O Fim do Homem
XVI
O Fim do Homem
I
Sentença de Morte
A nossa tem sido essencialmente uma era filosófica, de fato a era suprema da filosofia. Mas um grande problema prático também nos ocupou. Tivemos de nos preparar para a tarefa de preservar a humanidade durante um período extremamente difícil, calculado para começar daqui a cerca de cem milhões de anos, mas que, em certas circunstâncias, poderia precipitar-se sobre nós com aviso muito breve. Muito antes, os habitantes humanos de Vênus acreditaram que já em seus dias o sol estava prestes a entrar na fase de “anã branca”, e que portanto logo viria o tempo em que seu mundo ficaria preso ao gelo. Esse cálculo era indevidamente pessimista; mas sabemos agora que, mesmo descontado o ligeiro atraso causado pela grande colisão, o colapso solar deve começar numa data astronomicamente não muito distante. Tínhamos planejado que, durante o período comparativamente breve da contração efetiva, moveríamos nosso planeta de modo constante para mais perto do sol, até que finalmente se fixasse na órbita mais estreita possível.
A humanidade ficaria então confortavelmente situada por um período muito longo. Mas, na plenitude do tempo, viria uma crise muito mais grave. O sol continuaria a esfriar, e por fim a humanidade já não poderia viver por meio da radiação solar. Seria necessário aniquilar matéria para suprir a deficiência. Os outros planetas poderiam ser usados para esse fim, e possivelmente o próprio sol. Ou, dado sustento para viagem tão longa, a humanidade poderia projetar ousadamente seu planeta para a vizinhança de alguma estrela mais jovem. Daí em diante, talvez, pudesse operar numa escala muito mais grandiosa. Poderia explorar e colonizar todos os mundos adequados em cada canto da galáxia, e organizar-se como vasta comunidade de mundos dotados de mente. Até mesmo, sonhávamos nós, poderia alcançar contato com outras galáxias. Não parecia impossível que a própria humanidade fosse o germe da alma-do-mundo, que ainda esperamos estar destinada a despertar por algum tempo antes do declínio universal, e a coroar o cosmos eterno com seu tributo de conhecimento e admiração, fugaz e ainda assim eterno. Ousávamos pensar que, em alguma época muito distante, o espírito humano, revestido de toda sabedoria, poder e deleite, talvez olhasse para trás, para nossa era primitiva, com certo respeito; sem dúvida também com piedade e divertimento, mas ainda assim com admiração pelo espírito em nós, ainda apenas meio desperto e lutando contra grandes incapacidades. Nesse estado de espírito, meio piedade, meio admiração, nós próprios olhamos para trás, para as humanidades primitivas.
Nossa perspectiva mudou agora de modo súbito e completo, pois os astrônomos fizeram uma descoberta espantosa, que atribui à humanidade um fim rápido. Sua existência sempre foi precária. Em qualquer estágio de sua carreira, poderia facilmente ter sido exterminado por alguma ligeira alteração de seu ambiente químico, por um micróbio mais maligno que o usual, por uma mudança radical de clima, ou pelos múltiplos efeitos de sua própria loucura. Duas vezes já quase foi destruído por acontecimentos astronômicos. Com que facilidade poderia acontecer que o Sistema Solar, agora precipitando-se por uma região um tanto mais povoada da galáxia, se enredasse com, ou de fato atingisse, algum grande corpo astronômico, e fosse destruído. Mas o destino, como se revela, reserva à humanidade um fim mais surpreendente.
Não faz muito tempo, observou-se que uma alteração inesperada ocorria numa estrela próxima. Sem causa descobrível, ela começou a mudar de branco para violeta, e a aumentar em brilho. Já alcançou tal brilho extravagante que, embora seu disco efetivo permaneça mero ponto em nosso céu, sua radiação púrpura e ofuscante ilumina nossas paisagens noturnas com beleza hedionda. Nossos astrônomos verificaram que esta não é uma “nova” ordinária, que não é uma dessas estrelas propensas a paroxismos de brilho. É algo sem precedente, uma estrela normal sofrendo de uma doença única, uma aceleração fantástica de seu processo vital, um desperdício tumultuoso da energia que deveria ter permanecido trancada em sua substância por éons. No ritmo presente, será reduzida ou a uma cinza inerte ou à aniquilação efetiva em poucos milhares de anos. Esse acontecimento extraordinário talvez tenha sido produzido por interferências imprudentes de seres inteligentes na vizinhança da estrela. Mas, de fato, como toda matéria em temperatura muito alta está em estado de equilíbrio instável, a causa pode ter sido apenas alguma conjunção de circunstâncias naturais.
