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Capítulo 9 · Apólogos

O espelho maravilhoso

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Uma manhan, ao nascer do sol, alvoroçou-se a cidade com um estridente soar de charamelas e estrondoso rufar de tambores.

Ainda que não houvesse motivo de receio de surpreza de guerra, não só porque o principe, que era excellente, vivia em paz com todos os vizinhos, como tambem porque as muralhas eram fortes e seguras eram as sentinellas que, do alto das torres, onde, á noite, flammejavam almenáras, vigiavam attentamente campo e monte, muitos burguezes deixaram o leito alvoroçados.

Os primeiros que sahiram a saber a causa daquelle desusado ruido voltaram tranquillamente annunciando que não se tratava de gente armada, mas d’uma turba de escravos que vinha precedendo um magico da Persia, possuidor dum espelho maravivilhoso.

Como era tempo de| feira a cidade regorgitava de estrangeiros de todas as regiões: pastores cobertos de pelles conduzindo rebanhos; agricultores com os carros abarrotados de cereaes e de frutas; homens robustos das serras com feras e aves; mercadores com fardos preciosos de sêda e lan, outros com riquezas em joias e em lavrados, armas e louçainhas.

Até alguns, aparceirados com piratas, expunham, em pavilhões sumptuosos, mulheres de varias castas, preconisando-lhes a mocidade e a belleza.

Com a chegada do magico todas as attenções voltaram-se para o espelho maravilhoso e logo o povo começou a affluir á barraca que o persa levantára a um canto retirado, em frescas sombras silentes.

Quem primeiro o procurou foi uma linda moça que, ao ouvir falar em espelho, logo imaginou que se tratava de um mostrador de belleza, dum desses servos da elegancia que tanto concorrem para a vaidade feminina.

Mas o magico, um velho que recebia sentado em alto coxim de sêda, sob um esperavel bordado a ouro, sorriu da ingenua donzella e disse-lhe affavelmente: — Não é para vós que trago o espelho maravilhoso.

Para reflectir a vossa belleza, quando vos não bastasse qual quer limpido remanso de ribeira ou ainda a agua da celha em que bebe o vosso anho, bastariam os olhos dos que vos seguem enamorados.

Não é para reproduzir traços do corpo que trago de tão longes terras e com tão penoso trabalho objecto de tão rara virtude.

O meu espelho, donzella, só reflecte o espirito.

Poucos são os homens que se reconhecem.

Este, porque decorou umas tantas regras dos livros, já se julga mais sabio do que o proprio Aristoteles e, impando de vaidade, atravessa as multidões com ar superior, olhando-as do alto da sua presumpção que elle, na estulticie fátua, toma por sabedoria.

Aquele, porque, na guerra, com arreganho impulsivo, conse guiu passar entre os inimigos sem ser attingido por uma lança ufana-se proclamando-se mais valoroso do que Achilles e mais astuto nos ardís do que o principe de Ithaca. * 110 APOLOG0S Encontrais, muitas vezes, em vosso caminho um homem em torno do qual o povo se aperta com ansia de ouvir-lhe a palavra: nada vale — é um ôdre cheio de vento: espetai-o com a ponta da critica e vereis que só despéde ignorancia e basófia.

A fama tem algo das religiões.

Ninguem se atreve a contestar publicamente um ponto de fé, não porque o tenha por verdadeiro e irrefutavel, mas porque é sempre perigoso sahir irreverentemente contra a opinião da maioria.

O sceptico, por commodidade ou prudencia, acompanha e subscreve o juizo commum; se o tomardes á parte e o interrogardes com habilidade, ouvir-lhe-eis a palavra ironica, eivada de descrença.

Dá-se o mesmo com a fama.

O que faz o meu espelho maravilhoso é justamente o util serviço de descobrir aos homens o verdadeiro merito.

Se sabeis de alguem que seja digno do respeito dos seus contemporaneos e da veneração dos posteros pelo seu talento ou pela sua virtude, mandai-o cá e vereis o meu espelho fulgurar como um astro, ao esplendor do genio ou á claridade suave da bondade.

