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Capítulo 7 · Apólogos

O paralytico

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Paralytico e cego, preso na treva e na immobilidade, como se vivesse carregado de ferros, no fundo de um carcere escuro, o pobre rapaz jazia encolhido num catre, o mesmo em que a mãi o deitou quando, ao retirar-lhe p peito da boca, percebeu que os seus lindos olhos não reflectiam a luz e, mais tarde, compadecida, viu que os seus membros tolhidos negavamse a conduzi-lo.

Tamanino ainda, sem comprehender a vida, o misero sorria nas palhas, contente com os rumores que ouvia em torno do seu presidio e a alma se lhe foi dilatando apertadamente no corpo engelhado como o germen duma arvore forte que se desenvolvesse num vaso.

O instincto da liberdade fê-lo, um dia, pedir que o levassem ao campo fronteiro á casa.

Queria sentir o sol, ouvir os passaros, palpar as arvores, gosar o aroma agradavel das flores.

Carregaram-no piedosamente e, num leito de folhas, á sombra duma arvore, guardado pelos irmãos mais moços, que corriam e saltavam alegremente em volta delle, o desgraçado ficou sentindo o sol, attento ao murmurio mais leve dum lacrimal, ao sussurro dum ramo tocado pela brisa.

Volta e meia um dos irmãos, parando esbaforido junto delle, perguntava: — Estás contente?

E elle, sorrindo e rolando os olhos brancos, sem pupillas, tristes como dunas estéreis, respondia: — Sim, aqui fóra é melhor.

E mais bonito, accrescentava — porque, para elle, a belleza era a sensação.

E elle sentia o calor, sentia o perfume, ouvia as aguas correntes e os passarinhos que esvoaçavam.

Mas uma tristeza pungialhe a alma: elle não sentia tanto o seu mal pelo soffrimento que lhe infligia como pela inarcia a que o forçava.

Como eram felizes os que podiam ir á floresta buscar os troncos, aos pomares colher os frutos, aos pastos levar o gado, remar um barco no rio, domar um pôtro na campina ou pôr em movimento o moinho que rangia esfarinhando o grão, ao rolar d’agua.

Que tristeza para a sua alma captiva!

Um dia, como os irmãos brincassem perto delle, o paralytico chamou-os e, sentindo-os a seu lado, pediu-lhes uma semente de arvore.

Um dos irmãos correu ao pomar e, sem grande demora, tornou com o que pedira o coitado.

— Aqui tens a semente.

Se é para a sentires pouco terás que sentir, tão pe quenina é; entretanto póde dar uma arvore que nos agasalhe a todos á sua sombra e que produza tantos frutos que um só carro não baste para transportá-los.

Aqui a tens.

E entregou-lh’a.

O misero, sempre sorrindo, pôz-se a rolar a semente entre os dedos.

Por fim falou aos irmãos que lh’a trouxeram: — Procurai um lugar onde fique bem uma arvore que dê repouso e sombra aos fatigados e possa regalar com os seus frutos a quem os procure com fome.

— Ali ha um bom lugar, disse o mais moço.

— Faze, então, uma cova.

Aberta que foi a cova, o paralytico pediu que o carregassem para junto della e, com esforço, voltado de flanco, passando, repassando a mão, achou-a sob os dedos.

Sorrindo deitou nella a semente, puxou a terra, cobriu-a e, contente, pediu aos irmãos que, de novo, o levassem para a sombra em que costumava ficar.

Desde esse dia teve o pararytico uma preoccupação feliz.

Mal amanhecia chamava um dos irmãos e pedia-lhe que fosse vêr se a semente já havia dado o seu rebento.

« Ainda é cedo », diziam-lhe ; e elle esperava.

Uma manhan, porém, um dos pequenos deu-lhe a desejada noticia: — Já rebentou e está linda!

Pobre cego! não poder vê-la . . .Mas com que alvoroço elle recebia as noticias dos progressos da sua arvorezinha.

Que alegria!

Justamente a arvore toucava-se das primeiras flores quando o paralytico adoeceu gravemente.

Ardendo em febre pediu, uma noite, que lhe abrissem as janellas do quarto.

Queria sentir, na aragem nocturna, o perfume das flores dá sua arvore.

Não contente, porém, com o aroma, quiz ter no seu catre um punhado das flores.

Um dos irmãos correu a satisfazer-lhe o desejo.

Vieram as flores, foram espalhadas na enxerga e o moribundo, sentindo-lhes o perfume, sorria desvanecido e, como o sacerdote se curvasse para ouvi-lo de confissão, elle murmurou tranquillamente: — Que vos hei de eu dizer, meu padre?

Fui justo.

Só uma tristeza, ás vezes, traziame inveja á alma: era a de passar pela vida sem deixar um beneficio.

— E que poderieis fazer, meu filho?

Deus levará em conta a vossa boa vontade.

— E tambem o que fiz, meu padre?

Todo o homem, ainda o mais fraco, deve procurar o bem para o seu semelhante, cada qual á medida das suas forças.

O que não póde edificar uma cidade que construa uma casa; o que não se sente com força de trabalhar pela Patria que cuide do seu lar.

Eu, padre, fui justo e plantei uma arvore.

Disse e expirou serenamente.

Apólogos

Sinopse

Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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