O acontecimento foi a princípio considerado simplesmente um espetáculo intrigante. Mas estudo ulterior despertou interesse mais sério. Nosso próprio planeta, e portanto também o sol, sofria um bombardeio contínuo e crescente de vibrações etéreas, a maioria delas de frequência incrivelmente alta e potencialidade desconhecida. Qual seria seu efeito sobre o sol? Depois de alguns séculos, certos corpos astronômicos na vizinhança da estrela desarranjada foram vistos infectados por sua desordem. Sua febre aumentou o esplendor de nosso céu noturno, mas também confirmou nossos temores. Ainda esperávamos que o sol se revelasse distante demais para ser seriamente influenciado, mas análise cuidadosa mostrou agora que essa esperança deve ser abandonada. A distância do sol poderia causar atraso de alguns milhares de anos antes que os efeitos cumulativos do bombardeio iniciassem a desintegração; mas cedo ou tarde o próprio sol deverá ser infectado. Provavelmente dentro de trinta mil anos a vida será impossível em qualquer lugar dentro de um vasto raio do sol, raio tão vasto que é inteiramente impossível impulsionar nosso planeta para longe com velocidade suficiente para escapar antes que a tempestade nos alcance.
II
Comportamento dos Condenados
A descoberta dessa condenação acendeu em nós emoções desconhecidas. Até então a humanidade parecera destinada a um futuro muito longo, e o próprio indivíduo estava acostumado a esperar muitos milhares de anos de vida pessoal, terminando em sono voluntário. Naturalmente havíamos muitas vezes concebido, e até saboreado em imaginação, a destruição súbita de nosso mundo. Mas agora a enfrentávamos como fato. Exteriormente, todos se comportavam com perfeita serenidade, mas interiormente toda mente estava em tumulto. Não que houvesse qualquer questão de cairmos em pânico ou desespero, pois nessa crise nosso desprendimento nativo nos serviu bem. Mas inevitavelmente algum tempo se passou antes que nossas mentes se ajustassem devidamente à nova perspectiva, antes que pudéssemos ver nosso destino delineado com clareza e beleza contra o fundo cósmico.
Logo, contudo, aprendemos a contemplar toda a grande saga da humanidade como obra de arte concluída, e a admirá-la não menos por seu fim súbito e trágico que pela promessa nela contida que não seria cumprida. A dor foi agora inteiramente transfigurada em êxtase. A derrota, que nos oprimira com um senso da impotência e pequenez da humanidade entre as estrelas, levou-nos a uma nova simpatia e reverência por todos aqueles miríades de seres do passado de cujos esforços obscuros havíamos nascido. Vimos os mais brilhantes de nossa própria espécie e os mais humildes de nossos precursores pré-humanos como essencialmente espíritos de igual excelência, embora lançados em circunstâncias diversas. Quando olhávamos ao redor para os céus, e para o esplendor violeta que nos destruiria, éramos tomados de assombro e piedade: assombro pela potencialidade inconcebível dessa hoste luminosa, piedade por seu esforço autofrustrante de cumprir-se como espírito universal.
Nesse estágio pareceu que nada nos restava fazer senão concentrar tanta excelência quanto possível em nossa vida restante, e encontrar nosso fim da maneira mais nobre. Mas então veio sobre nós mais uma vez a rara experiência da mentalidade da espécie. Durante um ano netuniano inteiro, cada indivíduo viveu num transe arrebatado, no qual, como mente da espécie, ele ou ela resolveu muitos mistérios antigos e saudou muitas belezas inesperadas. Essa experiência inefável, vivida sob a sombra da morte, foi a flor de todo o ser da humanidade. Mas nada posso contar dela, salvo que, quando terminou, possuíamos, mesmo como indivíduos, uma nova paz, na qual, estranha mas harmoniosamente, se misturavam dor, exaltação e riso divino.
Em consequência dessa experiência da espécie, nós nos vimos diante de duas tarefas que antes não haviam sido contempladas. Uma dizia respeito ao futuro; a outra, ao passado.
