Terra e Marte Os Últimos e os Primeiros Homens · Capítulo 9 de 16
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Terra e Marte

IX

Terra e Marte

I

Os Segundos Homens Encurralados

Tais eram os seres que invadiram a Terra quando os Segundos Homens reuniam suas forças para uma grande aventura de evolução artificial. Os motivos da invasão eram ao mesmo tempo econômicos e religiosos. Os marcianos buscavam água e matéria vegetal; mas vinham também em espírito de cruzada, para “libertar” os diamantes terrestres.

As condições na Terra eram muito desfavoráveis aos invasores. A gravitação excessiva os incomodava menos do que se poderia esperar. Somente em sua forma mais concentrada a achavam opressiva. Mais nociva era a densidade da atmosfera terrestre, que contraía dolorosamente as tênues nuvículas animadas, dificultando seus processos vitais e amortecendo todos os seus movimentos. Em sua atmosfera nativa, nadavam daqui para ali com facilidade e considerável velocidade; mas o ar viscoso da Terra os entravava como as asas de uma ave são entravadas sob a água. Além disso, devido à sua extrema flutuabilidade como nuvículas individuais, mal conseguiam mergulhar até tão baixo quanto os cumes das montanhas. O oxigênio excessivo também era fonte de sofrimento; tendia a lançá-los numa febre violenta, contra a qual só haviam conseguido proteger-se de modo muito imperfeito. Ainda mais danosa era a umidade excessiva da atmosfera, tanto por seu efeito solvente sobre certos fatores das unidades subvitais quanto porque a chuva pesada interferia nos processos fisiológicos das nuvículas e arrastava muitos de seus materiais para o solo.

Os invasores tinham também de lidar com o tecido de mensagens de “rádio” que envolvia constantemente o planeta e tendia a interferir em seus próprios sistemas orgânicos de radiação. Estavam preparados para isso em certa medida; mas o “transmissão sem fio em feixe”, a curta distância, surpreendeu-os, confundiu-os, torturou-os e por fim os pôs em fuga; de modo que voltaram para Marte, deixando muitos de seu número desintegrados no ar terrestre.

Mas o exército pioneiro, ou indivíduo, pois durante toda a aventura manteve unidade de consciência, tinha muito a relatar em casa. Como era esperado, havia rica vegetação, e a água era até abundante demais. Havia animais sólidos, do tipo da fauna marciana pré-histórica, mas em sua maioria bípedes e eretos. O experimento demonstrara que essas criaturas morriam quando eram despedaçadas, e que, embora os raios do sol as afetassem ao instaurar ação química em seus órgãos visuais, elas não tinham sensibilidade realmente direta à radiação. Obviamente, portanto, deviam ser inconscientes. Por outro lado, a atmosfera terrestre estava permanentemente viva de radiação de tipo violento e incoerente. Ainda era incerto se essas agitações etéreas grosseiras eram fenômenos naturais, meros desdobramentos descuidados da mente cósmica, ou se eram emitidas por um organismo terrestre. Havia razão para supor que este último fosse o caso, e que os organismos sólidos eram usados por alguma inteligência terrestre oculta como instrumentos; pois havia edifícios, e muitos dos bípedes eram encontrados dentro dos edifícios. Além disso, a súbita concentração violenta de radiação em feixe sobre a nuvem marciana sugeria comportamento deliberado e hostil. Portanto, ação punitiva fora tomada, e muitos edifícios e bípedes haviam sido destruídos. A base física de tal inteligência terrestre ainda precisava ser descoberta. Certamente não estava nas nuvens terrestres, pois estas se haviam revelado insensíveis à radiação. De todo modo, tratava-se obviamente de uma inteligência de ordem muito baixa, pois sua radiação era pouco sistemática, e de fato excessivamente grosseira. Um ou dois diamantes infelizes haviam sido encontrados num edifício. Não havia sinal de que fossem devidamente venerados.

Os Terrestres, por seu lado, ficaram em completa perplexidade diante dos acontecimentos extraordinários daquele dia. Alguns sugeriram em tom de brincadeira que, já que a substância estranha se comportara de maneira obviamente vingativa, devia estar viva e consciente; mas ninguém levou a sugestão a sério. Estava claro, contudo, que a coisa fora dissipada por radiação em feixe. Isso ao menos era um dado prático importante. Mas conhecimento teórico sobre a natureza real das nuvens, e seu lugar na ordem do universo, faltava por completo no momento. Para uma espécie de forte interesse cognitivo e esplêndida realização científica, essa ignorância era violentamente perturbadora. Parecia abalar os fundamentos da grande estrutura do conhecimento. Muitos esperavam francamente, apesar da perda de vidas na primeira invasão, que em breve houvesse outra oportunidade de estudar esses objetos espantosos, que não eram exatamente gasosos nem exatamente sólidos, não eram aparentemente orgânicos, e ainda assim eram capazes de comportar-se de maneira sugestiva de vida. Uma oportunidade logo se ofereceu.

Alguns anos depois da primeira invasão, os marcianos apareceram de novo, e em força muito maior. Dessa vez, além disso, estavam quase imunes à radiação ofensiva humana. Operando simultaneamente a partir de todas as regiões alpinas da Terra, começaram a secar os grandes rios em suas fontes; e, aventurando-se mais longe, espalharam-se sobre selvas e terras agrícolas, despojando cada folha. Vale após vale foi devastado como por enxames intermináveis de gafanhotos, de modo que em países inteiros não restou uma lâmina verde. O espólio era levado para Marte. Miríades de unidades subvitais, especializadas no transporte de água e matéria alimentar, eram carregadas, cada uma, com algumas moléculas do tesouro, e despachadas para o planeta natal. O tráfego continuou indefinidamente. Enquanto isso, o corpo principal dos marcianos prosseguia em explorar e saquear. Eram irresistíveis. Para absorver água e folhagem, espalhavam-se pelo campo como uma névoa impalpável que a humanidade não tinha meios de dissipar. Para a destruição da civilização, tornavam-se exércitos de gigantescas nuvens-geleias, muito maiores que a fera formada durante a invasão anterior. Cidades eram derrubadas e achatadas, seres humanos mastigados até virar polpa. A humanidade tentou arma após arma, em vão.

