Universo da obra
Universo da obra
Como lhe não houvesse nascido um varão que fosse o seu successor, empunhando com magestade o sceptro e brandindo a lança rija e aguda, o velho rei vivia melancolicamente entre as filhas, que eram duas, ambas de formosura rara, mas de constituições differentes.
A mais velha, nascida sob o signo sangrento de Saturno, era alta e robusta, afoita e agil como um caçador de tigres.
Na sua recámara tudo falava de caçadas e guerras.
Pelas paredes eram paineis bellicosos, tropheus d’armas, escudos, em um dos quaes, finamente polido por alfageme perito, todas as manhans reflectia-se o rosto moreno da princeza, cujos olhos negros brilhavam como dois carvões que centelhas vivazes accendessem.
As pelles que forravam o soalho eram de feras que ella mesma caçára nos juncaes ou nas mattas.
Nada ali havia que lembrasse a mulher.
Dir-se-ia a tenda de um chefe de hoste em vez de camara de princeza real.
Ainda menina — contavam os areheiros palacianos — quando os clarins vibravam no campo de manobra, chamando a exercicio a fina flôr dos guerreiros, descendo precipitadamente as escadas do paço, que eram do mais fino marmore, balaustradas de prata, ella invadia a casa d’armas e, escolhendo entre as lanças a de ferro mais fino, com um escudo embraçado, reclamava o seu negro e fogoso ginete e, antes que o pagem lhe apresentasse o estribo, lésta e sorrindo, saltava na sella e upa! lá ia, cabello solto ao vento, divinamente bella, divinamente heroica, formar entre os cavalleiros cujas armas brilhavam ao sol.
O velho rei, do balcão do paço, entre os aulicos, contemplava-a com orgulho, e, quando os esquadrões, com estropeada estrondosa, vinham, d’arremettida, seguindo o pendão real que palpitava ao vento, o primeiro ginete que vingava a trincheira era negro e sobre elle sorria, córada, a lança em riste, o escudo ao peito, a princeza, linda como o proprio genio da guerra que os poetas celebravam nos seus cantos.
A mais moça...
Oh! a mais moça!
Vê-la era entre donzellas, fiando sêda, bordando a ouro, com uma harpa aos pés, sempre afinada para acompanhar-lhe a voz.
Vê-la era nos perfumados meandros do parque onde as rosas eram mais abundantes ou na sua camara, toda alfaiada de tapeçarias, nas quaes os artistas haviam figurado episodios pastoris e scenas commovedoras da piedade dos eremitas.
O perfume das flores tornava o ambiente delicioso e, como tudo era paz em tão encantador recinto, as borboletas entravam com intimidade, pousavam na sêda das cortinas brancas, ficavam, ás vezes, como adormecidas, entre os lotus das tapeçarias, ou iam afoitamente até a dona mimosa de tantos penhores e acariciavam-na com meiguice, como se a tomassem por uma grande flôr.
Emquanto a mais velha pensava em justas e em montarias, ella interrogava, em segredo, os camaristas, informando-se do soffrimento do povo e, sahindo, nunca se encontravam as duas irmans porque, se uma ia a caminho dos arsenaes e das tercenas, ia a outra em visita á pobreza, espalhando, bondosamente, a esmola e o carinho.
O rei tinha a mais moça em conta muito inferior e, quando dizia : — Minha filha — todos s a b i a m de quem falava e, para o lisonjearem, logo gabavam a galhardia da mais velha.
Nesse tempo as guerras eram frequentes.
Ás vezes uma cidade, que adormecera em paz, acordava com um exercito fervilhando em volta dos seus muros.
Correndo a noticia de que o rei valetudinario já não podia com o peso de uma lança, um principe vizinho armou a sua gente e, com copioso material de guerra, apresentou-se ante as portas da cidade.
Tomado assim de surpresa, o monarcha convocou os generaes e combinava com elles o plano de defesa quanda a filha, acobertada d’aço e empunhando uma lança, rompeu na sala do conselho e falou offerecendo-se para levar á victoria o exercito glorioso.
O rei sorriu de alegria e de orgulho; os cortezãos louvaram a intrepidez da donzella.
Só um velho, cuja cabeça era mais alva do que o íinho córado ao luar, ousou levantar a voz contrariando a temeraria: — Senhor, sou dos que mais amam a princeza: estes braços, hoje enfraquecidos, acalentaramm-na quando era pequenina.
Amo-a como se minha filha fosse e veneroa como minha senhora, que é.
Tenho-a visto entre os guerreiros, terçando como os melhores e levando o seu ginete aos pontos mais arriscados.
As armaduras acobertam o corpo e defendem-no dos golpes, mas não houve ainda alfageme que temperasse uma couraça para o coração e a melhor peça do arnez é ainda, senhor, o animo.
Vossa filha póde brilhar em exercidos, mas não a mandeis a combates, que não é de mulheres tal officio.
Outras batalhas, e não menos rudes, vencem ellas, mas com armas bem differentes das que manejamos.
Dai o régio pendão a um guerreiro e as nossas armas repellirão as lanças do invasor.
Não vos illudais ouvindo o coração quando se trata da Patria.
Pasmaram todos do atrevimento do velho fidalgo e a princeza, afogueada em furor, não mais pediu o commando do exercito, mas conhecendo a fraqueza paterna, fez do pedido exigencia e o rei, ali mesmo, a investiu do poder supremo, apresentando-a aos generaes calados.
E sahiram alvoroçadamente as tropas levando á frente, em negro e ardego ginete, a atrevida donzella.
Instantes depois fóra, ao sol, estrondavam as armas.
Á primeira investida os inimigos recuaram, tanto, porém, que se espalhou a noticia de que era uma mulher que dirigia a batalha, logo a soldadesca, que ia cedendo o terreno, voltou á acção com tal denodo que, antes do sol baixar por traz das verdes collinas, do numeroso e aguerrido exercito do velho rei jazia no campo a melhor parte e o resto, destroçado, fugia alijando as armas e, entre os ginetes que mais corriam, via-se um, negro, cavalgado por um guerreiro que soluçava.
Abriram-se as portas da cidade e o negro ginete passou levando, em galope desabrido, o cavalleiro lindo que chorava.
Dois mezes durou o cerco, dois grandes mezes crueis e a cidade gemia curtindo sêde, porque o inimigo havia destruído os aqueductos, quando a princeza mais moça resolveu falar ao pai que a desgraça prostrara.
Encontrou-o na camara, com a face mais envelhecida e os olhos consumidos pelo pranto.
Ajoelhando-se diante delle pediu-lhe a donzella para sahir a entender-se com o inimigo.
Mirou-a o pai com espanto e, depois de angustioso silencio, disse-lhe, por entre lagrimas: — Como queres sahir, filha ultima do meu amor, se dos meus guerreiros nem um só resta para guardar-te?
— Nem eu os quizera, senhor, ainda que os houvesse.
Disse e, voltando-se graciosamente, mostrou o cortejo de donzellas, companheiras frageis que a seguiam sempre.
Com ellas vou e com ellas passarei por entre as tendas do inimigo até chegar á do principe que nos avexa.
— E como poderás garantir-te contra gente tão vil?
— Senhor, levo no seio um punhal que me defenderá, se preciso fôr, não se voltando contra o inimigo que sorriria, e com razão, do gesto presumpçoso e ridiculo, mas cravando-se no proprio seio em que vai.
Eu vou apenas pedir.
— E acreditas que tal tyranno ceda aos teus rogos?
— Sou fraca como devo ser: se a minha boca não conseguir domá-lo, meus olhos, que vão cançados de chorar, ainda darão lagrimas por vós.
E a princeza partiu.
Na manhan seguinte, uma atalaia, que vigiava em uma torre, desceu a annunciar que as tendas haviam desapparecido e que, para os lados das montanhas, densa nuvem de poeira escondia o grande exercito que se retirava.
Correu todo o povo ás muralhas, o rei subiu ao torreão e todos viram que o soldado dissera a verdade.
O rei olhava ainda quando viu vir, entre virgens, seguida de muitas lanças, a princeza mimosa.
Os guerreiros que a acompanhavam pararam a curta distancia das muralhas e, logo que ella entrou na cidade, retrocederam silenciosos.
O velho rei, que descera a recebê-la, acolheu-a nos braços e, com muitas lagrimas de alegria, perguntou commovido: — Que fizeste para abrandar o coração do monstro?
— Senhor, nem sei dizer como consegui o que a todos parecia um sonho.
Ia falar quando os soluços me travaram a voz.
Sei que levantei os olhos porque vi a face rude do guerreiro.
Eu acreditava que faria muito, mas ...
Não encareçais a minha victoria porque, em verdade, nada fiz.
Não me culpeis, porém, senhor, que sou mulher.
— E por isso venceu, porque tuda vence a fraqueza da mulher mimosa, disse, entre os cortezãos, o mais velho de todos.
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