Leia agora
Apólogos

Universo da obra

Apólogos

Capítulo 16 · Apólogos

O cavaleiro taciturno

16 de 18 ≈ 9 min de leitura

Na véspera da grande justa com que o rei resolvera celebrar a victoria do principe real sobre as hordas barbaras dos homens do deserto, que tanto se haviam aproximado da cidade que as senti-nellas, do alto dos muros, distinguiam as grosseiras feições dos chefes, que andavam por entre as tendas de pelles do numeroso acampamento, tres cavallei-ros, que haviam acudido ao reclamo dos arautos, encontraram-se na mesma esta-lagem e, fazendo recolher os seus gine-tes, entregaram as armas aos escudeiros para que as polissem, afiando os gumes e aguçando as pontas.

A cidade rejubilava em festas.

Eram bandos de cantores pelas ruas, musicos tangendo instrumentos, pelotiqueiros e jograes; domadores de feras com ursos que bailavam e tigres que saltavam barreiras; magos lendo os destinos e, como o thesouro ficáar abarrotado com o ouro que os barbaros vencidos haviam deixado nas tendas, fámulos do palacio distribuiam moedas e era um alarido, que se ouvia ao longe, da multidão arrojando-se atropelladamente sobre as mancheias de ouro que nem chegavam á terra porque as mãos ambiciosas mesmo no ar as apanhavam.

Os tres cavalleiros, á hora do jantar, que foi servido debaixo duma vinha, entabolaram conversa dizendo, cada qual, de onde viera, em que feitos já havia provado as armas, as corôas que tinha conquistado, os adversarios que havia vencido.

Dois delles, esvasiando seguidamente os copos, que o estalajadeiro se apressava em encher, tornaram-se garrulos.

O terceiro, calado e sobrio, olhava o céu que se enfeitava com as côres vivas do crepusculo.

— Ámanhan, por esta hora, um de nós terá á cinta a espada de ouro incrustada de pedras com que o rei honrará o vencedor do combate.

Somos tres.

Qual de nós será o afortunado?

Eu conto vencer.

Não me falta coragem e o meu mestre d’arrnas ensinou-me um bote que reputo infallivel.

— Talvez seja o meu, que outro não ha mais destro nem mais inesperado, disse o segundo cavalleiro.

Tive occasião de o experimentar em apertado combate contra dois formidaveis espadachins que me assaltaram em estreita passagem da serra, quando eu trazia uma mensagem para o rei, nos fins da guerra.

E o primeiro retrucou: — Sem desfazer no teu jogo, digo-te que confio seguramente em certo bóte, rápido e seguro, em que me adestrou meu mestre d’armas que é, incontestavelmente, o espadachim mais valente do reino, porque, apesar dos annos que lhe vergam os hombros, ainda não encontrou cavalleiro que o vencesse.

Ninguém o conhece senão eu, posso affirmar.

— Pois eu não troco o meu segredo pelo vosso.

— Experimentemos! disse o primeiro levantando-se de golpe.

— Experimentemos! concordou o segundo.

Reclamando, então, as espadas, que os escudeiros apressadamente trouxeram, sahiram para o horto e travaram-se valentemente.

As laminas, que eram de boa tempera, chocavam-se despedindo fagulhas e os mancebos, excitados pelo combate, procuravam ferir-se e, com a ansia de defesa e de ataque, usavam de todos os botes que conheciam.

O terceiro, sempre calado, acompanhava, com interesse, o furioso duello que teria tido sangrento remate se o estalajadeiro não interviesse com prudencia, lembrando aos mancebos que era conveniente repousarem para que se não sentissem no dia seguinte quando tivessem de terçar pelo premio ambicionado.

Esbaforidos, suando, arquejando, recolheram-se os dois, e diante do cantaro de vinho, discutiram os golpes que haviam trocado, dignos de ser cantados pelos bardos que glorificavam a valentia dos homens.

O terceiro, que não perdera um só movimento, uma só palavra dos que deviam ser seus competidores na liça, sempre silencioso, levantou-se e, como a lua começava a brilhar nas folhas lustrosas das arvores e a brisa soprava fresca, recendendo a flores, sahiu a gosar docemente a luz e o perfume, indo s e n t a r - s e num banco rustico, junto á fonte.

Os dois, quando o viram retirar-se, vagaroso e mudo, sorriram e o primeiro murmurou ironico: — Parece que não teremos ámanhan o gosto de rebater os golpes do nosso companheiro.

Tão impressionado ficou com o que fizemos que já se vai afastando pensativo, talvez a preparar-se para voltar á sua aldeia e recomeçar o tirocinio com o seu canhestro mestre d’armas.

O taciturno parecia contemplar as estrellas do céu e, tão entretido ficou, sob a folhagem, á beira d’agua, que não deu pela retirada dos companheiros.

