Universo da obra
Universo da obra
Todas as manhans, ao romper d’al-va, o velho lavrador sahia a percorrer o pomar examinando, uma a uma, vagarosamente, as arvores maravilhosas.
Detorava-lhes os ramos seccos, arrancava-lhes dos galhos as hervas parasitas e a vermina hostil que lhes sugava a seiva, ablaquecia a terra em volta dos troncos para que as raizes ganhas sem força ao sol, canalisava a agua em azequias e as arvores medravam lindas, frondosas, com vigor viçoso de saude, garantindo ao lavrador, não só a fortuna como o regalo de largas sombras nos dias abafados do verão.
O que havia de extraordinario nas bellas arvores é que não frutificavam como as outras.
Os seus frutos eram de ouro fino e, no tempo da colheita, o lavrador enchia com elles grandes cofres.
Na epocha da florescencia redobravam os cuidados do velho.
Era, então, vê-lo na dura faina, a carpir, a mondar, a varrer o ramalho e as versas, a limpar os regos, a fincar espantalhos para afugentar os passaros e os frutos nasciam, a principio esverdeados, como cobertos duma crosta de azinhavre, amadurecendo, porém, luziam de ouro puro, entre a verde folhagem.
O velho, então, com pequenas ceiras, sahia a colher retirando das arvores maravilhosas o premio do seu trabalho.
Tanto, porém, que terminava a colheita, longe de se deixar ficar em preguiçosa inercia, voltava á acção, robustecendo as arvores com o adubo, examinando-as da raiz á fronde para que nellas não ficasse animalejo nocivo, nem alastrasse mal que começava.
As brocas eram logo combatidas com energia, as formigas, que minavam e afofavam a terra, eram anniquiladas.
Se uma tempestade passava, com graniso e ventos, o velho lá se mettia no pomar dias e dias, incançavelmente, e não é mais sollicita nem mais carinhosa com os hospedes de uma enfermaria a irman piedosa do que era o rendeiro com as suas arvores e, não só as tratava, ainda lhes dirigia palavras carinhosas como se ellas pudessem ouvi-lo e entendê-lo.
Quem sabe?
Talvez o ouvissem e entendessem porque pareciam sentir, alegrar-se quando elle lhes afagava mimosamente os troncos escalavrados ou quando, devagar, docemente, tirava um ramo secco e estancava a seiva que ficava a gottejar da ferida, como se fosse sangue.
Certo parente, ouvindo falar da riqueza do velho, procurou-o com ambição.
O lavrador, que era lhano e de muito agasalho, recebeu-o na sua casa, comprehendendo immediatamente que o homem o visitava, não porque se interessasse por sua saude, como dizia, mas porque queria conhecer o segredo da sua fortuna que crescia com os outonos.
Na mesma tarde, posto que já cahissem as sombras da noite, quiz o parente vêr as arvores maravilhosas.
— E tarde para sahirmos, disse-lhe o lavrador; sópra um vento gelado e, se eu penso na fortuna, não me descuido da saude.
Ai! das pobrezinhas se eu adoecer!
Ha tantas molestias para as plantas como as ha para os homens e, quem as quizer ter viçosas, ha de trazê-las sempre vigiadas e bem tratadas.
Agora é tarde para irmos vêlas.
Ámanhan cedo, com a primeira luz, lá iremos, parente amigo e podereis, com vagar, examiná-las todas, uma a uma, desde as pequeninas, que ainda não floreceram, até as velhas que começam a enfraquecer, apesar dos meus cuidados.
Mas é lei da vida — já lhes chegou o tempo: deram quanto podiam dar e eu não exijo senão o que é possivel.
Agora lá andam os mastins rondando o pomar para que os ladrões não o estraguem na pressa do furto.
Vamos á ceia que nos espera e, antes que cantem os passarinhos, estarei á beira do vosso leito, chamando-vos.
Escusado é dizer que o homem ambicioso não conseguiu conciliar o somno.
Revolvia-se no leito, que era macio e forrado de linho fresco e, escutando as vozes nocturnas, imaginava distinguir o tilintar dos frutos de ouro.
Quando o velho, ao lusco-fusco, entrou no quarto do hospede, já o encontrou de pé, á janella, olhando o terreiro ainda ennevoado.
— Eh! sempre fostes mais madrugador do que eu, homem da madrugada, exclamou, a rir, o velho, comprehendendo que o outro passara a noite em ansiosa vigilia.
— É verdade, acordei cedo.
Os passarinhos vieram cantar no peitoril da janella, saltei da cama, vim para aqui ouvilos.
Lá andam elles.
— Bem, vamos, então, ao pomar.
Es perai-me aqui um momento emquanto prendo os mastins e vinde ao meu primeiro chamado.
Ficou o ambicioso em impaciencia, alongando os olhos para a massa de verdura que, lá ao longe, além da ribeira, fechava o horisonte.
Eram as arvores, as ricas arvores!
Lá estavam ellas carregadas de frutos de ouro.
— Vinde, parente, disse o velho.
Já não ha perigo.
E o ambicioso, em grande pressa, sahiu ao chamado, juntando-se ao lavrador que o foi levando a mostrar-lhe todas as plantas que cresciam na sua terra, pequena, mas bem tratada.
