Os Terceiros Homens no Ermo
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Os Terceiros Homens no Ermo
I
A Terceira Espécie Humana
Acompanhamos agora a carreira da humanidade durante cerca de quarenta milhões de anos. O período inteiro a ser coberto por esta crônica é de cerca de dois bilhões. Neste capítulo, e no seguinte, portanto, devemos realizar um voo rápido, a grande altitude, sobre uma extensão de tempo mais de três vezes maior que aquela que até aqui observamos. Essa grande vastidão não é um deserto, mas um continente fervilhante de vida variegada, e de muitas civilizações sucessivas e muito diversas. As miríades de seres humanos que o habitam superam em muito os Primeiros e Segundos Homens somados. E o conteúdo de cada uma dessas vidas é um universo, rico e pungente como o de qualquer leitor deste livro.
Apesar da grande diversidade desse intervalo na história humana, ele é um único movimento dentro da sinfonia inteira, assim como as carreiras dos Primeiros e dos Segundos Homens são, cada uma, um único movimento. Não apenas é um período dominado por uma única espécie humana natural e pela espécie humana artificial na qual a espécie natural enfim se transformou; há também, apesar de inúmeras digressões, um único tema, uma única disposição da vontade humana, informando toda a duração. Pois agora, afinal, a principal energia humana se dedica a refazer sua própria natureza física e mental. Ao longo da ascensão e queda de muitas culturas sucessivas, esse propósito se esclarece progressivamente e se exprime em muitos experimentos trágicos e mesmo devastadores; até que, perto do fim desse período imenso, parece quase alcançar seu objetivo.
Quando os Segundos Homens permaneceram em seu estranho transe de espécie por cerca de trinta milhões de anos, as forças obscuras que favorecem o avanço começaram a agitar-se neles uma vez mais. Esse redespertar foi favorecido por acidente geológico. Uma incursão do mar isolou gradualmente alguns deles num continente insular, outrora parte do leito do oceano Atlântico Norte. O clima dessa ilha esfriou aos poucos, de subtropical para temperado e subártico. A vasta mudança de condições causou na população aprisionada um sutil rearranjo químico do plasma germinal, de tal modo que se seguiu uma epidemia de variação biológica. Muitos tipos novos apareceram, mas, no longo prazo, um deles, mais vigoroso e melhor adaptado que os demais, expulsou todos os competidores e lentamente se consolidou como nova espécie, os Terceiros Homens.
Mal excedendo metade da estatura de seus predecessores, esses seres eram proporcionalmente leves e flexíveis. Sua pele era de um castanho ensolarado, coberta por uma auréola luminosa de pelos vermelho-dourados, que na cabeça se tornavam uma juba ruiva. Seus olhos dourados, reminiscentes dos da serpente, eram mais enigmáticos que profundos. Seus rostos eram compactos como focinhos de gato, seus lábios cheios, mas sutis nos cantos. Suas orelhas, objetos de orgulho pessoal e de admiração sexual, eram extremamente variáveis tanto em indivíduos quanto em linhagens. Esses órgãos surpreendentes, que aos Primeiros Homens teriam parecido meramente ridículos, exprimiam tanto o temperamento quanto o humor passageiro. Eram imensos, delicadamente involutos, de textura sedosa e muito móveis. Davam às cabeças, por outro lado um tanto felinas, um caráter quase de morcego. Mas o traço mais distintivo dos Terceiros Homens eram suas grandes mãos magras, nas quais havia seis dedos versáteis, seis antenas de aço vivo.
Ao contrário de seus predecessores, os Terceiros Homens tinham vida curta. Tinham infância breve e maturidade breve, seguidas, no curso natural, por uma década de senilidade e morte por volta dos sessenta. Mas tal era seu horror à decrepitude que raramente se permitiam envelhecer. Preferiam matar-se quando a agilidade mental e física começava a declinar. Assim, salvo em épocas excepcionais de sua história, pouquíssimos viviam até os cinquenta.
Mas, embora em alguns aspectos a terceira espécie humana ficasse aquém do alto padrão de sua predecessora, especialmente em certas capacidades mentais mais finas, de modo algum era simplesmente degenerada. O admirável equipamento sensorial da segunda espécie foi conservado, e até aprimorado. A visão não era menos ampla, precisa e colorida. O tato era muito mais discriminante, especialmente na sexta ponta de dedo, delicadamente afinada. A audição era tão desenvolvida que um indivíduo podia correr de olhos vendados por uma região arborizada sem colidir com as árvores. Além disso, a grande gama de sons e ritmos adquirira um espectro extremamente sutil de significação emocional. A música foi, portanto, uma das principais preocupações das civilizações dessa espécie.
Mentalmente, os Terceiros Homens eram de fato muito diferentes de seus predecessores. Sua inteligência era, em alguns aspectos, não menos ágil; mas era mais astuciosa que intelectual, mais prática que teórica. Interessavam-se mais pelo mundo da experiência sensorial que pelo mundo da razão abstrata, e, de novo, muito mais pelas coisas vivas que pelas inanimadas. Sobressaíam em certos tipos de arte, e de fato também em alguns campos da ciência. Mas eram levados à ciência mais por necessidades práticas, estéticas ou religiosas que por curiosidade intelectual. Na matemática, por exemplo, ajudados em muito pelo sistema duodecimal resultante de terem doze dedos, tornaram-se calculadores maravilhosos; contudo, nunca tiveram curiosidade de investigar a natureza essencial do número. Tampouco, em física, foram jamais levados a descobrir as propriedades mais obscuras do espaço. Eram, de fato, estranhamente desprovidos de curiosidade. Assim, embora às vezes capazes de uma intuição mística penetrante, nunca se disciplinaram seriamente sob a filosofia, nem tentaram relacionar suas intuições místicas com o restante de sua experiência.
Em suas fases primitivas, os Terceiros Homens eram caçadores aguçados; mas também, devido a seus fortes impulsos parentais, eram muito inclinados a fazer animais capturados de estimação. Ao longo de toda a sua carreira, exibiram aquilo que espécies anteriores teriam chamado uma simpatia e uma compreensão sobrenaturais de todos os tipos de animais e plantas. Essa penetração intuitiva na natureza das coisas vivas, e esse interesse incansável pela diversidade do comportamento vital, constituíram o impulso dominante ao longo de toda a carreira da terceira espécie humana. Desde o início, sobressaíam não apenas como caçadores, mas como pastores e domesticadores. Por natureza eram muito aptos em todo tipo de manipulação, mas especialmente na manipulação de coisas vivas. Como espécie, eram também muito dados à brincadeira de todos os tipos, mas especialmente à brincadeira manipuladora, e acima de tudo à manipulação lúdica de organismos. Desde o primeiro momento, realizaram grandes feitos de montaria nos cervos semelhantes a alces que haviam domesticado. Domaram também certa fera gregária de corrida. O pedigree desse grande lobo leonino levava, através dos sobreviventes tropicais da praga marciana, de volta àqueles descendentes da raposa-do-ártico que haviam invadido o mundo depois do desastre patagônio. Esse animal os Terceiros Homens treinaram não apenas para ajudá-los no pastoreio e na caça, mas também para jogar complexos jogos cinegéticos. Entre esse cão e seu senhor ou senhora surgia frequentemente uma relação muito especial, uma espécie de simbiose psíquica, uma mútua penetração intuitiva e muda, um amor genuíno, baseado na cooperação econômica, mas fortemente colorido também, de maneira peculiar à terceira espécie humana, por simbolismo religioso e intimidade francamente sexual.
Como criadores de rebanhos e pastores, os Terceiros Homens praticaram muito cedo a criação seletiva; e cada vez mais se absorveram no aperfeiçoamento e enriquecimento de todos os tipos de animais e plantas. Era orgulho de todo chefe local não apenas que os homens de sua tribo fossem mais viris e as mulheres mais belas que todos os outros, mas também que os ursos de seu território fossem os mais nobres e mais ursinos de todos os ursos, que as aves construíssem ninhos mais perfeitos e fossem voadoras e cantoras mais hábeis que as aves de outros lugares. E assim por diante, ao longo de todas as variedades animais e vegetais.
Esse controle biológico foi alcançado a princípio por simples experimentos de criação, mas depois, e cada vez mais, por manipulação fisiológica rudimentar do animal jovem, do feto e, mais tarde ainda, do plasma germinal. Daí surgiu um conflito perene, que muitas vezes provocou guerras de verdadeira amargura religiosa, entre os compassivos, que recuavam diante da imposição de dor, e os apaixonadamente manipuladores, que queriam criar a qualquer custo. Esse conflito, de fato, era travado não apenas entre indivíduos, mas dentro de cada mente; pois todos eram inatamente caçadores e manipuladores, mas todos também tinham simpatia intuitiva até pela presa que atormentavam. O problema era aumentado por uma cepa de pura crueldade que ocorria mesmo nos mais compassivos. Esse sadismo era, no fundo, expressão de uma reverência quase mística pela experiência sensorial. A dor física, sendo a mais intensa de todas as qualidades sentidas, tendia a ser considerada a mais excelente. Poder-se-ia esperar que isso levasse antes à autotortura que à crueldade. Às vezes levava. Mas, em geral, aqueles que não conseguiam apreciar a dor em sua própria carne podiam ainda persuadir-se de que, ao infligir dor a animais inferiores, criavam vívida realidade psíquica, e portanto alta excelência. Era justamente a intensa realidade da dor, diziam, que a tornava intolerável a humanos e animais. Vista com o desprendimento da mente divina, ela aparecia em sua verdadeira beleza. E até o ser humano, declaravam, podia apreciar sua excelência quando ela ocorria não em humanos, mas em animais.
Embora faltasse aos Terceiros Homens interesse pelo pensamento sistemático, suas mentes muitas vezes se ocupavam de assuntos fora dos campos da economia privada e social. Experimentavam anseios não apenas estéticos, mas místicos. E, embora carecessem de qualquer apreciação daquelas belezas mais finas da personalidade humana, que seus predecessores haviam admirado como a realização mais alta da vida no planeta, os próprios Terceiros Homens, à sua maneira, buscavam fazer o melhor da natureza humana, e de fato da natureza animal. Encaravam o ser humano sob dois aspectos. Em primeiro lugar, o ser humano era o mais nobre de todos os animais, dotado de aptidões únicas. Era, como às vezes se dizia, a principal obra de arte de Deus. Em segundo lugar, como suas virtudes especiais eram sua penetração na natureza de todas as coisas vivas e sua capacidade manipuladora, ele próprio era o olho de Deus e a mão de Deus. Essas convicções foram expressas repetidas vezes nas religiões dos Terceiros Homens pela imagem da divindade como um animal composto, com asas de albatroz, mandíbulas do grande lobo-raposa, pés de cervo, e assim por diante. Pois o elemento humano era representado nessa divindade pelas mãos, pelos olhos e pelos órgãos sexuais humanos. E entre as mãos divinas jazia o mundo, com toda a sua população diversa. Muitas vezes o mundo era representado como fruto da potência primitiva de Deus, mas também como em processo de ser drasticamente alterado e torturado até a perfeição pelas mãos.
A maioria das culturas dos Terceiros Homens foi dominada por esse obscuro culto da Vida como espírito onipresente, exprimindo-se em miríades de indivíduos diversos. E ao mesmo tempo a lealdade intuitiva às coisas vivas e a uma força vital vagamente concebida era frequentemente complicada pelo sadismo. Pois, em primeiro lugar, reconhecia-se, é claro, que aquilo que é valorizado por seres superiores pode ser intolerável aos inferiores; e, como foi dito, a própria dor era considerada uma excelência superior desse tipo. E, de outra maneira ainda, o sadismo se exprimia. O culto da Vida, como agente ou sujeito, era complementado pelo culto do ambiente, como objeto diante da subjetividade da vida, como aquilo que permanece sempre estrangeiro à vida, frustrando seus empreendimentos, torturando-a, mas tornando-a possível e, por sua própria resistência, incitando-a a expressões mais nobres. A dor, dizia-se, era a apreensão mais vívida do Objeto sagrado e universal.
O pensamento da terceira espécie humana jamais foi sistemático. Mas, de algum modo semelhante ao descrito acima, esforçou-se por racionalizar sua obscura intuição da beleza que inclui ao mesmo tempo a vitória e a derrota da Vida.
II
Digressões dos Terceiros Homens
Tal, em resumo, era a natureza física e mental da terceira espécie humana. Apesar de distrações inumeráveis, o espírito dos Terceiros Homens continuou a retornar ao fio do interesse biológico através de mil culturas variegadas. Repetidas vezes, povo após povo escalava da selvageria e da barbárie para relativo esclarecimento; e, na maioria das vezes, embora nem sempre, o tema principal desse esclarecimento era algum estado especial de criatividade biológica, ou de sadismo, ou de ambos. Para alguém nascido em tal sociedade, nenhuma característica dominante seria aparente. Ele se impressionaria antes com a multilateralidade das atividades humanas de seu tempo. Notaria uma riqueza de relação pessoal, de organização social e invenção industrial, de arte e especulação, tudo posto naquela matriz universal: a luta privada para preservar ou expressar o eu. Contudo, o historiador pode muitas vezes ver numa sociedade, acima e além dessa proliferação multifária, algum tema controlador.
Repetidas vezes, então, em intervalos de alguns milhares ou algumas centenas de milhares de anos, o capricho humano foi imposto à fauna e à flora da Terra, e enfim dirigido à tarefa de refazer a própria humanidade. Repetidas vezes, por uma diversidade de causas, o esforço colapsou, e a espécie afundou outra vez no caos. Às vezes, de fato, houve um interlúdio de cultura em tom muito diferente. Uma vez, cedo na história da espécie, e antes que sua natureza se houvesse fixado, ocorreu uma civilização não industrial de tipo genuinamente intelectual, quase como a da Grécia. Às vezes, embora não com frequência, a terceira espécie humana se enganou até uma civilização mundial extravagantemente industrial, à maneira dos Primeiros Homens americanizados. Em geral, seu interesse se ocupava demais com outros assuntos para enredar-se em dispositivos mecânicos. Mas em pelo menos três ocasiões sucumbiu. Dessas civilizações, uma derivava sua energia principal do vento e da água em queda, outra das marés, outra do calor interno da Terra. A primeira, salva dos piores males do industrialismo pelas limitações de seu poder, durou cerca de cem mil anos em equilíbrio estéril, até ser destruída por uma bactéria obscura. A segunda foi, felizmente, breve; mas seus cinquenta mil anos de desperdício desenfreado de energia das marés bastaram para interferir de modo apreciável na órbita da lua. Essa ordem mundial colapsou por fim numa série de guerras industriais. A terceira perdurou por um quarto de milhão de anos como organização mundial brilhantemente sã e eficiente. Durante a maior parte de sua existência houve harmonia social quase completa, com mal tanta luta interna quanto ocorre numa colmeia. Mas, mais uma vez, a civilização por fim veio ao desastre, desta vez pelo esforço mal orientado de criar tipos humanos especiais para atividades industriais especializadas.
O industrialismo, porém, nunca foi mais que uma digressão, uma longa e desastrosa irrelevância na vida dessa espécie. Houve outras digressões. Houve, por exemplo, culturas que duraram às vezes vários milhares de anos e eram predominantemente musicais. Isso jamais poderia ter ocorrido entre os Primeiros Homens; mas, como foi dito, a terceira espécie era peculiarmente desenvolvida na audição e na sensibilidade emocional ao som e ao ritmo. Consequentemente, assim como os Primeiros Homens em seu auge foram conduzidos ao desvio por uma obsessão irracional com engenhos mecânicos, assim como os próprios Terceiros Homens foram muitas vezes desfeitos por seu próprio interesse no controle biológico, também, de vez em quando, era seu dom musical que os hipnotizava.
Dessas culturas predominantemente musicais, a mais notável foi uma em que música e religião se combinaram para formar uma tirania não menos rígida que a da religião e da ciência no passado remoto. Vale a pena deter-nos por alguns instantes num desses episódios.