Quanto ao futuro, estamos agora empreendendo a tarefa desesperada de disseminar entre as estrelas as sementes de uma nova humanidade. Para esse fim, faremos uso da pressão da radiação solar, e principalmente da radiação extravagantemente potente que mais tarde estará disponível. Esperamos conceber “sistemas ondulatórios” eletromagnéticos extremamente diminutos, aparentados a prótons e elétrons normais, que individualmente sejam capazes de velejar para adiante no furacão da radiação solar a uma velocidade não inteiramente incomparável à própria velocidade da luz. Essa é uma tarefa difícil. Mais ainda, essas unidades devem ser tão astuciosamente inter-relacionadas que, em condições favoráveis, possam tender a combinar-se para formar esporos de vida, e desenvolver-se não propriamente em seres humanos, mas em organismos humildes com nítida inclinação evolutiva rumo aos elementos essenciais da natureza humana. Projetaremos esses objetos para fora de nossa atmosfera em quantidades imensas, em certos pontos da órbita de nosso planeta, para que a radiação solar possa levá-los às regiões mais promissoras da galáxia. A chance de que algum deles sobreviva até alcançar seu destino é pequena, e menor ainda a chance de que algum deles encontre um ambiente adequado. Mas, se alguma dessas sementes humanas cair em solo favorável, embarcará, esperamos, numa evolução biológica um tanto rápida, e produzirá no devido tempo quaisquer formas orgânicas complexas que sejam possíveis em seu ambiente. Terá uma inclinação fisiológica muito real rumo à evolução da inteligência. De fato, terá uma inclinação muito maior nessa direção que a que ocorreu na Terra naqueles agrupamentos atômicos subvitais dos quais a vida terrestre por fim surgiu.
É concebível, então, que por extrema boa fortuna a humanidade ainda influencie o futuro desta galáxia, não diretamente, mas por meio de sua criatura. Mas na vasta música da existência o tema efetivo da humanidade agora cessa para sempre. Terminadas, as longas reiterações da história da humanidade; derrotado, todo o orgulhoso empreendimento de sua maturidade. A experiência armazenada de muitas humanidades deve afundar no esquecimento, e a sabedoria de hoje deve desaparecer.
A outra tarefa que nos ocupa, aquela que se relaciona ao passado, pode muito bem vos parecer absurda.
Há muito somos capazes de entrar em mentes passadas e participar de sua experiência. Até agora fomos meros espectadores passivos, mas recentemente adquirimos o poder de influenciar mentes passadas. Isso parece uma impossibilidade; pois um acontecimento passado é o que é, e como poderia concebivelmente ser alterado em data subsequente, mesmo no mínimo aspecto?
Ora, é verdade que os acontecimentos passados são o que são, irrevogavelmente; mas, em certos casos, algum traço de um acontecimento passado pode depender de um acontecimento em seu futuro remoto. O acontecimento passado jamais teria sido como efetivamente foi, e é eternamente, se não houvesse de existir certo acontecimento futuro que, embora não contemporâneo ao acontecimento passado, o influencia diretamente na esfera do ser eterno. A passagem dos acontecimentos é real, e o tempo é a sucessividade dos acontecimentos que passam; mas, embora os acontecimentos tenham passagem, têm também ser eterno. E em certos casos raros acontecimentos mentais muito separados no tempo se determinam diretamente por via da eternidade.
Nossas próprias mentes foram muitas vezes profundamente influenciadas pela inspeção direta de mentes passadas; e agora descobrimos que certos acontecimentos de certas mentes passadas são determinados por acontecimentos presentes em nossas próprias mentes presentes. Sem dúvida há alguns acontecimentos mentais que são o que são em virtude de processos mentais passados que nós realizaremos, mas ainda não realizamos.
Nossos historiadores e psicólogos, ocupados com a inspeção direta de mentes passadas, queixaram-se muitas vezes de certos pontos “singulares” em mentes passadas, onde as leis ordinárias da psicologia não conseguem dar explicação plena do curso dos acontecimentos mentais; onde, de fato, alguma influência inteiramente desconhecida parecia atuar. Mais tarde se descobriu que, ao menos em alguns casos, essa perturbação dos princípios ordinários da psicologia correspondia a certos pensamentos ou desejos na mente do observador, vivendo em nossa própria era. Naturalmente, apenas assuntos que pudessem ter significado para a mente passada podiam influenciá-la de algum modo. Pensamentos e desejos nossos que não têm sentido para determinado indivíduo passado deixam de entrar em sua experiência. Novas ideias e novos valores só podem ser introduzidos arranjando matéria familiar de modo que possa ganhar nova significação. Contudo, descobrimo-nos agora em posse de um poder assombroso de comunicação com o passado, e de contribuição para seu pensamento e ação, embora naturalmente não pudéssemos alterá-lo.
