Universo da obra
Universo da obra
Sempre que o aleijado passava, os meninos, reunindo-se á sombra da mangueira, rompiam em assuada, atiravam-lhe torrões, galhos seccos e o velhinho y seguia in-differente.
Devia ter mais de sessenta annos.
Era alto, magro, tinha os cabellos brancos cortados muito sgs^ rente, o rosto moreno e engelhado.
Faltava-lhe o braço esquerdo e a manga do casaco pendia nesse lado molle, chata, solta ao vento.
Uma manhan, mal o avistaram na estrada, os meninos correram para a mangueira e, como a arvore estava carregada de frutos verdes, colheram alguns e, com elles, puzeram-se a alvejar o velhinho.
Um dos frutos attingiu-o nas costas com tal violencia que o desgraçado, curvando-se, não poude calar um gemido e, parando, a estorcer-se de dores, voltou-se para os meninos e suspirou: « Ingratos! » Duas grossas lagrimas rolaram-lhe pelos sulcos das faces e, vendo-as, disse, penalisado e arrependido, o mais novo dos meninos : — Coitado do velho! está chorando.
Vamos vê-lo.
Elle sentara-se na relva, arquejante e ali o foram achar os seus algozes, que o remorso tornára meigos. 234 APÓLOGOS Dando por elles o velho sorriu com tristeza, disfarçando o soffrimento, e o mais novo perguntou compadecido: —Magoamos-te, bom velho?
—Sim, meu menino: magoastes-me e mais fundamente do que pensais.
É o meu coração que está soffrendo.
Sentai-vos aqui commigo e não receieis de mim.
Nada vos posso fazer, que sou velho e, ainda que me sobrassem forças, eu nada vos faria.
Tenho um netinho da vossa idade e, por elle, tudo perdôo ás crianças.
Sentai-vos e dizei-me: Porque me perseguis?
Que mal vos hei feito e porque rides de mim?
Os pequenos não acharam que responder e o velho continuou: — Bem sei eu porque me achais ridiculo — é porque me falta um braço e porque ando vagarosamente arrimado a um bordão.
Ah! meus meninos, o braço que me falta dei-o eu por vós.
Foi para que vos não faltassem a sombra d’aquella arvore frondosa e a agua da ribeira, o carinho de vossos pais e a belleza desta terra que amamos, que o dei e sem lamentar a perda.
Outros deram a vida, eu tambem te-la-ia dado e, mais duma vez, a expuz — se a Morte não a levou, foi porque o bom Deus a escudou com a sua bondade.
Eu não provocaria o vosso riso se me houvesse deixado ficar em repouso, quando vossos pais tremeram com a noticia da aproximação de um inimigo cruel que ameaçava, não só a riqueza da terra, como o brio dos homens que nella nasceram.
Eu vivia feliz: era moço e nada me faltava em casa de meus pais e tinha noiva, meus meninos, linda moça que ficou chorando quando parti para a guerra.
E porque deixei descanço e amores? porque preferi os riscos dos combates, os soffrimentos e as incertezas das jornadas temerosas e a saudade, que é uma angustia que opprime o coração a todos os instantes? porque me affirmaram que o inimigo já havia passado a fronteira e vinha arrasando campos e trucidando a pobre gente indefesa Quem me falou foi o velho vigario do meu lugar.
Falou a mim e a todos que foram á igreja ouvir a prédica patriotica que elle fez, tendo a bandeira desfraldada diante do altar, como para mostrar que tinhamos obrigação) de defender, com o mesmo empenho, a religião e a terra.
E disse que se não nos decidissemos a tomar armas pela Patria, os campos que viamos, tão verdes e cheios de flores, as aguas que os regavam, que eram as alegres ribeiras, o gado que os cobria, os passaros que esvoaçavam cantando, tudo quanto os nossos olhos alcançavam e que era nosso, seria, em pouco, do inimigo.
E os homens livres passariam a viver como escravos e a nossa bandeira seria rasgada, feita em farrapos e arrastada no lôdo com vilipendio.
Lembro-me ainda do que elle referiu acerca de certo principe thebano chamado Meneceu que se sacrificou pela Patria matando-se na caverna de um dragão.
Tornei á casa pensativo e, pelo caminho, olhando os prados felizes e vendo aquella gente honrada e satisfeita que lavrava os seus campos, aquellas mulheres que amamentavam os filhos á sombra das arvores, toda aquella belleza, toda aquella felicidade, disse commigo: — Pois é possivel que percamos tudo isso e tenhamos de viver, no futuro, como escravos, nós que nascemos livres, e que outra lingua, trazida pelo conquistador, venha substituir a que herdamos dos nossos maiores, na qual os nossos poetas cantaram as nossas glorias e minha mãi ensinou-me a falar a Deus?