Ide!

E a donzella, meio vexada, deixou a barraca do magico e sahiu pela cidade repetindo as palavras que ouvira.

Ora, entre os homens que gozavam da melhor fama, o mais celebrado pelo muito que parecia saber, porque sobre todas as coisas discorria abundantemente e com grande soberba, era Basilicão, o magnifico.

Basilicão era a maravilha, o orgulho da cidade.

Se, por acaso, os das terras vizinhas falavam dos seus monumentos, da riqueza das suas minas, da fertilidade dos seus campos, da graça das suas mulheres, os povos da nobre cidade, encolhendo superiormente os hombros, diziam, com altivez: « Nós temos Basilicão!» Basilicão vivia regaladamente dessa nomeada e a sua fama ia crescendo á medida que os dias passavam, sempre vasios das annunciadas e esperadas producções do seu inegualavel espirito.

Tanto que se soube da virtude do espelho, logo correram aduladores ao palacio do homem sapiente pedindo-lhe que fosse á barraca do persa, não para pôr á prova o seu genio, admirado e proclamado por todos, mas para mostrar áquelle estrangeiro que a cidade possuia o maior espirito do tempo.

Basilicão sorriu — oh! o sorriso de Basilicão!

— e, mandando sahir a sua guarda de corpo e o seu alfario, ajaezado de ouro, lá se foi, resplandecente de pedrarias e espalhando a divina graça dos seus acenos fagueiros, tão disputados como as bênçãos do céu, a caminho da barraca do magico.

Ao entrar no recinto, o velho, que era profundo em conhecer as almas, não se abalou com o ar orgulhoso do sapiente nem com o fausto de que elle se cercara.

Basilicão sentou-se em um escabello de marfim e, como o velho lhe dissera que o valor do seu espirito se revelaria no espelho em chammas proporcionaes, perguntou, lançando os olhos ás colgaduras sumptuosas, aos pannos finos que fechavam a barraca e aos altos tapetes e pelles que a forravam: «Se não era prudente prevenirem-se com bombas d’agua para o caso possivel dum incendio.» O velho sorriu e respondeu tranquillamente: « Que o clarão do genio sempre illumina, nunca devasta. » E, tirando dum cofre de cedro o precioso espelho, entregou-o ao celebrado homem.

Os do cortejo, impressionados com as palavras do colosso, recuaram prudentemente e Basilicão, depois de retorcer os bigodes, derreando, com orgulho, a admirada cabeça, levantou o espelho ante o rosto.

Houve quem fechasse os olhos receiando cegar pelo deslumbramento, mas o espelho, em vez de refulgir, nublou-se: nem uma centelha, pequenina e ephemera, como as que saltam das fogueiras, brilhou na face polida do encantado reflector — só nuvens appareceram, rolando confusamente como grosso fumo que sobe de lenha verde.

Quanto á fulguração, a tremenda, a incendiaria fulguração — debalde a esperaram.

Basilicão levantou-se despeitado e logo, com aravia copiosa, declarou que o principe, que era honesto e justo, não devia consentir que permanecesse em seus dominios um feiticeiro que mentia desfaçadamente e deslustrava, sem temor, as glorias da cidade.

Immediatamente aduladores correram com uma requesta ao principe e voltaram seguidos de guardas com ordem de levarem o magico a uma das portas da cidade.

Não se amofinou o persa, conhecedor dos homens, e, reunindo a sua bagagem, antes do cerrar da tarde, poz-se a caminho em direcção á porta do Norte, sorrindo da ingenuidade daquella gente que se deixava fascinar e embahir por um intrujão.

Ia elle vagarosamente, entre os da sua turba e os da guarda, já perto da porta que demandava, quando viu que do cofre sahia claridade intensa.

Deteve-se e, abrindo o estojo do espelho, viu que rutilava como se reflectisse o proprio sol.

Olhou em volta e só achou os guardas e a sua gente.

Voltando-se, então, para o moço official que commandava a escolta, perguntou-lhe se, por ali perto, naquelle agreste arvoredo, vivia alguem.