Pouco depois, os marcianos descobriram as fontes da radiação terrestre nas inumeráveis estações transmissoras sem fio. Ali enfim estava a base física da inteligência terrestre! Mas que criatura inferior! Que caricatura da vida! Obviamente, quanto à complexidade e delicadeza de organização, esses miseráveis sistemas imóveis de vidro, metal e compostos vegetais não se comparavam à nuvem marciana. Sua única façanha parecia ser a de terem conseguido obter controle dos bípedes inconscientes que os assistiam.

No curso de suas explorações, os marcianos descobriram também mais alguns diamantes. A segunda espécie humana superara a bárbara volúpia por joias; mas reconhecia a beleza das gemas e dos metais preciosos, e os usava como insígnias de cargo. Infelizmente, ao saquear uma cidade, os marcianos encontraram uma mulher que usava um grande diamante entre os seios; pois era prefeita da cidade e estava encarregada da evacuação. Que a pedra sagrada fosse usada assim, aparentemente para mera identificação de gado, chocou os invasores ainda mais que a descoberta de fragmentos de diamantes em certos instrumentos de corte. A guerra passou então a ser travada com todo o heroísmo e a brutalidade de uma cruzada. Muito depois de ter sido assegurado um rico espólio de água e matéria vegetal, muito depois de os Terrestres terem desenvolvido um meio eficaz de ataque e massacrarem as nuvens marcianas com eletricidade de alta tensão em forma de relâmpagos artificiais, os fanáticos desviados permaneceram para resgatar os diamantes e levá-los aos cumes das montanhas, onde, anos depois, escaladores os descobriram arranjados ao longo das bordas das rochas em fileiras cintilantes, como ovos de aves marinhas. Para lá o remanescente moribundo da hoste marciana os transportara com suas últimas forças, desdenhando salvar-se antes que os diamantes fossem conduzidos ao ar puro da montanha, para serem instalados com dignidade. Quando os Segundos Homens souberam desse grande tesouro de diamantes, começaram a persuadir-se seriamente de que haviam lidado, não com uma esquisitice da natureza física, nem ainda, como alguns diziam, com enxames de bactérias, mas com organismos de ordem superior. Pois como poderiam as joias ter sido selecionadas, libertadas de suas armações metálicas e tão cuidadosamente regimentadas sobre as rochas, salvo por propósito consciente? As nuvens assassinas deviam ter ao menos a mentalidade pilhadora das gralhas, já que evidentemente tinham sido fascinadas pelo tesouro. Mas a própria ação que revelava sua consciência sugeria também que não eram mais inteligentes que animais meramente instintivos. Não houve oportunidade de corrigir esse erro, já que todas as nuvens foram destruídas.

A luta durara apenas alguns meses. Seus efeitos materiais sobre a humanidade foram graves, mas não insuperáveis. Seu efeito psicológico imediato foi revigorante. Os Segundos Homens haviam se acostumado havia muito a uma segurança e prosperidade quase utópicas. Subitamente foram esmagados por uma calamidade inteiramente ininteligível nos termos de seu próprio conhecimento sistemático. Seus predecessores, em tal situação, teriam se comportado com sua característica oscilação entre o humano e o sub-humano. Teriam contraído uma febre de lealdade romântica e realizado muitos atos aleatórios de autossacrifício secretamente interessado. Teriam buscado lucro no desastre público e uivado contra todos os mais afortunados que eles. Teriam amaldiçoado seus deuses e procurado outros mais úteis. Mas também, de maneira incoerente, às vezes teriam se comportado razoavelmente, e chegado aqui e ali aos padrões dos Segundos Homens. Inteiramente desacostumados ao derramamento de sangue humano em larga escala, esses seres mais desenvolvidos sofreram uma agonia de piedade por seus semelhantes mutilados. Mas nada disseram sobre sua piedade, e mal notaram sua própria dor generosa; pois estavam ocupados com o trabalho de salvamento. Subitamente confrontados com a necessidade de extrema lealdade e coragem, exultaram em corresponder, e experimentaram aquela agudeza adicional do espírito que vem quando o perigo é bem enfrentado. Mas não lhes ocorreu que estavam se portando heroicamente; pois pensavam estar apenas se comportando de modo razoável, demonstrando bom senso. E, se alguém falhava num aperto, não o chamavam de covarde, mas lhe davam uma droga para clarear a cabeça; ou, se isso falhasse, colocavam-no sob cuidados de um médico. Sem dúvida, entre os Primeiros Homens, tal política não teria sido justificada, pois esses seres confusos não tinham a visão clara e imperativa que mantinha todos os membros sãos da segunda espécie constantes em sua lealdade.

O efeito psicológico imediato do desastre foi oferecer a essa espécie muito nobre exercício saudável para suas grandes reservas de lealdade e heroísmo. À parte essa revigoração imediata, contudo, a primeira agonia, e aquelas muitas outras que viriam depois, influenciaram os Segundos Homens para o bem e para o mal numa cadeia de efeitos que pode ser chamada espiritual. Havia muito sabiam muito bem que o universo era tal que nele podia haver não apenas tragédias privadas, mas também grandes tragédias públicas; e sua filosofia não procurava ocultar esse fato. A tragédia privada eram capazes de enfrentar com uma fortitude suave, e até com um êxtase de aceitação, como a espécie anterior raramente alcançara. A tragédia pública, mesmo a tragédia mundial, declaravam eles, deveria ser enfrentada no mesmo espírito. Mas conhecer a tragédia mundial em abstrato é muito diferente de conhecê-la diretamente. E agora os Segundos Homens, mesmo enquanto mantinham sua atenção seriamente fixada no trabalho prático de defesa, estavam determinados a absorver essa tragédia até as profundezas de seu ser, a escrutiná-la sem medo, saboreá-la, digeri-la, para que sua potência feroz daí em diante lhes fosse acrescentada. Portanto, não amaldiçoaram seus deuses, nem lhes suplicaram. Disseram a si mesmos: “Assim, e assim, e assim, é o mundo. Vendo a profundidade, veremos também a altura; e louvaremos ambas.”