Mas, pode-se perguntar, e se, quanto a uma “singularidade” particular em alguma mente passada, afinal não escolhermos fornecer a influência necessária para explicá-la? A pergunta não tem sentido. Não há possibilidade de que não escolhamos influenciar aquelas mentes passadas que, como questão de fato, dependem de nossa influência. Pois é na esfera da eternidade, e somente nela encontramos mentes passadas, que fazemos realmente essa livre escolha. E na esfera do tempo, embora a escolha tenha relações com nossa era moderna, e se possa dizer que ocorre nessa era, ela também tinha relações com a mente passada, e pode-se dizer que ocorreu também muito tempo atrás.
Há em algumas mentes passadas singularidades que não são produto de qualquer influência que tenhamos exercido hoje. Algumas dessas singularidades, sem dúvida, nós próprios produziremos em alguma ocasião antes de nossa destruição. Mas pode ser que algumas se devam a uma influência que não a nossa, talvez a seres que, por boa fortuna, possam surgir muito depois de nosso empreendimento seminal desesperado; ou talvez se devam à mente cósmica, cuja ocorrência futura e existência eterna desejamos ardentemente. Seja como for, há algumas poucas mentes notáveis, espalhadas para cima e para baixo pelas eras passadas e até nas espécies humanas mais primitivas, que sugerem uma influência que não é a nossa. São tão “singulares” em um aspecto ou outro que não conseguimos dar explicação psicológica perfeitamente clara delas em termos apenas do passado; e ainda assim nós mesmos não somos os instigadores de sua singularidade. Vosso Jesus, vosso Sócrates, vosso Gautama mostram traços dessa unicidade. Mas os mais originais de todos foram excêntricos demais para ter qualquer influência sobre seus contemporâneos. É possível que também em nós haja “singularidades” que não podem ser explicadas inteiramente em termos das leis biológicas e psicológicas ordinárias. Se pudéssemos provar que este é o caso, teríamos evidência muito definida da ocorrência de uma ordem elevada de mentalidade em algum lugar do futuro, e portanto de sua existência eterna. Mas até agora esse problema se revelou sutil demais para nós, mesmo no modo da espécie. Pode ser que o simples fato de termos conseguido alcançar a mentalidade da espécie envolva alguma remota influência futura. É até concebível que todo avanço criativo que qualquer mente já realizou envolva cooperação involuntária com a mente cósmica que talvez desperte em alguma data antes do Fim.
Temos dois métodos de influenciar o passado por meio de indivíduos passados; pois podemos operar tanto sobre mentes de grande originalidade e poder quanto sobre qualquer indivíduo médio cujas circunstâncias por acaso sirvam ao nosso propósito. Em mentes originais podemos apenas sugerir alguma intuição muito vaga, que é então “trabalhada” pelo próprio indivíduo numa forma muito diferente daquela que pretendíamos, mas muito potente como fator na cultura de sua época. Mentes médias, por outro lado, podemos usar como instrumentos passivos para a transmissão de ideias detalhadas. Mas, em tais casos, o indivíduo é incapaz de trabalhar o material numa forma ampla e potente, adequada à sua época.
Mas o que é, podeis perguntar, que buscamos contribuir ao passado? Buscamos oferecer intuições de verdade e de valor que, embora fáceis para nós a partir de nosso ponto de vista, seriam impossíveis ao passado sem auxílio. Buscamos ajudar o passado a fazer o melhor de si, como uma pessoa pode ajudar outra. Buscamos dirigir a atenção de indivíduos passados e espécies passadas para verdades e belezas que, embora implícitas em sua experiência, de outro modo seriam ignoradas.
Buscamos fazer isso por duas razões. Ao entrar em mentes passadas, tornamo-nos perfeitamente familiarizados com elas e não podemos deixar de amá-las; e assim desejamos ajudá-las. Ao influenciar indivíduos selecionados, buscamos influenciar indiretamente grandes multidões. Mas nosso segundo motivo é muito diferente. Vemos a carreira da Humanidade em seus lares planetários sucessivos como um processo de enorme beleza. Está de fato longe do perfeito; mas é muito belo, com a beleza da arte trágica. Ora, descobre-se que essa coisa bela exige nossa operação em vários pontos do passado. Portanto, queremos operar.
Infelizmente, nossos primeiros esforços inexperientes foram desastrosos. Muitas das fatuidades que mentes primitivas em todas as eras tenderam a atribuir à influência de espíritos desencarnados, fossem divindades, demônios ou mortos, são apenas o palavrório que resultou de nossos primeiros experimentos. E este livro, tão admirável em nossa concepção, saiu do cérebro do escritor, vosso contemporâneo, em tal desordem que é em sua maior parte entulho.
Preocupamo-nos com o passado não apenas na medida em que fazemos contribuições muito raras a ele, mas principalmente de duas outras maneiras.
Primeiro, estamos empenhados no grande empreendimento de conhecer amorosamente o passado, o passado humano, em cada detalhe. Isto é, por assim dizer, nosso ato supremo de piedade filial. Quando um ser vem a conhecer e amar outro, uma coisa nova e bela é criada, a saber, o amor. O cosmos é assim, até esse ponto e nessa data, enriquecido. Buscamos então conhecer e amar toda mente passada em que possamos entrar. Na maioria dos casos, podemos conhecê-las com muito mais compreensão do que elas mesmas podem se conhecer. Nem a menor delas, nem a pior delas, será deixada de fora dessa grande obra de compreensão e admiração.
Há outra maneira pela qual nos ocupamos do passado humano. Precisamos de sua ajuda. Pois nós, que estamos triunfalmente reconciliados com nosso destino, temos a obrigação de dedicar nossas últimas energias não à contemplação extática, mas a uma tarefa desesperada e muito pouco congenial: a disseminação. Essa tarefa nos é quase intoleravelmente repugnante. De bom grado passaríamos nossos últimos dias em embelezar nossa comunidade e nossa cultura, e em exploração piedosa do passado. Mas cabe a nós, que por natureza somos artistas e filósofos, dirigir toda a atenção de nosso mundo à labuta árida de desenhar uma semente humana artificial, produzi-la em quantidades imensas e projetá-la entre as estrelas. Se houver alguma possibilidade de êxito, devemos empreender um programa muito longo de pesquisa física e finalmente organizar um sistema mundial de manufatura. A obra não será concluída até que nossa constituição física já esteja sendo minada, e a desintegração de nossa comunidade já tenha começado. Ora, nunca poderíamos cumprir essa política sem convicção zelosa de sua importância. É aqui que o passado pode nos ajudar. Nós, que agora aprendemos tão profundamente a arte suprema do fatalismo extático, vamos humildemente ao passado aprender mais uma vez aquela outra realização suprema do espírito, a lealdade às forças da vida em batalha contra as forças da morte. Vagando entre os empreendimentos heroicos e muitas vezes desesperados do passado, somos incendiados uma vez mais pelo zelo primitivo. Assim, quando retornamos ao nosso próprio mundo, conseguimos, mesmo preservando no coração a paz que excede o entendimento, lutar como se só nos importasse a vitória.
III
Epílogo
Falo convosco agora de um período cerca de vinte mil anos terrestres posterior à data em que toda a parte precedente deste livro foi comunicada. Tornou-se muito difícil alcançar-vos, e ainda mais difícil falar-vos; pois os Últimos Homens já não são os homens que eram.
Nossos dois grandes empreendimentos ainda estão inacabados. Muito do passado humano permanece explorado imperfeitamente, e a projeção da semente mal começou. Esse empreendimento se revelou muito mais difícil do que se esperava. Só nos últimos anos conseguimos desenhar uma poeira humana artificial capaz de ser carregada para a frente pela radiação do sol, resistente o bastante para suportar as condições de uma viagem transgaláctica de muitos milhões de anos, e ainda assim intrincada o bastante para portar a potencialidade da vida e do desenvolvimento espiritual. Estamos agora nos preparando para fabricar essa matéria seminal em grandes quantidades, e lançá-la ao espaço em pontos adequados da órbita do planeta.
Alguns séculos já se passaram desde que o sol começou a mostrar os primeiros sintomas de desintegração, a saber, uma ligeira mudança de cor rumo ao azul, seguida por aumento definido de brilho e calor. Hoje, quando perfura a nuvem cada vez mais espessa, ele nos golpeia com brilho acerado intolerável, que destrói a visão de qualquer um tolo o bastante para encará-lo. Mesmo no tempo nublado, que agora é normal, o olho é ferido pelo feroz clarão violeta. Problemas oculares afligem todos nós, apesar dos óculos especiais desenhados para nos proteger. O simples calor também já é destrutivo. Estamos forçando nosso planeta para fora de sua antiga órbita, numa espiral cada vez mais larga; mas, façamos o que fizermos, não conseguimos impedir que o clima se torne cada vez mais mortal, mesmo nos polos. As regiões intermediárias já foram abandonadas. A evaporação dos oceanos equatoriais lançou toda a atmosfera em tumulto, de modo que mesmo nos polos somos atormentados por furacões quentes e úmidos e tempestades elétricas incríveis. Estas já despedaçaram a maioria de nossos grandes edifícios, às vezes sepultando uma província inteira e fervilhante sob uma avalanche de penhascos vítreos desmoronados.
Nossas duas comunidades polares conseguiram a princípio manter comunicação por rádio; mas já faz algum tempo que nós, do sul, não recebemos notícias do norte, mais aflito. Mesmo conosco, a situação já é desesperadora. Havíamos estabelecido recentemente algumas centenas de estações para a disseminação, mas menos de uma vintena conseguiu operar. Esse fracasso se deve principalmente à crescente falta de pessoal. O dilúvio de fantástica radiação solar teve efeito desastroso sobre o organismo humano. Epidemias de um tumor maligno, que a ciência médica fracassou em vencer, reduziram o povo sulino a mero remanescente, e isso apesar da migração dos povos tropicais para a Antártida. Cada um de nós, além disso, é apenas o destroço de seu antigo eu. As funções mentais superiores, alcançadas apenas nas espécies humanas mais desenvolvidas, já estão perdidas ou desordenadas, pelo colapso de seus tecidos especiais. Não apenas a mente da espécie desapareceu, como os grupos sexuais perderam sua unidade mental. Três dos sub-sexos já foram exterminados pelo desarranjo de sua natureza química. Distúrbios glandulares, de fato, desequilibraram muitos de nós com ansiedades e repugnâncias que não conseguimos vencer, embora saibamos que são irracionais. Até o poder normal de comunicação “telepática” se tornou tão pouco confiável que fomos obrigados a recuar à prática arcaica do simbolismo vocal. A exploração do passado está agora confinada a especialistas, e é profissão perigosa, que pode levar a desordens da experiência temporal.
A degeneração dos centros neurais superiores também produziu em nós um problema muito mais sério e profundamente arraigado: uma degradação espiritual geral que antes pareceria impossível, tão confiantes éramos em nossa integridade. A vontade perfeitamente desapaixonada fora universal entre nós por muitos milhões de anos, e a pedra angular de toda a nossa sociedade e cultura. Havíamos quase esquecido que ela tem uma base fisiológica, e que, se essa base fosse minada, talvez já não fôssemos capazes de conduta racional. Mas, encharcados por alguns milhares de anos pela radiação estelar única, perdemos gradualmente não apenas o êxtase do culto desapaixonado, mas até a capacidade de comportamento desinteressado normal. Todos agora estão sujeitos a uma inclinação irracional em favor de si mesmos como pessoas privadas, contra seus semelhantes. Inveja pessoal, falta de caridade, até assassinato e crueldade gratuita, outrora desconhecidos entre nós, tornam-se agora comuns. A princípio, quando os homens começaram a notar em si esses impulsos arcaicos, esmagaram-nos com divertido desprezo. Mas, à medida que os centros nervosos mais altos caíam mais fundo na decadência, a fera em nós tornou-se cada vez mais indócil, e o humano, mais incerto. A conduta racional daí em diante só seria alcançada depois de uma “luta moral” exaustiva e degradante, em vez de espontânea e fluentemente. Não, pior: com frequência cada vez maior, a luta terminava não em vitória, mas em derrota. Imaginai, então, o terror e o nojo que nos agarraram quando nos descobrimos todos, sem exceção, condenados a uma luta desesperada contra impulsos que estávamos acostumados a considerar insanos. É aflitivo o bastante saber que cada um de nós poderia a qualquer momento, apenas para ajudar algum indivíduo querido, trair seu dever supremo para com a disseminação; mas é dilacerante descobrir-nos às vezes tão rebaixados que somos incapazes até da bondade amorosa comum para com nossos vizinhos. Antes era desconhecido que alguém favorecesse a si mesmo contra seu amigo ou amado, mesmo no menor aspecto. Hoje, porém, muitos de nós somos assombrados pelo olhar de horror espantado e piedade nos olhos de um amigo ferido.
Nos estágios iniciais de nosso problema foram fundados manicômios, mas logo ficaram superlotados e se tornaram fardo para uma comunidade ferida. Os insanos foram então mortos. Mas ficou claro que, segundo os padrões anteriores, todos nós éramos insanos. Ninguém agora pode confiar em si mesmo para comportar-se razoavelmente.
E, naturalmente, não podemos confiar uns nos outros. Em parte pela irracionalidade prevalecente do desejo, em parte pelos mal-entendidos vindos com a perda da comunicação “telepática”, fomos lançados em toda sorte de discórdias. Uma constituição política e um sistema de leis tiveram de ser concebidos, mas parecem ter aumentado nossos problemas. Alguma ordem é mantida por uma força policial sobrecarregada. Mas esta está nas mãos dos organizadores profissionais, que agora possuem todos os vícios da burocracia. Foi em grande parte por sua loucura que duas das nações antárticas irromperam em revolução social, e agora se preparam para enfrentar o armamento que um governo mundial insano prepara para sua destruição. Enquanto isso, pelo colapso da ordem econômica e pela impossibilidade de alcançar as fábricas de alimento em Júpiter, a fome se acrescenta aos nossos problemas, e ofereceu a certos lunáticos engenhosos a oportunidade de comerciar à custa dos outros.
Toda essa loucura num mundo condenado, e numa comunidade que ontem era a própria flor de uma galáxia! Aqueles de nós que ainda se importam com a vida do espírito são tentados a lamentar que a humanidade não tenha escolhido um suicídio decente antes mesmo que começasse a putrescência. Mas de fato isso não podia ser. A tarefa assumida tinha de ser concluída. Pois a Dispersão da Semente tornou-se para cada um de nós o dever religioso supremo. Mesmo aqueles que continuamente pecam contra ela reconhecem isso como o último ofício da humanidade. Foi por isso que permanecemos além de nosso tempo, e devemos assistir a nosso próprio declínio, da condição espiritual para aquela brutalidade da qual a humanidade tão raramente se libertou.
E, no entanto, por que persistimos no esforço desesperado? Mesmo que, por boa sorte, a semente crie raiz em algum lugar e prospere, certamente virá um fim à sua aventura, se não rapidamente no fogo, então na batalha última da vida contra a geada invasora. Nosso trabalho no máximo semeará para a morte uma colheita mais ampla. Não parece haver defesa racional dele, a menos que seja racional executar cegamente um propósito concebido em estado anterior e mais esclarecido.
Mas não podemos ter certeza de que realmente éramos mais esclarecidos. Olhamos agora para nossos antigos eus com espanto, mas também com incompreensão e desconfiança. Tentamos recordar a glória que parecia ter sido revelada a cada um de nós na mente da espécie, mas quase nada lembramos dela. Não conseguimos subir sequer àquela beatitude mais doméstica que antes estava ao alcance do indivíduo sem auxílio, aquela serenidade que, parecia, deveria ser a resposta do espírito a todo acontecimento trágico. Ela se foi de nós. Não é apenas impossível, mas inconcebível. Agora vemos nossas aflições privadas e a calamidade pública como meramente hediondas. Que, depois de luta tão longa rumo à maturidade, a humanidade seja assada viva como rato preso em armadilha, para entretenimento de um lunático! Como poderia haver beleza nisso?
Mas esta não é nossa última palavra a vós. Pois, embora tenhamos caído, ainda resta em nós algo do tempo que passou. Ficamos cegos e fracos; mas o conhecimento de que assim somos nos forçou a grande esforço. Aqueles de nós que ainda não afundaram demais formaram-se numa fraternidade para fortalecimento mútuo, a fim de que o verdadeiro espírito humano possa ser mantido um pouco mais, até que a semente tenha sido bem semeada, e a morte seja permissível. Chamamo-nos a Fraternidade dos Condenados. Buscamos ser fiéis uns aos outros, e a nosso empreendimento comum, e à visão que já não se revela. Fizemos voto de confortar todas as pessoas aflitas às quais a morte ainda não é permitida. Fizemos voto também à disseminação. E fizemos voto de manter o espírito luminoso até o fim.
De quando em quando nos reunimos em pequenos grupos ou grandes companhias para nos encorajar com a presença uns dos outros. Às vezes, nessas ocasiões, só conseguimos sentar em silêncio, tateando em busca de consolo e força. Às vezes, a palavra falada cintila aqui e ali entre nós, lançando breve luz, mas pouco calor, à alma que jaz congelando num mundo tórrido.
Mas há entre nós um, movendo-se de lugar a lugar e de companhia a companhia, cuja voz todos anseiam ouvir. É jovem, o último nascido dos Últimos Homens; pois foi o último concebido antes que soubéssemos da condenação da humanidade e puséssemos fim a toda concepção. Sendo o último, é também o mais nobre. Não apenas a ele, mas a toda a sua geração, saudamos e buscamos força; mas ele, o mais jovem, é diferente do restante. Nele o espírito, que é apenas a carne desperta em espiritualidade, tem poder para resistir à tempestade de energia solar por mais tempo que o resto de nós. É como se o próprio sol fosse eclipsado pelo brilho desse espírito. É como se nele, afinal, e por um dia apenas, a promessa da humanidade fosse cumprida. Pois, embora sofra na carne como os outros, está acima de seu sofrimento. E, embora mais que o restante de nós sinta o sofrimento dos outros, está acima de sua piedade. Em seu conforto há uma estranha e doce zombaria que pode persuadir o sofredor a sorrir da própria dor. Quando esse nosso irmão mais jovem contempla conosco nosso mundo moribundo e a frustração de todo esforço da humanidade, não fica, como nós, consternado, mas quieto. Na presença de tal quietude, o desespero desperta em paz. Por sua fala razoável, quase pelo simples som de sua voz, nossos olhos se abrem, e nossos corações se enchem misteriosamente de exultação. Contudo, muitas vezes suas palavras são graves.
Que suas palavras, não as minhas, encerrem esta história:
Grandes são as estrelas, e o homem não tem importância para elas. Mas o homem é um belo espírito, que uma estrela concebeu e uma estrela mata. Ele é maior que essas brilhantes companhias cegas. Pois, embora nelas haja potencialidade incalculável, nele há realização, pequena, mas efetiva. Cedo demais, ao que parece, chega ao fim. Mas, quando estiver acabado, não será nada, não como se jamais tivesse existido; pois é eternamente uma beleza na forma eterna das coisas.
O homem foi alado com esperança. Tinha em si para ir mais longe que esse voo curto, agora terminando. Propôs até que se tornaria a Flor de Todas as Coisas, e que aprenderia a ser o Todo-Conhecedor, o Todo-Admirador. Em vez disso, será destruído. É apenas um filhote apanhado num incêndio de mato. É muito pequeno, muito simples, muito pouco capaz de penetração. Seu conhecimento do grande orbe das coisas é apenas o conhecimento de um filhote. Sua admiração é a admiração de um passarinho no ninho pelas coisas bondosas à sua própria pequena natureza. A música das esferas passa por cima dele, através dele, e não é ouvida.
Contudo, ela o usou. E agora usa sua destruição. Grande, e terrível, e muito belo é o Todo; e para o homem o melhor é que o Todo o use.
Mas será que realmente o usa? A beleza do Todo é realmente aumentada por nossa agonia? E o Todo é realmente belo? E o que é beleza? Ao longo de toda a sua existência, o homem lutou para ouvir a música das esferas, e pareceu a si mesmo, vez ou outra, captar alguma frase dela, ou mesmo um indício de sua forma inteira. Contudo, nunca pode ter certeza de que a ouviu de fato, nem sequer de que há qualquer música perfeita a ser ouvida. Inevitavelmente assim, pois, se ela existe, não é para ele em sua pequenez.
Mas uma coisa é certa. O próprio homem, no mínimo, é música, um tema bravo que também faz música de seu vasto acompanhamento, sua matriz de tempestades e estrelas. O próprio homem, em seu grau, é eternamente uma beleza na forma eterna das coisas. Foi muito bom ter sido homem. E assim podemos avançar juntos com riso no coração e paz, agradecidos pelo passado e por nossa própria coragem. Pois afinal faremos uma bela conclusão para esta breve música que é o homem.