A Ascensão dos Segundos Homens
VII
A Ascensão dos Segundos Homens
I
O Aparecimento de uma Nova Espécie
Foi cerca de dez milhões de anos depois do desastre patagônio que os primeiros elementos de uma nova espécie humana apareceram, numa epidemia de variações biológicas, muitas das quais eram extremamente valiosas. Sobre essa matéria-prima, o ambiente novo e estimulante trabalhou durante cerca de cem mil anos, até que por fim apareceu o Segundo Homem.
Embora de estatura maior e crânio mais espaçoso, esses seres não eram inteiramente diferentes de seus predecessores nas proporções gerais. Suas cabeças, de fato, eram grandes mesmo para seus corpos, e seus pescoços, maciços. Suas mãos eram enormes, mas finamente moldadas. Seu tamanho quase titânico exigia uma força de sustentação aparentemente excessiva; suas pernas eram mais robustas, mesmo proporcionalmente, que as pernas da espécie anterior. Seus pés haviam perdido os dedos separados e, por um fortalecimento e uma fusão dos ossos internos, tornaram-se instrumentos mais eficientes de locomoção. Durante o exílio siberiano, os Primeiros Homens haviam adquirido uma espessa cobertura pilosa, e a maioria das linhagens dos Segundos Homens conservou algo dessa aparência loira e hirsuta ao longo de toda a sua carreira. Seus olhos eram grandes, muitas vezes verde-jade; suas feições firmes como granito talhado, e ainda assim móveis e lúcidas. Da segunda espécie humana se poderia dizer que a Natureza enfim repetira e excedera de longe o nobre, mas infeliz, tipo que havia alcançado uma vez, muito tempo antes, com a primeira espécie, em certos caçadores e artistas pré-históricos das cavernas.
Interiormente, os Segundos Homens diferiam da espécie anterior por terem se livrado da maior parte daqueles vestígios primitivos que haviam entravado os Primeiros Homens mais do que se percebia. Não apenas estavam livres do apêndice, das amígdalas e de outras excrescências inúteis, como toda a sua estrutura era mais firmemente tecida em unidade. Sua organização química era tal que seus tecidos se mantinham em melhor reparo. Seus dentes, embora proporcionalmente pequenos e poucos, eram quase completamente imunes à cárie. Tal era seu equipamento glandular que a puberdade só começava aos vinte; e somente aos cinquenta atingiam a maturidade. Por volta dos cento e noventa, suas forças começavam a falhar e, depois de alguns anos de recolhimento contemplativo, morriam quase invariavelmente antes que a verdadeira senilidade pudesse começar. Era como se, quando o trabalho de uma vida estava concluído, e ele havia meditado em paz sobre toda a sua carreira, nada mais restasse para prender sua atenção e impedi-lo de adormecer. As mães carregavam o feto por três anos, amamentavam o bebê por cinco e eram estéreis durante esse período e por mais sete anos. Seu climatério era alcançado por volta dos cento e sessenta. Arquitetonicamente maciças como seus companheiros, teriam parecido aos Primeiros Homens titânides muito formidáveis; mas até aqueles primeiros seres quase humanos teriam admirado as mulheres da segunda espécie tanto por sua vitalidade soberba quanto por sua expressão brilhantemente humana.
Em temperamento, os Segundos Homens eram curiosamente diferentes da espécie anterior. Os mesmos fatores estavam presentes, mas em proporções diferentes, e em subordinação muito maior à vontade refletida do indivíduo. O vigor sexual retornara. Mas o interesse sexual estava estranhamente alterado. Em torno do antigo núcleo de deleite no contato físico e mental com o sexo oposto, surgira agora uma apreciação inatamente sublimada, e não menos pungente, das formas físicas e mentais únicas de todos os tipos de coisas vivas. É difícil para naturezas menos amplas imaginar essa expansão do interesse sexual inato; pois para elas não é evidente que a admiração vigorosa que a princípio se dirige apenas ao sexo oposto seja a atitude apropriada diante de todas as belezas da carne e do espírito em animal, ave e planta. O interesse parental também era forte na nova espécie, mas igualmente universalizado. Tornara-se um forte interesse inato, e uma devoção, por todos os seres concebidos como necessitados de auxílio. Na espécie anterior, esse altruísmo espontâneo e apaixonado ocorria apenas em pessoas excepcionais. Na nova espécie, contudo, todos os homens e mulheres normais experimentavam o altruísmo como paixão. E ainda assim, ao mesmo tempo, a parentalidade primitiva fora temperada numa forma de amor menos possessiva e mais objetiva, que entre os Primeiros Homens era menos comum do que eles próprios gostavam de acreditar. A autoafirmação também mudara profundamente. Antes, grande parte da energia de um indivíduo era dedicada à afirmação de si como indivíduo privado diante de outros indivíduos; e grande parte de sua generosidade era, no fundo, egoísta. Mas, nos Segundos Homens, essa autoafirmação competitiva, esse campeonato do animal mais intimamente conhecido contra todos os outros, foi muito temperada. Antes, os grandes empreendimentos da sociedade jamais teriam sido levados a cabo se não tivessem conseguido anexar a si o egoísmo de seus campeões. Mas nos Segundos Homens os papéis se inverteram. Poucos indivíduos conseguiam dar-se ao trabalho de exercer-se até a última gota por fins meramente privados, salvo quando esses fins tomavam interesse ou importância emprestados de algum empreendimento público. Só a visão de uma comunidade mundial de pessoas, e de sua própria função dentro dela, podia despertar neles o espírito combativo. Assim, era interiormente, mais que nos caracteres físicos externos, que os Segundos Homens diferiam dos Primeiros. E em nada diferiam mais que em sua aptidão nativa para o cosmopolitismo. Tinham suas tribos e nações. A guerra não lhes era completamente desconhecida. Mas, mesmo nos tempos primitivos, a lealdade mais séria de um indivíduo se dirigia à espécie como um todo; e as guerras eram tão entravadas por impulsos de bondade para com o inimigo que tendiam a degenerar em competições atléticas bastante violentas, terminando numa orgia de fraternização.
