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Capítulo 6 · Apólogos

O lenhador

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Ainda escuro, com as estrellas vivas no céu, lá sahia o lenhador a caminho da floresta.

Machado ao hombro, a marmita á ilharga, lá ia elle para a faina diaria de abater os troncos.

Fosse o inverno rigoroso, de gelar, ou abrasasse o sol, o homem não se resentia.

Robusto e ambicioso, mal o gallo cantava punha-se de pé e, sem mesmo volver os olhos para o pequenino filho, que dormia num berço de vime, sahia apressado, sempre receioso de chegar tarde, como se as pobres arvores, que o seu cortante machado detorava, pudessem fugir, como fugiam os animaes ariscos, mal lhe sentiam os passos nas folhas seccas do bosque.

A casa ficava entregue á mulher que preparava a alimentação, cuidava dos demais deveres domesticos e ainda, apesar de fraca e enfermiça, fazia renda que ia vender á cidade.

Era o marido com os pesados carros de lenha e ella com o cestinho cheio de lindas rendas.

Os que a viam, tão pallida e tão magra, sempre a tossir, lastimavam-na: « Pobre mulher! tão doente e sempre a trabalhar, porque nem aos domingos descança e, se vem á missa, é mais para mostrar, no adro da igreja, as suas rendas, do que para pôr-se em graça, porque nem para cuidar da alma lhe sobram instantes.» Ás vezes davam-lhe esmolas a ella, humilhando-se, agradecia beijando as moedas.

E o filho?

Pobre criança! tão enfesadinho, sempre a choramigar.

Se alguma senhora mais caridosa perguntava por elle, a mãi, com voz chorosa, respondia: — Ah! minha boa senhora, soffre e como não ha de soffrer o coitadinho se tenho os peitos mirrados?

Bem faço eu por contentá-lo, mas o leite é tão pouco e, ainda assim, tão dessorado que o pobrezinho parece que soffre mais quando o achego ao collo.

Deus não se compadece de nós..

Entretanto os que viam o lenhador entrar na cidade, todas as tardes, com grandes carros empilhados de troncos, murmuravam: « Mas onde porá esse homem o dinheiro que ganha?

Não ha dia em que não appareça com uma carrada de lenha e que a não venda.

A mulher auxilia-o com o seu trabalho.

Moram em uma choupana em terras próprias.

Que farão elies do dinheiro?» Se a interrogavam, ella sahia sempre com a mesma resposta gemida: «As molestias levam tudo quanto fazemos.

Não ha dinheiro que chegue.

Nem sei que seria de nós se não fosse a caridade de certas pessoas que nos valem com esmolas.» Quem visitasse a choupana do lenhador, á beira da floresta, ficaria com o coração doído, tanta era a miseria entre aquelles fendidos muros, ennegrecidos de fuligem.

O leito era uma enxerga de palha de milho, a mesa era uma taboa mal acepilhada.

Nem arca possuiam: era em velhos caixotes que guardavam a roupa.

No tempo do inverno o vento bravio esfusiava por mil frinchas e a chuva jorrava do tecto colmado encharcando o interior que ficava em pocilga.

Ah! mas se, á noite, alguém pudesse seguir o casal — o lenhador e a mulher — que, a portas fechadas, á luz duma candeia fumarenta, conversavam baixinho na sala lugubre, havia de pasmar do que ouvisse e visse.

Quando o pequenito adormecia, enrolado em trapos immundos, lá iam os dois para um quarto e, trancando-se, o lenhador, acocorado, punha-se a raspar a terra do solo até pôr a descoberto uma lage; levantava-a com esforço e, no fundo duma cóva, brilhavam á luz pilhas de moedas de ouro e prata.

Riam, então, de prazer contemplando, adorando tamanha fortuna.

E a mulher, com soberbia, contava: — Sabes quem me deu hoje uma esmola á porta da igreja?

Luiza.

Custoume conter o riso.

A Luiza, imagina! que vive a bater roupa nas pedras do rio, a dar esmolas como grande dama.

Recebi, que não sou tola, e cá está a moedinha de cobre á espera de outras para que as troques em prata.

O lenhador sorria e, deslumbrados, ficavam os dois á beira da cova, tiritando e roendo codeas de pão duro que a mulher trouxera da caridade.

E assim viviam avaramente, accumulando moedas e affectando penuria.

Uma noite o lenhador sonhou que, ao entrar na floresta, vira fender-se uma grande arvore e apparecer dentro delia o genio da matta.

Era um gigante, todo verde, cujos cabellos eram compridos cipós, cujos braços eram grossos galhos, cujos pés eram immensas raizes, que assim lhe falou em voz retumbante: «Homem forte, o teu machado inclemente vai devastando a minha floresta, dentro em pouco não terei uma arvore que me abrigue e serei forçado a refugiar-me no seio da terra.

Venho fazer-te uma proposta: se a aceitares poderás abandonar o machado, porque terás fortuna maior do que a do homem mais rico da cidade.

Queres? » E o lenhador, em sonho, respondeu: — Sim!

Quero.

— Então assigna com o teu sangue o que está escripto nesta folha verde e eu te conduzirei ao lugar em que se acha o thesouro.

E o genio apresentou ao lenhador uma larga folha d’arvore na qual estavam escriptas estas palavras luminosas: «Comprometto-me a nunca mais levantar o machado contra as arvores da floresta sob pena de ser por ellas esmagado.» Promptamente, picando uma veia do braço, tirou o sangue com que assignou o compromisso e o genio, tomando-o facilmente nos braços, levou-o a um canto do bosque, perto duma fonte, sitio que elle conhecia por o haver, muita vez, procurado com sêde e, cavando á beira d’agua, fez apparecer um grande cofre de ferro, enferrujado e poído, e, abrindo-o, viu o lenhador que estava cheio, até ás bordas, de moedas de ouro.