Os Terceiros Homens eram muito sujeitos ao anseio de imortalidade pessoal. Suas vidas eram breves, seu amor à vida era intenso. Parecia-lhes uma falha trágica na natureza da existência que a melodia da vida individual precisasse ou esmaecer numa senilidade sombria ou ser cortada, nunca mais se repetindo. Ora, a música tinha significação especial para essa espécie. Tão intensa era sua experiência dela que estavam prontos a considerá-la, de algum modo, a realidade subjacente de todas as coisas. Nas horas de lazer arrancadas de uma vida laboriosa e muitas vezes trágica, grupos de camponeses procuravam conjurar ao redor de si, por canção, flauta ou viola, um universo mais belo, mais real que o do trabalho diário. Concentrando sua audição sensível na diversidade inesgotável de tom e ritmo, pareciam a si mesmos possuídos pela presença viva da música e, por ela, transportados para um mundo mais adorável. Não admira que acreditassem que toda melodia era um espírito, conduzindo vida própria dentro do universo da música. Não admira que imaginassem que uma sinfonia ou coro fosse ele próprio um único espírito inerente a todos os seus membros. Não admira que lhes parecesse que, quando homens e mulheres ouviam grande música, as barreiras de sua individualidade eram derrubadas, de modo que se tornavam uma só alma por comunhão com a música.
O profeta nasceu numa aldeia de terras altas em que a fé nativa na música era intensa, embora inteiramente não formulada. Com o tempo, aprendeu a elevar seus públicos camponeses à alegria mais extravagante e à tristeza mais deliciosa. Então afinal começou a pensar e a expor seus pensamentos com a autoridade de um grande bardo. Com facilidade persuadiu seus ouvintes de que a música era a realidade, e tudo mais ilusão; de que o espírito vivo do universo era música pura; de que cada animal e cada ser humano individual, embora tivesse corpo que devia morrer e desaparecer para sempre, tinha também uma alma que era música e eterna. Uma melodia, dizia ele, é a mais fugaz das coisas. Acontece e cessa. O grande silêncio a devora e aparentemente a aniquila. A passagem é essencial ao seu ser. Contudo, embora para uma melodia deter-se seja morrer de morte violenta, toda música, afirmava o profeta, tem também vida eterna. Depois do silêncio, pode ocorrer novamente, com todo o seu frescor e vivacidade. O tempo não pode envelhecê-la; pois sua casa está num país fora do tempo. E esse país, pregava com fervor o jovem músico, é também a pátria de todo homem e toda mulher, sim, de toda coisa viva que possua algum dom musical. Aqueles que buscam a imortalidade devem esforçar-se por despertar suas almas em transe para a melodia e a harmonia. E segundo seu grau de originalidade e proficiência musical será sua posição na vida eterna.
A doutrina, e as melodias apaixonadas do profeta, espalharam-se como fogo. Música instrumental e vocal soava de cada pasto e roçado de trigo. O governo tentou suprimi-la, em parte porque se julgava que interferia na produtividade agrícola, em grande parte porque sua significação apaixonada ressoava até no coração das damas da corte e ameaçava desfazer o refinamento de séculos. Mais ainda, a própria ordem social começou a desmoronar. Pois muitos começaram a declarar abertamente que o que importava não era o nascimento aristocrático, nem sequer a proficiência nas formas musicais consagradas, tão estimadas pelos ociosos, mas o dom da expressão emocional espontânea em ritmo e harmonia. A perseguição fortaleceu a nova fé com uma gloriosa companhia de mártires que, afirmava-se, cantavam triunfalmente até nas chamas.
Um dia o próprio monarca sagrado, até então prisioneiro das convenções, declarou, metade sinceramente, metade por política, que se convertera à fé de seu povo. A burocracia deu lugar a uma ditadura esclarecida, o monarca assumiu o título de Melodia Suprema, e toda a ordem social foi refeita, mais ao gosto dos camponeses. O príncipe sutil, apoiado pelo zelo cruzadista de seu povo e favorecido pela rápida expansão espontânea da fé em todas as terras, conquistou o mundo inteiro e fundou a Igreja universal da Harmonia. O próprio profeta, enquanto isso, consternado por seu próprio êxito fácil demais, retirara-se às montanhas para aperfeiçoar sua arte sob a influência de seu grande silêncio, ou da música do vento, do trovão e da queda d’água. Logo, porém, o silêncio das colinas foi despedaçado pelo estrépito de bandas militares e coros eclesiásticos, que o imperador enviara para saudá-lo e conduzi-lo à metrópole. Foi capturado, embora não sem tumulto, e alojado no Alto Templo da Música. Ali foi mantido prisioneiro, apelidado de Grande Ruído de Deus, e usado pelo governo mundial como oráculo que precisava de interpretação. Em poucos anos, a música oficial do templo e das deputações vindas de todo o mundo o levou à loucura delirante; estado em que se tornou ainda mais útil às autoridades.
Assim foi fundado o Santo Império da Música, que deu ordem e propósito à espécie durante mil anos. Os ditos do profeta, interpretados por uma série de governantes capazes, tornaram-se fundamento de um grande sistema de lei que gradualmente suplantou todos os códigos locais por virtude de sua autoridade divina. Sua raiz era a loucura; mas sua expressão final foi um intricado bom senso, decorado com flores de insensatez inofensivas e preciosas. Em tudo, o indivíduo era sabiamente, embora tacitamente, considerado um organismo biológico dotado de necessidades ou direitos definidos e obrigações sociais definidas; mas a linguagem em que esse princípio era expresso e elaborado era um jargão baseado na ficção de que todo ser humano era uma melodia, exigindo completamento dentro de um tema musical maior da sociedade.
Perto do fim desse milênio de ordem, ocorreu um cisma entre os devotos. Uma seita nova e fervorosa declarou que o verdadeiro espírito da religião musical fora sufocado pelo eclesiasticismo. O fundador da religião pregara salvação pela experiência musical individual, por uma comunhão intensamente emocional com a Música Divina. Mas pouco a pouco, dizia-se, a igreja perdera de vista essa verdade central e a substituíra por um interesse estéril nas formas e princípios objetivos da melodia e do contraponto. A salvação, na visão oficial, não se obtinha pela experiência subjetiva, mas pelo cumprimento das regras de uma obscura técnica musical. E o que era essa técnica? Em vez de fazer da ordem social uma expressão prática da lei divina da música, eclesiásticos e estadistas haviam interpretado mal essas leis divinas para servir à mera conveniência social, até que o verdadeiro espírito da música se perdesse. Enquanto isso, no outro lado, ocorreu uma contrarreviravolta. A disposição autocentrada e salvadora da própria alma dos rebeldes foi ridicularizada. Os homens foram instados a preocupar-se antes com as formas divinas e requintadamente ordenadas da própria música que com sua própria emoção.
Foi entre os povos rebeldes que o interesse biológico da espécie, até então subordinado, conquistou seu próprio domínio. O acasalamento, pelo menos entre as mulheres mais devotas, começou a ser influenciado pelo desejo de ter filhos de brilho e sensibilidade musical excepcionais. As ciências biológicas eram rudimentares, mas o princípio geral da criação seletiva era conhecido. Dentro de um século, essa política de criação voltada para a música, ou criação de “alma”, desenvolveu-se de idiossincrasia privada em obsessão da espécie. Teve êxito suficiente para que, depois de algum tempo, um novo tipo se tornasse comum e prosperasse sob a aprovação e devoção das pessoas comuns. Esses novos seres eram de fato extravagantemente sensíveis à música, tão sensíveis que o canto de uma cotovia lhes causava séria tortura por sua banalidade, e, em resposta a qualquer música humana do tipo que aprovavam, caíam invariavelmente em transe. Sob o estímulo de música que não lhes agradava, eram propensos a entrar em fúria e assassinar os executantes.
Não precisamos deter-nos em traçar os estágios pelos quais uma espécie enfeitiçada se submeteu gradualmente aos caprichos dessas criaturas da loucura humana, até que por breve período elas se tornassem a casta governante tirânica de uma teocracia musical. Tampouco precisamos observar como reduziram a sociedade ao caos; e como, por fim, uma era de confusão e assassinato trouxe a humanidade outra vez ao juízo, mas também a uma desilusão tão amarga que o esforço de reorientar todo o rumo de sua atividade careceu de determinação. A civilização se despedaçou e só foi reconstruída depois que a espécie permaneceu em pousio por alguns milhares de anos.
Assim terminou talvez a mais patética das ilusões da espécie. Nascida de uma experiência estética genuína e potente, conservou certa nobreza louca até o fim.
Muitas dezenas de outras culturas ocorreram, muitas vezes separadas por longas eras de barbárie, mas precisam ser ignoradas nesta breve crônica. A grande maioria era principalmente biológica em espírito. Assim, uma foi dominada por um interesse obsessivo pelo voo, e portanto pelas aves; outra, pelo conceito de metabolismo; várias, pela criatividade sexual; e muitíssimas por alguma política geral, mas em geral pouco esclarecida, de eugenia. Devemos passar por todas elas, para descer e observar a maior de todas as linhagens da terceira espécie torturar-se até uma nova forma.
III
A Arte Vital
Foi depois de um período de eclipse excepcionalmente longo que o espírito da terceira espécie humana alcançou seu maior brilho. Não precisamos observar os estágios pelos quais esse esclarecimento foi atingido. Basta dizer que o resultado foi uma civilização muito notável, se tal palavra pode ser aplicada a uma ordem na qual aglomerações de arquitetura eram desconhecidas, a roupa era usada apenas quando necessária ao calor, e o desenvolvimento industrial que ocorreu estava inteiramente subordinado a outras atividades.
Cedo na história dessa cultura, as exigências da caça e da agricultura, e o impulso espontâneo de manipular coisas vivas, deram origem a um sistema primitivo, mas utilizável, de conhecimento biológico. Somente depois que a cultura unificou todo o planeta a própria biologia deu origem à química e à física. Ao mesmo tempo, um industrialismo bem controlado, baseado primeiro no vento e na água, e mais tarde no calor subterrâneo, ofereceu à espécie todos os luxos materiais que desejava, e muito lazer em relação à tarefa de manter-se em existência. Se já não houvesse existido um interesse mais poderoso e dominante, o próprio industrialismo provavelmente teria hipnotizado a espécie, como fizera com tantas outras. Mas nessa espécie o interesse pelas coisas vivas, que caracterizava a espécie inteira, era dominante antes que o industrialismo começasse. O egotismo entre os Terceiros Homens não podia ser satisfeito pelo exercício de poder econômico, nem pela simples ostentação de riqueza. Isso não significa que a espécie fosse imune ao egotismo. Ao contrário, havia perdido quase todo aquele altruísmo espontâneo que distinguira os Segundos Homens. Mas, na maioria dos períodos, o único tipo de ostentação pessoal que atraía os Terceiros Homens estava diretamente ligado ao interesse primitivo no rebanho, a antiga “pecúnia”. Possuir muitos e nobres animais, fossem eles economicamente produtivos ou não, foi sempre sinal de respeitabilidade. Os vulgares, de fato, contentavam-se com meros números, ou no máximo com as virtudes convencionais das variedades reconhecidas. Mas os mais refinados perseguiam, e ostentavam, certos princípios muito exatos de excelência estética em seu controle das formas vivas.
De fato, à medida que a espécie conquistava penetração biológica, desenvolvia uma nova arte muito notável, que podemos chamar “arte vital plástica”. Esta viria a tornar-se o principal veículo de expressão da nova cultura. Era praticada universalmente, e com fervor religioso; pois estava intimamente ligada à crença em um deus da vida. Os cânones dessa arte, e os preceitos dessa religião, flutuavam de era para era, mas em geral certos princípios básicos eram aceitos. Ou antes, embora houvesse quase sempre acordo universal de que a prática da arte vital era a meta suprema e não deveria ser tratada em espírito utilitário, havia dois conjuntos conflitantes de princípios favorecidos por seitas opostas. Um modo de arte vital procurava evocar toda a potencialidade de cada tipo natural como natureza harmoniosa e aperfeiçoada, ou produzir novos tipos igualmente harmoniosos. O outro se orgulhava de produzir monstros. Às vezes, uma única capacidade era desenvolvida à custa da harmonia e do bem-estar do organismo como um todo. Assim se produziu uma ave que podia voar mais rápido que qualquer outra ave; mas não podia reproduzir-se nem sequer alimentar-se, e por isso tinha de ser mantida artificialmente. Às vezes, por outro lado, certos caracteres incompatíveis na natureza eram forçados sobre um único organismo, e mantidos em equilíbrio precário e torturante. Para dar exemplos, uma façanha muito comentada foi a produção de um mamífero carnívoro em que os membros anteriores haviam assumido a estrutura de asas de ave, completas com penas. Essa criatura não podia voar, pois seu corpo tinha proporções erradas. Seu único modo de locomoção era uma corrida cambaleante com asas estendidas. Outros exemplos de monstruosidade foram uma águia com duas cabeças, e um cervo no qual, com engenhosidade inacreditável, os artistas haviam induzido a cauda a se desenvolver como cabeça, com cérebro, órgãos dos sentidos e mandíbulas. Nessa arte monstruosa, o interesse pelas coisas vivas era infectado pelo sadismo através da preocupação com o destino, especialmente o destino interno, como divindade que molda nossos fins. Em suas formas mais vulgares, é claro, era uma expressão crua da volúpia egotística pelo poder.
Esse motivo do monstruoso e do autodiscrepante era menos proeminente que o outro, o motivo da perfeição harmoniosa; mas em todos os tempos tendia a exercer ao menos uma influência subconsciente. A meta suprema do movimento dominante, buscador da perfeição, era embelezar o planeta com uma fauna e uma flora muito diversas, tendo a espécie humana ao mesmo tempo como coroa e instrumento da vida terrestre. Cada espécie, e cada variedade, deveria ter seu lugar e cumprir sua parte no grande ciclo dos tipos vivos. Cada uma deveria ser interiormente aperfeiçoada para sua função. Não deveria ter relíquias danosas de um modo de vida passado; e suas capacidades deveriam estar em verdadeira concordância umas com as outras. Mas, repetindo, a meta suprema não se ocupava apenas dos tipos individuais, mas de toda a economia vital do planeta. Assim, embora devessem existir tipos de todas as ordens, da mais humilde bactéria até o ser humano, era contrário ao cânone da arte sagrada ortodoxa que qualquer tipo prosperasse pela destruição de um tipo superior a si. No modo sadista da arte, porém, dizia-se que uma beleza trágica peculiarmente requintada residia em situações em que um tipo humilde exterminava um superior. Houve ocasiões na história da espécie em que as duas seitas se entregaram a conflito sangrento porque os sadistas continuavam a conceber parasitas para minar os nobres produtos dos ortodoxos.
Daqueles que praticavam a arte vital, e todos a praticavam em alguma medida, alguns poucos, embora rejeitassem deliberadamente os princípios ortodoxos, conquistaram notoriedade e até fama por seus grotescos; enquanto outros, menos afortunados, estavam prontos a aceitar ostracismo e até martírio, declarando que aquilo que haviam produzido era um símbolo significativo da tragédia universal da natureza viva. A grande maioria, porém, aceitava o cânone sagrado. Tinham, portanto, de escolher um ou outro entre certos modos reconhecidos de expressão. Por exemplo, podiam buscar aprimorar algum tipo existente de organismo, tanto aperfeiçoando suas capacidades quanto eliminando dele tudo que fosse danoso ou inútil. Ou então, obra mais original e precária, podiam dedicar-se a criar um novo tipo para preencher um nicho do mundo ainda não ocupado. Para esse fim, selecionavam um organismo adequado e buscavam refazê-lo segundo um novo plano, esforçando-se por produzir uma criatura de natureza perfeitamente harmoniosa, precisamente adaptada ao novo modo de vida. Nesse tipo de obra, diversos princípios estéticos estritos precisavam ser observados. Assim, era considerado má arte reduzir um tipo superior a um inferior, ou de qualquer maneira desperdiçar as capacidades de um tipo. E, além disso, como o verdadeiro fim da arte não era a produção de tipos individuais, mas a produção de uma fauna e flora mundiais e perfeitamente sistemáticas, era inadmissível prejudicar, mesmo acidentalmente, qualquer tipo superior àquele que se pretendia produzir. Pois a prática da arte vital ortodoxa era considerada um empreendimento cooperativo. O artista último, sob Deus, era a humanidade como um todo; a obra de arte última deveria ser uma veste cada vez mais sutil de formas vivas para o adorno do planeta e o deleite do Artista supremo, em relação ao qual o ser humano era ao mesmo tempo criatura e instrumento.
Pouco foi alcançado, naturalmente, até que as ciências biológicas aplicadas avançassem muito além da marca máxima atingida muito antes durante a carreira dos Segundos Homens. Era necessário muito mais que os princípios empíricos dos antigos criadores. Foram necessários a essa mais brilhante de todas as linhagens da terceira espécie muitos milhares de anos de pesquisa para descobrir os princípios mais delicados da hereditariedade e conceber uma técnica pela qual os próprios fatores hereditários no germe pudessem ser manipulados. Foi essa penetração crescente da própria biologia que abriu as regiões mais profundas da química e da física. E, devido a essa sequência histórica, as ciências posteriores foram concebidas de modo biológico, com o elétron como organismo básico e o cosmos como todo orgânico.