Não seria verdadeiro dizer que o interesse mais forte desses seres era social. Eles nunca foram propensos a exaltar a abstração chamada Estado, ou nação, ou mesmo comunidade mundial. Pois seu fator mais característico não era mera gregarismo, mas algo novo: um interesse inato pela personalidade, tanto pela diversidade efetiva das pessoas quanto pelo ideal do desenvolvimento pessoal. Tinham notável poder de intuir vividamente seus semelhantes como pessoas únicas, com necessidades especiais. Indivíduos da espécie anterior haviam sofrido de um isolamento espiritual quase insuperável uns em relação aos outros. Nem amantes, e quase nem mesmo os gênios dotados de especial penetração na personalidade, tinham jamais algo semelhante a uma visão precisa uns dos outros. Mas os Segundos Homens, mais intensa e precisamente conscientes de si, eram também mais intensa e precisamente conscientes uns dos outros. Alcançavam isso não por alguma faculdade única, mas apenas por interesse mais vivo uns pelos outros, percepção mais fina e imaginação mais ativa.
Tinham também notável interesse inato pelos tipos superiores de atividade mental, ou antes pelos objetos sutis dessas atividades. Até as crianças eram instintivamente inclinadas a um interesse genuinamente estético por seu mundo e por seu próprio comportamento, e também à investigação científica e à generalização. Meninos pequenos, por exemplo, se deleitavam em colecionar não apenas coisas como ovos ou cristais, mas fórmulas matemáticas expressivas das diferentes formas de ovos e cristais, ou dos inúmeros ritmos de conchas, frondes, folíolos, nós de grama. E havia uma riqueza de contos de fadas tradicionais cujo apelo se fundava em enigmas filosóficos. As criancinhas se encantavam em ouvir como as pobres coisas chamadas Ilusões foram banidas do País do Real, como o Senhor Linha, unidimensional, acordou num mundo bidimensional, e como uma jovem e valente melodia matou feras cacofônicas e conquistou uma noiva melodiosa naquele estranho país onde a paisagem é toda de som e todas as coisas vivas são música. Os Primeiros Homens haviam alcançado o interesse pela ciência, pela matemática, pela filosofia, somente depois de árdua instrução; mas nos Segundos Homens havia propensão natural para essas atividades, não menos vigorosa que os instintos primitivos. Não, é claro, que estivessem dispensados de aprender; mas tinham nesses assuntos o mesmo gosto e a mesma facilidade que seus predecessores haviam desfrutado apenas em esferas mais humildes.
Na espécie anterior, de fato, o sistema nervoso mantivera apenas uma unidade muito precária, e era demasiado sujeito ao desarranjo pela rebelião de uma de suas partes subordinadas. Mas, na segunda espécie, os centros superiores mantinham harmonia quase absoluta entre os inferiores. Assim, o conflito moral entre o impulso momentâneo e a vontade refletida, e também entre o interesse privado e o público, desempenhava papel muito subordinado entre os Segundos Homens.
Também nas capacidades cognitivas efetivas essa espécie favorecida ultrapassava de longe sua predecessora. Por exemplo, a visão se desenvolvera muito. Os Segundos Homens distinguiam no espectro uma nova cor primária entre o verde e o azul; e além do azul viam, não um azul avermelhado, mas outra vez uma nova cor primária, que se apagava com rubor crescente até longe no velho ultravioleta. Essas duas novas cores primárias eram complementares uma da outra. Na outra extremidade do espectro, viam o infravermelho como um púrpura peculiar. Além disso, devido ao tamanho muito grande de suas retinas e à multiplicação de bastonetes e cones, discriminavam frações muito menores de seu campo visual.
A discriminação melhorada se combinava a uma maravilhosa fertilidade de imagens mentais para produzir um poder muito aumentado de penetração no caráter de situações novas. Enquanto entre os Primeiros Homens a inteligência nativa só aumentava até os quatorze anos, entre os Segundos Homens progredia até os quarenta. Assim, um adulto médio era capaz de percepção imediata de problemas que até os mais brilhantes dos Primeiros Homens só podiam resolver por raciocínio prolongado. Essa soberba clareza de mente permitiu à segunda espécie evitar a maioria daquelas confusões e superstições seculares que haviam aleijado sua predecessora. E, junto à grande inteligência, havia notável flexibilidade de vontade. De fato, os Segundos Homens eram muito mais capazes que os Primeiros de romper hábitos que se mostravam já não justificados.
