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Capítulo 11 · Apólogos

O diamante

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A floresta era densa, obscura, tão intricada que, mais dum viajante ousado, nelia se havia perdido, sem atinar com o caminho na rede complicada de enviezadas trilhas que, em vez de levarem aos campos, abalsavam o caminheiro que ia ter ás grutas em que se enlapavam feras.

Como não havia outra passagem para os campos geraes senão atravez da floresta, o lenhador, que tinha a sua choupana á sombra das primeiras arvores, todas as vezes que se aprofundava APÓLOGOS 135 naquella solidão nemorosa, levava comsigo o filho e ia-lhe indicando as picadas, dizendo-lhe os rumos que seguiam e, por meio de golpes nos troncos, assignalava todas as direcções.

O pequeno, que era esperto, prestava a maior attenção ás palavras do velho e, em pouco tempo, a floresta não tinha segredos para elle, porque o afoito menino, deixando o pai a lenhar, internava-se, cruzando o verde labyrintho de extremo a extremo, correndo ás fontes, se sentia sede, trepando ás arvores, se a noite o surprendia longe.

Sempre, porém, que tornava á choupana, imaginava uma desculpa mentirosa para que o pai, que era severo, não o castigasse.

Eram historias de animaes que o haviam perseguido, quédas que dera, vozes afflictas que ouvira e o velho, ou porque acreditasse, ou porque tivesse pena do menino, que chegava faminto e tiritando de frio, com as roupas humidas, relevava a estroinice e lá ia, machado ao hombro, para o rude trabalho.

A mãi, porém, boa e virtuosa mulher, chamava carinhosamente o filho e dizia-lhe: — Porque mentes?

Nada viste nem ouviste na floresta.

Ficaste a brincar e a procurar ninhos e, com a escuridão da noite, temendo os animaes, buscaste algum esconderijo até que luzisse a manhan.

Foi isto, não?

Elle tentava confirmar a mentira, insistia convidando a velha a acompanhá-lo a certa clareira para ouvir as vozes; ella, porém, continuava a desmenti-lo e vencia-o, por fim.

— Não mintas, meu filho.

A mentira é manto esfarrapado e curto que não consegue jamais esconder a verdade.

Quem mente corre grandes riscos e açaba sendo desprezado de todos.

A verdade fica e, a qualquer tempo invocada, apparece perfeita.

A mentira é baforada de fumo que logo se desmancha no ar.

O mentiroso, contando um facto que não viu, quando, mais tarde, o quer repetir, embaraça-se nas proprias tramas e o embuste, com que procurou illudir, serve de teia para enredá-lo.

Dize sempre a verdade porque quem anda com ella anda com Deus.

Um dia lembrou-se o lenhador de aproveitar a intelligencia do filho e disselhe: — Já estás um rapaz e pódes ganhar a tua vida prestando-nos algum auxilio.

Conheces todos os caminhos da floresta e, como eu começo a sentir-me alquebrado, vai tu substituir-me como guia quando aqui apparecer algum viajante com destino aos campos geraes.

São homens generosos.

Um delles, possuidor de grandes riquezas, deume este diamante que vale uma fortuna.

E tirou do bolso do cinto de couro uma pedra branca que scintillava.

Ao vê-la, o pequeno ficou deslumbrado e logo offereceu-se para encaminhar o primeiro viajante que viesse bater á porta da choupana.

A velha, porém, que era prudente, á noite, tanto que viu o filho adormecido, recriminou o marido por lhe haver mentido.

— Porque mentiste ao pequeno?

Julgando fazer um bem, fizeste um mal irreparavel, porque no dia em que elle descobrir que o que lhe mostraste não é mais do que um pedaço de crystal sem valor, descrerá de tudo quanto lhe disseres e, recebendo dos viajantes a merecida paga do seu trabalho, julgar-se-á sempre lesado e voltará á madraçaria.

Fizeste mal porque não póde exigir a verdade aquelle que dá exemplos de mentira.

O lenhador encolheu os hombros e deitou-se, sem dar importancia ás palavras da mulher.

As grossas nuvens dissipavam-se annunciando os dias dourados, já os ventos não gemiam no bosque e as aguas, mais mansas, corriam com suave murmurio.

As madrugadas eram alegres, cheias de luz e sonoras de chilros; as campinas reverdeciam, as franças das altas arvores enfeitavam-se de flores quando, uma tarde, tres homens appareceram á porta da choupana, montando negros cavallos ajaezados de prata, com pistolas nos coldres e adágas atravessadas á cinta.

Eram aventureiros que seguiam levados pelas noticias dos ricos descobertos nos corregos que desciam da montanha.

O lenhador, que jantava, sahiu a recebê-los hospitaleiramente e como o mais velho dos tres pedisse um guia que os conduzisse atravez da floresta, o pequeno, que estava a um canto, alvoroçou-se imaginando logo que, ao fim da viagem, aquelle homem de barba tão negra, que trazia armas tão ricas, lhe daria um diamante maior do que o que lhe mostrára o pai.

Estava elle a pensar nessa fortuna quando ouviu as palavras do lenhador que falava ao mais velho dos homens: — Levar-vos-á meu filho que, melhor do que eu, conhece as trilhas da floresta.

Com elle, em quatro horas suaves, chegareis aos campos.

Partireis ao luzir da manhan.

Agora vinde refazer-vos á mesa, vós e os vossos companheiros, contentando-vos com o que póde offerecer um pobre lenhador.

Abancaram-se os homens, regalando-se, á farta, com o que lhes foi servido; em seguida recolheram-se ao quarto que a boa velha preparara aceiadamente.

Ao dealbar, ainda com a luz da lua, sahiram guiados pelo pequeno.

Iam vagarosamente gosando o silencio, o frescor e o perfume da floresta, quando o guia, que era garrulo, entrou a falar das suas aventuras e, como os homens não fossem tambem dos mais calados, a conversa animou-se.

Foi então que o menino, esgotado o repertorio das narrativas maravilhosas, alludiu ao grande diamante que lhe mostrara o pai e não o descreveu como o vira, exagerou-lhe o tamanho e o brilho, affirmando que era maior que um ovo e que, no escuro da noite, alumiava como uma lampada.

Entreolharam-se os homens e o mais velho, que era astuto, perguntou: « Como havia o lenhador adquirido tamanha preciosidade? » Repetiu o pequeno o que ao pai ouvira e os tres, com palavras estranhas, conversaram longamente até que chegaram á ourela da floresta onde começavam os campos.

O pequeno recebeu pelo trabalho uma moeda de ouro e, contente, cantando, retrocedeu, sem sentir que era acompanhado.

Vinha a imaginar o emprego que daria áquella riqueza.

Féra que rompesse da matta não o tiraria das cogitações.

Chegando á casa narrou todas as peripécias da jornada, reservando-se, porém, de dizer que falára do diamante.

Á noite, depois da ceia frugal, recolheram-se todos.

Elle deitou-se no seu catre e, insomne, imaginando-se riquissimo, com muitas moedas de ouro como a que lhe haviam dado os homens, ficou a rolar nas palhas e rolava, quando ouviu um grito agudo que atroou a acanhada e adormecida choupana.

Quiz levantar-se, mas o medo tolheu-o.

Gritaram de novo, soaram pancadas como de portas impellidas por um vento forte; depois recahiu o silencio.

Apenas, de vez em vez, passava um gemido abafado.

Só quando os passarinhos cantaram e uma fita de sol desceu por um intersticio do tecto, foi que elle se sentiu com animo de sahir, vêr o que houvera em casa: porque haviam gritado com tanta angustia, que rumor estranho fôra aquelle que estrondára no silencio.

Sahiu pé ante pé, perscrutando medroso e, na pequena sala de jantar mal alumiada, descobriu um corpo immovel.

Escancarou a porta — o sol entrou e, á luz, reconheceu o pai que agonisava em uma poça de sangue.

Atirou-se de joelhos, soluçando.

Aos seus gritos desesperados respondeu uma voz que o chamava.

Correu ao quarto e achou a velha mãi ensanguentada, a arrastar-se difficilmente.

— Ah! filho, os tres homens que hontem daqui sahiram comtigo...

Foram elles!

Voltaram á noite porque lhes falaste no diamante que te mostrou teu pai.

Entraram no quarto e eu só os senti quando golpeavam o pobre homem.

Pude escapar a tempo, nem era a mim que elles buscavam, senão ao desgraçado que tinha o cinto de couro que os perversos retalharam, fugindo arrebatadamente com a pedra que julgavam preciosa.

Foste tu o causador da nossa desgraça — ou antes: foi teu pai com a mentira e foste tu com a indiscreção.

Teu pai mentiu-te, affirmando que era um precioso diamante o que não passava de um caco de crystal, e tu ainda exageraste a mentira, incitando com ella a ambição dos assassinos.

E agora, que será de nós sem elle que era o nosso amparo?

Ahi tens o triste effeito da mentira que, se enganou a uns, que por ella se tornaram criminosos, mais fatal foi ao que a produziu, querendo estimular ao trabalho com uma illusão.

O meio era deshonesto, o resultado foi triste.

— Que, ao menos, te aproveite o exemplo.

E, ajoelhando-se junto do cadaver do esposo, a velha desatou a chorar desesperadamente.

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Sinopse

Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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