Universo da obra
Universo da obra
Os pastores mais velhos juravam não haver, em memoria d’homem, lembrança de tão rigorosos sóes, queimando aquelles ferteis lugares, como os do abrasado verão que passava, lento e suffocante.
De tantos rebanhos que pasciam nas achadas e pelos verdes reconcavos alegrando, com as suas vozes, o agreste silencio, poucas ovelhas restavam, essas mesmas entresilhadas, balando tristemente no fundo das grotas seccas.
Mantendo-se o céu sempre azul, sumindo-se, chupados pela terra, os derradeiros fios d’agua, quasi todos os zagaes abandonaram as pasturas montesinas descendo á planície com o fato dizimado.
Na serra ficaram apenas dois moços resistindo ao flagello, esperando que se rompessem as nuvens que atravessavam o céu, fartas d’agua, rolando além dos cimos remotos.
Um dos moços, preguiçoso e desanimado, depois d’um dia de penoso andar por fraguedos e balsas, á cata de fonte ou arroio, tornou ao seu tugurio descorçoado e, sem pensar no rebanho que ia, aos poucos, ficando reduzido, resolveu entregar-se á Providencia, certo de que ella o havia de soccorrer.
O outro, mais activo e corajoso, metteu-se ao matto, invadiu cavernas, desceu a grotões a vêr se encontrava um broto d’agua a saltar da terra ou toalha espumante a alagar penedo porque não lhe parecia possivel que aquellas rochas, sempre tão copiosamente lavadas, seccassem dum momento para outro.
Ao cabo de muita fadiga, viu um escasso lacrimal instillando d’alteroso alcantil e, contente, partiu a levar a noticia ao companheiro.
Encontrou-o deitado á sombra, lamentando a sua miseria e, em torno d’elle, / os magros animaes esfalfados, avidos, baliam baixinho como em queixa triste.
Sem conter a alegria deu parte da sua fortuna, descrevendo o sitio em que encontrára agua.
— Rio ou fonte? perguntou o lerdo pastor.
— Nem rio nem fonte: é uma lagrima lenta que pinga da pedra.
Pareceu ao outro tão minguada a ração que nem se quiz fatigar descendo ao recesso sombrio.
— Mana gota a gota o manancial que encontraste e que é isso para a sêde dos animaes?
Não será com gotas d’agua que hei de salvar o pouco que me ficou do rebanho.
Se se tratasse de fonte ou corrego, onde os pobrezinhos bebessem até á saciedade, eu desceria comtigo supportando o sol que abrasa; mas por tão pouco não quero aggravar o soffrimento com o cançaço.
— Mas se houvesse fonte ou corrego nós não lamentariamos a inclemencia do sol e a serra estaria animada, como dantes, com todos os pastores nos seus campos e todos os pastos cobertos de gado.
É justamente por ser a época de tão apertada miseria que me alegro com o achado que fiz.
Vem!
— Não, disse o outro; as nuvens en- / negrecem e incham a mais e mais annunciando as desejadas chuvas.
Com um só dia de aguaceiro as fontes rebentarão de novo e as aguas desfiarão das rochas.
— E emquanto não chove?
O moço encolheu os hombros com indifferença.
Vendo que o não decidia, o outro partiu levando aos hombros duas urnas.
Logo que chegou ao alcantil procurou aproveitar as duas gotas que manavam ^ das arestas no rebanho.
Os animaes, sem alegira, abatidos, estiravam-se na relva queimada, arquejando.
O céu quente, estava todo doirado e, por toda a serra, cantavam cigarras.
As folhas seccas estalavam sob os pés do pastor e subia de todos os pontos um cheiro adusto.
Pacientemente, vágarosamente, foi o moço conduzindo ovelhas e borregos, guiando-os, por escolhidos caminhos faceis, para o sitio amavel e, quando lá chegou, antes mesmo de procurar um ponto resguardado onde se agasalhasse, correu a vêr as urnas e descobriu no fundo de ambas a agua que subia e brilhava, tremendo com o insistente e vagaroso lentejar.
Anoiteceu com luar e o moço, deitado na palha, sem somno, pensava em noites iguaes áquella, nos tempos ferteis, quando todos os pastores juntos discorriam, cantavam á beira do lume, ouvindo o rolar das aguas beneficiadoras.
E o companheiro?
