecimento marciano levara muitos milhares de anos para crescer. Todos os seus estágios e suas realizações correntes eram registrados em imensos rolos de papel feito de polpa vegetal, e armazenados em bibliotecas de pedra. Pois os marcianos, curiosamente, haviam se tornado grandes pedreiros e cobriram muito de seu planeta com edifícios de desenho plumoso e inclinado, como seriam inteiramente impossíveis na Terra. Não necessitavam de edifícios para habitação, salvo nas regiões árticas; mas, como oficinas, celeiros e depósitos de toda sorte, as construções se tornaram muito necessárias aos marcianos. Além disso, essas criaturas extremamente tênues sentiam peculiar alegria em manipular sólidos. Até sua arquitetura mais utilitária florescia numa espécie de ornamento e fantasia gótica ou arabesca, em que o etéreo parecia torturar a substância da rocha sólida até torná-la semelhante a si mesmo.

Na época da invasão, os marcianos ainda avançavam intelectualmente; e, de fato, foi por meio de uma conquista em física teórica que conseguiram deixar seu planeta. Havia muito sabiam que partículas minúsculas no limite superior da atmosfera podiam ser levadas ao espaço pela pressão dos raios solares na aurora e no ocaso. E por fim descobriram como usar essa pressão como se usa o vento na navegação. Dissipando-se em suas unidades ultramicroscópicas, conseguiram tomar apoio nos campos gravitacionais do Sistema Solar, como a quilha e o leme de um barco tomam apoio na água. Assim foram capazes de bordejar até a Terra como uma armada de embarcações ultramicroscópicas. Chegados ao céu terrestre, recompuseram-se como nuvículas, nadaram através do ar denso até o cume alpino e desceram, como um nadador pode descer uma escada sob a água.

Essa conquista envolveu cálculos e invenções químicas muito intrincados, especialmente para a preservação da vida em trânsito e em planeta alheio. Jamais poderia ter sido realizada salvo por seres com conhecimento amplo e preciso do mundo físico. Mas, embora em relação ao “conhecimento natural” os marcianos estivessem tão avançados, eram extremamente atrasados em todas aquelas esferas que podem ser chamadas “conhecimento espiritual”. Tinham pouca compreensão de sua própria mentalidade, e menos ainda do lugar da mente no cosmos. Embora em certo sentido fossem espécie altamente inteligente, eram ao mesmo tempo inteiramente desprovidos de interesse filosófico. Mal concebiam, e muito menos atacavam, os problemas que até os Primeiros Homens haviam enfrentado tantas vezes, embora tão em vão. Para os marcianos não havia mistério na distinção entre realidade e aparência, nem na relação entre o um e os muitos, nem no estatuto do bem e do mal. Tampouco eram jamais críticos de seus próprios ideais. Visavam de todo coração o avanço do superindivíduo marciano. Mas o que deveria constituir individualidade e seu avanço eles jamais consideravam seriamente. E a ideia de que tinham obrigação também para com seres não incluídos no sistema marciano de radiação revelou-se inteiramente além deles. Pois, embora tão inteligentes, eram os mais ingênuos enganadores de si mesmos, e não tinham penetração para ver o que é verdadeiramente desejável.

IV

Ilusões dos Marcianos

Para compreender como os marcianos enganaram a si mesmos, e como foram enfim desfeitos por sua própria vontade insana, devemos lançar um olhar à sua história.

Os marcianos civilizados constituíam a única variedade remanescente de uma espécie. Essa própria espécie, no passado remoto, competira com muitas outras espécies do mesmo tipo geral e as exterminara. Ajudada pelo clima em mudança, exterminara também quase todas as espécies da fauna de tipo mais terrestre, e assim reduzira muito a vegetação de que mais tarde viria a necessitar e que cultivaria com tanto cuidado. Essa vitória da espécie se devera em parte à sua versatilidade e inteligência, em parte a um notável gosto pela ferocidade, em parte a seus poderes únicos de radiação e sensibilidade à radiação, que lhe permitiam agir com uma coordenação impossível até ao mais gregário dos animais. Mas, como ocorreu com outras espécies na história biológica, a capacidade pela qual triunfou tornou-se por fim fonte de fraqueza. Quando a espécie alcançou um estágio correspondente à cultura humana primitiva, uma de suas linhagens, atingindo grau ainda mais alto de comunicação radiante e unidade física, foi capaz de comportar-se como uma única unidade vital; e assim conseguiu exterminar todas as rivais. O conflito entre linhagens persistira por muitos milhares de anos, mas tão logo a linhagem favorecida desenvolveu essa solidariedade quase absoluta de vontade, sua vitória foi avassaladora, e foi selada por um jubiloso massacre do inimigo.

Mas, para sempre depois disso, os marcianos sofreram os efeitos psicológicos de sua vitória ao fim da época das guerras entre linhagens. A extrema brutalidade com que as outras linhagens foram exterminadas conflitava com os impulsos generosos que a civilização começara a fomentar, e deixou cicatriz na consciência dos vencedores. Em autodefesa, persuadiram-se de que, como eram tão mais admiráveis que o restante, o extermínio fora na realidade um dever sagrado. E seu valor único, diziam, consistia em seu desenvolvimento radiante único. Daí surgiu uma tradição e cultura gravemente insincera, que por fim arruinou a espécie. Havia muito acreditavam que a base física da consciência devia necessariamente ser um sistema de unidades diretamente sensíveis às vibrações etéreas, e que organismos dependentes do contato físico de suas partes eram grosseiros demais para possuir qualquer experiência. Depois da era dos massacres entre linhagens, procuraram persuadir-se de que a excelência, ou o valor ético, de qualquer organismo dependia do grau de complexidade e unidade de sua radiação. Século após século, fortaleceram sua fé nessa doutrina vulgar, e desenvolveram também um sistema de ilusões e obsessões inteiramente irracionais baseado numa volúpia obsessiva e apaixonada pela radiação.