— Sim, vive um velho eremita.

E um nobre homem que, por miseria, nem ousa apparecer na orla dos caminhos.

Tece elle mesmo a roupa com que se veste, aproveitando a lan que as ovelhas deixam ficar nos espinhaes bravios.

Nutre-se de frutos e dizem que passa os dias e as noites em oração, no fundo da caverna que habita ou no cimo do outeiro contemplando os astros.

Pediu o magico licença para visitar o solitario e, sendo-lhe concedida, enveredou pela floresta, seguido da guarda que o acompanhava.

No fundo da caverna triste, onde o sol difficilmente penetrava, jazia o eremita sentado, com um grande livro aberto sobre os joelhos agudos.

Em volta, amontoavamse rolos de largas folhas escuras nas quaes appareciam caracteres traçados.

Tão embebido estava na leitura que não deu pela presença dos homens e o magico poude, á vontade, fixar o espelho e foi tão vivo o brilho que o bosque todo, bem que o sol já houvesse descahido no occaso, ficou illuminado como em pleno dia de verão.

Chegaram, então, á caverna e o ancião, dando com aquella mó de gente que lhe parecia ter surgido da terra, poz-se de pé, a tremer, escondendo-se com melindroso vexame, entre as seccas folhagens.

O magico adiantou-se e, chamando-o amigamente, pediu-lhe informações sobre a sua vida: Porque se afastára do mundo e que fazia em tão deserto desterro?

— Senhor, respondeu, com modestia, o solitario, aprendo as noções da vida.

Aqui vivo feliz.

O mundo é para os fortes, para os espiritos superiores.

Que poderia eu fazer naquelle immenso viveiro d’aguias?

Seria inevitavelmente devorado e foi para evitar a morte que aqui me refugiei.

Lá, os que me vissem miseravel e com a attenção devotada aos livros, ririam da minha pobreza e da minha loucura.

Aqui não.

Quem me virá descobrir entre estas arvores?

Vós viestes, sem duvida, porque, como rico senhor que sois, andais á caça e foi seguindo o rastro ligeiro dalguma lebre arisca que chegastes a este ermo.

Não foi a curiosidade que vos trouxe, senão o acaso, por vezes brincalhão, que vos guiou a tal lugar.

Aqui vivo e aqui espero morrer entre estas boas arvores, que são a minha familia e estes passaros, que eu ouço e que me ouvem, quando, ás vezes, me dá para recitar os hymnos que componho.

Quem sou?

Para que vos hei de dar o meu nome?

Pouco lucrareis com elle.

Sou um homem como a arvore é arvore.

E o magico, sempre sorrindo, disse: — Enganais-vos, suppondo que aqui viemos por acaso.

Foi o vosso merito que nos trouxe.

Iamos pela estrada larga quando senti o poder do vosso genio e, guiando-me pela bussola que trago, vim ter ao vosso eremiterio.

Debalde vos retirais.

O verdadeiro merito é como o fogo vivo: ainda que o abafem rebenta e quanto maior fôr a accumulação de versas, tanto maiores serão as labaredas que delle hão de subir.

Basilicão, que é ôco como o tronco pôdre, onde só vive o caruncho, tem-se em conta de arvore frondosa ; vós, que tanto valeis, deixais-vos morrer neste deserto.

Ha, porém, alguma coisa que confunde o orgulho fátuo de Basilicão e exalta o vosso valor — é a verdade.

Os homens não se conhecem e é este o seu maior defeito — o ignorante é ousado, o sabio é timido.

Um, para impôr-se, faz-se pedante; outro, para esconder-se, humilhase e o que geralmente se vê é a mediocridade vencendo, por ser atrevida e o valor esquecido por não querer affrontar.

Se o erro governa, a culpa não é dos imbecis, mas dos que valem, porque se o pedantismo dos tolos é ridiculo, o retrahimento dos sabios é condemnavel.

Aquelle que sabe e cala-se é como o avarento que amealha thesouros.

O conselho dos sabios é a providencia dos povos.

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Sinopse

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