Mas sua instrução mal começara. Os invasores marcianos estavam todos mortos, mas suas unidades subvitais estavam dispersas pelo planeta como uma poeira ultramicroscópica virulenta. Pois, embora como membros da nuvem viva pudessem entrar no corpo humano sem causar dano permanente, agora que estavam libertas de suas funções dentro do sistema orgânico superior, tornavam-se um vírus predatório. Respiradas para dentro dos pulmões humanos, logo se adaptavam ao novo ambiente e lançavam seus tecidos em desordem. Cada célula em que entravam derrubava sua própria constituição, como um Estado que o inimigo infectou com sucesso por propaganda letal através de mero punhado de agentes. Assim, embora a humanidade fosse temporariamente vencedora sobre o superindivíduo marciano, suas próprias unidades vitais eram envenenadas e destruídas pelos restos subvitais de seu inimigo morto. Uma espécie cuja constituição física fora tão utópica quanto seu corpo político foi reduzida a uma invalidez tímida. E ficou de posse de um planeta devastado. A perda de água revelou-se negligenciável; mas a destruição da vegetação em todas as áreas de guerra produziu por algum tempo uma fome mundial como os Segundos Homens jamais conheceram. E o tecido material da civilização fora tão rompido que muitas décadas teriam de ser gastas em reconstruí-lo.

Mas o dano físico revelou-se muito menos grave que o fisiológico. Pesquisa séria descobriu, de fato, um meio de deter a infecção; e, depois de alguns anos de purgação rigorosa, a atmosfera e a carne humana estavam limpas outra vez. Mas as gerações atingidas jamais se recuperaram; seus tecidos haviam sido corroídos de modo demasiado sério. Pouco a pouco, naturalmente, surgiu uma nova população de homens e mulheres não danificados. Mas era uma população pequena; pois a fertilidade dos atingidos fora muito reduzida. Assim, a Terra era agora ocupada por um pequeno número de pessoas saudáveis abaixo da meia-idade e por um número muito grande de inválidos envelhecidos. Durante muitos anos esses aleijados haviam conseguido levar adiante o trabalho do mundo apesar de sua fragilidade, mas gradualmente começaram a falhar tanto em resistência quanto em competência. Pois perdiam rapidamente o domínio sobre a vida e afundavam numa senilidade prolongada, da qual os Segundos Homens jamais haviam sofrido; e ao mesmo tempo os jovens, forçados a assumir trabalho para o qual não estavam equipados, cometiam toda sorte de erros e grosserias de que seus mais velhos nunca teriam sido culpados. Mas tal era o padrão geral de mentalidade na segunda espécie humana que aquilo que poderia ter sido ocasião para recriminação produziu um exemplo sem paralelo da lealdade humana em seu melhor. As gerações atingidas decidiram quase unanimemente que, sempre que um indivíduo fosse declarado por sua geração como tendo sobrevivido à própria competência, deveria cometer suicídio. As gerações mais jovens, em parte por afeição, em parte pelo pavor da própria incompetência, de início se opuseram seriamente a essa política. “Nossos mais velhos”, disse um jovem, “podem ter declinado em vigor, mas ainda são amados e ainda são sábios. Não ousamos seguir sem eles.” Mas os mais velhos mantiveram sua posição. Muitos membros da geração ascendente já não eram juvenis. E, se o corpo político deveria sobreviver à crise econômica, precisava agora extirpar implacavelmente todos os seus tecidos danificados. Em consequência, a decisão foi cumprida. Um por um, conforme a ocasião exigia, os atingidos “escolheram a paz da aniquilação”, deixando uma população escassa, inexperiente, mas vigorosa, para reconstruir o que fora destruído.

Quatro séculos se passaram, e então as nuvens marcianas apareceram novamente no céu. Mais uma vez devastação e massacre. Mais uma vez fracasso completo das duas mentalidades em conceber uma à outra. Mais uma vez os marcianos foram destruídos. Mais uma vez a peste pulmonar, a purgação lenta, uma população aleijada e o suicídio generoso.

Outra vez, e outra vez, apareceram, em intervalos irregulares, durante cinquenta mil anos. Em cada ocasião, os marcianos vinham irresistivelmente fortificados contra qualquer arma que a humanidade houvesse usado contra eles por último. E assim, gradualmente, os homens começaram a reconhecer que o inimigo não era mero bruto instintivo, mas inteligente. Portanto, fizeram tentativas de entrar em contato com essas mentes alienígenas e oferecer propostas de acordo pacífico. Mas, como obviamente as negociações tinham de ser realizadas por seres humanos, e como os marcianos sempre consideravam os seres humanos como mero gado da inteligência terrestre, os enviados eram sempre ignorados ou destruídos.

Durante cada invasão, os marcianos conseguiam despachar para Marte uma quantidade considerável de água. E, todas as vezes, não satisfeitos com esse ganho material, permaneciam tempo demais em cruzada, até que a humanidade encontrasse uma arma para contornar suas novas defesas; e então eram derrotados. Depois de cada invasão, a recuperação humana era mais lenta e menos completa, enquanto Marte, apesar da perda de grande proporção de sua população, era no longo prazo revigorado pela água extra.

II

A Ruína de Dois Mundos

Logo depois da última dessas invasões recorrentes, Marte decidiu estabelecer uma colônia permanente na Terra. A operação era difícil, pois os colonos tinham de ser protegidos com muita astúcia contra os muitos rigores do ambiente terrestre. Por outro lado, Marte havia agora recebido tanta água da Terra que a manutenção da população marciana inteira se tornara possível durante muitos milhares de anos. Consequentemente, grande número de indivíduos podia ser poupado para a empresa colonial.