Levaria tempo demais contar todas essas fantasias subsidiárias e as maneiras engenhosas pelas quais foram conciliadas com o corpo principal do conhecimento sólido. Mas ao menos uma deve ser mencionada, por causa do papel que desempenhou na luta com a humanidade. Os marcianos sabiam, naturalmente, que a “matéria sólida” era sólida em virtude do entrelaçamento dos sistemas eletromagnéticos minúsculos chamados átomos. Ora, a rigidez tinha para eles algo da mesma significação e prestígio que o ar, o fôlego, o espírito tiveram para a humanidade inicial. Era na forma quase sólida que os marcianos eram fisicamente mais potentes; e a manutenção dessa forma era exaustiva e difícil. Esses fatos se combinaram na consciência marciana com o conhecimento de que a rigidez era, afinal, resultado de sistemas eletromagnéticos entrelaçados. A rigidez foi assim investida de santidade peculiar. A superstição consolidou-se gradualmente, por uma série de acidentes psicológicos, numa admiração fanática por todos os materiais muito rígidos, mas especialmente por cristais duros, e acima de tudo por diamantes. Pois os diamantes eram extravagantemente resistentes; e ao mesmo tempo, como os próprios marcianos diziam, os diamantes eram soberbos malabaristas da radiação etérea chamada luz. Todo diamante era, portanto, uma encarnação suprema da energia tensa e do equilíbrio eterno do cosmos, e devia ser tratado com reverência. Em Marte, todos os diamantes conhecidos eram expostos à luz solar nos pináculos de edifícios sagrados; e a ideia de que no planeta vizinho pudesse haver diamantes que não eram devidamente tratados foi um dos motivos da invasão.

Assim a mente marciana, desviada sem o saber de seu verdadeiro desenvolvimento, adoeceu, e se esforçou cada vez mais fanaticamente rumo a meros fantasmas de sua meta. Nos estágios iniciais da desordem, a radiação era considerada apenas como sinal infalível de mentalidade, e a complexidade radiante era tomada como medida infalível, apenas, do valor espiritual. Mas, pouco a pouco, radiação e mentalidade deixaram de ser distinguidas, e a organização radiante foi efetivamente confundida com valor espiritual.

Nessa obsessão, os marcianos se assemelhavam um tanto aos Primeiros Homens durante sua fase degenerada de servidão à ideia de movimento; mas com uma diferença. Pois a inteligência marciana ainda era ativa, embora seus produtos fossem severamente censurados em nome do “espírito da espécie”. Todo marciano era um caso de dupla personalidade. Não apenas era às vezes uma consciência privada, às vezes a consciência da espécie; além disso, mesmo como indivíduo privado, estava de certo modo dividido contra si mesmo. Embora sua lealdade prática ao superindivíduo fosse absoluta, de modo que condenava ou ignorava todos os pensamentos e impulsos que não pudessem ser assimilados à consciência pública, ele de fato tinha tais pensamentos e impulsos, por assim dizer, nos recantos mais profundos de seu ser. Muito raramente percebia que os tinha, e sempre que percebia ficava chocado e aterrorizado; contudo, os tinha. Eles constituíam um comentário crítico intermitente, às vezes quase contínuo, a toda a sua experiência mais respeitável.

Essa era a grande tragédia do espírito em Marte. Os marcianos eram, em muitos aspectos, extremamente bem equipados para o progresso mental e para a verdadeira aventura espiritual; mas, por uma artimanha da fortuna que os persuadira a prezar acima de tudo a unidade e a uniformidade, foram levados a frustrar seus próprios espíritos em luta a cada passo.

Longe de ser superior à mente privada, a mente pública que obcecava cada marciano era, em muitos aspectos, realmente inferior. Chegara ao domínio numa crise que exigia severa coordenação militar; e, embora desde aquela era remota tivesse feito grande progresso intelectual, continuava, no fundo, uma mente militar. Sua disposição era algo entre a de um marechal de campo e o Deus dos antigos hebreus. Certo filósofo inglês descreveu e louvou certa vez a personalidade corporativa fictícia do Estado, e deu-lhe o nome de “Leviatã”. O superindivíduo marciano era Leviatã dotado de consciência. Nessa consciência nada havia que não fosse facilmente assimilado e em acordo com a tradição. Assim, a mente pública estava sempre intelectual e culturalmente atrasada em relação ao tempo. Apenas em matéria de organização social prática ela se mantinha no mesmo passo de seus próprios indivíduos. O progresso intelectual sempre fora iniciado por indivíduos privados, e só penetrara a mente pública quando a massa dos indivíduos fora privadamente infectada pelo contato com os pioneiros. A consciência pública propriamente dita iniciava o progresso somente na esfera da organização social, militar e econômica.

As novas circunstâncias encontradas na Terra submeteram a mentalidade dos marcianos a uma prova suprema. Pois o empreendimento único de enfrentar um novo mundo exigia extremos de atividade pública e privada, e assim conduzia a conflitos agonizantes dentro de cada mente privada. Pois, enquanto a empresa era essencialmente social e mesmo militar, e exigia coordenação muito estrita e unidade de ação, a extrema novidade do novo ambiente demandava todos os recursos da consciência privada sem amarras. Além disso, os marcianos encontraram na Terra muita coisa que tornava absurdas suas pressuposições fundamentais. E, em seus momentos mais luminosos de consciência privada, às vezes reconheciam esse fato.

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