Outras vozes hão-de soar nestes sitios?
Não!
Foi nesse momento, meus meninos, que comprehendi a grandeza desta palavra: « Patria », que não quer dizer simplesmente a terra em que se nasce, mas abrange tudo: o passado, as tradições, a historia.
Patria é o solo que pisamos, é a agua que nos dessedenta, é a arvore que nos dá sombra, é o fruto, é o lenho, é a ave que vem cantar a alvorada no tecto palhiço da nossa cabana; é o animal que vive na floresta, é a cantilena com que a jovem mãi adormece no berço o filho pequenino e é o hymno forte que a multidão entôa.
Deus está todo na hostia e na menor partícula.
Pois a Patria é como Deus.
Quando parti para a guerra levei uma pequenina flõr do meu campo e essa flôr sêcca, menor que a metade da unha do meu dedo minimo, continha toda a minha Patria, porque me recordava a terra, o céu e as gentes que eu deixara.
No furor do combate quantos vi eu cahir, quantos!
Esses perderam mais do que eu: morreram por nós assegurando-nos a liberdade.
Sois ainda muito jovens e não tendes da vida senão noções ligeiras.
Quando conhecerdes bem o mundo, virá aos vossos corações o arrependimento do mal que me fizestes.
Se, seguindo uma escura estrada, fosseis assaltados por ladrões e um homem, sahindo em vossa defesa, ficasse ferido, ririeis dos seus gemidos? não, sem duvida, porque, se não fôsse elle, terieis succumbido aos golpes dos perversos, ou, pelo menos, terieis sido roubados na vossa fortuna.
Mais fiz eu por vós porque, não só defendi a riqueza, como tambem salvei a vossa honra do ultraje que a ameaçava.
Olhais para mim sorrindo porque me vedes sem braço, mas eu o dei por vós e por vossos pais, meus meninos, e, talvez não vivesseis na fartura em que viveis se outros pobrezinhos, como eu, não fossem deixar no campo da batalha a vida ou apenas um braço ou uma perna.
Não me arrependo do que fiz.
Soffro, mas para minha felicidade bastam-me a alegria que vejo em todos, a tranquillidade e a grandeza da minha terra.
Aqui não vêdes o meu braço, é possivel, porém, que o encontreis na historia da nossa terra : revolvei-a bem e lá o achareis.
O que apparece é a gloria, que é como a flôr, no fundo, porém, estão os elementos que concorreram para a sua existencia.
Que se vê na rosa? a flor apenas, mas para que ella seja assim formosa é necessario que o seu canteiro seja adubado, não é verdade? e o adubo transforma-se em corpo, em côr e em perfume, Se analysassemos a grandeza das nações, achariamos os grandes sacrificios, as grandes dedicações, o heroismo e a virtude, que dão a flôr magnifica do Progresso.
Que é um braço? direis — bem pouco, em verdade, mas a folha que cahe da arvore e morre no charco concorre, com a sua mesquinhez, para alimentar a floresta.
Eu dei á Morte, por amor da minha terra e dos meus patricios, o que ella de mim quiz tomar e confesso, meus meninos, que me doeu menos o ferimento que recebi na batalha do que a vossa ingratidão de hoje.
Lá eram inimigos que eu combatia e vós sois meus irmãos pela Patria e, por vós, dei eu o meu sangue.
Direis que nem ereis nascidos nesse tempo; mas não sois gratos ao homem que plantou aquella mangueira que vos agasalha com a sua sombra e vos regala com seus frutos?
Quem foi elle? os vossos proprios pais ignoram o seu nome, entretanto o seu beneficio ahi está, vós o encontrastes na terra.
Assim o bem que vos fiz tambem o haveis de encontrar, não só na terra, como em tudo que é da Patria — no seu poderio e na sua honra.
Rir de mim é mais do que ingratidão, é falta de patriotismo porque, se hoje sou o valetudinario que vêdes, fui, nesse tempo amargurado, um dos depositarios da Honra da nação e, para mantê-la, bati-me até o ultimo esforço, perdendo o braço cuja falta tanto vos faz rir.
Esta é a minha historia...
Ainda a achais ridicula?
Os meninos, que ouviram attentamente a narração do velhinho, mostraram-se arrependidos do que haviam feito e, desde então, tornaram-se os melhores protectores do invalido que, a rir, quando elles sahiam a recebê-lo, dizia acompanhando-os vagarosamente por entre as arvores do parque: — D’ora avante não direi que só a Patria ganhou com o meu sacrificio, vós tambem me suppris, com a bondade, a falta do braço que perdi na guerra.
— Que por nós perdeste, disse o mais novo dos meninos.
— Por vós, por todos, por tudo, meu menino; pela nossa Patria adorada que bem merece dos seus filhos um pequeno sacrificio de amor.
FIM
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