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Capítulo 12 · Apólogos

A sabedoria do principe

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Certo rei de um paiz immenso que largos e fundos rios regavam, fertilisando campos de fartas searas trabalhados por um povo forte, sentindo-se alquebrado pela idade e pelas grandes fadigas do governo, nem sempre sereno — duas guerras renhidas haviam longamente ensanguentado os primeiros annos do seu reinado — falou, um dia, ao seu mais intimo conselheiro sobre a necessidade de preparar o principe para o destino que o esperava: dirigir o povo e assegurar a honra e a fortuma da nação.

Não bastava que o futuro monarcha soubesse resolver, com facilidade, um problema complicado, indicar, pelos seus nomes, as estrellas do céu, descrever os reinos vastos da terra com os seus mares, os seus rios, as suas montanhas e a sua historia; responder, com discernimento, ás objecções dos ministros; presidir aos conselhos e conduzir, com garbo, os bailes da côrte.

Convinha que tambem aprendesse a cavalgar um ginete e a brandir uma lança para que não se portasse com fraqueza no caso dos povos tributarios levantarem-se em insurreição ou inimigos ameaçarem a paz e a honra do reino.

O conselheiro, que era homem de tino, applaudiu a lembrança do soberano e, entre os dois velhos, que conversavam á sombra dos castanheiros do parque, ficou assentado que a educação do principe seria commettida a um famoso mestre d’armas, cavalleiro destro e a melhor lança do reino.

O principe, logo que teve conhecimento da resolução paterna, lançando de si os brinquedos pueris, poz-se a saltar contente e pediu um cavallo, uma rija espada e um escudo de bem polido aço que rebrilhasse ao sol.

— Vede, senhor, é o vosso sangue que referve naquellas veias.

É a vossa alma que anima aquelle jovem coração.

Pódem os homens repousar tranquillos porque temos quem nos garanta a paz, companheira da fortuna; disse o conselheiro a quem o principe era tão caro como se seu filho fôsse, porque o vinha acompanhando desde o dia do nascimento.

— Dizes bem, eu revejo-me no infante.

Mas, se queres que te fale com franqueza, receio que lhe succeda algum desastre.

É por demais afoito e os ginetes não respeitam as qualidades dos homens.

Sou de parecer que primeiro aprenda todas as regras de bem cavalgar antes de arriscar-se na sella e que tambem se exercite á quintana (*) antes de medirdir-se em justa.

Ha na sala d’armas o manequim de um ginete acobertado e nelle poderá o principe, sem perigo, fazer-se cavalleiro (*) Manequim que servia para o adestramento dos que se exercitavam nas armas.

Montado sobre um eixo, com um chicote em punho, se era mal tocado voltava-se repentinamente flagellando o inesperto esgrimista. antes de aventurar-se no campo da lide, em ardego cavallo de guerra.

— Senhor, disse o avisado conselheiro, as regras são uteis, mas a experiencia é tudo.

Homens de muita theoria nem sempre brilham quando delles se ha mister.

O alfageme que conhece o tempero da espada e açacala-a e afia nem por isso póde medir-se com o veterano experimentado em batalhas.

Perguntai ao vosso melhor soldado se conhece a composição do aço do seu montante e elle vos dirá que sabe apenas que corta, abola elmos e atravessa a mais rija couraça.

Bom é que o principe conheça as regras, mas não será num cavallo empalhado que elle se ha de fazer cavalleiro e homem de acção.

Não quiz o rei attender ás claras razões do velho conselheiro e, sempre apprehensivo e medroso, falou ao mestre d’armas para que fosse adestrando o principe no cavallo de madeira.

Apesar da má vontade do infante, que só desejava correr, galopar na largueza dos campos, o mestre d’armas, obediente ás ordens do monarcha, começou a preparar o futuro guerreiro.

Todas as manhans lá desciam os dois para o grande salão onde reluziam as pesadas armaduras e o principe, cavalgando o ginete immovel, ia aprendendo o manejo e, um a um, os nomes de todas as peças da armadura.

Depois, brandindo a lança e a espada, atirava-se á quintana a golpes desabridos.

O rei descia, ás vezes, e ficava maravilhado da sabedoria do filho que respondia, sem vacillar, a todas as perguntas do mestre d’armas e acertava, com precisão, na quintana, sem perder um só bote.

O conselheiro ouvia, em silencio, os gabos do monarcha.

Uma vez, porém, não se podendo conter, falou: — Não vos fieis, senhor.

O cavallo que o principe, tão altaneiro, aderença é apenas r uma figura: o sendeiro mais lerdo leva-lhe vantagem.

Não basta chegar á posição, é preciso saber mantê-la, e uma coisa é recitar de memoria uma pagina, outra coisa é executar com exito um plano.

A bravura, o brilho, a calma e o tino só se adquirem na acção.

Aqui me tendes como exemplo vivo do que digo.

A mim tambem mandaram ensinar musica e, estou em affirmar que, em todo o reino, não ha outro que, como eu, conheça os accidentes.

Leio, á primeira vista, a pagina musical mais difficil que me apresentarem, entretanto sou incapaz de disputar com o rude pastor que leva o rebanho ao som da frauta, porque não me ensaiei em instrumentos e só com as regras me contentei.

V.

M. verá, mais tarde, que as minhas palavras não foram exageradas.

— E que diz o mestre d’armas?

— Senhor, o mestre d’armas nada tem a dizer.

Faz o que deve, cumprindo as ordens que recebeu do seu rei.

— Elle que não protesta é porque entende que está como convem.

— A prática responderá por elle, Magestade.

Um dia, aproximando-se as grandes festas da primavera, que eram celebradas com jogos floraes e justas em campo raso, querendo apresentar galhardamente o principe, mandou o rei chamar o mestre d’armas.

Logo que o valente instructor appareceu, curvando-se, com reverencia, diante do throno, o rei dirigiu-lhe a palavra ferindo o motivo da entrevista: — Não tarda o mez de maio, disse, já se preparam os balcões para a lide.

Ha grandes nomes inscriptos e eu quero que tambem figure o do principe entre os que devem ser apregoados pelo arauto.

Vê se lhe falta alguma coisa e dize em tempo para que eu a tudo proveja, afim de que o povo possa justamente orgulhar-se daquelle que, dentro em pouco, será o seu rei.

O mestre d’armas conservou-se calado, cabisbaixo, passando, repassando a mão pela barba farta que lhe rolava em ondas alvas sobre o peito robusto.

— Vamos, responde! intimou o rei.

— Que hei de eu responder a V.

Magestade?

O principe conhece, como nenhum outro cavalleiro, todas as regras da equitação e posso jurar por minha honra que a esgrima não tem segredos para elle, tão destro é em brandir a lança e a espada como em manejar o punhal e ninguem sabe mais do que o meu discipulo aparar com segurança um golpe no escudo.

Se V.

Majestade pedir-lhe a regra mais complicada elle, immediatamente, a dirá; se exigir o nome da mais insignificante peça da armadura, no mesmo instante terá a resposta.

Tudo sabe, como nenhum outro, apenas...

Curvou a cabeça e ficou em silencio.

— Porque te calas?

Continua!

Sê franco.

— Senhor, o principe nunca soffreou um ginete nem jámais experimentou a commoção de achar-se ante um adversario de valor.

O cavallo em que elle se tem exercitado é de madeira e palha, como a quintana que serve de alvo aos golpes da sua lança e uma coisa, senhor, é a ficção, outra é a realidade.

Conheci um homem que sabia os nomes e a direcção de todas as estradas do vosso reino sem nunca as haver trilhado.

Um dia, sahindo a viajar, perdeu-se e teria perecido na floresta se um lenhador ignorante não lhe houvesse apparecido tirando-o do labyrintho d’arvores por uma estreita vereda.

Os livros são como a luz do sol, mas a claridade não basta a quem anda, é preciso o conhecimento dos caminhos, que só as viagens dão.

Dizei ao besteiro: Levanta a besta, acompanha o passaro no vôo e, quando o tiveres bem em mira, desfere o tiro.

E a regra.

Se elle, entretanto, não praticar ao ar livre, nunca conseguirá, senão por acaso, attingir o seu alvo.

O principe é um cavalleiro admiravel e uma lança de respeito, mas... no cavallo de palha e contra a inoffensiva quintana.

— Queres, então, dizer que, se elle sahir a campo...?

— Fará tristissima figura e talvez lhe custe vexame a afoiteza porque, como é brioso e bravo, ha de querer arrojar-se e pagará cara a temeridade.

Enfureceu-se o rei com as palavras do mestre d’armas e, na tarde do mesmo dia, desceu ao parque, fez chegar um corcel e ordenou ao principe que o montasse.

Não se fez o mancebo rogar e, avançando, metteu o pé no estribo, mas a um repellão do animal, que era fogoso, perdeu o equilibrio e teria cahido se o seu mestre d’armas, que contava com o desastre, não houvesse acudido a tempo.

— Agora, senhor, vinde á sala d’armas e vereis que cumpri as vossas ordens.

O principe, no cavallo de pau, é um cavalleiro incomparavel... só no cavallo de pau.

Regras não lhe faltam, tem-nas de sóbra.

O que lhe falta, senhor, é saber montar a cavallo.

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Sinopse

Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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