Para resumir a questão: a circunstância lançara ao mundo uma espécie muito nobre. Essencialmente, era do mesmo tipo da espécie anterior, mas passara por extensos aperfeiçoamentos. Muito daquilo que os Primeiros Homens só conseguiam alcançar por longa instrução e autodisciplina, os Segundos Homens realizavam com fluência e deleite sem esforço. Em particular, duas capacidades que para os Primeiros Homens haviam sido ideais inalcançáveis eram agora realizadas em todo indivíduo normal: o poder de conhecimento inteiramente desapaixonado e o poder de amar o próximo como a si mesmo, sem reserva. De fato, nesse aspecto, os Segundos Homens poderiam ser chamados “cristãos naturais”, tão pronta e constantemente amavam uns aos outros à maneira de Jesus, e infundiam toda a sua política social de benevolência amorosa. Cedo em sua carreira conceberam a religião do amor, e foram possuídos por ela repetidas vezes, em formas diversas, até seu fim. Por outro lado, seu dom de conhecimento desapaixonado os ajudou a passar rapidamente à admiração do destino. E, como eram por natureza pensadores rigorosos, eram peculiarmente sujeitos a ser perturbados pelo conflito entre sua religião do amor e sua lealdade ao destino.
Bem poderia parecer que o palco estava agora preparado para um progresso triunfal e rápido do espírito humano. Mas, embora a segunda espécie humana constituísse uma melhoria real em relação à primeira, faltavam-lhe certas faculdades sem as quais o próximo grande avanço mental não podia ser realizado.
Além disso, sua própria excelência envolvia um defeito novo, do qual os Primeiros Homens estavam quase inteiramente livres. Na vida de indivíduos humildes há muitas ocasiões em que nada senão um esforço heroico pode arrancar suas fortunas privadas da estagnação ou do declínio, e lançá-las como pioneiras em novas esferas. Entre os Primeiros Homens, esse esforço era muitas vezes convocado por apaixonada consideração de si mesmo. E foi sobre a maré de inúmeros egoísmos, avançando cegamente numa só direção, que a primeira espécie foi levada adiante. Mas, repetindo, nos Segundos Homens a consideração de si jamais era motivo dominante. Somente ao chamado da lealdade social ou do amor pessoal um indivíduo se impelia a esforços desesperados. Sempre que o que estava em jogo parecia ser mero avanço privado, ele tendia a preferir a paz ao empreendimento, os deleites do esporte, da companhia, da arte ou do intelecto à escravidão da consideração de si. Assim, no longo prazo, embora os Segundos Homens fossem afortunados em sua imunidade quase completa à volúpia de poder e ostentação pessoal, que amaldiçoara a espécie anterior com industrialismo e militarismo, e embora desfrutassem longas eras de paz idílica, muitas vezes em alto plano cultural, seu progresso rumo ao domínio plenamente autoconsciente do planeta foi curiosamente lento.
II
A Interação de Três Espécies
Em poucos milhares de anos, a nova espécie preencheu a região do Afeganistão ao Mar da China, invadiu a Índia e penetrou profundamente no novo continente australásio. Seu avanço foi menos militar que cultural. As tribos remanescentes dos Primeiros Homens, com as quais a nova espécie normalmente não podia cruzar, foram incapazes de viver à altura da cultura mais elevada que inundava em torno delas e sobre elas. Esmaeceram.
Por mais alguns milhares de anos os Segundos Homens permaneceram como nobres selvagens, depois passaram rapidamente pelo estágio pastoril até o agrícola. Nessa era enviaram uma expedição através do novo e gigantesco Hindu Kush para explorar a África. Foi ali que encontraram os descendentes subumanos da tripulação do navio que partira da Sibéria milhões de anos antes. Esses animais haviam se espalhado para o sul pela América e, através do novo Istmo Atlântico, para a África.
Nanificados quase até os joelhos da espécie superior, curvados de tal modo que, tantas vezes quanto não, usavam os braços como auxílio à locomoção, de cabeça chata e focinho curiosamente comprido, essas criaturas eram agora mais semelhantes a babuínos que a homens. Contudo, no estado selvagem mantinham uma organização muito complicada em castas, baseada no olfato. Seus poderes de faro, de fato, haviam se desenvolvido à custa de sua inteligência. Certos odores, que se haviam tornado sagrados por sua própria repulsividade, eram emitidos apenas por indivíduos portadores de certas doenças. Tais indivíduos eram tratados com respeito por seus semelhantes; e, embora de fato estivessem debilitados pela doença, eram tão temidos que nenhum indivíduo saudável ousava resistir a eles. Os odores característicos eram eles próprios graduados em nobreza, de modo que aqueles indivíduos que traziam apenas o perfume menos repulsivo deviam respeito àqueles em quem uma ampla putrefação do corpo ocasionava o fedor mais nauseante. Essas pragas tinham o efeito especial de estimular a atividade reprodutiva; e esse fato era uma causa tanto do respeito sentido por elas quanto da imensa fertilidade da espécie, fertilidade tal que, apesar de pragas e obtusidade, ela inundara dois continentes. Pois, embora as pragas fossem fatais, eram lentas em se desenvolver. Além disso, embora indivíduos em estágio muito avançado de doença muitas vezes fossem incapazes de alimentar-se, beneficiavam-se da devoção dos saudáveis, que se davam por satisfeitos se também acabassem infectados.