— É teu, disse-lhe o genio, leva-o.

Lembra-te, porém, das palavras que assignaste.

E o lenhador jurou que as cumpriria e logo, curvando-se, quiz carregar o cofre, mas o genio offereceu-se para levá-lo á choupana.

Foi com o ruido alegre das moedas de ouro que o lenhador acordou e logo, despertando a mulher, contou-lhe o sonho que tivera.

— E se eu fosse á fonte?

Que dizes?

— Ora !...

Quem se fia em sonhos...!

— Quem sabe lá!

Conheço o lugar a que me levou o genio.

Vou até lá com uma enxada, cavo...

É um pouco de trabalho, mas podemos ficar mais ricos do que o Daniel, que tem um palacio e terras fartas de lavoura e gado.

Vou, não custa.

Bem póde ser um aviso de Deus.

— Mas ainda é cedo, homem.

Pouca mais é de meia noite.

— Chegarei á fonte de madrugada.

Póde ser que outro tenha tido o mesma sonho e assim, quando lá chegar, já não encontrará o thesouro.

Levantou-se, vestiu-se e partiu.

A manhan era fria e nevoenta.

O lenhador caminhava tiritando, a esfregar as mãos, muito encolhido num velho capote.

Quando chegou á floresta, na ansia de descobrir o thesouro, deitou a correr e ainda era escuro quando parou, fatigado, á beira da fonte que vira em sonho.

Estava exactamente como lhe apparecera — com as aguas limpidas brihando sobre um leito raso de areia branca.

Pelos ramos começavam os passaros a piar.

— É aqui! exclamou o ambicioso, atirando a primeira enxadada á terra.

E poz-se a cavar cantando.

De repente ouviu um som metallico e a enxada tremeu-lhe nas mãos.

Estremeceu de emoção e cavou com mais pressa, dizendo: «Pois querem vêr que é verdade!» Subito, como no sonho, viu apparecer um velho cofre enferrujado e poído e, apesar da grande excitação em que ficou, ouviu distinctamente uma voz que dizia: « Lembra-te, lenhador, das palavras que assignaste! » Relanceou o olhar em volta e, não vendo viv’alma, só se preoccupou com o thesouro.

Ah! o rico dinheiro, a bella fortuna em reluzentes moedas de ouro!

Abriu o cofre e contemplou extasiado os dobrões que lampejavam.

De repente, curvando-se, tentou levantar o cofre; o peso era grande e o lenhador teve de desistir da empreza.

Cobriu o achado cuidadosamente e voltou a buscar o carro tirado por tres juntas de bois e chamar a mulher para que lhe ajudasse a transportar, em saccos, da fonte até á clareira em que devia ficar o carro, todo aquelle poder de dinheiro.

Foi necessario cavar mais funda a cova no quarto escuro da cabana para guardar as moedas, quantas! trazidas da floresta.

Á noite, com um lume de gravetos perto da enxerga, transidos de frio, os dois conversavam e a mulher dizia: — Agora, sim !

Eu sempre queria que esses pobretões que por ahi andam vissem a nossa riqueza.

Podiamos ter um palacio todo de marmore, mais vasto e mais rico do que o do Daniel, que tanto se ufana com a miseria de umas moedas.

E se comprasses uma casa e a mobilasses com luxo?

Haviamos de vêr toda essa gente a nossos pés, a pedir-nos coisas...

E nós a rir, hein?

O homem não falava, a pensar na riqueza, ambicionando um thesouro maior.

Tanto, porém, com elle lidou a mulher que elle disse, por fim, em tom de angustia: — Em que penso? perguntas.

Penso que devo tornar á floresta com o machado porque se me não virem mais com o carro de lenha entrarão a desconfiar e talvez cheguem a descobrir a verdade.

Ai! de nós se derem por ella...!

Quem nos dará mais pão para a nossa fome, mais roupa para o nosso frio?

Demais, quem nos diz que não ha outros cofres na floresta?

Tornando eu com o machado ás arvores o genio, para defendê-las, mostrar-me-á outro thesouro.

Então, sim — ficarenos ricos, ricos como eu desejo.

— Mas não te lembras das palavras do genio e do documento terrivel que assignaste?

Vê lá!

Acho que devemos trabalhar, mas sem perjurio.

O muito querer póde perder-nos.

— O genio!

Falas no genio!

Ora, o genio só me appareceu em sonho.

Porque não o vi eu na floresta?

— Mas achaste o thesouro.

— Sim, achei o thesouro...

Ora, adeus!

Quanto mais, melhor!

Eh! sús! que não tarda a manhan.

Dá-me o machado e o capote e até logo!

Mais uma carrada de lenha e o genio que se rale.

E foi-se.

Entrando na floresta logo descobriu uma grande arvore, caminhou direito a ella e levantou o machado atirando um golpe fundo ao tronco.

Poz-se a seiva a correr e elle talhava, cantando, talhava sem pena, quando um estalo secco annunciou-lhe que a arvore pendia.

Quiz fugir, mas sentiu-se enleiado num cipoal, os pés como que se lhe haviam cravado na terra.

Debateu-se, gritou vendo a immensa arvore inclinar-se com estrépito medonho.

Lembrou-se, então, das palavras do gênio...

Ainda lutou, mas a arvore, como se, subitamente, a impellisse um grande vento arriou fragorosamente esmagando sob o seu tronco o lenhador ambicioso.

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Sinopse

Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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