O primeiro assentamento foi feito numa região alpina do novo Hindu Kush. Ali, mediante um complexo sistema de campos radiativos, os marcianos conseguiram criar uma imensa cúpula de ar rarefeito, com clima relativamente marciano. Sob ela, os colonos se estabeleceram e começaram a cultivar as plantas terrestres. Mas a manutenção desse campo artificial exigia enorme gasto de energia, e a colônia dependia de Marte para suprimentos. Muitas vezes foi atacada pelos homens, mas com pouco sucesso. Era protegida contra descargas elétricas por uma tela de radiação que as desviava. Era protegida contra armas químicas pela própria delicadeza de sua organização, pois detectava e repelia todo gás estranho muito antes que pudesse penetrar. E, dentro da cúpula, os marcianos podiam assumir suas formas concentradas com facilidade.

Pouco a pouco, outras colônias foram estabelecidas em regiões montanhosas. As terras baixas, onde os homens continuavam a habitar, eram para os marcianos intoleráveis, salvo em expedições rápidas. Contudo, das alturas, eles podiam descer para roubar água e vegetação, ou para punir alguma comunidade humana que parecesse estar interferindo. Os Segundos Homens, por sua parte, construíram barreiras elétricas de grande potência em torno de suas regiões mais densamente povoadas. Assim, durante muitos séculos, a Terra foi dividida entre duas formas de vida que não se compreendiam. Cada uma julgava a outra monstruosa e inferior. Cada uma, em seus melhores momentos, tentava interpretar a outra; mas os marcianos persistiam em procurar a inteligência terrestre nas máquinas radiantes, e os homens persistiam em supor que as nuvens fossem organismos inferiores, inteligentes talvez, mas de inteligência instintiva e bruta.

Entretanto, a presença permanente dos marcianos na Terra produziu uma mudança inesperada em alguns deles. O ambiente terrestre, precisamente por ser hostil, estimulava a consciência privada. A vida colonial exigia iniciativa local, improvisação, adaptação a circunstâncias novas. A mente pública marciana, vinda do planeta natal, era lenta demais, pesada demais, militar demais para guiar toda minúcia. Os indivíduos coloniais, portanto, começaram a viver mais frequentemente em sua fase privada e a confiar mais em suas próprias percepções. Além disso, viam continuamente, embora sem o reconhecer de início, evidências de propósito nos seres humanos. Os bípedes sólidos, que teoricamente eram gado inconsciente, construíam, curavam, aprendiam, sofriam, amavam, organizavam defesa com uma sutileza que não podia ser indefinidamente atribuída aos aparelhos de rádio. Alguns marcianos, nos momentos mais claros de consciência privada, começaram a suspeitar que a inteligência terrestre residia nos próprios animais sólidos.

Essa suspeita, contudo, era intolerável à ortodoxia marciana. Admiti-la seria abalar a doutrina inteira da superioridade radiativa. Seria confessar que organismos sem radiação direta, organismos grosseiramente contínuos em matéria, podiam ser conscientes e até nobres. A mente pública da colônia reprimia tais pensamentos sempre que despertava; mas eles retornavam nas fases privadas, mais insistentes a cada geração. Alguns indivíduos começaram a experimentar uma curiosa simpatia pelos homens. Não era amor, pois os marcianos quase não conheciam amor por pessoas concretas; era antes uma admiração perplexa por uma forma de vida inesperadamente rica. Essa admiração foi reforçada quando, em certas ocasiões, marcianos isolados observaram atos humanos de coragem, lealdade e ternura. Um grupo de colonos chegou mesmo a preservar secretamente alguns seres humanos capturados, não para estudo destrutivo, mas para observação prolongada. Daí nasceu uma revolução mental.

Não se pode dizer para onde teria levado esse renascimento, se tivesse seguido seu curso. Talvez, com o tempo, os marcianos reconhecessem valor até em mentes que não fossem marcianas. Mas tal salto estava, a princípio, muito além deles. Embora compreendessem agora que os animais humanos eram conscientes e inteligentes, não os encaravam com simpatia, mas antes, de fato, com hostilidade aumentada. Ainda prestavam lealdade à espécie, ou fraternidade, marciana, justamente porque ela era em certo sentido uma só carne, e de fato uma só mente. Pois se ocupavam não em abolir, mas em recriar a mente pública da colônia, e até a do próprio Marte.

Mas a mente pública colonial ainda os dominava em grande medida nos períodos mais sonolentos, e de fato enviou alguns daqueles que, em suas fases privadas, eram revolucionários, para Marte em busca de auxílio contra o movimento revolucionário. O planeta natal estava inteiramente intocado pelas novas ideias. Seus cidadãos cooperaram de todo coração numa tentativa de trazer os colonos de volta ao juízo. Mas em vão. A própria mente pública colonial mudou de caráter à medida que os séculos passavam, até se tornar seriamente alienada da ortodoxia marciana. Logo, de fato, começou a sofrer uma metamorfose muito estranha e completa, da qual, concebivelmente, poderia ter emergido como o mais nobre habitante do Sistema Solar. Pouco a pouco, caiu numa espécie de transe hipnótico. Isto é, deixou de possuir a atenção de seus membros privados, mas permaneceu como unidade de sua mentalidade subconsciente, ou não notada. A unidade radiacional da colônia foi mantida, mas apenas desse modo subconsciente; e foi nessa profundidade que a grande metamorfose começou a ocorrer sob a influência fecundante das novas ideias, as quais, por assim dizer, eram geradas na tempestade da revolução mental plenamente consciente e continuavam a descer para a profundidade oceânica da subconsciência. Tal condição era propensa a produzir, com o tempo, a emergência de uma mentalidade qualitativamente nova e mais fina, e a despertar enfim num superindivíduo plenamente consciente de ordem mais alta que seus próprios membros. Mas, enquanto isso, esse transe da consciência pública incapacitou a colônia para aquela ação pronta e coordenada que fora a faculdade mais bem-sucedida da vida marciana. A mente pública do planeta natal destruiu facilmente sua prole desordenada e pôs-se a recolonizar a Terra.