Mas o fato mais espantoso sobre essas criaturas era que muitas delas haviam se tornado escravas de outra espécie. Quando os Segundos Homens penetraram mais fundo na África, chegaram a uma região de floresta onde companhias de macacos diminutos resistiram à sua intrusão. Logo ficou evidente que qualquer interferência com os sub-homens imbecis e passivos desse distrito era ressentida pelos macacos. E, como estes faziam uso de uma espécie primitiva de arco e de flechas envenenadas, sua oposição era seriamente inconveniente aos invasores. O uso de armas e outras ferramentas, e uma coordenação notável na guerra, tornaram claro que, em inteligência, essa espécie simiana ultrapassara de longe todas as criaturas salvo a humanidade. De fato, os Segundos Homens estavam agora face a face com a única espécie terrestre que jamais evoluiu a ponto de competir com a humanidade em versatilidade e astúcia prática.
À medida que os invasores avançavam, os macacos foram vistos reunindo rebanhos inteiros de sub-homens e conduzindo-os para fora de alcance. Notou-se também que esses sub-homens domesticados estavam inteiramente livres das doenças que infectavam seus parentes selvagens, os quais, por esse motivo, desprezavam profundamente os labutadores saudáveis. Mais tarde se revelou que os sub-homens eram treinados como animais de carga pelos macacos, e que sua carne era artigo muito apreciado na alimentação. Uma cidade arbórea de galhos entretecidos foi descoberta, aparentemente em construção, pois os sub-homens arrastavam madeira e a puxavam para o alto, aguilhoados pelas lanças de ponta óssea dos macacos. Era evidente também que a autoridade dos macacos era mantida menos pela força que pela intimidação. Ungiam-se com o sumo de uma rara planta aromática, que lançava terror sobre seu pobre gado e o reduzia à mais abjeta docilidade.
Ora, os invasores eram apenas um punhado de pioneiros. Haviam atravessado as montanhas em busca de metais, que haviam sido trazidos à superfície por recentes convulsões vulcânicas. O trabalho era árduo e perigoso. Os macacos, embora incômodos, foram tratados com tolerância.
A diferença entre as duas espécies se vê claramente em sua reação aos metais. Os Segundos Homens buscavam o metal unicamente para manter uma civilização já bem avançada. Mas os macacos, quando viram pela primeira vez os lingotes brilhantes, ficaram fascinados. Já haviam começado a odiar os invasores por sua superioridade nativa e por sua riqueza material; e agora esse ciúme se combinou à aquisitividade primitiva para fazer das placas de cobre e estanho, aos seus olhos, símbolos de poder. Para permanecerem sem molestação em seu trabalho, os invasores haviam pago um tributo com mercadorias de seu próprio país, cestos, cerâmica e várias ferramentas miniaturizadas especialmente desenhadas. Mas, à vista do metal bruto, os macacos exigiram uma parte desse produto mais nobre de sua própria terra. Isso foi prontamente concedido, pois eliminava a necessidade de trazer mercadorias da Ásia. Mas os macacos não tinham uso real para o metal. Apenas o acumulavam, e se tornaram cada vez mais avarentos. Ninguém era respeitado entre eles se não carregasse laboriosamente consigo, por onde fosse, um grande lingote. E depois de algum tempo passou a ser considerado de fato indecente ser visto sem uma placa de metal. Em conversa entre os sexos, esse símbolo de refinamento era sempre segurado de modo a ocultar os genitais.
Quanto mais metal os macacos adquiriam, mais desejavam. Sangue era muitas vezes derramado em disputas pela posse de tesouros. Mas essa luta intestina deu lugar afinal a um movimento conjunto para impedir toda exportação de metal de sua terra. Alguns chegaram a sugerir que os lingotes em sua posse fossem usados para fabricar armas mais eficazes, com as quais expulsariam os invasores. Essa política foi rejeitada, não apenas porque não havia quem pudesse trabalhar o metal bruto, mas porque se concordava em geral que pôr tal material sagrado a qualquer espécie de serviço seria vil.
A vontade de livrar-se do invasor foi aumentada por uma disputa a respeito dos sub-homens. Esses seres abjetos eram tratados com muita aspereza por seus senhores. Não apenas eram sobrecarregados de trabalho, como eram torturados a sangue-frio, não exatamente por luxúria na crueldade, mas por um estranho senso de humor, ou deleite no incongruente. Por exemplo, dava aos macacos um prazer estranhamente inocente e extravagante obrigar esse gado a prosseguir o trabalho em postura ereta, que agora lhes era inteiramente antinatural, ou a comer o próprio excremento, ou mesmo os próprios filhotes. Se alguma vez essas torturas levavam algum sub-homem excepcional a rebelar-se, os macacos ardiam em fúria desdenhosa diante de tal falta de humor, tão incapazes eram de perceber os processos subjetivos dos outros. Entre si, de fato, podiam ser bondosos e generosos; mas até entre eles o diabrete do humor às vezes corria desenfreado. Em qualquer assunto em que um indivíduo fosse mal compreendido por seus companheiros, era certo que seria alegremente provocado, e muitas vezes atormentado até a morte. Mas, no conjunto, era apenas a espécie escrava que sofria.
Os invasores ficaram ultrajados por essa imbecilidade cruel e ousaram protestar. Para os macacos, o protesto era ininteligível. Para que servia o gado, senão para ser usado a serviço de seres superiores? Evidentemente, pensavam os macacos, os invasores careciam afinal das capacidades mais finas da mente, já que não conseguiam apreciar a beleza do fantástico.
Essa e outras causas de atrito levaram finalmente os macacos a conceber um meio de se libertarem para sempre. Os Segundos Homens haviam se mostrado terrivelmente suscetíveis às doenças de seus miseráveis parentes subumanos. Só por quarentena muito rigorosa haviam eliminado a epidemia que revelara esse fato. Agora, em parte por vingança, mas também por deleite malicioso no mundo às avessas, os macacos decidiram fazer uso dessa fraqueza humana. Havia certa noz, muito palatável tanto para humanos quanto para macacos, que crescia numa parte remota do país. Os macacos já haviam começado a trocar essa noz por metal extra; e os pioneiros Segundos Homens preparavam-se para enviar caravanas carregadas de nozes para seu próprio país. Nessa situação, os macacos encontraram sua oportunidade. Infectaram cuidadosamente grandes quantidades de nozes com as pragas desenfreadas entre aqueles rebanhos de sub-homens que não haviam sido domesticados. Muito cedo, caravanas de nozes infectadas se espalharam pela Ásia. O efeito sobre uma espécie inteiramente nova para esses micróbios foi desastroso. Não apenas os assentamentos pioneiros foram varridos, mas também o grosso da espécie. Os próprios sub-homens haviam se ajustado aos micróbios, e até se reproduziam mais rapidamente por causa deles. Não assim a espécie mais delicadamente organizada. Morreram como folhas de outono. A civilização se despedaçou. Em poucas gerações, a Ásia estava povoada apenas por um punhado de selvagens dispersos, todos doentes e em sua maioria aleijados.
Mas, apesar desse desastre, a espécie permaneceu potencialmente a mesma. Dentro de alguns séculos, havia eliminado a infecção e começado mais uma vez a ascensão rumo à civilização. Depois de mais mil anos, pioneiros atravessaram novamente a montanha e entraram na África. Não encontraram oposição. A frágil centelha de inteligência simiana havia muito se apagara. Os macacos haviam sobrecarregado tanto o corpo com metal e a mente com a obsessão do metal que, por fim, os rebanhos de gado sub-humano conseguiram rebelar-se e devorar seus senhores.
III
O Zênite dos Segundos Homens
Durante quase um quarto de milhão de anos, os Segundos Homens atravessaram fases sucessivas de prosperidade e declínio. Seu avanço para a cultura desenvolvida não foi nem de longe tão firme e triunfal quanto se poderia esperar de uma espécie de tal brilho. Assim como ocorre com os indivíduos, ocorre com as espécies: acidentes são por demais capazes de derrotar até as expectativas mais cautelosas. Por exemplo, os Segundos Homens foram durante muito tempo seriamente entravados por uma “era glacial” que, em seu auge, impôs condições árticas até o sul da Índia. Pouco a pouco, o gelo invasor encurralou suas tribos na extremidade daquela península e reduziu sua cultura ao nível dos esquimós. Com o tempo, naturalmente, recuperaram-se, mas apenas para sofrer outros flagelos, dos quais os mais devastadores foram epidemias de bactérias. Os tecidos mais recentemente desenvolvidos e altamente organizados dessa espécie eram peculiarmente suscetíveis a doenças, e não uma, mas muitas vezes uma promissora cultura bárbara ou civilização “medieval” foi aniquilada por pragas.
Mas, de todos os desastres naturais que se abateram sobre os Segundos Homens, o pior se deveu a uma mudança espontânea em sua própria constituição física. Assim como as presas do antigo tigre-de-dentes-de-sabre haviam por fim crescido tanto que a fera não conseguia comer, o cérebro da segunda espécie humana ameaçava crescer além do restante do corpo. Em um crânio que originalmente era bastante espaçoso, esse raro produto da natureza se encontrava agora cada vez mais apertado; enquanto um sistema circulatório antes inteiramente adequado se tornava cada vez mais sujeito a falhar ao bombear sangue por uma estrutura tão comprimida. Essas duas causas afinal começaram a produzir efeitos sérios. A imbecilidade congênita se tornou cada vez mais comum, junto com toda sorte de doenças mentais adquiridas. Durante alguns milhares de anos, a espécie permaneceu em condição extremamente precária, ora quase se extinguindo, ora alcançando rapidamente uma espécie extravagante de cultura em alguma região onde a natureza física por acaso se mostrava peculiarmente favorável. Um desses lampejos precários do espírito ocorreu no vale do Yang-tsé como súbita e breve fulguração de cidades-Estado povoadas por neuróticos, gênios e imbecis. O resultado duradouro dessa civilização foi uma brilhante literatura de desespero, dominada pelo senso da diferença entre o efetivo e o potencial na humanidade e no universo. Mais tarde, quando a espécie alcançou sua glória meridiana, costumava meditar sobre essa voz trágica vinda do passado, a fim de recordar-se do horror subjacente da existência.
Enquanto isso, os cérebros se tornavam cada vez mais excessivos, e a espécie cada vez mais desorganizada. Não há dúvida de que teria seguido o caminho do tigre-de-dentes-de-sabre, simplesmente pela direção fatal de sua própria evolução fisiológica, se uma variedade mais estável dessa segunda espécie humana não tivesse afinal aparecido. Foi na América do Norte, para onde os Segundos Homens, por via da África, há muito haviam se espalhado, que o tipo de crânio mais amplo e coração mais forte primeiro ocorreu. Por grande fortuna, essa nova variedade revelou-se um caráter mendeliano dominante. E, como se cruzou livremente com a variedade mais antiga, uma linhagem soberbamente saudável logo povoou a América. A espécie estava salva.
Mas outros cem mil anos teriam de passar antes que os Segundos Homens pudessem alcançar seu zênite. Não devo demorar-me nesse movimento da sinfonia humana, embora seja de grande riqueza. Inevitavelmente, muitos temas da carreira da espécie anterior se repetem agora, mas com características especiais, e transpostos, por assim dizer, do tom menor para o maior. Mais uma vez, culturas primitivas se sucedem, ou passam à civilização, bárbara ou “medieval”; e, por sua vez, estas caem ou são transformadas. Por duas vezes, de fato, o planeta tornou-se lar de uma única comunidade mundial, que perdurou por muitos milhares de anos, até que a desgraça a arruinasse. O colapso não é de todo surpreendente, pois, ao contrário da espécie anterior, os Segundos Homens não tinham carvão nem petróleo. Em ambas essas primeiras sociedades mundiais dos Segundos Homens, havia completa ausência de poder mecânico. Consequentemente, embora mundiais e intrincadas, eram de certo modo “medievais”. Em cada continente, uma agricultura intensiva e altamente habilidosa se arrastava dos vales pelas encostas das montanhas e sobre os desertos irrigados. Nas cidades-jardins ramificadas, cada cidadão cumpria sua parte de labuta, praticava também algum fino artesanato, e ainda tinha lazer para a alegria e a contemplação. A circulação dentro e entre as cinco grandes comunidades continentais precisava ser mantido por carruagens, caravanas e navios a vela. A vela, de fato, retomou agora o que era seu, e superou de longe suas realizações anteriores. Em todos os mares, frotas de grandes clippers de velas vermelhas, populosos, de madeira, com popas e proas entalhadas, mas com os flancos lustrosos do golfinho, transportavam a produção de toda terra e os muitos viajantes que se deleitavam em passar um ano sabático entre estrangeiros.
Tanto podia ser alcançado, na plenitude do tempo, mesmo sem poder mecânico, por uma espécie dotada de alta inteligência e imune à consideração antissocial por si mesma. Mas inevitavelmente veio um fim. Um vírus, cujo desarranjo sutil do sistema glandular jamais foi suspeitado por uma espécie ainda inocente de fisiologia, propagou por todo o mundo uma fadiga misteriosa. Século após século, a agricultura recuou das colinas e dos desertos, o artesanato se deteriorou, o pensamento tornou-se estereotipado. E a vasta letargia produziu um vasto abatimento. Por fim, as nações perderam contato umas com as outras, esqueceram umas às outras, esqueceram sua cultura, desmoronaram em tribos selvagens. Mais uma vez a Terra dormiu.
Muitos milhares de anos depois, muito depois que a doença se esgotara, vários grandes povos se desenvolveram em isolamento. Quando por fim entraram em contato, eram tão estranhos uns aos outros que em cada um teve de ocorrer uma difícil revolução cultural, não desacompanhada de derramamento de sangue, antes que o mundo pudesse mais uma vez sentir-se uno. Mas essa segunda ordem mundial perdurou apenas alguns séculos, pois profundas diferenças subconscientes tornavam agora impossível às linhagens conservar uma lealdade plena umas às outras. A religião enfim separou a unidade que todos queriam, mas em que nenhum conseguia confiar. Uma nação heroica de monoteístas procurou impor sua fé a um mundo vagamente panteísta. Pela primeira e última vez, os Segundos Homens escorregaram para uma guerra civil mundial; e justamente porque a guerra era religiosa, desenvolveu uma brutalidade até então desconhecida. Com artilharia rudimentar, mas com fanatismo, os dois grupos de exércitos cidadãos se perseguiram mutuamente. Os campos foram devastados, as cidades queimadas, os rios, e por fim os ventos, envenenados. Muito depois de se ultrapassar aquele grau de horror em que uma espécie inferior teria perdido o ânimo, esses heroicos loucos continuaram a organizar a destruição. E, quando por fim veio o colapso inevitável, ele foi tanto mais completo. Numa espécie sensível, a iluminação devastadora que afinal começou a invadir cada mente, o sentimento esmagador de traição contra o espírito humano, a comicidade trágica de toda a luta, minaram toda energia. Os Segundos Homens não alcançaram novamente uma comunidade mundial por milhares de anos. Mas haviam aprendido a lição.
