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Capítulo 2 · Apólogos

O pescador

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Todas as tardes, quando o sol sanguineo, descendo no horizonte afogueado, parecia apagar-se nas aguas lisas do rio; quando as jandaias, em grandes nuvens verdes, passavam chalrando na direcção das ilhas, a piróga do moço pescador deslisava ligeira, rio acima, serena, ao som dos remos.

Era um lindo e guapo mancebo: moreno e forte, d’olhos e cabellos negros.

Mais duma donzella corria á barranca quando lhe ouvia a voz afinada e seguia-o enamoradamente com o olhar apaixonado até que elle se perdia num dos igapós, entre ramas.

Não havia pescador tão ousado nem tão feliz como elle.

Quando os outros, no tempo das cheias, receiavam as aguas temerosas, elle sahia sózinho, cantando, ia lançar a rede longe e voltava com o barco cheio de pescado, não porque precisasse, senão por vaidade — para que vissem que não se abrigára em remanso, mas affrontára as aguas revoltadas tirando os grandes peixes que não chegam ás margens e só vivem nos lugares profundos.

A mãi, numa tarde borrascosa, disse, querendo prendê-lo: — Não te afoites, filho.

A prudencia é companheira segura e não é valentia provocar a Morte nos abysmos.

Se a tempestade cahir acolhe-te a algum porto e deixa que os ventos amainem e que as ondas se abonancem.

Não te arrisques inutilmente.

A intrepidez é do bravo; a temeridade é do louco.

Ouve-me, porque eu falo-te com o coração.

Ai! de mim se te perderes nas aguas traidoras.

Os outros gabam-te a coragem e são taes louvores que te estão encaminhando á perdição.

Julgas, talvez, que é só pela tua audacia que vais affrontar a morte?

É a tua vaidade que te arrasta, filho.

E a vaidade é perfida como a yára que vive no fundo dos rios attrahindo, com o seu canto, os imprudentes como tu.

Muitos dos que te gabam rejubilarão no dia em que succumbires, porque a inveja de tudo tira partido e, elevando-te, ella quer que subas bem alto para que a queda seja mortal.

Não te fies.

Quando o tempo estiver firme sahe com o teu barco; em noites tormentosas faze como os demais que se deixam ficar seguros e agasalhados, gosando o calor do fogo, ouvindo o vento gemer nos ramos das arvores e a agua do rio escachoar nas pedras.

Sahes, és o único que a tanto se aventura em frágil piróga e, quando passas ao largo e vês em terra uma luzinha de choça, murmuras, com a vaidade a encher-te o coração: «Ha ali alguém a pensar em mim.» E accendes a tua lanterna para que a vejam de terra e digam : «Lá vai Amadeu.

Não ha outro de tanta coragem.» Sabes que assim exaltam a tua audacia e é para que murmurem á tua passagem: «Lá vai o mais valente pescador das ilhas», que andas imprudentemente a desafiar a morte.

Quando a gloria acena á audacia, comprehende-se que um homem arrisque a sua vida; mas que proveito tiras tu de taes actos de louco?

Deixas meu coração em soffrimento e, se pereceres, nem mesmo, talvez, o lodo do rio me restitua o teu cadaver para que eu o sepulte carinhosamente, marcando o tumulo com uma cruz e regando-o com as minhas lagrimas.

Não te deixes levar pelas palavras, enganadoras.

És bravo, espera occasião opportuna para mostrares teu animo.

Ninguém tem maior interesse na tua gloria do que eu.

O moço, que caminhava para o portinho, não deu attenção ás palavras da velha e, desatracando a piróga, que zimbrava na mareta, remou fazendo-se ao largo.

A tarde conturbava-se a mais e mais: relampagos inflammavam as nuvens pesadas e coriscos zebravam a densidão do horizonte.

A folhagem das arvores parecia de bronze — dura e immovel na calmaria mórna.

Aves passavam apressadas, em vôo largo, recolhendo aos ninhos ou ás luras e as aguas do rio desciam, rolavam grossas, escuras, refulgindo sinistramente quando o céu flammejava.

A piróga subia.

De outras, que proejavam ligeiras á terra, pescadores perguntavam ao moço ousado: — Vais sahir com tal tempo?

— Porque não?

— Cuidado!

O rio cresce e o temporal não tarda.

— Não é só com o luar que se avista o rumo; o relampago tambem alumía.

— Olha lá!

As yáras fazem maldades nas noites sem estrellas.

— Dizem que são formosas e eu ainda as não vi.

Queira Deus que hoje as encontre em meu caminho.

E lá ia.

Ao passar perto das ilhas levantava a voz cantando para annunciar-se ás donzellas e gosava, ufano, imaginando que todas pediam por elle, ajoelhadas diante das imagens milagrosas, accendendo lampadas e fazendo promessas.

Adensavam-se as trévas.

O moço pescador tentou, por vezes, accender a lanterna, mas o vento logo a apagava.

Ao livido clarão do relampago via a agua negra, o céu negro, a massa escura do arvoredo das ilhas e as montanhas longinquas.

As rijas lufadas levantava-se marulho formidavel, galhos estalavam e cahiam nagua, descendo na correnteza.

Raios estrondavam, e a piróga, á mercê das ondas enfurecidas, mal obedecia á pá do pescador.

Sem vêr na escuridão, Amadeu ouvia o rio rugir furioso e tiritava encharcado sob o aguaceiro torrencial.

Aquella hora a pobre mãi chorava afflicta, pedindo o favor de Deus, e nas cabanas das ilhas quantos pequeninos corações batendo por elle, quantos lábios vermelhos balbuciando rezas !

Ah ! se elle conseguisse escapar, tirar-se daquelle perigo, como o haviam de admirar e, nas feiras, quando elle passasse airoso, affluiria gente para vê-lo e diriam á boca pequena : « E o pescador que não teme as tempestades e ri das yáras que sobem á tona das aguas quando não ha estrellas no céu.» Ao luzir dum relampago elle viu que estava a pouca distancia de terra.

Animou-se e, remando esforçadamente, conseguiu atracar.

Prendeu a piróga e saltou na ilhota que a Providencia lhe deparara.

Estava salvo.

Ali podia esperar que a tormenta serenasse e, com a luz da manhan, regressaria á cabana tranquillisando a pobre velha e maravilhando a gente que, com certeza, já o julgava perdido, sossobrado naquellas aguas que roncavam com tamanho fragor, arrancando violentamente grandes arvores das ribanceiras.

Encolheu-se, retransido e com medo, ouvindo, atravez da zoada do vento e do estrondo das aguas, o fremito das onças apavoradas.

Já se sentia perto, ouvia o estralejar dos ramos sob as pesadas patas e, olhando, via reluzirem na treva as pupillas phosphorejantes dos terriveis felinos.

Mas era tudo illusão do pavor: só tempestade reinava assoberbando o rio.

E, de novo, poz-se Amadeu a pensar na volta triumphante e nas palavras que diriam os que o vissem apparecer cantando, a remar a piróga carregada de peixe.

Peixe ...

Sim, era necessario que levasse algum para que os invejosos não dissessem, menoscabando-o : «Que elle, em vez de andar sobre as aguas, acolhera-se covardemente a alguma ponta de terra. » A prova era indispensavel e, se a atroada da tormenta aconselhava prudencia, o desejo de ser admirado, a ambição dos louvores impellia-o ao perigo e, como fôra feliz salvando-se naquella ilhota, a mesma fortuna havia de segui-lo na aventura arriscada a que se ia metter.

Pensando nos companheiros e nas donzellas e já ouvindo, na imaginação, os elogios á sua coragem, saltou na piróga e fez-se ao largo.

O rio esbravejava.

Grandes troncos aboiavam levados na correnteza; remoinhos ferviam ameaçadoramente e, ao clarear dos relampagos, elle entrevia o abysmo no qual a piróga valia tanto como uma leve folha.

Um tronco abalroou-a impellindo-a com violencia e um grande jorro d’agua, assaltando-a pela prôa, advertiu o imprudente moço do perigo.

Ai! delle, era tarde.

Poz-se a remar com desespero, mas a piróga não resistia ao impeto das aguas e, girando, descia vertiginosamente aos encontrões nas arvores, emmaranhando-se em camalótes, sem que o esforço do pescador a pudesse salvar.

A pesca!

Um peixe, ao menos, que servisse de prova aos que duvidassem da sua afoiteza.

E o temporal rugia.

Passando, levado na correnteza, via na treva, a um e a outro lado, luzes que assignalavam cabanas.

Onde estaria a delle, pouco além do portinho, entre coqueiros?

Em todas, por certo, pediam a Deus por elle.

Gritou.

Pobre voz que o vento levou como levava as folhas das arvores!

E as aguas cresciam medonhas.

Um ramo roçou-lhe o rosto.

Estremeceu lembrando-se das yáras traidoras que arrastam os pescadores imprudentes para o fundo das aguas.

Deviam ser ellas que cercavam a sua pequenina piróga.

Ai!

Delle ...

Nunca mais folgaria nos serões ouvindo os cantos alegres, dançando o sapateado á luz do luar.

E porque se precipitára?

Não o guiára a mão benigna da Providencia áquella ilhota?

Não achara elle refugio seguro naquelle surgidouro?

Porque o deixára? por vaidade e era a vaidade que o ia levando para a morte.

E nunca mais falariam nelle, outros teriam os amores das lindas moças emquanto que elle, rolando, desappareceria para o sempre no lodo do rio, como dissera a mãi por entre lagrimas presagas.

Um relampago fulgurou e, subito, sem que lhe desse tempo de desviar a piróga, um grande tronco virou-a.

Amadeu nadou enfraquecidamente, lutando com as aguas e com a treva e, no delirio, parecia que, de todos os lados, vozes o acclamavam victoriando-o.

Exhausto de forças desceu ao fundo das aguas; ainda num derradeiro, supremo esforço emergiu á tona e pareceulhe ouvir uma voz, a voz da sua velha mãi, chamando-o : «Amadeu » !

Tentou gritar: a agua abafou-lhe o grito e o rio rolou soberbo, tocado pela tempestade.

Hoje, quem se lembra do moço pescador? só a pobre mãe que o chama com a voz da saudade.

Os mais, sempre que alludem á sua morte, dizem: «O que o matou foi a vaidade.» E as velhas accrescentam: «Foi castigo do céu.»

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Sinopse

Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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