Várias vezes, durante os trezentos mil anos seguintes, esse processo se repetiu. O superindivíduo imutável e terrivelmente eficiente de Marte extirpava sua própria prole na Terra antes que ela pudesse emergir da crisálida. E a tragédia poderia ter sido repetida indefinidamente, não fossem certas mudanças que ocorreram na humanidade.

Os primeiros séculos depois da fundação da colônia marciana foram gastos em guerra incessante. Mas enfim, com recursos terrivelmente reduzidos, os Segundos Homens se reconciliaram com o fato de que precisavam viver no mesmo mundo que seu inimigo misterioso. Além disso, a observação constante dos marcianos começou a restaurar um tanto a abalada autoconfiança humana. Pois, durante os cinquenta mil anos antes da fundação da colônia marciana, sua opinião sobre si mesmo fora minada. Antes estava acostumado a considerar-se o filho mais capaz do sol. Então, subitamente, um estupendo novo fenômeno derrotara sua inteligência. Lentamente aprendera que estava em luta com um rival determinado e versátil, e que esse rival vinha de um planeta desprezado. Lentamente fora obrigado a suspeitar que ele próprio era superado, eclipsado, por uma espécie cuja própria constituição física era incompreensível aos humanos. Mas depois que os marcianos estabeleceram uma colônia permanente, cientistas humanos começaram a descobrir a verdadeira natureza fisiológica do organismo marciano, e se consolaram ao constatar que ele não tornava absurda a ciência humana. A humanidade também aprendeu que os marcianos, embora muito capazes em certas esferas, não eram realmente de um tipo mental elevado. Essas descobertas restauraram a autoconfiança humana. A humanidade acomodou-se a tirar o melhor partido da situação. Barreiras intransponíveis de corrente elétrica de alta potência foram concebidas para manter os marcianos fora do território humano, e os seres humanos começaram pacientemente a reconstruir seus lares arruinados da melhor maneira possível. A princípio houve pouco alívio do zelo cruzadista dos marcianos, mas no segundo milênio isso começou a diminuir, e as duas espécies deixaram uma à outra em paz, salvo por ocasionais revivescências do fervor marciano. A civilização humana foi enfim reconstruída e consolidada, embora em escala modesta. Mais uma vez, embora interrompidos aqui e ali por décadas de agonia, os seres humanos viveram em paz e relativa prosperidade. A vida era um tanto mais dura que antes, e a constituição física da espécie era definitivamente menos confiável que outrora; mas homens e mulheres ainda desfrutavam de condições que a maioria das nações da espécie anterior teria invejado. A era do incessante sacrifício pessoal a serviço da comunidade ferida finalmente terminara. Mais uma vez uma maravilhosa diversidade de personalidades sem amarras se manifestou. Mais uma vez as mentes de homens e mulheres voltaram a se devotar sem impedimento à alegria do trabalho habilidoso e a todas as sutilezas da relação pessoal. Mais uma vez o interesse apaixonado pelos semelhantes, por tanto tempo silenciado sob a calamidade pública dominante, refrescou e ampliou a mente. Mais uma vez houve música, doce e voltada para trás, escutando um passado dourado. Mais uma vez uma riqueza de literatura e de artes visuais. Mais uma vez exploração intelectual da natureza do mundo físico e da potencialidade da mente. E mais uma vez a experiência religiosa, por tanto tempo embrutecida e obscurecida por todas as distrações violentas e autoilusões inevitáveis da guerra, pareceu refinar-se sob a influência da cultura redesperta.

Em tais circunstâncias, a espécie humana anterior e menos sensível poderia muito bem ter prosperado indefinidamente. Não assim os Segundos Homens. Pois o próprio refinamento de sua sensibilidade os tornava incapazes de esquivar-se a uma convicção sempre presente de que, apesar de toda a sua prosperidade, estavam minados. Embora superficialmente parecessem realizar uma recuperação lenta, mas heroica, sofriam ao mesmo tempo um declínio espiritual ainda mais lento e muito mais profundo. Geração sucedia geração. A sociedade tornou-se quase perfeita dentro de seu território limitado e de suas limitações de riqueza material. As capacidades da personalidade foram desenvolvidas com extrema sutileza e riqueza. Por fim, a espécie propôs a si mesma mais uma vez seu antigo projeto de refazer a natureza humana num plano mais elevado. Mas de algum modo já não tinha coragem e autorrespeito para tal trabalho. E assim, embora se falasse muito, nada era feito. Época sucedia época, e tudo que era humano permanecia aparentemente igual. Como um galho quebrado, mas não destacado, a humanidade se acomodou a conservar sua vida e cultura, mas não conseguia progredir.

É quase impossível descrever em poucas palavras a sutil enfermidade do espírito que minava os Segundos Homens. Dizer que sofriam de um complexo de inferioridade não seria inteiramente falso, mas seria uma vulgarização enganosa da verdade. Dizer que haviam perdido a fé, tanto em si mesmos quanto no universo, seria quase igualmente inadequado. Afirmado de modo cru, seu problema era que, como espécie, haviam tentado uma certa façanha espiritual além do alcance de sua natureza ainda primitiva. Espiritualmente tinham ultrapassado seus limites, rompido todos os músculos, por assim dizer, e incapacitado a si mesmos para qualquer esforço posterior. Pois haviam decidido ver sua própria tragédia da espécie como coisa de beleza, e fracassaram. Foi o senso obscuro dessa derrota que os envenenou. Pois, sendo em muitos aspectos uma espécie muito nobre, não podiam simplesmente virar as costas a seu fracasso e seguir o antigo modo de vida com o gosto e a inteireza costumeiros.