Elle, ao menos, buscára aquella gota d’agua, soubera descobri-la e ouvia-lhe o soído pausado, certo de que, ao clarear da manhan, teria com que dessedentar-se e ás ovelhas.
E o outro?
Lá estava á espera das nuvens que passavam no céu, sombrias, levando agua para outras regiões mais felizes.
Pastor e gado adormeceram.
Ao romper d’alva, com o canto jocundo dos passarinhos e o murmúrio da brisa nas folhas, o moço, acordando e ouvindo o lepido ruido do estellicidio, correu ás urnas e achou-as quasi cheias.
Alegre, reunindo o pequenino rebanho e o rafeiro que o guardava, abeberou-os com a agua duma das urnas e, aproveitando a da outra, regou a terra no sitio em que pretendia ficar e logo sentiu a gratidão das hervas abeberadas: como que acordaram do torpor estival em que jaziam respondendo, com o viçor, ao inesperado beneficio.
Tornaram as urnas ás gotas do alcantil e o rebanho, contente e reanimado, poz-se a correr no bosque catando as folhinhas tenras.
Passaram-se dias e dias.
As nuvens não se desfazíam em chuva, a mais e mais as hervas serranas mirravam esturricadas, mas o alcantil não negava o seu pouco e já o pastio reverdecia á volsa do rancho de palha do moço activo e o rebanho e o cão refaziam-se saciados.
Lembrou-se, então, o moço do companheiro e subiu a vê-lo no tugurio da serra.
Caminhando, notava pelas trilhas a devastação da secca.
Planaltos que seus olhos avistavam, planaltos outrora viçosos, eram pardos e arrasados taboleiros de resequidos gravetos; os leitos dos corregos eram vallos pedregosos e longe, nas chans avelludadas, nem um filete d’agua luzia.
Ao sahir numa clareira viu um esqueleto / de ovelha, outro adiante, ainda outro; os corvos haviam-se fartado nos miseros animaes.
Seguia e, num fosso, descobriu o cão de pastoreio que o outro tanto estimava.
E o dono?
Achou-o tambem.
Estava estendido, como morto, junto a uma arvore, os olhos semi-cerrados, a boca entreaberta.
Ajoelhou-se e, tomando a borracha que levava a tiracollo, chegou-a aos labios do desfallecido.
Logo que sentiu o refresco o desgra- / çado abriu os olhos e, fitando-os no companheiro, sorriu tristemente: — E Deus! murmurou.
E Deus que nos abandona!
As nuvens passam, todos os dias, carregadas d’agua, passam devagar, como zombando do nosso soffrimento, e vão despejar longe, talvez no mar.
Essa é, então, a misericordia divina?
Vi morrerem, uma a uma, todas as minhas ovelhas, hoje seria a minha vez se não viesses em meu soccorro.
Achaste por ahi algures fonte ou corrego.
Eu bem sabia que nem todos haviam estancado.
De mim não se compadeceu o Senhor.
Também... quem sou eu para merecer a compaixão de Deus!?
— Não blasphemes, disse o pastor: se chegaste a tal extremo de ti somente te deves queixar, que não procuraste remedio contra o flagello.
Deus não quer inertes nem desalentados: o preguiçoso e o pusillanime são inuteis para o mundo e fracos perante Deus.
Sem iniciativa e coragem, actividade e esforço, nada se consegue.
Eu, procurando, achei as gotas do alcantil e, perseverando pacientemente com ellas, salvei-me e salvei o que era meu e ainda revigorei as plantas quasi mortas e vim a tempo de chamar-te á vida.
Confiavas demasiadamente em Deus.
Deitado e rezando, delle esperavas tudo, contando com as nuvens do espaço.
Se houvesses imitado o meu exemplo não terias soffrido tanto.
Eu aproveitei o pouco e, todas as noites, ajuntando as gotas, achava, de manhan, com que abeberar o gado e regar o pasto; e tu, com os olhos nas nuvens carregadas d’agua que passavam no céu, ias acabando entre as ovelhas mortas de sêde.
Eu nunca confiei nas illusões: achei mais seguro o pouco do rochedo do que a abundancia que, todos os dias, passava entre o céu e a terra.
As nuvens eram mais copiosas, não nego, mas estavam tão longe e é tão incerto desfazerem-se... e a gota pingava sempre da pedra enchendo as urnas.
Foi o teu mal, e esse é o mal de muitos: deixar o pequeno bem, que é certo, pelas illusões immensas que vagam nas alturas.
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