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Capítulo 5 · Apólogos

Os tres grãos de milho

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Certo mancebo, cuja infancia venturosa fôra o mimo dos pais, perdendo-os, achou-se só no mundo, sem amparo nem conselho, tendo, por haveres as terras ferteis dum sitio r onde havia um paiol abarrotado de milho.

Julgando que nunca se esgotaria tamanha provisão deixou-se ficar em casa, a comer e a dormir, vendendo, a quem o buscava, o milho que herdara.

As terras abandonadas foram perdendo o viço e o matto, crescendo vigoroso, em pouco suffocou as sementeiras.

Uma manhan, ainda nos dias fartos, estava o soberbo e preguiçoso herdeiro a balançar-se na rede, quando um pobre homem passou pedindo esmola.

Era um desgraçado que habitava na vizinhança, tendo apenas uma choça e alguns palmos de terra.

O herdeiro, ouvindo a voz do pobre, longe de compadecer-se, sorriu e, por esmola, atirou-lhe, com desprezo, tres grãos de milho.

Foi-se o pobre sem dizer palavra e o preguiçoso ficou-se a rir balançando-se na rede.

Correram tempos.

Já o matto bravo chegava á casa e o rapaz, fiado sempre no paiol de milho, vivia descuidadamente, quando, recorrendo ao celleiro, achou-o vasio por que toda a provisão havia passado ás mãos dos compradores.

Só então, comprehendendo a sua miseria e sem animo de atirar-se ao trabalho, descorçoado, poz-se a lamentar-se e chorava, quando viu chegar, em formoso cavallo, um homem forte e bem posto, que ao dar com elle em tão miseravel condição, deteve o animal e perguntou : — Que tendes?

Porque assim vos lamentais?

— Morro á mingua! soluçou o infeliz.

Tinha um sitio fertil e as hervas más tomaram-m’o.

Tinha um paiol abarrotado de milho e esgotou-se.

Nada mais possuo.

— A culpa é vossa, disse o cavalleiro.

Julgando que nunca acabaria a herança que tivestes de vossos pais, abandonas-tes a terra que, dantes, não negava frutos.

Se vos não sentis com animo para cuidar do sitio, vendei-m’o.

A mim darão bom premio as terras que dizeis estereis e, como pegam com o meu sitio, faz-me conta comprá-las para dilatar a minha lavoura.

Entremos em ajuste.

E combinaram.

Justamente no dia em que o rapaz recebia do homem o preço estipulado, perguntou-lhe o comprador: — Sabeis com que dinheiro vos pago? com o que me deram os tres grãos de milho que, desprezivelmente, me atirastes.

Leveios commigo e, como não tinha ferramenta, com as próprias mãos fiz uma cova na terra e a terra devolveu-me o deposito muitas vezes dobrado.

Plantando os grãos que vieram, consegui um canteiro, deu-me o canteiro uma roça, deu-me a roça um campo e fui sempre trocando os lucros por novos beneficios: primeiro em sementes, depois em gado, depois em machinas e hoje, com elles, adquiro as terras de onde sahiu o capital modesto com que comecei a grangear fortuna.

Vêde agora o que fiz com tres grãos de milho e perseverança no trabalho e comparai com o que vos acontece, não obstante haverdes possuido terras vastas e um grande paiol attestado de cereal.

Não soubestes aproveitar os bens que herdastes e, mais uma vez, com a vossa desgraça, fica confirmado que a fortuna, seja embora incontavel, cede á miseria quando é mal dirigida.

O ouro foge por entre os dedos como a agua e a terra é um cofre seguro e maravilhoso que restitue centuplicado o beneficio que se lhe faz.

Sem mais dizer — e dissera o bastante — o lavrador deu as redeas ao cavallo e foise.

Apólogos

Sinopse

Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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