A Queda dos Primeiros Homens Os Últimos e os Primeiros Homens · Capítulo 5 de 16
Obra Menu

A Queda dos Primeiros Homens

V

A Queda dos Primeiros Homens

I

A Primeira Idade das Trevas

Chegamos a um período da história humana situado pouco menos de cinco mil anos depois da vida de Newton. Neste capítulo devemos cobrir cerca de cento e quinze mil anos, e no capítulo seguinte outros dez milhões de anos. Isso nos levará a um ponto tão remotamente futuro em relação ao Primeiro Estado Mundial quanto os primeiros antropoides eram remotamente passados. Durante o primeiro décimo do primeiro milhão de anos após a queda do Estado Mundial, durante cem mil anos, a humanidade permaneceu em eclipse completo. Somente ao fim desse intervalo, que chamaremos Primeira Idade das Trevas, ela lutou uma vez mais para sair da selvageria, atravessar a barbárie e chegar à civilização. E então seu renascimento foi relativamente breve. De seus primeiros começos até o fim, cobriu apenas quinze mil anos; e, em sua agonia final, o planeta foi tão seriamente danificado que a mente dali em diante jazeria em sono profundo por mais dez milhões de anos. Essa foi a Segunda Idade das Trevas. Tal é o campo que devemos observar neste capítulo e no seguinte.

Poder-se-ia esperar que, depois da queda do Primeiro Estado Mundial, a recuperação ocorresse dentro de poucas gerações. Historiadores, de fato, muitas vezes se perguntaram qual a causa dessa degradação surpreendentemente completa e duradoura. A natureza humana inata era mais ou menos a mesma imediatamente depois e imediatamente antes da crise; contudo, mentes que haviam mantido facilmente em existência uma civilização mundial se mostraram inteiramente incapazes de construir uma nova ordem sobre as ruínas da antiga. Longe de recuperar-se, a condição humana deteriorou-se rapidamente até afundar numa selvageria abjeta.

Muitas causas contribuíram para esse resultado, algumas relativamente superficiais e temporárias, outras profundas e duradouras. É como se o Destino, dirigindo os acontecimentos rumo a um fim designado, se houvesse servido de muitos instrumentos diversos, nenhum dos quais teria bastado sozinho, embora todos trabalhassem juntos irresistivelmente no mesmo sentido. A causa imediata do desamparo da espécie durante a crise efetiva do Estado Mundial foi, naturalmente, a vasta epidemia de insanidade e a deterioração ainda mais disseminada da inteligência, resultantes do uso de micróbios. Esse ataque momentâneo tornou impossível à humanidade deter sua queda no estágio inicial e menos ingovernável. Mais tarde, quando a epidemia se esgotou, embora a civilização já estivesse em ruínas, um esforço conjunto de devoção ainda poderia tê-la reconstruído em plano mais modesto. Mas, entre os Primeiros Homens, apenas uma minoria fora capaz de devoção inteira. A grande maioria era, por natureza, ocupada demais por impulsos privados. E, nesse período escuro, era tal a profundidade da desilusão e da fadiga que até a resolução normal se tornara impossível. Não apenas a estrutura social humana parecia ter falhado, mas a própria estrutura do universo. A única reação foi um desespero inerte. Quatro mil anos de rotina haviam privado a natureza humana de toda elasticidade. Esperar que esses seres refizessem todo o seu comportamento seria quase tão irracional quanto esperar que formigas, quando seu formigueiro fosse inundado, assumissem os hábitos dos besouros-d’água.

Mas uma causa muito mais profunda e duradoura condenou os Primeiros Homens a jazer prostrados por longo tempo depois de sua queda. Uma sutil mudança fisiológica, que é tentador chamar “senescência geral da espécie”, minava o corpo e a mente humanos. O equilíbrio químico de cada indivíduo se tornava mais instável, de modo que, pouco a pouco, o dom singular da humanidade, sua juventude prolongada, ia-se perdendo. Muito mais rapidamente que antes, seus tecidos deixavam de compensar o desgaste da vida. Esse desastre não era de modo algum inevitável; foi provocado por influências peculiares à constituição da espécie e agravado artificialmente. Pois durante alguns milhares de anos a humanidade vivera sob pressão excessiva, em ambiente biologicamente antinatural, e não encontrara meio de compensar sua natureza pela tensão imposta a ela.

Concebei, então, que depois da queda do Primeiro Estado Mundial as gerações deslizaram rapidamente pelo crepúsculo até a noite. Habitar aqueles séculos era viver sob a convicção de uma decadência universal e sob a lenda de um passado poderoso. A população derivava quase inteiramente dos agricultores da velha ordem, e, como a agricultura fora considerada ocupação lenta e baixa, própria apenas de naturezas lentas, o planeta estava agora povoado de rústicos. Privados de energia, maquinaria e fertilizantes químicos, esses camponeses mal conseguiam manter-se vivos. E de fato apenas um décimo de seu número sobreviveu ao grande desastre. A segunda geração conheceu a civilização apenas como lenda. Seus dias eram ocupados por cultivo incessante e por alianças para combater saqueadores. As mulheres voltaram a ser bens sexuais e domésticos. A família, ou tribo de famílias, tornou-se o maior todo social. Brigas e feudos intermináveis surgiram entre vale e vale, e entre os cultivadores e os enxames de salteadores. Pequenos tiranos militares se erguiam e caíam; mas nenhuma unidade permanente de controle podia ser mantida sobre região ampla. Não havia riqueza excedente para gastar em luxos como governos e exércitos treinados.

Assim, sem mudança apreciável, os milênios se arrastaram em labuta esquálida. Pois esses bárbaros tardios estavam entravados por viverem num planeta usado. O carvão e o petróleo haviam desaparecido, e quase nenhuma riqueza mineral de qualquer espécie permanecia ao alcance de seus instrumentos e engenhos frágeis. Em particular, os metais menores, necessários a tantas das atividades multifárias de uma civilização material desenvolvida, há muito haviam desaparecido das profundidades mais acessíveis da crosta terrestre. Além disso, o cultivo era dificultado pelo fato de que o próprio ferro, que já não podia ser obtido sem mineração mecânica, estava agora inacessível. Os homens tinham sido forçados a recorrer outra vez a instrumentos de pedra, como haviam feito seus primeiros ancestrais humanos. Mas faltavam-lhes tanto a habilidade quanto a persistência dos antigos. Nada tinham da delicada lascagem dos paleolíticos, nem da simetria polida dos neolíticos. Suas ferramentas eram apenas seixos quebrados, melhoramentos lascados de pedras naturais. Em quase cada uma gravavam o mesmo símbolo patético, a suástica ou cruz, que fora usada pelos Primeiros Homens como emblema sagrado ao longo de toda a sua existência, embora com significados variáveis. Neste caso, originalmente, ela fora a figura de um aeroplano mergulhando para a destruição, e fora usada pelos rebeldes para simbolizar a queda de Gordelpus e do Estado. Mas gerações posteriores reinterpretaram o emblema como assinatura de um ancestral divino e como lembrança da idade de ouro da qual estavam destinados a declinar para sempre, ou até que os deuses interviessem. Quase se poderia dizer que, em seu uso persistente desse símbolo, a primeira espécie humana condensava sem saber a própria natureza dupla e autocontrária.

