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Capítulo 4 · Apólogos

O premio da traição

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Havia mais de um anno que o aguerrido exercito do poderoso Rei das Montanhas sustentava o sitio, apertando-o a mais e mais, sem que os da pequenina cidade dessem signaes de fraqueza.

Parecia que se retemperavam no soffrimento, tirando da angustia maior energia e mais empenho em resistir ao conquistador, que se irritava com a valentia de tão desapercebida praça, elle, que vira, á sua passagem, arriarem-se as pontes dos mais soberbos castellos e abrirem-se as portas das mais orgulhosas cidades e recebera, na sua tenda de purpura, pareas e vassalagem de tantos principes e ricos homens.

Os seus mais experimentados cabos de guerra murmuravam desgostosos da sua contumacia e já corriam no acampamento lendas maravilhosas que, a seu modo, explicavam a resistencia da cidade.

Umas affirmavam que certo magico, pactuado com demonios, abastecia a cidade e havia quem jurasse haver visto enormes aguias cortarem os ares levando nas garras fardos e ceirões.

Outras garantiam que os sitiados haviam cavado galerias subterraneas pelas quaes recebiam soccorro.

Havia até quem estivesse convencido de que na rija praça não existia viv’alma, jurando que eram duendes que appareciam entre as ameias, arrojando explosivos ou mostravam-se nas torres ao clarão das almenáras.

O rei não dormia, desesperado.

Pa recia-lhe humilhação infamante tão tenacissima resistencia.

Que diriam os seus inimigos quando soubessem que elle levantara o cerco, desanimado, sem poder colher ás mãos um só dos habitantes da pequenina cidade?

Uma noite, percorria elle, a longas passadas, a sua tenda, arrancando furiosamente as barbas, quando um velho e astuto general pediu para falar-lhe.

Recebeu-o immediatamente imaginando que, provado em tantas guerras e sempre fertil em traças felizes, trazia bem ajustado plano de assalto e, fazendo-o sentar-se, ordenou: que falasse.

E disse o velho em tom calmo: — Parece, senhor, que, a ferro e fogo, tão cedo não lograremos victoria sobre tal gente.

A cidade é pequena, mas os animos são grandes.

Ha mais de um anno que temos aqui as tendas assentadas e ainda não pudemos abrir brecha na cinta de muralhas por traz da qual tanto nos hostilisam.

Os mais valentes soldados do vosso exercito mostram-se desanimados e muitos, não podendo achar explicação natural para tão espantosa resistencia, vêm nella influencias maravilhosas e isso é bastante para que os mais ousados se acobardem.

Estou convencido de que se os sitiados tentassem uma sortida delles seriam os primeiros triumphos.

A superstição amolga a coragem.

Venho suggerir a V.

M. um meio que, se não é leal e airoso, dá-nos, com certeza, a victoria que almejamos.

Deixemos de parte as armas que nada pódem contra as pedras inabalaveis das muralhas e, em vez dos clarins soarem, que sôe a voz de pregoeiros offerecendo avultada somma a quem entregar a cidade.

O que não fazem pontas agudas de lanças e gume de espadas, fazem as moedas.

A principio o rei, que era um verdadeiro homem de guerra, valente e generoso, repelliu a proposta por achá-la repugnante, mas o amor proprio foi mais forte do que o brio, e na manhan seguinte, calados os clarins, ouviram-se vozes altas apregoando o suborno.

O dia passou sem resposta.

Veiu a tarde silente.

Por fim a noite baixou.

Já o rei estava sem esperança de colher o resultado que lhe fôra promettido pelo astuto general, quando um homem livido, esfarrapado, appareceu no acampamento pedindo para falar-lhe.

O monarcha recebeu-o no seu pavilhão faustosamente empavesado e o homem, prostrando-se com a face na terra, declarou: « Que ouvira as palavras do pregão e que por ellas viera trazendo a chave de uma das portas da cidade, cuja defesa lhe fôra confiada e, certo de que principe tão valoroso honraria a sua palavra, a seus pés deixava o meio unico de poder o exercito penetrar na praça inexpugnavel, que estava abastecida de meios para resistir ainda durante um anno e contava com todos os seus habitantes, não só os homens válidos, mas os velhos e ainda as mulheres e as crianças que se empenhavam, com inquebrantavel furia, na defesa, preferindo a morte heroica á vergonha humilhante da rendição. » Dizendo palavras taes o miseravel fez entrega da chave.

O monarcha contemplouo em silencio, alisando vagarosamente a barba longa; depois, chamando um dos generaes, disse que cumprisse a promessa que fôra annunciada pelos pregoeiros; e accrescentou : — E tomai a chave, que aqui está, que abre a porta occidental da cidade, e lançai-a por cima das muralhas, para que não se diga que venci com infamia tão vil a gente tão valorosa.

Voltando-se então para o esperto general que o contemplava maravilhado, disse: — E agora, meu amigo, levantemos as tendas, não fiquemos aqui inutilmente.

Se quando havia um traidor não conseguimos vencer, que poderemos conseguir agora que, astuciosamente, fizemos sahir o unico miseravel?

E, na manhan seguinte, enroladas as tendas, o grande exercito moveu-se lentamente tomando a direcção das Montanhas.

Não se deu o traidor por affrontado com as nobres palavras que ouviu.

Alegre com o ouro que lhe foi contado, deixou o acampamento e, com um ultimo olhar aos muros da cidade heroica, cuja honra vendera, foi-se pelos campos traçando planos de vida faustosa e regalada.