A terceira e mais duradoura civilização dos Segundos Homens repetiu o medievalismo glorificado da primeira, e passou além dele para uma fase de brilhante ciência natural. Fertilizantes químicos aumentaram as colheitas, e portanto a população mundial. O poder do vento e da água foi convertido em eletricidade para suplementar o trabalho humano e animal. Por fim, depois de muitos fracassos, tornou-se possível usar energia vulcânica e subterrânea para mover dínamos. Em poucos anos, todo o caráter físico da civilização foi transformado. Contudo, nessa passagem precipitada para o industrialismo, os Segundos Homens escaparam dos erros da antiga Europa, da América e da Patagônia. Isso se deveu em parte a seu maior dom de simpatia, que, salvo durante a única grande aberração da guerra religiosa, fazia de todos eles, de maneira muito vívida, membros uns dos outros. Mas também se deveu em parte à combinação de um senso comum prático maior que o britânico, uma imunidade ao fascínio da riqueza maior que a russa, e uma paixão pela vida da mente que nem a Grécia conhecera. Mineração e manufatura, mesmo com poder elétrico abundante, eram ocupações pouco menos árduas que antes; mas, como cada indivíduo estava implicado por vívida simpatia nas vidas de todas as pessoas ao alcance de seu conhecimento, havia pouca ou nenhuma obsessão com o poder econômico privado. A vontade de evitar males industriais era eficaz porque sincera.
Em seu auge, a cultura dos Segundos Homens era dominada pelo respeito à personalidade humana individual. Contudo, os indivíduos contemporâneos eram considerados tanto fins quanto meios, um estágio rumo a indivíduos muito mais amplos no futuro remoto. Pois, embora eles próprios fossem mais longevos que seus predecessores, os Segundos Homens eram oprimidos pela brevidade da vida humana e pela pequenez da realização individual em comparação com a infinitude ao redor, que aguardava apreensão e admiração. Portanto, estavam decididos a produzir uma espécie dotada de longevidade natural muito maior. Além disso, embora participassem uns dos outros muito mais que seus predecessores, eram perseguidos pelo desespero diante da distorção e do erro que estragavam a apreensão que cada mente tinha das outras. Como seus predecessores, haviam atravessado todas as fases mais ingênuas da consciência de si e da consciência do outro, e as idealizações de vários modos de personalidade. Haviam admirado o herói bárbaro, o romântico, o sensível-sutil, o franco e cordial, o decadente, o brando, o severo. E haviam concluído que cada pessoa, sendo ela própria expressão de algum modo de personalidade, deveria procurar também ser sensível a todos os outros modos. Chegaram mesmo a conceber que a comunidade ideal deveria ser tecida numa única mente pela apreensão telepática direta, por parte de cada indivíduo único, da experiência de todos os seus semelhantes. E o fato de esse ideal parecer completamente inalcançável teceu por toda a sua cultura um fio de escuridão, um anseio de união espiritual, um horror da solidão, que jamais perturbou seriamente seus predecessores muito mais isolados.
Esse anseio de união influenciou a vida sexual da espécie. Em primeiro lugar, o mental estava tão intimamente relacionado ao fisiológico em sua constituição que, quando não havia verdadeira união de mentes, o ato sexual falhava em produzir concepção. Relações sexuais casuais passaram assim a ser consideradas de modo muito diferente daquelas que exprimiam uma intimidade mais profunda. Eram tratadas como um delicioso bordado da vida, oferecendo oportunidade de muita elegância, ternura leve, gracejo e, naturalmente, embriaguez física; mas julgava-se que não significavam nada além do deleite de amigo em amigo. Onde havia casamento de mentes, mas apenas durante a paixão efetiva da comunhão, o a relação sexual quase sempre resultava em concepção. Nessas circunstâncias, pessoas íntimas frequentemente precisavam praticar contracepção, mas conhecidos, nunca. E uma das invenções mais benéficas dos psicólogos foi uma técnica de autossugestão que, à vontade, facilitava a concepção ou a prevenia, de modo seguro, inofensivo e sem acompanhamentos antiestéticos.