A ideia de decadência irresistível obcecava a espécie nessa época. A geração que provocara a queda do Estado Mundial oprimia os mais jovens com histórias de amenidades e maravilhas passadas, e trazia consigo a certeza de que os moços não tinham engenho para reconstruir tal complexidade. Geração após geração, à medida que as circunstâncias da vida real se tornavam mais esquálidas, a lenda da glória passada se tornava mais extravagante. Toda a massa do conhecimento científico se perdeu rapidamente, salvo por alguns fiapos de utilidade prática mesmo na vida selvagem. Fragmentos da velha cultura foram de fato preservados no emaranhado de folclore que enredava o globo, mas ficaram distorcidos além do reconhecimento. Assim, difundiu-se a crença de que o mundo começara como fogo e que a vida evoluíra do fogo. Depois que os símios apareceram, a evolução cessou, assim se dizia, até que espíritos divinos desceram e possuíram as fêmeas dos símios, gerando dessa maneira seres humanos. Assim surgira a idade de ouro dos ancestrais divinos. Infelizmente, depois de algum tempo, a besta no humano triunfara sobre o deus, de modo que o progresso dera lugar à decadência de eras. E, de fato, a decadência era agora inevitável, até o tempo em que os deuses julgassem oportuno descer para coabitar com mulheres e incendiar uma vez mais a espécie. Essa fé na segunda vinda dos deuses persistiu aqui e ali durante toda a Primeira Idade das Trevas, e consolou os humanos em sua vaga convicção de degenerescência.

Mesmo ao fim da Primeira Idade das Trevas, as ruínas dos antigos pilones residenciais ainda caracterizavam todas as paisagens, muitas vezes com efeito de domínio senil sobre as choças dos selvagens tardios. Pois os povos vivos habitavam sob essas relíquias como netos franzinos brincando aos pés dos pais outrora mais poderosos de seus pais. Tão bem o passado construíra, e com materiais tão duráveis, que, mesmo depois de cem milênios, as ruínas ainda eram reconhecivelmente artefatos. Embora em sua maior parte já fossem, é claro, pouco mais que pirâmides de destroços cobertos de grama e mato, a maioria conservava algum trecho de parede em pé, e aqui e ali um espécime favorecido ainda erguia de sua base entulhada de escombros cerca de cem pés de penhasco, perfurado por janelas. Lendas fantásticas se agrupavam agora ao redor dessas relíquias. Num mito, os homens antigos haviam feito para si palácios enormes que podiam voar. Durante mil anos, um éon para esses selvagens, os homens haviam vivido em unidade e reverência aos deuses; mas afinal se tinham inflado com a própria glória e empreendido voar até o sol e a lua e o campo das estrelas, para expulsar os deuses de sua morada luminosa. Mas os deuses semearam discórdia entre eles, de modo que caíram a combater uns aos outros no ar superior, e seus palácios velozes despencaram à terra aos milhares, para serem monumentos da loucura humana para sempre. Em outra saga, eram os próprios homens que tinham asas. Habitavam pombais de alvenaria, com cimos que ultrapassavam as estrelas e ultrajavam os deuses; que por isso os destruíram. Assim, de uma forma ou de outra, esse tema da queda dos poderosos voadores de outrora tiranizava esses povos abjetos. Seu cultivo rudimentar, sua caça, sua defesa contra os carnívoros reviventes, eram a cada passo entravados pelo medo de ofender os deuses por alguma inovação.

II

A Ascensão da Patagônia

À medida que os séculos se acumulavam, a espécie humana inevitavelmente divergiu outra vez em muitas linhagens nas várias áreas geográficas. E cada linhagem consistia em um enxame de tribos, cada uma ignorante de tudo salvo seus vizinhos imediatos. Depois de muitos milênios, essa vasta diversificação de estoques e culturas tornou possíveis novas transfusões e revivificações biológicas. Por fim, depois de muitas cruzamentos entre linhagens, surgiu um povo em que a antiga dignidade da humanidade foi em parte restaurada. Mais uma vez houve distinção real entre as regiões progressivas e as atrasadas, entre culturas “primitivas” e relativamente esclarecidas.

Esse renascimento ocorreu no hemisfério sul. Mudanças climáticas complexas haviam tornado a parte meridional da América do Sul um berçário adequado para a civilização. Além disso, um imenso encurvamento da crosta terrestre a leste e a sul da Patagônia transformara uma região antes relativamente rasa do oceano numa vasta terra nova, ligando a América à Antártida pelo caminho das antigas Ilhas Malvinas e da Geórgia do Sul, e estendendo-se dali para leste e nordeste até o coração do Atlântico.

Ocorreu também que, na América do Sul, as condições populacionais eram mais favoráveis que em outras partes. Depois da queda do Primeiro Estado Mundial, o elemento europeu nessa região diminuíra, e o antigo estoque “índio” e peruano conquistara predominância. Muitos milhares de anos antes, esse povo havia alcançado uma civilização primitiva própria. Depois de sua ruína pelas mãos dos espanhóis, parecera algo quebrado e negligenciável; contudo, sempre se mantivera curiosamente alheia em espírito a seus conquistadores. Embora os dois estoques se tivessem misturado de modo inextricável, permaneceu sempre, nas partes mais remotas desse continente, um modo de vida estranho ao americanismo dominante. Superficialmente americanizado, continuou fundamentalmente “índio” e ininteligível ao resto do mundo. Durante toda a civilização anterior, esse espírito jazeu adormecido como semente no inverno; mas, com o retorno da barbárie, germinou e se espalhou silenciosamente em todas as direções. Da interação dessa antiga cultura primitiva com os muitos outros elementos populacionais deixados no continente pela velha civilização cosmopolita, a vida civil deveria começar uma vez mais. Assim, de certo modo, os incas enfim triunfariam sobre seus conquistadores.

Diversas causas, portanto, se combinaram na América do Sul, e especialmente nas planícies novas e virgens da Patagônia, para pôr fim à Primeira Idade das Trevas. O grande tema da mente começou a repetir-se. Mas em tonalidade menor. Pois uma grave incapacidade entravava os patagônios. Começavam a envelhecer antes que sua adolescência estivesse completa. Nos dias de Einstein, a juventude de um indivíduo durava cerca de vinte e cinco anos, e sob o Estado Mundial fora artificialmente duplicada. Depois da queda da civilização, a crescente brevidade natural da vida individual já não era disfarçada por artifício, e, ao fim da Primeira Idade das Trevas, um rapaz de quinze anos já entrava na meia-idade. A civilização patagônia em seu auge ofereceu considerável facilidade e segurança de vida, e permitiu aos humanos viver até setenta ou mesmo oitenta anos; mas o período de juventude sensível e flexível continuou, no melhor dos casos, pouco mais que uma década e meia. Assim, os verdadeiramente jovens jamais conseguiam contribuir para a cultura antes de já estarem, no íntimo, na meia-idade. Aos quinze, seus ossos começavam decididamente a tornar-se quebradiços, seus cabelos grisalhos, seus rostos sulcados. Suas articulações e músculos endureciam, seus cérebros já não eram rápidos para aprender novos ajustamentos, seu fervor evaporava.

Pode parecer estranho que, nessas circunstâncias, qualquer espécie de civilização pudesse ser alcançada pela espécie, que qualquer geração pudesse jamais fazer mais que aprender os truques de seus mais velhos. Contudo, de fato, embora o progresso nunca fosse veloz, era firme. Pois, embora faltasse a esses seres muito do vigor da juventude, eram de algum modo compensados por escapar de muitas febres e distrações da juventude. Os Primeiros Homens eram agora, na verdade, uma espécie que já havia semeado suas loucuras juvenis; e, embora suas escapadas de juventude os houvessem mutilado um tanto, tinham agora a vantagem da sobriedade e da unidade de propósito. Embora condenados pela lassidão e por certo medo da extravagância a ficar aquém das realizações mais altas de seus predecessores, evitaram muito da incoerência desperdiçadora e do conflito mental que haviam torturado a civilização anterior em seu auge, embora não em seu declínio. Além disso, como sua natureza animal estava um tanto subjugada, os patagônios eram mais capazes de conhecimento desapaixonado e mais inclinados ao intelectualismo. Eram um povo em que o comportamento racional era menos frequentemente subvertido pela paixão, embora mais sujeito a falhar por simples indolência ou pusilanimidade. Embora achassem o desprendimento relativamente fácil, o deles era o desprendimento da mera lassidão, não o salto da prisão dos anseios da vida para um mundo mais espaçoso.

Uma fonte do caráter especial da mente patagônia era a relativa fraqueza nela do impulso sexual. Muitas causas obscuras haviam ajudado a temperar aquela sexualidade pródiga em relação à qual a primeira espécie humana diferia de todos os outros animais, mesmo dos símios continuamente sexuais. Essas causas eram diversas, mas se combinaram para produzir, na última fase da vida da espécie, um encurtamento geral do excesso de energia. Nas Idades das Trevas, a severidade da luta pela existência havia empurrado o interesse sexual de volta para quase o lugar subordinado que ele ocupa na mente animal. O coito tornou-se um luxo apenas ocasionalmente desejado, enquanto a autopreservação voltara a ser uma necessidade urgente e sempre presente. Quando, afinal, a vida começou a tornar-se mais fácil, a sexualidade permaneceu em eclipse parcial, pois as forças da “senescência” da espécie estavam em ação. Assim, a cultura patagônia diferia em disposição de todas as culturas anteriores dos Primeiros Homens. Até então, fora o choque entre sexualidade e tabu social que gerara metade do fervor e metade das ilusões da espécie. O excesso de energia de uma espécie vitoriosa, dirigido pelas circunstâncias para o grande rio do sexo e represado pela convenção social, fora canalizado para mil trabalhos. E, embora muitas vezes se soltasse e devastasse tudo diante de si, em geral fora bem aproveitado. Em todos os tempos, de fato, tivera propensão a escapar em todas as direções e abrir canais para si, como um tronco podado lança não um, mas vinte brotos. Daí a riqueza, a diversidade, a incoerência, os anseios e entusiasmos violentos e incompreendidos dos povos anteriores. Nos patagônios não havia tal luxúria de vida. O fato de não serem altamente sexuais não era em si uma fraqueza. O que importava era que as fontes de energia que antes por acaso inundavam o canal do sexo estavam elas mesmas empobrecidas.

Concebei, então, um povo pequeno e curiosamente sóbrio estabelecido a leste da antiga Bahia Blanca, avançando século após século pelas planícies e subindo os vales. Com o tempo, alcançou e circundou as alturas que foram um dia a ilha da Geórgia do Sul, enquanto ao norte e ao oeste se espalhou pelos planaltos brasileiros e pelos Andes. Decididamente de tipo mais elevado que qualquer um de seus vizinhos, decididamente mais vigorosos e agudos, os patagônios não tinham rivais sérios. E, como por temperamento eram pacíficos e conciliadores, seu progresso cultural pouco se retardou, seja por imperialismo militar, seja por conflito interno. Como seus predecessores no hemisfério norte, atravessaram fases de ruptura e união, retrocesso e regeneração; mas sua carreira foi no conjunto mais firmemente progressiva e menos dramática que qualquer coisa ocorrida antes. Povos anteriores haviam saltado da barbárie à vida civil e colapsado outra vez dentro de mil anos. A marcha lenta dos patagônios levou dez vezes esse tempo para passar da organização tribal à organização cívica.

Por fim, compreendiam uma comunidade vasta e altamente organizada de províncias autônomas, cujo centro político e cultural ficava na nova costa a nordeste das antigas Ilhas Malvinas, enquanto seus arredores bárbaros incluíam muito do Brasil e do Peru. A ausência de conflito sério entre as várias partes desse “império” se devia em parte a uma disposição inatamente pacífica, em parte a um gênio de organização. Essas influências eram reforçadas por uma tradição curiosamente potente de cosmopolitismo, ou unidade humana, nascida na agonia da desunião antes dos dias do Estado Mundial, e tão queimada no coração humano que sobreviveu como elemento de mito mesmo através da Idade das Trevas. Tão poderosa era essa tradição que, mesmo quando os navios de vela da Patagônia fundaram colônias na distante África e na Austrália, essas novas comunidades permaneceram no fundo uma só com a mãe-pátria. Mesmo quando a cultura quase nórdica das novas e temperadas costas antárticas ofuscou o centro antigo, a harmonia política desse povo nunca esteve em perigo.

