Leia agora
Apólogos

Universo da obra

Apólogos

Capítulo 8 · Apólogos

A união

8 de 18 ≈ 9 min de leitura

Prevenido por um camarada das perversas intenções do sanguinario bandido que andava a asssolar a região arrombando paioes, furtando rezes nas pastagens, incendiando as culturas e assassinando os que, com maior coragem, ousavam defender os seus bens, o fazendeiro ameaçado, que era o mais rico do lugar, resolveu dirigir-se aos vizinhos expondo-lhes os riscos que todos correriam se não se ligassem contra o quadrilheiro que dispunha de gente numerosa e bem armada.

Montou a cavallo e lá se foi aos sítios próximos pedir soccorro.

O primeiro a quem narrou o que soubera do camarada encolheu-se na rede e, fingindo contrariedade por não poder corresponder ao pedido que lhe era feito, disse : — Ah! meu amigo, não ima- . gina quanto me pesa não poder servi-lo no momento, mas como hei de distrahir a minha gente se ando atarefado com a colheita?

Pudesse eu e não negaria o auxilio que me pede, mas que hei de fazer?

O fazendeiro insistiu: — Não é só o senhor que anda a . colher, todos nós lavradores estamos occupados nesse serviço, mas que será da nossa riqueza se o homem cruel appare-cer á frente da sua gentalha?

Teremos de fugir abandonando, não só a colheita como a casa e todos os bens e ainda nos poderemos considerar felizes se escaparmos á sanha de tão perverso ladrão.

O outro, sempre encolhido, cocou a cabeça e respondeu: — Demais, vizinho, porque nos havemos de incommodar se o homem anda ainda tão longe?

É verdade que elle ameaçou, mas da ameaça á acção vai muito.

Esperemos.

— E acredita o vizinho que elle, depois que sahir do seu antro, nos dê tempo para organisarmos a defesa?

Não.

É prudente que não nos encontre desapercebidos e é até possivel que recúe e desista do crime que projecta só com a noticia dos nossos aprestos.

— Não, vizinho; esperemos.

Diante de tanta indolencia o fazendeiro retirou-se dirigindo-se a outro vizinho e, falando-lhe como falara ao primeiro, o homem respondeu-lhe com indifferença: — Que quer o vizinho que eu faça se a questão não é commigo, senão com o senhor, que é rico?

Aqui não chegou ameaça alguma.

Porque hei de eu sahir a campo quando não fui provocado nem corro perigo algum?

— Sim, por emquanto a questão é commigo, mas será ámanhan com o senhor e com todos os outros, grandes e pequenos agricultores da zona: desde os que possuem vastas propriedades prosperas até o que apenas tem uma choupana na escosta do monte.

Eu só não poderei resistir ao assalto e ficarei á mercê do assassino e, no dia em que elle me houver vencido, a mim que sou o mais forte, que podereis vós outros fazer?

O que proponho é a alliança, a união das forças para a defesa commum.

Collocando-se a meu lado, o senhor defende as minhas terras, mas tambem garante as suas, e deixando-me perecer entrega-se ao inimigo.

— Não, não.

Cuide cada qual de si, vizinho.

Foi-se o fazendeiro e, entrando em outra casa, expoz o motivo da sua visita.

O plantador, que era covarde, impressionado com o que ouvira, nem respondeu á proposta: — Que vou eu fazer!?

Ai! de mim.

Que vou eu fazer!?

O melhor é deixar a casa e as terras e tratar de garantir a vida longe, em lugar seguro.

— E o vizinho não pensa na familia?

Que será della quando achar-se desagasalhada e faminta?

Todo homem deve defender a sua propriedade e, como o vizinho só nada poderá fazer contra o bandido, venha commigo e, engrossando a minha tropa, defenderá o seu sitio desaffrontando a nossa região.

Mas o pobre homem tremia e, pallido, como se já ouvisse a estropeada dos cavalleiros assaltantes, repetia tremulamente: « O melhor é fugir!

O melhor é fugir! » E não houve argumentos que o convencessem.

Foi-se o fazendeiro contristado e viu, á beira d’agua, um trabalhador.

Chamou-o e, como falara aos anteriores, assim lhe falou.

— E então um ajuste?

— Como ajuste?

— Quer o senhor que eu peleje defendendo as suas terras?

— As nossas, meu amigo.

— Ora, as nossas...

O senhor tem léguas de campos e mattas que vão por ahi além; e eu? que possuo? esta horta que é menos do que o menor terreiro da sua fazenda.

— Isso mesmo perderá o amigo, disse o fazendeiro.

E na união das forças que se firma a liberdade.

Para que a casa não soffra é necessário que a cidade tenha defensores.

Basta que se parta um elo para que deixe de existir a cadeia.

O homem meneou com a cabeça, deu d’hombros e contimuou a trabalhar á beira d’agua.

Desanimado, o fazendeiro retrocedeu resolvido a esperar, com os seus poucos homens, a farandula do bandido.

Não contava com a victoria porque, além dos inimigos serem numerosos, eram homens provados em combates.

Morreria no limiar da sua casa defendendo a sua propriedade, porque assim morreria com honra.