Durante os primeiros ataques marcianos, os líderes espirituais da humanidade pregaram que o desastre deveria ser ocasião para uma experiência religiosa suprema. Enquanto se esforçavam poderosamente para salvar sua civilização, os homens deveriam ainda assim, dizia-se, aprender não apenas a suportar, mas a admirar até o desfecho mais severo. “Assim e assim é o mundo. Vendo a profundidade, veremos também a altura, e louvaremos ambas.” Toda a população aceitou esse conselho. A princípio pareceu ter êxito. Muitas expressões literárias nobres foram dadas à luz, parecendo definir e elaborar, e até efetivamente criar no coração dos homens, essa experiência suprema. Mas, à medida que os séculos passavam e os desastres se repetiam, os homens começaram a temer que seus antepassados tivessem se enganado. Aquelas gerações remotas haviam ansiado seriamente sentir a tragédia da espécie como fator na beleza cósmica; e por fim se convenceram de que essa experiência lhes acontecera de fato. Mas seus descendentes lentamente passaram a suspeitar que nenhuma experiência assim jamais ocorrera, que jamais ocorreria a qualquer ser humano, e que não havia, na verdade, beleza cósmica alguma a experimentar. Os Primeiros Homens provavelmente, em tal situação, teriam oscilado violentamente para o niilismo espiritual ou então para algum mito religioso confortador. De qualquer modo, eram de natureza grosseira demais para ser arruinados por um mal tão impalpável. Não assim os Segundos Homens. Pois compreendiam com clareza excessiva que estavam diante da cruz suprema da existência. E assim, era após era, as gerações se agarraram desesperadamente à esperança de que, se ao menos conseguissem suportar um pouco mais, a luz irromperia sobre elas. Mesmo depois que a colônia marciana fora três vezes estabelecida e destruída pela ortodoxia marciana em Marte, a preocupação suprema da espécie humana continuava sendo essa cruz religiosa. Mas depois, e muito gradualmente, perderam o ânimo. Pois lhes foi imposto que ou eles próprios eram por natureza obtusos demais para perceber essa excelência última das coisas, uma excelência na qual tinham fortes razões intelectuais para crer, embora não pudessem de fato experimentá-la, ou a espécie humana se enganara por completo, e o curso dos acontecimentos cósmicos afinal não tinha significação, mas era uma barafunda sem sentido.

Foi esse dilema que os envenenou. Se ainda estivessem fisicamente em seu auge, talvez tivessem encontrado fortaleza para aceitá-lo e prosseguir no paciente desdobramento das excelências muito reais que ainda eram capazes de criar. Mas haviam perdido a vitalidade que sozinha podia realizar tais atos de abnegação espiritual. Toda a riqueza da personalidade, todas as intricações da relação pessoal, todo o empreendimento complexo de uma comunidade muito grande, toda arte, toda pesquisa intelectual, haviam perdido seu sabor. É notável que um desastre puramente religioso tenha deformado até o deleite dos amantes nos corpos um do outro, retirado de fato o sabor da comida e estendido um véu entre o banhista de sol e o sol. Mas os indivíduos dessa espécie, ao contrário de seus predecessores, eram tão estreitamente integrados que nenhuma de suas funções podia permanecer saudável enquanto a mais alta estivesse em desordem. Além disso, a leve falha geral do físico, legado da guerra de eras, resultara numa recorrência daqueles transtornos cerebrais devastadores que haviam perseguido as primeiras linhagens de sua espécie. O próprio horror da perspectiva de insanidade da espécie aumentava sua aberração em relação ao razoável. Pouco a pouco, chocantes perversões do desejo começaram a aterrorizá-los. Orgias masoquistas e sádicas alternavam-se com fases de folia extravagante e horrenda. Atos de traição contra a comunidade, até então quase desconhecidos, finalmente exigiram um sistema policial estrito. Grupos locais organizaram ataques predatórios uns contra os outros. Surgiram nações, e todas as fobias que compõem o nacionalismo.

Os colonos marcianos, quando observaram a desorganização humana, prepararam, por instigação do planeta natal, uma ofensiva muito grande. Aconteceu que nesse tempo a colônia atravessava sua fase de esclarecimento, que até então fora sempre seguida, mais cedo ou mais tarde, por castigo vindo de Marte. Muitos indivíduos brincavam naquele momento com a ideia de buscar harmonia com a humanidade, mais que guerra. Mas a mente pública de Marte, ultrajada por essa traição, procurou esmagá-la instituindo uma nova cruzada. A desunião humana oferecia grande oportunidade.

O primeiro ataque produziu uma mudança notável na espécie humana. Sua loucura pareceu abandoná-la de súbito. Em poucas semanas, os governos nacionais haviam entregado sua soberania a uma autoridade central. Desordens, devassidão, perversões, cessaram por completo. A perfídia, o egoísmo e a corrupção, já costumeiros por muitos séculos, subitamente deram lugar a uma devoção universal e perfeita à causa social. A espécie estava aparentemente outra vez em seu juízo. Em toda parte, apesar dos horrores da guerra, havia uma fraternidade alegre, combinada a um heroísmo que se vestia numa estranha extravagância de jocularidade.

A guerra correu mal para a humanidade. O estado de espírito geral mudou para uma resolução fria. E ainda assim a vitória pertencia aos marcianos. Sob a influência dos enormes exércitos fanáticos despejados do planeta natal, os colonos haviam abandonado seu pacifismo tentativo e procuravam vindicar sua lealdade pela crueldade. Em resposta, a espécie humana desertou sua sanidade e sucumbiu a uma volúpia incontrolável de destruição. Foi nesse estágio que um bacteriologista humano anunciou ter criado um vírus de letalidade e transmissibilidade peculiares, com o qual seria possível infectar o inimigo, mas ao custo de aniquilar também a espécie humana. É significativo da condição insana da população humana nesse tempo que, quando esses fatos foram anunciados e transmitidos, não houve discussão sobre a conveniência de usar essa arma. Ela foi imediatamente posta em ação, com aplauso de toda a espécie humana.

Dentro de poucos meses, a colônia marciana desaparecera, o próprio planeta natal recebera a infecção, e sua população já sabia que nada poderia salvá-la. A constituição humana era mais resistente que a das nuvens animadas, e ele parecia condenado a uma morte um tanto mais prolongada. Não fez esforço para salvar-se, nem da doença que ela própria propagara, nem da peste pulmonar causada pela substância desintegrada da colônia marciana morta. Todos os processos públicos da civilização começaram a despedaçar-se; pois a comunidade estava paralisada pela desilusão e pela expectativa da morte. Como uma colmeia sem rainha, toda a população da Terra afundou em apatia. Homens e mulheres permaneciam em suas casas, ociosos, comendo qualquer alimento que pudessem obter, dormindo até avançar a manhã e, quando afinal se erguiam, evitando-se uns aos outros sem ânimo. Só as crianças ainda podiam ser alegres, e até elas eram oprimidas pela melancolia dos mais velhos. Enquanto isso, a doença se espalhava. Casa após casa era atingida, e era deixada sem auxílio pelos vizinhos. Mas a dor na carne de cada indivíduo era estranhamente entorpecida por sua angústia mais pungente na derrota espiritual da espécie. Pois tal era o alto desenvolvimento dessa espécie que nem a agonia física podia distraí-la do fracasso da espécie. Ninguém queria salvar-se; e cada um sabia que seus vizinhos não desejavam seu auxílio. Somente as crianças, quando a doença as aleijava, eram mergulhadas em agonia e terror. Com ternura, embora sem ânimo, seus mais velhos lhes davam então o último sono. Enquanto isso, os mortos insepultos espalhavam corrupção entre os moribundos. As cidades ficaram imóveis e silenciosas. O trigo não foi colhido.

III

A Terceira Idade das Trevas

Tão contagiosa e letal era a nova bactéria que seus autores esperavam que a espécie humana fosse varrida tão completamente quanto a colônia marciana. Cada remanescente moribundo da humanidade, isolado de seus semelhantes pelo colapso das comunicações, imaginava que seus próprios últimos momentos eram os últimos da humanidade. Mas por acidente, quase se poderia dizer por milagre, uma centelha de vida humana foi mais uma vez preservada, para transmitir adiante o fogo sagrado. Certa linhagem da espécie, espalhado promiscuamente pelos continentes, revelou-se menos suscetível que a maioria. E, como a bactéria era menos vigorosa em clima quente, alguns desses indivíduos favorecidos, que por acaso estavam na selva tropical, recuperaram-se da infecção. E, desses poucos, uma minoria se recuperou também da peste pulmonar que, como de costume, se propagava dos marcianos mortos.

Poder-se-ia esperar que desse germe humano logo surgisse uma nova comunidade civilizada. Com seres tão brilhantes quanto os Segundos Homens, certamente poucas gerações, ou no máximo poucos milhares de anos, bastariam para recuperar o terreno perdido.

Mas não. Mais uma vez, de certa maneira, foi a própria excelência da espécie que impediu sua recuperação e lançou o espírito da Terra num transe que durou mais que toda a carreira anterior dos mamíferos. Repetidas vezes, cerca de trinta milhões de vezes, as estações se repetiram; e ao longo de todo esse período a humanidade permaneceu tão fixa em caráter corporal e mental quanto antes o ornitorrinco. Membros da espécie humana anterior devem achar difícil compreender essa prolongada impotência de uma espécie muito mais desenvolvida que eles. Pois ali estavam aparentemente os dois requisitos da cultura progressiva: um mundo rico e sem dono, e uma espécie excepcionalmente capaz. Contudo, nada foi feito.

Quando as pragas, e todas as imensas putrefações delas decorrentes, se esgotaram, os poucos grupos isolados de sobreviventes humanos se acomodaram a uma vida tropical cada vez mais indolente. Os frutos do saber passado não foram transmitidos aos jovens, que portanto cresceram em extrema ignorância de quase tudo além de sua experiência imediata. Ao mesmo tempo, a geração mais velha intimidava os mais jovens com vagas sugestões de derrota da espécie e futilidade universal. Isso não teria importado se os próprios jovens fossem normais; teriam reagido com fervente otimismo. Mas eles mesmos eram agora, por natureza, incapazes de qualquer entusiasmo. Pois, numa espécie em que as funções inferiores eram tão estritamente disciplinadas sob as superiores, o prolongado desastre espiritual começara de fato a produzir efeito sobre o plasma germinal; de modo que os indivíduos estavam condenados antes do nascimento à lassidão e a uma mentalidade em tom menor. Os Primeiros Homens, muito antes, haviam caído numa espécie de senilidade da espécie por uma combinação de erros e indulgências vulgares. Mas a segunda espécie, como um menino cuja mente foi cedo demais carregada de experiência grave, viveu dali em diante num sonambulismo.

À medida que as gerações passavam, todo o saber da civilização foi abandonado, salvo a rotina da agricultura tropical e da caça. Não que a inteligência em si houvesse minguado. Não que a espécie tivesse afundado em mera selvageria. A lassidão não a impediu de reajustar-se para adequar-se às novas circunstâncias. Esses sonâmbulos logo inventaram maneiras convenientes de fabricar, em casa e à mão, muito do que até então fora feito em fábricas e por poder mecânico. Quase sem esforço mental, desenharam e confeccionaram instrumentos toleráveis de madeira, sílex e osso. Mas, embora ainda inteligentes, haviam se tornado, por disposição, inertes e indiferentes. Só se esforçavam sob a pressão de necessidade primitiva urgente. Nenhum indivíduo parecia capaz de manifestar a energia plena de um ser humano. Até o sofrimento perdera sua pungência. E nenhum fim parecia digno de busca se não pudesse ser realizado rapidamente. O aguilhão desaparecera da experiência. A alma estava calejada contra todo estímulo. Homens e mulheres trabalhavam e brincavam, amavam e sofriam; mas sempre numa espécie de absorto alheamento. Era como se tentassem sempre lembrar alguma coisa importante que lhes escapava. Os assuntos da vida diária pareciam triviais demais para serem levados a sério. Contudo, aquela outra coisa, supremamente importante, a única que merecia consideração, era tão obscura que ninguém tinha ideia do que era. E, de fato, ninguém tinha consciência dessa sujeição hipnótica, assim como um adormecido não tem consciência de estar dormindo.