III

O Culto da Juventude

Os patagônios atravessaram todas as fases espirituais que povos anteriores haviam experimentado, mas de maneira distintiva. Tiveram sua religião tribal primitiva, derivada do passado escuro e baseada no medo das forças naturais. Tiveram sua personificação monoteísta do Poder como Criador vingativo. Seu herói coletivo mais adorado era um humano-deus que abolira a antiga religião do medo. Tiveram também suas fases de ritual devoto, suas fases de racionalismo e, de novo, suas fases de curiosidade empírica.

O mais significativo, para o historiador que deseje compreender sua mentalidade especial, é o tema do humano-deus; tão curiosamente ele se assemelhava, e ao mesmo tempo diferia, de temas semelhantes nas culturas anteriores da primeira espécie humana. Era concebido como eternamente adolescente, e misticamente como filho de todos os homens e mulheres. Longe de ser o Irmão Mais Velho, era o Filho Predileto; e, de fato, condensava aquela energia e entusiasmo juvenis que a espécie agora intuía estar perdendo. Embora o interesse sexual desse povo fosse fraco, o interesse parental era curiosamente forte. Mas o culto do Filho Predileto não era meramente parental; expressava também o anseio do indivíduo por sua própria juventude perdida e seu sentimento obscuro de que a própria raça era senescente.

Acreditava-se que o profeta vivera de fato um século como adolescente fresco. Era designado o Menino que Recusou Crescer. E esse vigor de vontade lhe era possível, dizia-se, porque nele a débil vitalidade da espécie estava concentrada muitos milhões de vezes. Pois ele era o fruto de toda paixão parental que havia existido e viria a existir; e, como tal, era divino. Primariamente era o Filho do Homem, mas também era Deus. Pois Deus, nessa religião, não era um Criador primordial, mas o fruto do esforço humano. O Criador era força bruta, que inadvertidamente gerara um ser mais nobre que si mesma. Deus, o adorável, era o resultado eterno do trabalho humano no tempo, a promessa eternamente realizada daquilo que a própria humanidade deveria tornar-se. Contudo, embora esse culto se baseasse na vontade de um futuro jovem de coração, era também encoberto por um temor, quase às vezes uma certeza, de que na verdade tal futuro jamais seria, de que a espécie estava condenada a envelhecer e morrer, de que o espírito jamais poderia conquistar a carne corruptível, mas deveria enfraquecer e desaparecer. Somente acolhendo no coração a mensagem do Menino Divino, dizia-se, poderia o humano esperar escapar desse destino.

Tal era a lenda. É instrutivo examinar a realidade. O indivíduo efetivo em que se fundou esse mito do Filho Predileto foi de fato notável. Nascido de pais pastores nos Andes meridionais, tornou-se famoso primeiro como líder de um romântico “movimento da juventude”; e foi esse estágio inicial de sua carreira que lhe conquistou seguidores. Exortava os jovens a dar exemplo aos velhos, a viver a própria vida sem se intimidar pelas convenções, a gozar, a trabalhar com dureza, mas brevemente, a serem camaradas leais. Acima de tudo, pregava o dever religioso de permanecer jovem em espírito. Ninguém, dizia ele, precisava envelhecer, se quisesse ardentemente não fazê-lo, se apenas mantivesse a alma desperta, o coração aberto a todas as influências rejuvenescedoras e fechado a todo sopro de senilidade. O deleite da alma na alma, dizia, era o grande rejuvenescedor; recriava tanto o amante quanto o amado. Se os patagônios apenas apreciassem a beleza uns dos outros sem ciúme, a espécie voltaria a ser jovem. E a missão de sua sempre crescente Companhia da Juventude era nada menos que o rejuvenescimento humano.

A propagação desse evangelho atraente foi favorecida por um aparente milagre. O profeta revelou-se biologicamente único entre os patagônios. Quando muitos de seus coevos já mostravam sinais de senescência, ele permanecia fisicamente jovem. Também possuía um vigor sexual que aos patagônios parecia milagroso. E, como o tabu sexual era desconhecido, exercitou-se tão vigorosamente no amor que tinha amantes em toda aldeia, e logo seus filhos se contavam às centenas. Nesse aspecto, seus seguidores se esforçaram muito para viver à altura dele, embora com pouco sucesso. Mas o profeta permaneceu jovem não apenas fisicamente. Conservou também uma agilidade mental notavelmente juvenil. Sua prodigalidade sexual, embora espantosa para seus contemporâneos, era nele transbordamento temperado de energia excedente. Longe de esgotá-lo, renovava-o. Pouco depois, porém, essa exuberância deu lugar a uma vida mais sóbria de trabalho e meditação. Foi nesse período que começou a diferenciar-se mentalmente de seus semelhantes. Pois aos vinte e cinco anos, quando a maioria dos patagônios já se assentara profundamente num sulco mental, ele ainda combatia sucessivas ondas de ideias e avançava para o desconhecido. Somente aos quarenta, ainda fisicamente no primeiro florescimento, reuniu forças e deu à luz seu evangelho maduro. Essa sua visão refletida da existência revelou-se quase ininteligível para os patagônios. Embora, em certo sentido, fosse expressão de sua própria cultura, era expressão num plano de vitalidade que muito poucos deles jamais poderiam alcançar.

O clímax veio quando, durante uma cerimônia no templo supremo da capital, enquanto os adoradores estavam todos prostrados diante da imagem hedionda do Criador, o profeta sem idade caminhou até o altar, olhou primeiro para a congregação e depois para o deus, explodiu numa risada sonora, deu na imagem uma palmada ressoante e gritou: “Feio, eu te saúdo! Não como todo-poderoso, mas como o maior de todos os brincalhões. Ter tal rosto e, mesmo assim, ser admirado por ele! Ser tão vazio e, mesmo assim, tão temido!” Imediatamente houve tumulto. Mas eram tais o brilho divino do jovem iconoclasta, sua confiança, sua inesperação, e tal sua reputação como Menino miraculoso, que, quando se voltou para a multidão, todos silenciaram e ouviram sua repreensão.

“Tolos!”, gritou. “Infantes senis! Se Deus realmente gosta de vossa adulação e de toda essa confusão furtiva, é porque se diverte com a piada contra vós, e contra ele mesmo também. Sois sérios demais, e ao mesmo tempo não sois bastante sérios; solenes demais, e tudo por fins pueris. Tendes tanta avidez pela vida que não conseguis viver. Estimais tanto a juventude que ela vos escapa. Quando eu era menino, disse: ‘Conservemo-nos jovens’; e vós aplaudistes, e saístes por aí abraçando vossos brinquedos e recusando crescer. O que eu disse não era mau para um menino, mas não bastava. Agora sou homem; e digo: ‘Por amor de Deus, crescei!’ Claro que devemos permanecer jovens; mas é inútil permanecer jovem se não crescemos também, e se não continuamos sempre a crescer. Permanecer jovem, sem dúvida, é apenas conservar-se flexível e agudo; e crescer não é de modo algum mero afundar na rigidez e na desilusão, mas uma ascensão a uma habilidade cada vez mais fina em todas as ações do jogo da vida. Há ainda outra coisa que faz parte de crescer: ver que a vida é realmente, afinal, um jogo; um jogo terrivelmente sério, sem dúvida, mas ainda assim um jogo. Quando jogamos um jogo como ele deve ser jogado, esticamos cada músculo para vencer; mas durante todo o tempo estamos menos a favor da vitória que do jogo. E jogamos melhor por isso. Quando bárbaros jogam contra uma equipe patagônia, esquecem que é jogo e enlouquecem pela vitória. E então como os desprezamos! Se se veem perdendo, tornam-se selvagens; se vencendo, berrantes. De qualquer modo, o jogo é assassinado, e eles não conseguem ver que estão abatendo uma coisa adorável. E como importunam e amaldiçoam o árbitro! Eu mesmo já fiz isso, é claro, antes de agora; não em jogos, mas na vida. Cheguei a amaldiçoar o árbitro da vida. Melhor assim, de todo modo, que insultá-lo com presentes, na esperança de ser favorecido; que é o que fazeis aqui, com vossas reverências e vossos votos. Eu nunca fiz isso. Apenas o odiei. Depois aprendi a rir dele, ou melhor, da coisa que colocais em seu lugar. Mas agora enfim o vejo claramente, e rio com ele, de mim mesmo, por haver perdido o espírito do jogo. Quanto a vós! Vindes aqui rastejar, choramingar e mendigar favores ao árbitro!”

Nesse ponto, o povo correu para agarrá-lo. Mas ele os conteve com uma risada jovem que os fez amar enquanto odiavam. Falou de novo.

“Quero contar-vos como aprendi minha lição. Tenho um amor estranho por trepar pelas altas montanhas; e certa vez, quando eu estava entre os campos de neve e os precipícios do Aconcágua, fui apanhado por uma nevasca. Talvez alguns de vós saibam como são as tempestades nas montanhas. O ar se tornou uma torrente impetuosa de neve. Fui engolido e carregado. Depois de muitas horas a debater-me, caí num monte de neve. Tentei levantar-me, mas caí de novo e de novo, até que minha cabeça ficou enterrada. A ideia da morte me enfureceu, pois ainda havia tanto que eu queria fazer. Lutei freneticamente, em vão. Então subitamente — como posso dizê-lo? — vi o jogo que estava perdendo, e ele era bom. Bom, tanto perder quanto vencer. Pois era o jogo, agora, e não a vitória, que importava. Até então eu estivera vendado e escravo da vitória; subitamente estava livre, e com visão. Pois agora via a mim mesmo, e a todos nós, pelos olhos do árbitro. Era como se um ator visse a peça inteira, com seu próprio papel dentro dela, pelos olhos do autor, a partir da plateia. Ali estava eu, representando o papel de um homem bastante excelente que se dera mal por sua própria negligência antes que seu trabalho estivesse feito. Para mim, personagem da peça, a situação era hedionda; mas para mim, espectador, tornara-se excelente dentro de uma excelência mais ampla. Vi que assim era igualmente conosco todos, e com todos os mundos. Pois me pareceu ver mil mundos participando conosco do grande espetáculo. E vi tudo pelos olhos calmos, exultantes, quase zombeteiros, embora não cruéis, do dramaturgo.

“Bem, pareceu que minha saída chegara; mas não, ainda havia uma deixa para mim. De algum modo, fui tão fortalecido por essa nova visão das coisas que lutei para sair do monte de neve. E aqui estou outra vez. Mas sou um novo homem. Meu espírito está livre. Quando eu era menino, disse: ‘Tornai-vos mais vivos’; mas naqueles dias eu nem suspeitava que havia uma vivacidade muito mais intensa que a cintilação da juventude, uma espécie de incandescência imóvel. Não há aqui ninguém que saiba o que quero dizer? Ninguém que ao menos deseje essa vida mais aguda? O primeiro passo é superar essa adulação da própria vida, e essa obsequiosidade mendicante diante do Poder. Vinde! Afastai-a! Quebrai a imagem ridícula em vossos corações, como agora esmago este ídolo.”

Assim dizendo, apanhou um grande castiçal e despedaçou a imagem. Outra vez houve tumulto, e as autoridades do templo mandaram prendê-lo. Pouco depois foi julgado por sacrilégio e executado. Pois essa extravagância final era apenas o clímax de muitas indiscrições, e aqueles no poder ficaram satisfeitos por ter pretexto tão óbvio para extinguir esse lunático brilhante, porém perigoso.

Mas o culto do Menino Divino já se tornara muito popular, pois o ensinamento anterior do profeta exprimia o anseio fundamental dos patagônios. Até sua última e perplexa mensagem foi aceita pelos seguidores, embora sem compreensão real. A ênfase foi posta no ato de iconoclasmo, mais que no espírito de sua exortação.

Século após século, a nova religião, pois era isso que ela era, espalhou-se pelo mundo civilizado. E a espécie pareceu espiritualmente rejuvenescida em certa medida pelo fervor disseminado. Fisicamente também ocorreu certo rejuvenescimento; pois, antes de morrer, esse “desvio” biológico único, ou retorno a uma vitalidade anterior, produziu alguns milhares de filhos e filhas; e estes por sua vez espalharam a boa semente por toda parte. Sem dúvida foi essa nova estirpe que produziu a idade de ouro da Patagônia, melhorando muito as condições materiais da espécie, levando a civilização aos continentes do norte e atacando problemas de ciência e filosofia com ardor renovado.

Mas o renascimento não foi permanente. Os descendentes do profeta se orgulhavam demais de viver violentamente. Física, sexual e mentalmente, ultrapassaram seus limites e enfraqueceram. Além disso, pouco a pouco, a poderosa estirpe foi diluída e dominada pelo intercurso com o volume maior dos inatamente “senis”; de modo que, depois de alguns séculos, a espécie retornou ao seu estado de espírito de meia-idade. Ao mesmo tempo, a visão do Menino Divino foi gradualmente distorcida. No princípio fora o ideal da juventude sobre o que a juventude deveria ser, um padrão tecido de lealdade fanática, alegria irresponsável, camaradagem, gosto físico e não pouca pura diabrura. Mas insensivelmente tornou-se um padrão daquilo que a maturidade triste esperava da juventude. O jovem herói violento foi sentimentalizado na visão madura da infância, ingênua e dócil. Tudo que havia sido violento foi esquecido; e o que restou tornou-se estímulo caprichoso e apelativo aos impulsos parentais. Ao mesmo tempo, creditou-se a esse fantasma toda a sobriedade e cautela tão facilmente apreciadas pelos maduros.

Inevitavelmente, essa imagem distorcida da juventude tornou-se um íncubo sobre os jovens homens e mulheres reais da espécie. Era erguida como modelo de virtude social; mas era um modelo ao qual jamais podiam conformar-se sem violentar sua melhor natureza, já que não era mais expressão da juventude. Assim como, numa era anterior, a mulher fora idealizada e ao mesmo tempo manietada, agora o mesmo acontecia à juventude.

Alguns poucos, de fato, ao longo da história da Patagônia, alcançaram visão mais clara do profeta. Menos ainda foram capazes de penetrar no espírito de sua mensagem final, na qual sua juventude duradoura o elevava a uma maturidade estranha à Patagônia. Pois a tragédia desse povo não era tanto sua “senescência” quanto seu crescimento detido. Sentindo-se velhos, ansiavam por voltar a ser jovens. Mas, pela imaturidade fixa da mente, jamais conseguiam reconhecer que a verdadeira realização, embora inesperada, do anseio apaixonado da juventude não é a simples conquista dos fins da própria juventude, mas o avanço para uma vitalidade mais desperta e mais previdente.

IV

A Catástrofe

Foi nesses últimos dias que os patagônios descobriram a civilização que os precedera. Ao rejeitar a antiga religião do medo, haviam abandonado também a lenda de uma magnificência remota e passaram a considerar-se pioneiros da mente. No novo continente que era sua terra natal, naturalmente não havia relíquias da antiga ordem; e as ruínas que salpicavam as regiões mais velhas tinham sido explicadas como meras esquisitices da natureza. Mas ultimamente, com o avanço do conhecimento natural, os arqueólogos haviam reconstruído algo do mundo esquecido. E a crise veio quando, no porão de um pilone despedaçado na China, encontraram um depósito de placas metálicas, construídas de um elemento artificial imensamente durável, sobre as quais estavam gravadas em relevo linhas densas de escrita. Esses objetos eram, na verdade, blocos dos quais se imprimiam livros cem mil anos antes. Outros depósitos logo foram descobertos, e, pouco a pouco, a língua morta foi decifrada. Dentro de três séculos, o contorno da antiga cultura foi exposto; e logo toda a história da ascensão e ruína da humanidade caiu sobre essa civilização tardia com efeito esmagador, como se um antigo pilone houvesse desabado sobre uma aldeia de cabanas a seus pés. Os pioneiros descobriram que todo o terreno tão penosamente conquistado do selvagem havia sido conquistado muito antes, e perdido; que, no plano material, sua glória nada era diante da glória do passado; e que, na esfera da mente, haviam estabelecido apenas alguns assentamentos dispersos onde antes houvera um império. O sistema patagônio de conhecimento natural mal avançara além do da Europa pré-newtoniana. Eles haviam feito pouco mais que conceber o espírito científico e desaprender algumas superstições. E agora, subitamente, entravam numa vasta herança de pensamento.

Isso por si só foi uma experiência gravemente perturbadora para um povo de forte interesse intelectual. Mas ainda mais esmagadora foi a descoberta, imposta a eles no curso de suas pesquisas, de que o passado fora não apenas brilhante, mas louco, e que, no longo prazo, o elemento louco triunfara por completo. Pois a mente patagônia era agora sã e empírica demais para aceitar o antigo conhecimento sem testá-lo. As descobertas dos arqueólogos foram entregues aos físicos e a outros cientistas, e o pensamento firme e a valoração da Europa e da América em seu zênite foram logo distinguidos dos produtos degenerados do Estado Mundial.

O resultado desse impacto com uma civilização mais desenvolvida foi dramático e trágico. Dividiu os patagônios em lealistas e rebeldes, entre aqueles que se agarravam à ideia de que o novo saber era uma mentira satânica e aqueles que encaravam os fatos. Para o primeiro partido, os fatos eram profundamente deprimentes; o segundo, embora intimidado, encontrou neles uma majestade irresistível, e também uma esperança. Que a Terra fosse um grão de poeira entre as nuvens de estrelas era a menos subversiva das novas doutrinas, pois os patagônios já haviam abandonado a visão geocêntrica. O que tanto afligia os reacionários era a teoria de que uma espécie anterior possuíra e gastara havia muito a vitalidade que eles próprios tanto desejavam. O partido do progresso, por outro lado, insistia que esse vasto novo conhecimento deveria ser usado; e que, assim equipada, a Patagônia poderia compensar a falta de juventude por uma sanidade superior.

Essa divergência de vontade resultou em um conflito físico como jamais ocorrera no mundo patagônio. Surgiu algo semelhante ao nacionalismo. As costas antárticas, mais vigorosas, tornaram-se modernas, enquanto a própria Patagônia se agarrou à cultura mais antiga. Houve várias guerras, mas, à medida que a física e a química avançavam na Antártida, os sulistas foram capazes de conceber máquinas de guerra às quais os nortistas não podiam resistir. Em dois séculos, a nova “cultura” triunfara. O mundo estava unificado uma vez mais.

Até então, a civilização patagônia fora de tipo medieval. Sob a influência da física e da química, começou a mudar. O vento e a água passaram a ser usados para gerar eletricidade. Vastas operações de mineração foram empreendidas em busca dos metais e outros minerais que já não ocorriam em profundidades fáceis. A arquitetura começou a fazer uso do aço. Aeroplanos movidos por eletricidade foram fabricados, mas sem verdadeiro sucesso. E esse fracasso era sintomático; pois os patagônios não eram suficientemente temerários para dominar a aviação, mesmo que seus aviões tivessem sido mais eficientes. Eles próprios atribuíram seu fracasso inteiramente à falta de uma fonte conveniente de energia, como o antigo petróleo. De fato, essa falta de petróleo e carvão os entravava a cada passo. A energia vulcânica, naturalmente, estava disponível; mas, como nunca fora realmente dominada pelos antigos mais engenhosos, derrotou por completo os patagônios.