Succedeu, porém, que o bandido, avisado por um dos espiões, soube o que fazia o fazendeiro e logo, reunindo em conselho no fundo da sua caverna, falou á cáfila: — Meus amigos, ainda que eu confie na vossa bravura, não acho prudente sahirmos contra o fazendeiro que a juntou gente e espera-nos.

Ha sitios na redondeza, vamos primeiro por elles e, reunindo o que acharmos, poderemos, em seguida, derrotar o soberbo lavrador.

Os outros são fracos, nem se atreverão, por certo, a resistir.

Os bandidos applaudiram o plano astuto do chefe e, na manhan seguinte, fazendo uma grande volta pela floresta, a quadrilha chegou ao sitio do primeiro homem procurado pelo fazendeiro.

Estava o indolente a dirigir a colheita quando os cavalleiros irromperam pondo em debandada os trabalhadores.

O homem mal teve tempo de montar a cavallo e, á toda a brida, ganhar a estrada refugiando-se num bosque de onde podia vêr a sua casa e as suas culturas e ouvir os gritos lamentosos dos filhos que os assaltantes acutilavam.

« Ah ! porque não me liguei com o fazendeiro?

Porque não dei ouvidos ás suas palavras prudentes!? » E chorava quando viu as labaredas rubras que subiam lançando-se, com estrondo, do tecto dos seus paióes.

Era toda a sua fortuna, todo o seu trabalho perdido.

E seus filhos, pobrezinhos!

Lembrou-se, então, de pedir misericordia ao fazendeiro e lá foi, a todo o correr do cavallo, lamentando-se.

Em caminho encontrou o covarde que fugia e, espalhando-se a noticia terrivel, todos os plantadores foram abandonando as suas propriedades, correndo a refugiar-se na fazenda do homem rico.

Elle recebeu-os com humanidade e, como os colonos e os camaradas houvessem seguido os patrões, o fazendeiro reuniu-os á sua gente, armou-os e contou quinhentos combatentes.

Então, tomando o commando, sahiu pelas trilhas para alcançar os bandidos, surprendê-los e derrotá-los.

Era noite negra quando avistaram um clarão de incendio ao longe.

Era a choupana da encosta do monte que ardia.

— Ai! de mim, suspirou o desgraçado dono, todo o meu trabalho perdido.

Ali nasci, ali pretendia morrer como morreram meus pais e o fogo lá vai consumindo tudo quanto fiz.

Ai! de mim.

Ouvindo as tristes queixas dos infelizes, o fazendeiro tirou-se do silencio : — Bem avisados fostes, negaste-vos todos ao meu appello julgando que eu tinha apenas em vista o meu interesse quando me preoccupava com o bem commum, porque não póde haver paz nem póde medrar a fortuna em uma região, em um paiz quando o invasor se installa em um dos seus pontos.

Assim, se uma dôr apparece em um membro, todo o corpo resente-se e basta, ás vezes, uma pequena chaga descuidada para que a morte entre por ella no organismo.

Não me quizestes ouvir em tempo e agora, depois do soffrimento, vindes a mim.

Praza a Deus que possamos repellir o inimigo.

Ainda vencendo, ha de ficar-vos a vergonha de haverdes recuado e tereis de reconstituir a fortuna que, por desidia, imprudencia ou pusilanimidade, perdestes.

Os homens, pondo a razão ao lado do fazendeiro, ouviam em silencio.

Chegando ao ponto em que flammejava o incendio, tratou o fazendeiro de observar a posição dos bandidos e viu-os sentados em volta duma fogueira, banqueteando-se.

Não lhes deu tempo e, precipitando-se sobre elles com a sua gente, fez tamanha carnificina que o sangue, correndo a golfos, apagou a fogueira que os miseraveis haviam ateiado.

Nem um só escapou e, ao clarear d’alva, no campo do combate, o fazendeiro falou aos homens que se lamentavam: — Eis-nos, emfim, livres do flagello que nos trazia em constante sobresalto.

Agora podemos viver tranquillamente, sem necessidade de distrahir os homens do serviço para seguirem os passos do meliante.

Eu, louvado Deus! nada perdi.

Vós outros ficastes com as vossas terras arrasadas.

O que nellas havia desappareceu.

Recomeçai e tende sempre de memoria a lembrança deste successo exemplar, porque o bem de todos depende do perfeito equilibrio e o que se faz pela terra natal fazse pela fortuna e pela honra.

Somos muitos, mas o nosso dever é um só.

O que eu vos propunha era a salvação, tomastes as minhas palavras como ditadas pelo egoismo e tivestes o premio da desconfiança injusta.

Assim como foi comnosco, podia ser com o paiz e o mal seria do todo se uma parte fosse vencida e desmembrada: pela ferida viria o mal ao corpo e morte á Liberdade.

Que vos aproveite a lição dolorosa.

E agora celebremos o triumpho sem mais lamentos.

A terra ahi está, sempre fertil, para refazer a vossa fortuna.

E todos os homens, arrependidos, acompanharam humildemente o fazendeiro victorioso.

Apólogos

Sinopse

Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978654787941050528074156
Apólogos

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Apólogos

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Apólogos

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Apólogos Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 8 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir