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A Cachoeira de Paulo Afonso

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A Cachoeira de Paulo Afonso

Capítulo 1 · A Cachoeira de Paulo Afonso

A tarde

Era a hora em que a tarde se debruça

Lá da crista das serras mais remotas...

E d'araponga o canto, que soluça,

Acorda os ecos nas sombrias grotas;

Quando sobre a lagoa, que s'embuça,

Passa o bando selvagem das gaivotas...

E a onça sobre as lapas salta urrando,

Da cordilheira os visos abalando.

Era a hora em que os cardos rumorejam

Como um abrir de bocas inspiradas,

E os angicos as comas espanejam

Pelos dedos das auras perfumadas...

A hora em que as gardênias, que se beijam,

São tímidas, medrosas desposadas;

E a pedra... a flor... as selvas... os condores

Gaguejam... falam... cantam seus amores!

Hora meiga da Tarde! Como és bela

Quando surges do azul da zona ardente!

... Tu és do céu a pálida donzela,

Que se banha nas termas do oriente...

Quando é gota do banho cada estrela,

Que te rola da espádua refulgente...

E, — prendendo-te a trança a meia lua,

Te enrolas em neblinas seminua!...

Eu amo-te, ó mimosa do infinito!

Tu me lembras o tempo em que era infante.

Inda adora-te o peito do precito

No meio do martírio excruciante;

E, se não te dá mais da infância o grito

Que menino elevava-te arrogante,

É que agora os martírios foram tantos,

Que mesmo para o riso só tem prantos!...

Mas não m'esqueço nunca dos fraguedos

Onde infante selvagem me guiavas,

E os ninhos do sofrer que entre os silvedos

Da embaíba nos ramos me apontavas;

Nem, mais tarde, dos lânguidos segredos

De amor do nenufar que enamoravas...

E as tranças mulheris da granadilha!...

E os abraços fogosos da baunilha!...

E te amei tanto — cheia de harmonias

A murmurar os cantos da serrana, —

A lustrar o broquel das serranias,

A doirar dos rendeiros a cabana...

E te amei tanto — à flor das águas frias —

Da lagoa agitando a verde cana,

Que sonhava morrer entre os palmares,

Fitando o céu ao tom dos teus cantares!...

Mas hoje, da procela aos estridores,

Sublime, desgrenhada sobre o monte,

Eu quisera fitar-te entre os condores

Das nuvens arruivadas do horizonte...

... Para então, — do relâmpago aos livores,

Que descobrem do espaço a larga fronte, —

Contemplando o infinito..., na floresta

Rolar ao som da funeral orquestra!!!

A Cachoeira de Paulo Afonso

Sinopse

A Cachoeira de Paulo Afonso, de Castro Alves, é uma obra poética clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 31 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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