Na verdade, no vento e na água eles tinham tudo de que precisavam. Os recursos de todo o planeta estavam disponíveis, e a população mundial era inferior a cem milhões. Somente com essa fonte eles jamais poderiam, de fato, competir em luxo com o Estado Mundial anterior, mas poderiam muito bem ter alcançado algo semelhante à Utopia.

Mas assim não foi. O industrialismo, embora acompanhado apenas de lento aumento da população, produziu com o tempo a maior parte das discórdias sociais que quase haviam arruinado seus predecessores. A eles parecia que todos os seus problemas seriam resolvidos se seu poder material fosse muito mais amplo. Essa convicção forte e mal racional era sintoma de sua obsessão dominante, o anseio por vitalidade aumentada.

Nessas circunstâncias, era natural que um acontecimento e um fio da história antiga os fascinassem. O segredo do poder material ilimitado fora conhecido um dia e perdido. Por que os patagônios não poderiam redescobri-lo e usá-lo, com sua sanidade superior, para trazer o céu à Terra? Os antigos, sem dúvida, fizeram bem em renunciar a essa fonte perigosa de poder; mas os patagônios, equilibrados e de propósito único, nada tinham a temer. Alguns, de fato, consideravam menos importante buscar poder que encontrar um meio de deter a senescência biológica; mas, infelizmente, embora a ciência física houvesse avançado com rapidez, as ciências biológicas mais sutis continuaram atrasadas, em grande parte porque, entre os próprios antigos, pouco mais fora feito que preparar-lhes o caminho. Assim ocorreu que as mentes mais brilhantes da Patagônia, fascinadas pelo prêmio em jogo, se concentraram no problema da matéria. O Estado encorajou essa pesquisa fundando e dotando laboratórios cujo fim declarado era esse único trabalho.

O problema era difícil, e os cientistas patagônios, embora inteligentes, careciam um tanto de fibra. Somente depois de cerca de quinhentos anos de pesquisa intermitente o segredo foi descoberto, ou parcialmente descoberto. Verificou-se ser possível, por meio de um enorme gasto inicial de energia, aniquilar as cargas elétricas positivas e negativas em um tipo não muito comum de átomo. Mas essa limitação não importava em absoluto; a espécie humana possuía agora uma fonte inesgotável de poder, que podia ser facilmente manipulada e facilmente controlada. Mas, embora controlável, o novo dom não era à prova de tolos; e não havia garantia de que aqueles que o usassem não viessem a usá-lo tolamente, ou inadvertidamente o deixassem escapar ao controle.

Infelizmente, no tempo em que a nova fonte de energia foi descoberta, os patagônios estavam mais divididos que antes. O industrialismo, combinado à docilidade inata da espécie, produzira gradualmente uma cisão de classes mais extrema até que a do mundo antigo, embora uma cisão de tipo curiosamente diferente. A disposição fortemente parental do patagônio médio impedia a classe dominante de uma exploração brutal como a que ocorrera antes. Exceto durante o primeiro século do industrialismo, não havia sofrimento físico sério entre o proletariado. Um governo paternal cuidava para que todos os patagônios fossem ao menos devidamente alimentados e vestidos, e para que todos tivessem amplo lazer e oportunidades de diversão. Ao mesmo tempo, cuidava também para que a população se tornasse cada vez mais regimentada. Como no Primeiro Estado Mundial, a autoridade civil estava outra vez nas mãos de um pequeno grupo de mestres da indústria, mas com uma diferença. Antes, o motivo dominante do grande capital fora uma paixão quase mística pela criação de atividade; agora a minoria governante se considerava em relação à população em posição de tutela parental, e visava criar “um povo jovem de coração, simples, alegre, vigoroso e leal”. Seu ideal de Estado era algo entre uma escola preparatória sob uma equipe adulta simpática, mas estrita, e uma sociedade anônima, na qual os acionistas retinham apenas uma função: delegar seus poderes, agradecidos, a um conjunto de diretores brilhantes.

O fato de o sistema ter funcionado tão bem e sobrevivido tanto tempo devia-se não apenas à docilidade patagônia inata, mas também ao princípio pelo qual a classe governante se recrutava. Ao menos uma lição fora aprendida com o mau exemplo da civilização anterior: o respeito pela inteligência. Por um sistema de testes cuidadosos, as crianças mais brilhantes eram selecionadas em todas as classes e treinadas para governar. Até os filhos dos próprios governadores eram submetidos ao mesmo exame, e apenas os que se qualificavam eram enviados às “escolas para jovens governadores”. Sem dúvida alguma corrupção existia, mas no conjunto esse sistema funcionava. As crianças assim selecionadas eram cuidadosamente treinadas em teoria e prática, como organizadores, cientistas, sacerdotes e lógicos.