— Com a fortuna que tendes, parente, já podieis ser senhor de todas estas terras de rio a monte.
— Sim, são terras bravas, estou certo de que m’as dariam por pouco, mas de que me serviria tamanho estirão se o não posso cultivar?
Mais vale uma horta medrando em volta da casa do que cinco léguas de chavascal.
Contento-me com aquillo que meus olhos podem alcançar, porque não ha feitor que os valha e, nesta terra pequena não ha torrão que eu não conheça, agua cujo sabor me seja estranho, planta que não tenha visto nascer.
E, assim discorrendo, entraram os dois no pomar.
As arvores estavam carregadas, acenosas, tocando o chão com os ramos pesados de frutos que rebrilhavam.
Accenderam-se os olhos cupidos do hospede.
— Deus do céu!
Mas não ha rei na terra que possua thesouro comparavel ao vosso, exclamou.
A mim disseram que as arvores produziam ouro, mas eu nunca acreditei em taes palavras.
Agora que vejo não sei explicar tão extraordinario caso.
Para dizer que tendes pacto com o inferno...
— Não, parente amigo, não ha no que vêdes nada que não tenha vindo de Deus.
Eu tudo devo ao Senhor e ao meu esforço.
Se alguem vos falou em sortilegio, é pessoa que me não conhece, que nunca visitou a minha casa onde tudo é pureza e honradez.
O outro, tão embebido estava na contemplação, que não ouviu as palavras do lavrador.
Por fim exclamou, a arder em ganância: — Ah! se o parente me fizesse a esmola de umas mudas destas arvores, como eu viveria feliz!
Nunca mais os meus pequenos soffreriam frio e fome, os meus pobres pequenos que andam rotos e descalços pelas estradas.
— Levai quantas quizerdes, parente.
Escolhei á vontade e eu ficarei contente se souber que as arvores vos tiraram da miseria, fazendo com que os vossos filhos conhecessem o conforto e a fartura.
O hospede sorriu agradecido e logo, com açodamento, poz-se a tirar mudas.
Tantas tirou que foram necessarios tres grandes carros para transportá-las.
O velho, para ajudá-lo, poz-se tambem a cortar algumas, mas com tal vagar, com tal cuidado que, emquanto o outro, a rijos e desatinados golpes, separou duzentos galhos, elle não conseguiu reunir senão dez.
E, com a fresca da tarde, agradecendo o presente, lá foi o homem acompanhando os tres carros de ramos.
O velho ficou pensativo e, á noite, diante da candeia que illuminava a sua sala alegre, poz-se a murmurar: « Para que tantas se elle não póde cuidar de todas?! » Mezes depois, uma manhan, appare-ceulhe o homem desolado.
— Parente, de tantas mudas que daqui levei, só dez repontaram; as outras morreram.
Lá estão esturricadas como se as houvesse queimado um fogo vivo.
— Medraram as que eu cortei, disse o velho, porque procedi com mais attenção cio que vós, vendo o galho que mais convinha e cortando-o como devia.
Ide e tratai as dez arvores e ellas vos darão a fortuna.
Voltou o homem consolado e passaram primaveras e outonos até que, a um fim de tarde, elle reappareceu nas terras do velho, queixoso: — Parente, as arvores lá estão e não produzem.
Parece que o encanto está na terra do vosso pomar.
— Talvez, disse o avisado lavrador.
E possivel que assim seja, mas eu vou comvosco para vêr as vossas arvores.
E, fechando a porta, soltou os mastins vigilantes e lá foi ás terras do ambicioso.
Logo que entrou no pomar, sorriu tristemente vendo a herva brava, alta e forte e, pelos ramos, as parasitas e os insectos devastadores.
—Ah! parente amigo, como quereis que as vossas arvores produzam ouro se as deixais abandonadas?
Todas as arvores dão frutos de ouro, mas é preciso que o cultivador as cuide regando-as com o suor, livrando-as dos bichos damninhos, compondo-as quando os temporaes retorcem-nas e quebram-nas.
Todas as arvores dão frutos de ouro quando o lavrador não as esquece.
Como quereis fortuna se tudo deixais á lei da natureza?
A Providencia faz muito, mas é necessario que o homem lhe desbrave o caminho.
Para que a agua chegue á vossa horta haveis de cavar o rego e como hão de as arvores produzir se estão abafadas pelo hervaçal e numa terra mais dura e secca do que o granito?
Querieis o milagre?
Ah! parente, os milagres somos nós que os fazemos e não ha santo mais milagroso do que o homem trabalhador.
Vêde — as vossas arvores são filhas das minhas, entretanto o meu pomar reluz e o vosso, que é mais novo, eriça-se em espinhaes.
A culpa é das arvores?
Pensai bem: a culpa é vossa que não as preparastes como convinha.
Parente amigo, não basta ter terras vastas e grande cópia de arvoredo: para a fortuna chega um pequeno pomar que possa ser tratado, vigiado pelo dono e as arvores responderão aos cuidados com a abundancia.
Não conteis com o milagre.
Todas as arvores dão frutos de ouro, mas para que o dêem é preciso que o homem seja para a arvore o que é Deus para o homem.
Experimentai e vereis.
Mais vale o pouco aproveitado do que o muito esquecido.
Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.