Imaginai, então, um planeta organizado quase como vasto sistema de jardins botânicos e zoológicos, ou parques selvagens, entremeados de agricultura e indústria. Em cada grande centro de comunicações ocorriam exposições anuais e mensais. As criações mais recentes eram postas à prova, julgadas pelos altos sacerdotes da arte vital, premiadas com distinções e consagradas por cerimônia religiosa. Nessas exposições, alguns dos exemplares eram utilitários, outros puramente estéticos. Podia haver grãos, vegetais e gado aperfeiçoados, alguma variedade excepcionalmente inteligente ou robusta de cão pastor, ou um novo microrganismo com função especial na agricultura ou na digestão humana. Mas havia também as conquistas mais recentes da pura arte vital. Grandes cervos corredores de membros lisos e sem chifres; aves ou mamíferos adaptados a algum papel até então não cumprido; ursos destinados a superar todas as variedades existentes na luta pela existência; formigas com órgãos e instintos especializados; melhorias nas relações de parasita e hospedeiro, de modo a produzir verdadeira simbiose em que o hospedeiro se beneficiasse do parasita. E assim por diante. E em toda parte estariam os pequenos seres ruivos, nus, semelhantes a faunos, que haviam criado essas maravilhas. Gente tímida, moradora das florestas, de constituição gurca, permaneceria junto de seus antílopes, abutres ou novos grandes rondadores felinos. Uma jovem grave poderia causar sensação ao entrar no recinto seguida por vários ursos gigantescos. As multidões talvez se apertassem ao redor para examinar os dentes ou membros das criaturas, e ela poderia repreender os intrometidos para longe de seu rebanho paciente. Pois a relação normal entre humano e animal nessa época era de perfeita amizade, elevando-se às vezes, no caso dos animais domesticados, a uma adoração mútua requintada, quase dolorosa. Mesmo as feras selvagens nunca se davam ao trabalho de evitar o homem, muito menos de atacá-lo, salvo nas circunstâncias especiais da caça e do espetáculo gladiatório sagrado.
Estes últimos precisam de atenção especial. Os poderes de combate nas feras eram admirados não menos que outros poderes. Homens e mulheres igualmente experimentavam uma alegria selvagem, quase um êxtase, diante do espetáculo do combate mortal. Consequentemente, havia ocasiões formais em que diferentes tipos de feras eram enfurecidos uns contra os outros e autorizados a lutar até a morte. E não apenas isso: havia também combates sagrados entre fera e ser humano, entre homem e homem, entre mulher e mulher e, o que é mais surpreendente aos leitores deste livro, entre mulher e homem. Pois, nessa espécie, a mulher em seu auge não era fisicamente mais fraca que seu parceiro.
IV
Políticas Conflitantes
Quase desde o início, a arte vital fora aplicada em certa medida ao próprio ser humano, embora com hesitação. Certas grandes melhorias haviam sido efetuadas, mas apenas melhorias sobre as quais não podia haver duas opiniões. As muitas doenças e anormalidades deixadas por civilizações passadas foram pacientemente abolidas, e vários defeitos mais fundamentais foram corrigidos. Por exemplo, dentes, digestão, equipamento glandular e sistema circulatório foram grandemente melhorados. Saúde extrema e considerável beleza física tornaram-se universais. A gestação foi convertida num processo indolor e benéfico à saúde. A senilidade foi adiada. O padrão de inteligência prática foi apreciavelmente elevado. Essas reformas foram tornadas possíveis por um vasto esforço concertado de pesquisa e experimento sustentado pela comunidade mundial. Mas a iniciativa privada também foi eficaz, pois a relação entre os sexos era muito mais conscientemente dominada pelo pensamento da prole que entre os Primeiros Homens. Cada indivíduo conhecia as características de sua composição hereditária, e sabia que tipos de descendência eram esperados da união entre diferentes tipos hereditários. Assim, no cortejo, o jovem não se contentava em persuadir sua amada de que sua mente estava destinada pela natureza a proporcionar à mente dela uma alegre completude; procurava também persuadi-la de que, com sua ajuda, ela poderia gerar filhos de uma excelência peculiar. Consequentemente, ocorria em todos os tempos um processo de criação seletiva rumo ao tipo convencionalmente ideal. Em certos aspectos, o ideal permaneceu constante durante muitos milhares de anos. Incluía saúde, agilidade felina, destreza manipuladora, sensibilidade musical, refinada percepção do certo e do errado na esfera da arte vital, e um julgamento prático intuitivo em todos os assuntos da vida. A longevidade e a abolição da senilidade também eram buscadas, e parcialmente alcançadas. Ondas de moda às vezes dirigiam a seleção sexual para a proeza em combate, ou para algum tipo especial de expressão facial ou poderes vocais. Mas esses caprichos passageiros eram negligenciáveis. Apenas os caracteres permanentemente desejados foram de fato intensificados pela criação seletiva privada.
Mas por fim veio um tempo em que metas mais ambiciosas foram acolhidas. A comunidade mundial era agora uma hierarquia teocrática altamente organizada, governada de modo estrito, mas no conjunto benevolente, por um conselho supremo de sacerdotes vitais e biólogos. Cada indivíduo, até o mais humilde trabalhador agrícola, tinha seu nicho especial na sociedade, atribuído a ele pelo conselho supremo ou por seus delegados, de acordo com sua hereditariedade conhecida e com as necessidades da sociedade. Esse sistema, naturalmente, às vezes levava a abuso, mas em geral funcionava sem grave atrito. Tal era a precisão do conhecimento biológico que o calibre mental e as aptidões especiais de cada pessoa eram conhecidos fora de disputa, e rebelar-se contra sua sorte na sociedade seria rebelar-se contra a própria hereditariedade. Esse fato era universalmente conhecido e aceito sem pesar. Uma pessoa tinha bastante espaço para emulação e triunfo entre seus pares, sem se entregar a tentativas vagas de transcender sua própria natureza, elevando-se a uma ordem hierárquica superior. Tal estado de coisas teria sido impossível se não houvesse fé universal na religião da vida e na verdade da ciência biológica. Também teria sido impossível se todas as pessoas normais não fossem praticantes ativas da sagrada arte vital, num plano adequado à sua capacidade. Todo indivíduo adulto da população mundial bastante escassa considerava-se artista criador, em esfera por humilde que fosse. E, em geral, ele ou ela estava tão fascinado pela obra que se contentava muito bem em deixar a organização e o controle social àqueles aptos a isso. Além disso, no fundo de cada mente havia a concepção da própria sociedade como organismo de membros especializados. O forte sentimento pela humanidade organizada tendia, nessa espécie, a dominar até seus fortes impulsos egotísticos, embora não sem luta.
Foi tal sociedade, quase inacreditável para os Primeiros Homens, que agora se pôs a refazer a natureza humana. Infelizmente havia visões conflitantes sobre a meta. Os ortodoxos desejavam apenas continuar o trabalho que havia muito estava em curso; embora propusessem maior empreendimento e coordenação. Aperfeiçoariam o corpo humano, mas segundo seu plano presente; aperfeiçoariam sua mente, mas sem buscar introduzir algo novo em essência. Sua constituição física, sua percepção, sua memória, sua inteligência e sua natureza emocional deveriam ser melhorados quase além do reconhecimento; mas deveriam, dizia-se, permanecer essencialmente o que sempre haviam sido.
Um segundo partido, contudo, finalmente persuadiu a opinião ortodoxa a ampliar-se em um aspecto importante. Como já foi dito, os Terceiros Homens eram propensos a fases de preocupação com o antigo anseio de imortalidade pessoal. Esse anseio fora muitas vezes forte entre os Primeiros Homens; e até os Segundos Homens, apesar de seu grande dom de desprendimento, às vezes haviam permitido que sua admiração pela personalidade humana os persuadisse de que as almas deviam viver para sempre. Os Terceiros Homens, de vida breve e pouco teóricos, com sua paixão pelas coisas vivas de todos os tipos e por toda a diversidade do comportamento vital, concebiam a imortalidade de várias maneiras. Em sua cultura final, imaginavam que, na morte, todas as coisas vivas aprovadas pelo Deus da Vida passavam para outro mundo, muito semelhante ao mundo familiar, mas mais feliz. Ali, dizia-se, viviam na presença da divindade, servindo-a em livre criatividade vital de vários tipos.
Ora, acreditava-se que comunicação poderia ocorrer entre os dois mundos, e que o tipo mais alto de vida terrestre era aquele que se comunicava de modo mais eficaz; e ainda que chegara o tempo para uma revelação muito mais plena da vida futura. Propôs-se, portanto, criar comunicantes altamente especializados, cujo ofício seria guiar este mundo por meio de conselhos vindos do outro. Como entre os Primeiros Homens, acreditava-se que essa comunicação com o mundo invisível ocorria no transe mediúnico. O novo empreendimento, então, era criar médiuns extremamente sensíveis e aumentar os poderes mediúnicos do indivíduo médio.
Havia ainda outro partido, cuja meta era muito diferente. O ser humano, diziam eles, é um organismo muito nobre. Lidamos com outros organismos de modo a intensificar em cada um seus atributos mais nobres. É hora de fazer o mesmo com o ser humano. O que há de mais distintivo no ser humano é a manipulação inteligente, cérebro e mão. Ora, a mão está na verdade superada pelos mecanismos modernos, mas o cérebro jamais será superado. Portanto, devemos criar estritamente para o cérebro, para a coordenação inteligente do comportamento. Todas as funções orgânicas que podem ser desempenhadas por maquinaria devem ser relegadas à maquinaria, para que toda a vitalidade do organismo seja dedicada à construção e ao funcionamento do cérebro. Devemos produzir um organismo que não seja mero feixe de relíquias deixadas por seus ancestrais primitivos e precariamente governadas por um vislumbre de inteligência. Devemos produzir um humano que seja nada além de humano. Quando fizermos isso, poderemos, se quisermos, pedir-lhe que descubra a verdade sobre a imortalidade. E também poderemos entregar-lhe com segurança o controle de todos os assuntos humanos.
A casta governante era fortemente oposta a essa política. Declarava que, se ela tivesse êxito, produziria apenas um ser muito desarmônico, cuja natureza violaria todos os princípios da estética vital. O ser humano, diziam, era essencialmente um animal, embora dotado de dons únicos. Toda a sua natureza devia ser desenvolvida, não uma única faculdade à custa das outras. Argumentando assim, eram provavelmente influenciados em parte pelo medo de perder sua autoridade; mas seus argumentos eram convincentes, e a maioria da comunidade concordava com eles. Mesmo assim, um pequeno grupo dos próprios governadores estava decidido a levar o empreendimento adiante em segredo.
Não havia necessidade de segredo na criação de comunicantes. O Estado mundial encorajou essa política e chegou a instituir estabelecimentos para sua execução.