Os soldados que o viam passar injuriavam-no — porque ao proprio a quem ella aproveita a traição repugna.

O homem, surdo a apodos e assuadas, lá ia e desappareceu no bosque, contente com a fortuna que levava.

Caminhou todo um longo dia e toda uma noite ao lado do carro que transportava o seu ouro e, ao romper da manhan, cançado, resolveu dormir algumas horas, protegido pelas grandes arvores de uma floresta, para refazer-se e poder continuar a viagem em direcção á cidade que escolhera para habitar.

Deitando-se sobre as folhas seccas logo adormeceu.

Longe, porém, de achar no somno o repouso de que carecia, delle apenas tirou tormento.

Sonho atroz perseguiu-o: Viu a cidade em chammas, com as casas estalando e ruindo em braseiro; as ruas alagadas de sangue sobre o qual boiavam cadaveres e elle seguia, vadeando a sangueira, á procura da sua casa.

Mas os mortos, á sua passagem, erguiam-se com aspecto tragico, ameaçadores e, como elle tivesse de atravessar o cemiterio, viu abrir-se um tumulo e lançar de si livido espectro que esqueletos perseguiam e nelle reconheceu a propria mãi.

E os perseguidores bradavam: « Maldita sejas tu que geraste o monstro que nos trahiu, abrindo a cidade ao inimigo que profanou a terra sagrada sobre a qual viviam, entre flores e frutos, os filhos que deixamos!» E o espectro, a bracejar desesperadamente, fugia procurando encafuar-se nos mausoleus que encontrava, mas de todos rompiam brados, subiam labaredas e o trasgo proseguia na carreira até que desappareceu em trevosa furna onde bailavam demonios.

O miseravel acordou afflicto, sentou-se no seu leito silvestre e ficou a pensar.

Ia alto o sol, os passarinhos piavam nos ramos.

Atrelando os animaes ao carro, poz-se a caminho, mas a fome apertava e elle resolveu comer alguma coisa numa estalagem que apparecia, com um largo alpendre coberto de folhagens floridas.

Entrando encommendou um bom alalmoço e certo vinho velho de que lhe falara o estalajadeiro.

Veiu o cantaro e, como a sede era grande, o homem encheu um copo; levandoo, porém, á bôca sentiu gosto de sangue.

Chamou o estalajadeiro e disse-lhe irritado: — Este vinho sabe a sangue!

O alberguista pasmou e, levantando o copo á altura dos olhos, á luz do sol, sorriu das palavras que ouvia.

— O vinho é puro e do melhor que ha nestes lugares e, provando, concluiu: Não ha outro que se lhe compare em sa bor e em arôma.

Para demonstrar a verdade do que dizia, offereceu-o á prova a quantos ali se achavam e o louvor foi unanime: « Que o vinho era excellente!» O homem levou, de novo, o copo aos labios, mas arrevessou sentindo o mesmo gosto de sangue.

Desesperado pagou e partiu e todos ficaram a rir das caramunhas que elle fizera quando insistira em provar o vinho.

Em caminho, como a sêde apertasse, vendo luzir uma fonte, demandou-a.

A agua era fresca e limpida.

Curvou-se o traidor com as mãos em concha, e, sofrego, sorveu um grande gole, logo, porém, o rejeitou golfando-o.

A agua era amarga como a do mar ou como as lagrimas.

— Estranho gosto tem a agua desta fonte...! disse, pondo-se a caminho, com a sêde a abrasar-lhe as entranhas.

Foi então que se lhe deparou um pomar carregado de frutos maduros.

Bateu á cancella e, vendo apparecer uma velhinha, offereceu-lhe uma moeda se ella consentisse que elle comesse á vontade.

Era demasiada a recompensa.

A velhinha franqueou-lhe o pomar louvando-lhe a generosidade.

Tomou o homem o primeiro fruto, partiu-o: a polpa era cinza.

Tomou o segundo: a polpa era sangue.

Sem dizer palavra, acabrunhado, sahiu á estrada e lá foi com o seu carro cheio de ouro.

Chegando á cidade que escolhera para residir, tratou immediatamente de comprar um palacio e installou-se com fausto.

Na sua recámara, decorada por artistas, havia nymphas bailando em campo de flores.

Estava elle uma manhan deitado quando notou que as figuras moviam-se afflictamente como procurando fugir a um perigo.

De repente abalaram todas a correr e, á medida que passavam diante dos seus olhos assombrados, elle nellas reconhecia pessoas da sua cidade: parentes, amigos que o injuriavam e amaldiçoavam.

Sem poder descançar um minuto e attribuindo todos os seus soffrimentos ao ouro maldito, resolveu abrir mão da fortuna restituindo-a ao poderoso Rei das Montanhas, que já se havia recolhido á sua côrte.

— Senhor, disse, apresentando-se ao monarcha, venho trazer o que me des tes por premio de um crime infame.

Melhor fôra que me houvesseis justiçado no vosso campo quando vos procurei naquella noite nefanda.

O rei encarou-o carrancudo e respondeu em lentas palavras: — Justiça fiz eu fornecendo-te a ouro equivalente á grandeza do teu crime vil e só lamento que me não seja dado prolongar a vida dos homens, por que tornaria a tua eterna para que eterno fosse o teu tormento e eterna a tua vergonha.

Vai e leva o teu ouro.

Moedas taes não as quero eu no meu erario.

E expulsou-o com um gesto desprezivel, com mais asco do que repelliria um leproso.

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Sinopse

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