A moralidade sexual dos Segundos Homens atravessou todas as fases conhecidas dos Primeiros Homens; mas, quando estabeleceram uma única cultura mundial, assumira uma forma antes desconhecida. Não apenas homens e mulheres eram encorajados a ter tantas relações sexuais casuais quanto necessitassem para seu enriquecimento, como, no plano mais alto da união espiritual, a monogamia estrita era desaprovada. Pois na união sexual desse tipo superior viam um símbolo daquela comunhão de mentes que ansiavam tornar universal. Assim, o presente mais precioso que um amante podia trazer à pessoa amada não era a virgindade, mas a experiência sexual. Sentia-se que a união era tanto mais fecunda quanto mais cada parte podia contribuir a partir de intimidades sexuais e espirituais anteriores com outros. Contudo, embora como princípio a monogamia não fosse aplaudida, o tipo superior de união às vezes resultava na prática em parceria vitalícia. Mas, como a vida média era muito mais longa que entre os Primeiros Homens, tais uniões fortuitamente perenes eram muitas vezes deliberadamente interrompidas por algum tempo, por uma mudança de parceiros, e depois restauradas com vitalidade renovada. Às vezes, por outro lado, um grupo de pessoas de ambos os sexos mantinha em conjunto um casamento composto e permanente. Às vezes tal grupo trocava um membro, ou membros, com outro grupo, ou se dispersava completamente entre outros grupos, para reunir-se outra vez anos depois, enriquecido pela experiência. De uma forma ou de outra, esse “casamento de grupos” era muito valorizado como extensão da participação sexual vívida a uma esfera mais ampla. Entre os Primeiros Homens, a brevidade da vida tornava impossíveis essas novas formas de união; pois é evidente que nenhuma relação sexual, e nenhuma relação espiritual, pode desenvolver-se com alguma riqueza em menos de trinta anos de intimidade próxima. Seria interessante examinar as instituições sociais dos Segundos Homens em seu zênite; mas não temos tempo a dedicar a esse assunto, nem sequer às brilhantes realizações intelectuais em que a espécie ultrapassou de longe sua predecessora. Evidentemente, qualquer relato da ciência natural e da filosofia dos Segundos Homens seria ininteligível para os leitores deste livro. Basta dizer que evitaram os erros que haviam levado os Primeiros Homens à abstração falsa e a teorias metafísicas ao mesmo tempo sofisticadas e ingênuas.
Somente depois de terem ultrapassado o melhor trabalho dos Primeiros Homens em ciência e filosofia foi que os Segundos Homens descobriram os restos da grande biblioteca de pedra na Sibéria. Um grupo de engenheiros a encontrou por acaso enquanto se preparava para abrir um poço para energia subterrânea. As tábuas estavam quebradas, desordenadas, gastas pelo tempo. Pouco a pouco, porém, foram reconstruídas e interpretadas, com auxílio do dicionário pictórico. As descobertas foram de extremo interesse para os Segundos Homens, mas não do modo pretendido pelo grupo siberiano, não como depósito de verdade científica e filosófica, mas como vívido documento histórico. A visão do universo que as tábuas registravam era ao mesmo tempo ingênua demais e artificial demais; mas a compreensão que ofereciam da mente da espécie anterior era inestimável. Tão pouco do velho mundo sobrevivera à época vulcânica que os Segundos Homens até então não haviam conseguido obter imagem clara de seus predecessores.
Um único item desse tesouro arqueológico tinha mais que interesse histórico. O líder biólogo do pequeno grupo na Sibéria registrara muito do texto sagrado da Vida do Menino Divino. Ao fim do registro vinham as últimas palavras do profeta, que tanto haviam desconcertado a Patagônia. Esse tema era cheio de significado para os Segundos Homens, como de fato teria sido até para os Primeiros Homens em seu auge. Mas, enquanto para os Primeiros Homens o êxtase desapaixonado que o Menino pregara era mais um ideal que um fato da experiência, os Segundos Homens reconheceram nas palavras do profeta uma intuição familiar a si mesmos. Muito antes, os gênios torturados das cidades do Yang-tsé haviam expressado essa mesma intuição. Depois disso também ela fora muitas vezes experimentada pelas gerações mais saudáveis, mas sempre com certa vergonha. Pois se associara à mentalidade mórbida. Mas agora, com a crescente convicção de que era saudável, os Segundos Homens começaram a tatear em busca de uma expressão saudável dela. Na vida e nas últimas palavras do remoto apóstolo da juventude, encontraram uma expressão que não era inteiramente inadequada. A espécie em breve teria dolorosa necessidade desse evangelho.
A comunidade mundial alcançou por fim certa perfeição e equilíbrio relativos. Houve um longo verão de harmonia social, prosperidade e embelezamento cultural. Quase tudo que podia ser feito pela mente no estágio a que ela então chegara parecia ter sido feito. Gerações de seres longevos, ávidos e mutuamente deleitosos sucederam-se. Havia sentimento disseminado de que chegara o tempo de a humanidade reunir todas as suas forças para um voo rumo a alguma nova esfera da mentalidade. O tipo presente de ser humano, reconhecia-se, era apenas um produto natural rude e incoerente. Era hora de a humanidade tomar controle de si mesma e refazer-se segundo um padrão mais nobre. Com esse fim em vista, duas grandes obras foram postas em marcha: a pesquisa do ideal da natureza humana e a pesquisa dos meios práticos de refazer a natureza humana. Indivíduos em todas as terras, vivendo suas vidas privadas, deleitando-se uns nos outros, mantendo vivo e vigoroso o tecido da sociedade, eram profundamente movidos pelo pensamento de que sua comunidade mundial enfim se empenhava nessa tarefa heroica.
Mas em outra parte do Sistema Solar a vida de uma espécie muito diferente buscava, à sua própria maneira estranha, fins incompreensíveis à humanidade, mas no fundo idênticos aos dele. E em breve as duas viriam a se encontrar, não em cooperação.