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Capítulo 14 · Apólogos

A arvore que cantava

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Certa manhan o rei, que promettera a mão da princeza a quem conseguisse chegar ao reino das fadas, foi avisado de que certo mancebo desejava falar-lhe para referir episodios maravilhosos da viagem que emprehendera ao paiz encantado, onde mortal algum jámais chegara, O rei ficou em alvoroçada curiosidade e todos os aulicos agitaram-se com a noticia, sendo immediatamente despachada ordem para que o mancebo fosse introduzido na sala do throno, onde o monarcha o esperava entre os nobres da sua côrte.

A princeza não desviava os lindos olhos da porta por onde devia entrar o ousado moço que, por seu amor, arriscara a vida entre gnomos e dragões, que taes eram os guardas das sete portas de bronze da capital do reino das fadas e sorriu, alegremente commovida, com duas rosas vivas nas faces, vendo apparecer o heroe, que era jovem, formoso e senhoril.

Inclinando-se graciosamente diante do rei e d’aquella que seria sua, se as provas confirmassem o que allegara, poz-se a narrar a sua viagem, longa e penosa, por entre penhascos, atravez de campinas eriçadas de espinheiros, cheia de episodios interessantes, aos quaes nem faltaram combates que teve de travar com anões que surgiam, aos milhares, das moutas de violetas, com um soido impertinente que era a voz das «fe,____ suas tubas, enristando espinhos, que eram as suas lanças.

Descreveu os immensos e alfombrados jardins, as fulgurantes montanhas de crystal, os vastos palacios de jaspe e onix sustentados por fortes columnas de porphyro e ladrilhados a agathas e topazios.

Falou dos gigantes, altos como torres, que guardavam rebanhos de carneiros de vello de sêda lustrosa e chavelhos de ouro; falou das formosas mulheres, que tanta vez admirára nos prados floridos, banhando-se nas mansas ribeiras coalhadas de nenuphares, aderençando ginetes, mais alvos do que a neve ou remontando-se, em carros prefulgentes que eram tirados por aguias brancas.

Todos ouviam-no interessados e, ao cabo da narração, como o rei pedisse uma prova, porque não bastavam palavras, mostrou o moço uma roman de ouro, cujas bagas eram preciosos rubis, dizendo havê-la colhido no pomar do palacio da rainha das fadas.

O rei e a princeza admiravam o formoso fruto quando um dos cortezãos, homem invejoso e que tambem pretendia a mão da donzella real, adiantou-se dizendo: — O fruto é lindo, senhor, mas bem póde ter sahido da officina de algum ourives.

Se veiu de galho d’arvore, outros iguaes tenho eu visto em montras de joalheiros.

Todos os cortezãos concordaram com o fidalgo, mas o rei, que sympatisara com o mancebo, pediu-lhe outra prova do que dissera.

— Senhor, disse o jovem, tenho commigo o bastante para convencer, não só a V.

M. como a todos os nobres da côrte.

E, fitando os olhos no invejoso, perguntou: — No vosso andar pelo mundo já vistes, por acaso, arvore que cantasse, desferindo accentos tão suaves como os desfere a mais afinada garganta?

— Confesso que ainda não vi, não poude deixar de responder o odioso fi dalgo.

E todos entreolharam-se com visiveis signaes de duvida, alguns sorriram, tomando, talvez, por louco ao moço pretendente.

Elle, porém, tirando do bolso da vestia uma semente, apresentou-a ao rei, dizendo: — Senhor, foi no parque do palacio da rainha das fadas que vi e ouvi a arvore que canta.

Era linda a noite: de luar e animada pelos sylphos luminosos, pequeninos como lavandiscas, que iam duma a outra flôr.

Uns sentavamse nas petalas, outros escondiam-se nas corollas, rindo.

Eu caminhava quando ouvi o canto delicioso.

Julguei, a principio, que era uma das fadas que desafiava os rouxinoes, mas um elfo esvoaçou sussurrando a uma pequenina sylphide : « É a arvore que canta. » E eu, seguindo-lhe o vôo, cheguei ao sitio onde ficava a arvore e, toda a noite, deliciado, deixei-me estar a ouvi-la, até que a manhan rompeu e a arvore calou-se.

Trago commigo uma semente da arvore que canta.

Plantai-a no vosso parque e, antes de uma semana, tereis a arvore frondosa, provando, com os seus gorgeios, a verdade do que vos disse.

Aceitou o rei a proposta.

Mas o invejoso fidalgo, que só pensava em desfazer-se do rival, que tão depressa conquistará as graças da princeza, disse severamente: — Senhor, é justo que se faça a experiência, mas para que se não diga que fostes victima de um embusteiro, que se lhe dê um prazo improrogavel ao fim do qual lhe caiba o premio ou seja punido como merece ser todo aquelle que mente ao seu rei.

— Dou-lhe um mez, disse o soberano.

— Dois, delongou a princeza.

Mas o mancebo replicou: — Basta-me uma semana, nem mais um dia requeiro.

Se, ao fim do prazo, não se houver realisado o que eu disse, que o carrasco me venha buscar na prisão em que devo ficar.

E, assim dizendo, entregou ao rei a semente preciosa.

— Planta-a tu mesmo, disse o monarcha ao invejoso.

Planta-a no parque, perto das janellas dos meus aposentos, para que eu seja o primeiro a ouvir-lhe o canto.

E o mancebo, que se sujeitára á condição, desceu, entre guardas, para a prisão do palacio.

De posse da semente maravilhosa, o cortezão perverso desceu ao parque com toda a côrte e, emquanto o jardineiro abria uma cova, poude, sorrateiramente, substituir a semente por um seixo que foi logo coberto sem que os do grupo dessem pela troca e, certo da victoria, voltou-se radiante, dizendo: — Dentro de uma semana teremos uma arvore a cantar, se a não tivermos lá fóra, ao sol, balançando um corpo no seu galho secco.

Referia-se á forca em que devia ser justiçado o seu formoso rival.

Recolhendo ao seu palacio, desceu ao subterrâneo e lá, bem no fundo, cavando um fosso, deixou ficar a semente, cobrindo-a com terra e pedrouços para que não vingasse, e, tranquillo — porque tinha por inevitavel a morte do mancebo — subiu, dizendo que fôra á adega escolher um vinho precioso para offerecer ao rei no dia do seu proximo anniversario.

Todas as manhans a princeza, muito interessada na victoria do mancebo e tambem curiosa de ouvir o canto da arvore, abria a janella e, nada ouvindo, descia ao parque e ia examinar o sitio em que fôra plantada a semente.

Nada!

E a princeza chorava pezarosa, lamentando que tão guapo moço acabasse na forca por seu amor.

Os cortezãos sorriam.

O proprio rei, impaciente, não occultava o seu despeito, louvando a subtileza do fidalgo que o ia vingar exemplarmente da mystificação do embusteiro.

« Que morra! » bradava enfurecido.

E os dias passavam.

Na vespera de findar o prazo foram á prisão e acharam o moço dormindo tão tranquillamente que os proprios guardas tiveram pena de despertá-lo.

Mas o fidalgo, para gosar a sua crueldade, chamou-o: — Eh! amigo, expira ámanhan o pra zo que pediste e da arvore não ha signal na terra do parque.

Andam operarios na praça a levantar a forca em que, ao romper d’alva, se fará justiça ao teu procedimento vil.

Os olhos do mancebo relampejaram d’ódio.

Logo, porém, contendo-se, respondeu serenamente ao fidalgo: — Se a semente foi plantada, a arvore cantará antes da minha morte.

E, de novo, deitou-se nas palhas do carcere.

Ao alvorecer do dia fatal as trombetas soaram chamando os burguezes á grande praça onde fôra levantada a forca.

A tropa estendia-se em duas alas, desde o palacio real até o sitio do supplicio.

As janellas ficaram apinhadas de curiosos e era tamanha a agglomeração nas ruas que iam ter á praça que os soldados difficilmente mantinham as posições sendo, ás vezes, forçados a repellir a turba com violencia para contê-la á distancia, deixando livre a passagem por onde devia transitar o sinistro cortejo.

O palacio do invejoso dava a frente para a praça, fronteiro ao paço em cujo balcão o rei e a princeza, cercados de camaristas e damas, esperavam o condemnado.

Ao clangor das tubas o povo ondulou apertando-se a mais e mais e logo appareceu a carreta em que vinha o mancebo, d’alva, manietado, entre soldados que empunhavam lanças.

Um esquadrão de cavallaria acompanhava o tragico vehiculo.

Justamente quando chegava á forca o mancebo estremeceu e, no silencio commovido que se fizera, ouviram todos uma voz suavissima, cantando.

O condemnado sorriu e, erguendo os olhos para o balcão real, disse: — Senhor, é a arvore que canta.

Escutai-a.

E todos, extasiados, procuravam a direcção do canto.

O fidalgo, pouco antes alegre, triumphante, empallidecia á janella do seu palacio, e a voz, cada vez mais meiga, soava docemente.

De repente alguém disse na multidão, apontando o palacio do invejoso: « É d’ali que vem o canto! » E uma turba immensa avançou contra o palacio, aos brados; mas as portas, que eram de bronze, resistiram ao choque.

O rei, então, que começava a suspeitar do fidalgo, desceu á praça e, entre os seus archeiros, intimou o vassallo a abrir-lhe as portas.

O miseravel obedeceu, recebendo o monarcha no vestibulo, zumbrido, com um suor gelado a escorrer-lhe da fronte.

E a voz, cada vez mais suave, encantava com a sua melodia.

— Quem canta no teu palacio? perguntou o rei serenamente.

Dize a verdade se não queres que os meus archeiros levem-te daqui arrastado ao patibulo que fizeste levantar na praça.

— Senhor, é a arvore que canta.

— Onde a plantaste?

— No subterraneo do palacio.

— Leva-me, quero vê-la.

Caminhando humilhado, o fidalgo desceu á adéga tenebrosa e humida, precedendo o rei e a sua comitiva, e lá estava a arvore frondosa, verde, florida e cantando.

— E que plantaste no parque real?

— Um seixo, senhor.

E, sem achar palavra para defender-se, o vilissimo homem prostrou-se aos pés do rei pedindo apenas a vida.

O soberano desprezou-o e, subindo em passos ligeiros, atravessou a praça, ordenando que conduzissem á sua presença o moço condemnado.

A princeza exultava e maior foi a sua alegria quando, ao apparecer o moço, o rei o levou ao balcão, apresentando-o ao povo como — o promettido noivo de sua filha.

Estrugiram acclamações e, não fosse a soldadesca, e o palacio do invejoso teria sido varejado pela multidão indignada.

E a arvore cantava docemente e o seu canto vencia o vozear da turba.

Bem dissera o moço: « Se a semente foi plantada, a arvore cantará antes da minha morte ».

A verdade é como a semente da arvore que cantava: tráiam-na com os sophismas, abafem-na, releguem-na da luz, que ella rebentará fulgurante, dando a victoria á justiça e confundindo o traidor.

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