As crianças menos brilhantes desse povo eram educadas de modo muito diferente dos jovens governadores. Incutia-se nelas que eram menos capazes que as outras. Eram ensinadas a respeitar os governadores como seres superiores, chamados a servir à comunidade em trabalho especialmente habilidoso e árduo, simplesmente por causa de sua capacidade. Não seria verdadeiro dizer que os menos inteligentes eram educados meramente para ser escravos; esperava-se antes que fossem filhos e filhas dóceis, diligentes e felizes da pátria. Eram ensinados a ser leais e otimistas. Recebiam treinamento vocacional para suas várias ocupações e eram encorajados a usar a inteligência tanto quanto possível no plano adequado a ela; mas os assuntos do Estado e os problemas da religião e da ciência teórica eram estritamente proibidos. A doutrina oficial da beleza da juventude era fundamental em sua educação. Ensinavam-lhes todas as virtudes convencionais da juventude, e em particular modéstia e simplicidade. Como classe eram extremamente saudáveis, pois o treinamento físico era parte muito importante da educação na Patagônia. Além disso, a prática universal do banho de sol, que era rito religioso, era especialmente encorajada entre o proletariado, pois se acreditava que mantinha o corpo “jovem” e a mente plácida. O lazer da classe governada era dedicado sobretudo ao atletismo e a outros esportes, físicos e mentais. A música e outras formas de arte também eram praticadas, pois eram consideradas ocupações próprias de juvenis. O governo exercia censura sobre os produtos artísticos, mas raramente a aplicava; pois o povo comum da Patagônia era em geral fleumático e ocupado demais para conceber qualquer coisa além da arte mais óbvia e respeitável. Estavam plenamente ocupados com trabalho e prazer. Não sofriam restrições sexuais. Seus interesses impessoais eram satisfeitos pela religião oficial de culto à juventude e lealdade à comunidade. Essa condição plácida durou cerca de quatrocentos anos depois do primeiro século de industrialismo. Mas, com o passar do tempo, a diferença mental entre as duas classes aumentou. A inteligência superior tornou-se cada vez mais rara entre o proletariado; os governadores passaram a ser recrutados cada vez mais de seus próprios descendentes, até que enfim se tornaram uma casta hereditária. O abismo se alargou. Os governadores começaram a perder todo contato mental com os governados. Cometeram um erro que jamais poderia ter ocorrido se sua psicologia houvesse acompanhado suas outras ciências. Confrontados sempre com a falta de inteligência dos trabalhadores, passaram a tratá-los cada vez mais como crianças, e esqueceram que, embora simples, eram homens e mulheres adultos que precisavam sentir-se parceiros livres em um grande empreendimento humano. Antes, essa ilusão de responsabilidade fora cuidadosamente encorajada. Mas, à medida que o abismo se alargou, os proletários foram tratados mais como bebês que como adolescentes, mais como animais domésticos bem cuidados que como seres humanos. Suas vidas passaram a ser cada vez mais minuciosamente, embora benevolamente, sistematizadas para eles. Ao mesmo tempo, tomou-se menos cuidado em educá-los até uma compreensão e uma apreciação do empreendimento humano comum. Nessas circunstâncias, o temperamento do povo mudou. Embora sua condição material fosse melhor que qualquer coisa conhecida antes, salvo sob o primeiro Estado Mundial, tornaram-se apáticos, descontentes, travessos, ingratos para com seus superiores.

Tal era o estado de coisas quando a nova fonte de energia foi descoberta. A comunidade mundial consistia em dois elementos muito diferentes: primeiro, uma pequena casta altamente intelectual, apaixonadamente dedicada ao Estado e ao avanço da cultura entre seus próprios membros; segundo, uma população muito mais numerosa de industrialistas bastante obtusos, fisicamente bem cuidados e espiritualmente famintos. Um grave choque entre as duas classes já ocorrera em torno do uso de certa droga, favorecida pelo povo pela beatitude que produzia, proibida pelos governadores por seus maus efeitos posteriores. A droga foi abolida; mas o motivo foi mal interpretado pelo proletariado. Esse incidente trouxe à superfície um ódio que havia muito vinha ganhando força na mente popular, embora sem que ela o soubesse.

Quando se espalhou o rumor de que no futuro o poder mecânico seria ilimitado, o povo esperou um milênio. Todos teriam sua própria fonte ilimitada de energia. O trabalho cessaria. O prazer seria aumentado ao infinito. Infelizmente, o primeiro uso feito do novo poder foi a mineração extensa em profundidades inauditas, em busca de metais e outros minerais que há muito deixaram de estar disponíveis perto da superfície. Isso envolvia trabalho difícil e perigoso para os mineiros. Houve vítimas. Tumultos ocorreram. O novo poder foi usado contra os revoltosos com efeito assassino, os governadores declarando que, embora seus corações paternais sangrassem por seus filhos insensatos, esse castigo era necessário para impedir males piores. Os trabalhadores foram instados a enfrentar seus sofrimentos com aquele desprendimento que o Menino Divino pregara em sua fase final; mas esse conselho foi recebido com o escárnio que merecia. Outras greves, tumultos, assassinatos. O proletariado tinha contra seus senhores pouco mais poder que ovelhas contra o pastor, pois não possuía cérebros para organização em larga escala. Mas foi por meio de uma dessas rebeliões pateticamente fúteis que a Patagônia enfim foi destruída.

Uma disputa mesquinha ocorrera em uma das novas minas. A direção recusou-se a permitir que os mineiros ensinassem seu ofício a seus filhos; pois a educação vocacional, dizia-se, deveria ser conduzida profissionalmente. A indignação contra essa interferência na autoridade parental provocou um clarão súbito da antiga raiva. Uma unidade de energia foi tomada, e, depois de um período de insanidade manipulando às cegas a maquinaria, os malfeitores, sem intenção, puseram as coisas em tal estado que enfim o terrível gênio da energia física conseguiu arrancar seus grilhões e espalhar sua fúria pelo planeta. A primeira explosão bastou para arrebentar a cadeia de montanhas acima da mina. Nessas montanhas havia enormes extensões do elemento crítico, e estas foram detonadas por raios da explosão inicial. Isso bastou para pôr em ação extensões ainda mais remotas do elemento. Um furacão incandescente se espalhou por toda a Patagônia, reforçando-se com nova fúria atômica por onde passava. Enfureceu-se ao longo da linha dos Andes e das Rochosas, crestando ambos os continentes com seu calor. Solapou e explodiu o Estreito de Bering, espalhou-se como uma ninhada de gigantescas serpentes de fogo pela Ásia, pela Europa e pela África. Os marcianos, já observando a Terra como um gato observa um pássaro fora do alcance de seu bote, notaram que o brilho do planeta vizinho se intensificara subitamente. Pouco depois, os oceanos começaram aqui e ali a ferver por convulsões submarinas. Maremotos mutilaram as costas e se debateram pelos vales. Mas com o tempo o nível geral do mar baixou consideravelmente pela evaporação e pela abertura de abismos no leito oceânico. Todas as regiões vulcânicas se tornaram fantasticamente ativas. As calotas polares começaram a derreter, mas impediram que as regiões árticas fossem calcinadas como o resto do planeta. A atmosfera era uma nuvem densa e contínua de umidade, vapores e poeira, revolvida por furacões incessantes. À medida que a fúria do colapso eletromagnético avançava, a temperatura superficial do planeta aumentava sem cessar, até que somente no Ártico e em alguns recantos favorecidos do subártico a vida pôde persistir.

A agonia mortal da Patagônia foi breve. Na África e na Europa, alguns assentamentos remotos escaparam da trilha efetiva das erupções, mas sucumbiram em poucas semanas a furacões de vapor. Dos duzentos milhões de membros da espécie humana, todos foram queimados, assados ou sufocados dentro de três meses — todos, exceto trinta e cinco, que por acaso se encontravam nas vizinhanças do Polo Norte.

1/1
Menu

Fazer anotação