O mínimo de trabalho necessário era realizado, e havia até certo gosto sonhador na execução; mas nada que implicasse trabalho extra jamais parecia valer a pena. E assim, quando se alcançou o ajuste às novas circunstâncias do mundo, estabeleceu-se completa estagnação. A inteligência prática era facilmente capaz de lidar com um ambiente lentamente mutável, e até com súbitos abalos naturais como enchentes, terremotos e epidemias de doenças. A humanidade permaneceu, em certo sentido, senhora de seu mundo, mas não tinha ideia do que fazer com seu domínio. Em toda parte se supunha que o fim são da vida era passar tantos dias quanto possível em indolência, deitado à sombra. Infelizmente, os seres humanos tinham, naturalmente, muitas necessidades que eram incômodas se não fossem apaziguadas, e portanto uma boa quantidade de trabalho duro precisava ser feita. A fome e a sede tinham de ser satisfeitas. Outros indivíduos além de si mesmo tinham de ser cuidados, pois o ser humano era amaldiçoado com simpatia e com um sentimento pelo bem-estar de seu grupo. O único comportamento plenamente racional, pensava-se, seria o suicídio geral, mas impulsos irracionais o tornavam impossível. Drogas beatíficas ofereciam um céu temporário. Mas, por mais que os Segundos Homens houvessem caído, ainda eram lúcidos demais para esquecer que tal beatitude é superada pela miséria subsequente.

Século após século, época após época, a humanidade deslizou nessa condição aparentemente precária, mas na verdade inabalável, de equilíbrio. Nada que lhe acontecesse podia perturbar seu domínio fácil sobre os animais e sobre a natureza física; nada podia arrancá-lo de seu sono de espécie. Mudanças climáticas prolongadas faziam desertos, selvas e pradarias flutuarem como as nuvens. À medida que os anos avançavam aos milhões, processos geológicos ordinários, grandemente acentuados pelas imensas tensões instauradas pelo soerguimento patagônio, remodelavam a superfície do planeta. Continentes eram submersos ou erguidos do mar, até que logo restasse pouco da antiga configuração. E, junto a essas mudanças geológicas, vieram mudanças na fauna e na flora. A bactéria que quase exterminara a humanidade causara também estragos entre outros mamíferos. Mais uma vez o planeta teve de ser repovoado, desta vez a partir das poucas espécies tropicais sobreviventes. Mais uma vez houve uma grande remodelação de tipos antigos, apenas menos revolucionária que a que se seguira ao desastre patagônio. E, como a espécie humana permaneceu minúscula, pelos efeitos de sua fadiga espiritual, outras espécies foram favorecidas. Especialmente os ruminantes e os grandes carnívoros aumentaram e se diversificaram em muitos hábitos e formas.

Mas a mais notável de todas as cadeias biológicas de acontecimentos nesse período foi a história das unidades subvitais marcianas disseminadas pelo massacre da colônia marciana e que depois atormentaram homens e animais com doenças pulmonares. Com a passagem das eras, certas espécies de mamíferos se reajustaram de tal modo que o vírus marciano se tornou não apenas inofensivo, mas necessário a seu bem-estar. Uma relação que originalmente era de parasita e hospedeiro transformou-se com o tempo em verdadeira simbiose, uma parceria cooperativa na qual os animais terrestres ganharam algo dos atributos únicos dos organismos marcianos desaparecidos. Viria o tempo em que a própria humanidade olharia essas criaturas com inveja e finalmente faria uso do “vírus” marciano para seu próprio enriquecimento.

Mas, enquanto isso, e por muitos milhões de anos, quase todos os tipos de vida estavam em movimento, salvo a humanidade. Como um marinheiro náufrago, jazia exausto e adormecido em sua jangada, muito depois que a tempestade se abatera.

Sua estagnação, porém, não era absoluta. Imperceptivelmente, ele derivava nas correntes oceânicas da vida, numa direção muito distante de seu curso original. Pouco a pouco, seu hábito se tornava mais simples, menos artificiais, mais animais. A agricultura desapareceu, já que não era mais necessária no jardim luxuriante em que a humanidade vivia. Armas de defesa e de caça tornaram-se mais precisamente adaptadas a seus propósitos restritos, mas ao mesmo tempo menos diversificadas e mais estereotipadas. A fala quase desapareceu; pois não havia novidade restante na experiência. Fatos familiares e emoções familiares eram transmitidos cada vez mais por gestos em sua maior parte involuntários. Fisicamente, a espécie mudou pouco. Embora o período natural de vida tenha sido muito reduzido, isso se devia menos a uma mudança fisiológica que a um estranho e fatal aumento do alheamento na meia-idade. O indivíduo gradualmente deixava de reagir ao ambiente; de modo que, mesmo se escapasse de uma morte violenta, morria de fome.

Contudo, apesar dessa grande mudança, a espécie permaneceu essencialmente humana. Não houve bestialização, como a que antes produzira uma linhagem de sub-humanos. Esses remanescentes em transe da segunda espécie humana não eram bestas, mas inocentes, simples, filhos da natureza, perfeitamente ajustados à sua vida simples. Em muitos aspectos, seu estado era idílico e invejável. Mas tal era sua mentalidade obscurecida que jamais tinham consciência clara nem das bênçãos que possuíam, muito menos, é claro, das experiências mais altas que haviam incendiado e torturado seus ancestrais.

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