O estalajadeiro, que nada perdera do que disseram e fizeram os cavalleiros, quando a casa ficou em silencio, sentandose á mesa, com a mulher, diante da ceia, disse-lhe em confidencia: — Ou eu muito me engano ou o dono da espada de ouro, que o rei destina ao vencedor do repto que se vai ferir ámanhan, é aquelle homem macambusio que ali está debaixo da vinha gosando a fresca.

Não se póde dizer que seja valente, nem tão pouco covarde porque, emquanto os outros falaram, jactando-se de proezas e temeridades, elle manteve-se em silencio, contentando-se com ouvir a parolagem.

Os outros, sem se lembrarem de que com elle se hão de medir ámanhan, querendo, cada qual, ser mais esperto e mais destro, desafiaram-se e sahiram a bater-se no horto e o mazorro, emquanto elles trocavam golpes, não os deixou com o olhar de sorte que, para mim, os dois imprudentes vão para a arena como os captivos que se batem a corpo descoberto contra gladiadores bem armados e acobertados.

Bravatearam, bravatearam descobrindo todos os seus segredos ao adversario cauteloso que, se fôr hábil, tirará partido da garrulice.

Riram-se elles do ar reservado, da attitude discreta do que lá está ao relento.

Queira Deus que se não arrependam de tanto haverem falado.

Emfim, a meu vêr, o premio será do calado.

A indiscreção é sempre compromettedora.

Quem sabe, guarde o que sabe para o momento opportuno.

O repto é ámanhan e ámanhan veremos qual dos tres é o mais forte, a qual dos tres será cingida a espada de ouro.

Quando se apresentaram na liça os tres guerreiros, revestidos de suas brilhantes armaduras, o povo, que enchia o vasto recinto, acclamou-os.

Os escudeiros traziam as armas e logo que o arauto deu o signal de combate, o taciturno adiantou-se sem arrogancia e, diante da tribuna real, saudou galhardamente o rei e os principes.

O primeiro mancebo que, na vespera, tanto basofiara em façanhas, imitou-o e não foi menos gracioso ante a tribuna real.

Logo, pondo-se frente a frente, ao resoar das tubas, atacaram-se.

O taciturno aparava, com segurança, os golpes e firme, como se estivesse preso ao chão da liça, conservava-se calmo, em contraste com o outro que investia com furia.

Repentinamente, lembrando-se do golpe terrivel que lhe ensinára o mestre de armas, o mancebo vibrou-o e, com tanta certeza de alcançar o rival, que levantou um brado de / triumpho.

Mas o adversario, que já o esperava, rabateu-o com firmeza, e, tirando partido da perturbação em que ficára o mancebo, podendo atravessar-lhe o peito com a espada, contentou-se com desarmá-lo.

Estrugiram acclamações e ainda as trombetas soavam clangorosas, quando o segundo cavalleiro desceu á arena, indo curvar-se ante a tribuna real.

Esperou-o, com a mesma calma, o taciturno e, como lhe conhecia todos os recursos de esgrimista, não se perturbou com os arranques impetuosos — tranquillo, tratava apenas de defender-se e, com tanta superioridade o fazia, que nem dava mostras de estar em luta, senão em divertimento.

Quando lhe aprouve dar fim ao combate, atacou com afoiteza e segurança e, ainda que o contendor fosse corajoso e destro, não poude resistir muito tempo e, ferido no punho, deixou cahir a espada, retirando-se cabisbaixo ao atroar dos clamores dos assistentes que saudavam a dupla victoria do impassivel.

Logo soaram as tubas e o rei, levantando-se na tribuna, entre os principes e os fidalgos, proclamou a victoria leal do taciturno e, recebendo-o na sua presença, cingiu-lhe a espada de ouro.

O estalajadeiro, que acompanhára todas as peripecias do combate, no momento em que o astuto cavalleiro, ajoelhado diante do rei, recebia o premio e prestava juramento de nunca lançar mão da espada preciosa, tão nobre e es- / forçadamente conquistada, senão em defesa da patria, da honra ou da crença, segredou á mulher que o acompanhara: — Que te disse eu?

Ahi tens a prova.

Os outros vangloriaram-se e, por vaidade ou rebentina imprudente, descobriram todos os segredos que possuiam e que, certamente, de muito lhes teriam servido na prova de sangue.

O taciturno não fez mais que observar, de sorte que, além se ser bravo e agil, ainda trazia a vantagem de conhecer todos os recursos dos adversarios.

Perdeu-os a lingua solta.

Se se houvessem conservado em silencio não se teriam enfraquecido.

Foi a propria indiscreção que os venceu.

Não são os que mais falam os que mais sabem e ha palavras imprudentes que compromettem como denuncias.

O taciturno venceu porque soube calar-se e só na hora em que convinha deu prova do que sabia.

A prudencia, sendo mestra, guiando a coragem, é a melhor armadura das que forram guerreiros.

Por uma falha de arnez vai a lança ao coração, por um segredo descoberto chegase ao mais intimo d’alma.

Apólogos

Sinopse

Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978654787941050528074156
Apólogos

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Apólogos

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Apólogos

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Apólogos Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 16 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir