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Capítulo 15 · Apólogos

O lume

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No templo, sob a guarda vigilante de numerosos sacerdotes, que se revesavam á beira do altar, fulgurava irradiante a divina chamma conquistada ao sol.

Renovada de anno em anno, ao fim do inverno, quando rebentavam os primeiros brotos primaveris, era considerada como o espirito do proprio deus luminoso que afugentava as feras e fecundava as lavouras, trazendo ao homem o calor vivificante, depois dos longos e transidos dias de neve e vento.

A cerimonia do renovamento do lume era feita com a maior solemnidade no primeiro dia da primavera.

Na torre altissima do templo reuniam-se todos os sacerdotes revestidos dos seus trajos resplandecentes e as virgens, de branco, com os incensorios de ouro; e, diante do altar de mármore, onde se juntava a lenha aromatica, que se devia inflam-mar ao raio solar, dando a chamma divina, o summa sacerdote mantinha o espelho ustorio.

Um lento mover do fino ramalho, um leve enrugar das folhas seccas annunciavam a chegada do calor.

Pouco a pouco, aquecendo-se a mais e mais a lenha, o aroma evolava-se.

Subito uma centelha brilhava no bordo da folha mais secca e,. crescendo em risca, verminava; outra fulgia e um fumo subtil desprendia-se do altar e, como se a lenha vivesse, movia-se, curvava-se, crepitava até que a flamma desejada explodia alegre.

Logo os cantos triumphaes saudavam-na e as harpas, soando em unisono, annunciavam ao povo o fogo renascido.

Era, então, uma festa na cidade.

A nova era levada a todos os cantos e, com ella, chegava aos corações a esperança de messes fartas, de prospera paz e do favor divino.

No templo, a chamma transferia-se ao alampadario de sete luzes, sendo a cinza da lenha sagrada recolhida ao ciborio de ouro, que era conservado nos subterraneos do templo, em nichos de marmore.

Todos os homens da cidade acudiam ao templo com lampadas e fachos resinosos, a buscar o novo lume, companheiro da vida, amigo do lar e era uma procissão radiante pelas ruas floridas, pelos campos verdes, pelos montes durante dias e noites até que o summo sacerdote mandava correr a grade de prata que separava da nave do templo o recinto sacrosanto reservado ao lume.

Ai! do que não se apressava com a sua lampada ou com o feixe de ramas para levar o lume astral — passava um anno triste, de desfortuna e apprehensões, porque o trigo não espigava, o gado morria ou trasmalhava-se e, se a morte o arrebatava durante o período melancólico, a sua alma errava, perdida no espaço, debatendo-se em sombras densas, sem acertar com o caminho de esplendor que leva ao Paraiso.

Os que desejavam iniciar-se nas sciencias encerravam-se no templo e, durante sete annos, guardavam o lume solar.

Tanto fitavam os olhos na luz que ella os penetrava indo aclarar o espirito que se accendia como a lenha da ara quando sobre ella incidia o raio ethereo, e, cada qual, segundo o seu gosto e conforme o dictame do coração, sahia com a sua lampada a espalhar pelo mundo o esplendor que possuia.

Não havia prodigio que os iniciados da luz não realisassem: desejavam e tanto bastava para que logo se cumprisse o seu desejo.

Quatro mancebos que haviam, juntos, velado, sete annos, o sagrado lume, deixaram o templo na mesma manhan e, despedindo-se, tomaram caminhos diversos.

Cada qual, entrando na grande vida, logo se dispoz a um destino.

O primeiro, mal descera a escadaria do templo, viu um pobre homem que gemia deitado á sombra de limoeiros, com uma ulcera a roer-lhe a perna.

Tomou a sua lampada e, applicando á chaga o lume divino, immediatamente a sarou e o homem ergueu-se sorrindo e cobriu-o de bençãos, voltando alegre ao seu campo que, por abandono, já se havia embravecido em mattagal.

Pela treva das florestas, em noites tormentosas, atravez de campos coalhados de gado, nos ermos retiros dos montes, nas viellas escuras dos bairros pobres, onde quer que houvesse um enfermo soffrendo, ahi lampejava a flamma que o piedoso iniciado conquistára, á força de vigilias, no templo do sol.

E as bençãos dos humildes acompanhavam-no e os deuses, no Paraiso, louvavam o procedimento do bom homem que tão bem applicava a luz que adquirira.

O segundo encontrara a sêde flagellando a cidade e os campos.

Os homens levantavam clamores doridos cercando as fontes escassas; as culturas mirravam e os rebanhos succumbiam sedentos nas estradas quentes onde os passarinhos, d’azas abertas, piavam avidos.

Com o favor da luz divina, foi-se por montes, seguido d’homens, direito a uma fonte limpida e copiosa e, trabalhando sem repouso e incitando ao trabalho os operarios, em pouco tempo trouxe á cidade e espalhou pelos campos a fartura d’agua que descobrira, graças á luz divina.

E a multidão, satisfeita, entoou louvores ao homem illuminado que tão bem applicára a sciencia adquirida nos sete annos de vigilia.

E os deuses, no Paraiso, sorriam agradados, vendo que o homem soubera aproveitar o bem que a luz lhe favorecera, transformando-o em beneficio para os seus irmãos.

O terceiro caminhava despreoccupadamente quando, ao passar por um carcere, ouviu gemidos lamentosos.

Deteve-se e, informando-se de quem gemia, soube que era um homem que jazia em ferros no fundo duma masmorra, dizendo-se innocente do crime de que o accusavam.

Pediu para vê-lo e, tanto que entrou no prisão, logo accendeu a sua lampada e, na projecção da luz, viram todos apparecer o nome do verdadeiro criminoso.

Logo o innocente, que encanecera no soffrimento, foi posto em liberdade e o verdadeiro reu veio occupar o cepo que, durante tanto tempo, elle tivera por companheiro unico do infortunio.

Os homens louvaram aquella suave justiça e os deuses, no Paraiso, applaudiram a misericordia.

O ultimo, possuidor, como os primeiros, duma lampada divina, logo ao deixar o templo, correu a encerrar-se.

Á noite, quando as estrellas luziam no céu, debruçando-se á janella da casa que habitava, sombrio, com o coração fechado á ternura, só pensando nas palavras que lhe dissera o summo sacerdote com relação ao poder da chamma solar — que se prestaria a realisar todos os desejos dos iniciados — quiz experimentá-la e, como, ao longe, ondulava, ao luar, um campo de trigo, logo desejou vê-lo incendiado.

Immediatamente um fogo vivo alastrou, subiu, avassallando a viçosa cultura.

A noite tornou-se de purpura e o fumo ennevoou o luar.

A grita da gente rustica, surprendida no somno pelas labaredas violentas, e o aterrado mugir dos bois e o balar assustado dos cordeiros fugindo desatinadamente ao incendio, chegavam ao homem cruel sem lhe doer no coração.

Elle contemplava, sorrindo, o excidio triste, orgulhoso do seu poder, igual ao de um deus, e sorria quando as vozes dos homens entraram a proferir maldições contra o perverso que tão mal procedia com a pobre gente e os animaes inoffensivos.

E os deuses, no Paraiso, revoltaram-se contra o mau homem que fizera de um bem o instrumento cruel da mais negra perversidade.

No primeiro dia da primavera, quando no templo já se moviam sacerdotes e virgens para a solemnidade do fogo novo, acharamse reunidos os quatro iniciados que, no anno anterior, haviam terminado o cyclo das vigilias.

Logo que o primeiro chegou diante do altar, onde a lenha aromatica começava a inflammar-se, uma fagulha, destacando-se, ficou a brilhar sobre a sua cabeça como se fosse uma estrella.

Ajoelhou-se o segundo, ajoelhou-se o terceiro e o milagre luminoso reproduziu-se no silencio maravilhado da assistencia.

Á vez do quarto o lume, até então pacifico, cresceu na lenha, enfurecido, como soprado por um grande vento de vingança e logo que o sahio ajoelhou-se uma labareda violenta apartou-se do lume da ara e, como uma serpente, envolveu-o nos seus anneis abrasadores.

Sacerdotes e virgens recuaram assombrados e o homem, contorcendo-se, rolando, escabujando, pedia, aos gritos, que o livrassem daquelle supplicio.

E a chamma raivosa envolvia-o, devorava-o e, antes que pudessem acudir, o miseravel ficou denegrido, carbonisado e o fogo não o deixou senão depois que do corpo nada mais restava que a cinza.

Impressionado, o summo sacerdote desceu a consultar o oraculo e uma grande voz atroou o templo, dizendo: « É assim que se vingam os deuses justiceiros.

A luz divina é dada aos que a procuram e torna-se, em poder dos seus donos, um elemento passivo: beneficio, quando é dirigida para o bem; maldade, quando é applicada com intenção cruel.

Não basta ser iniciado do sol, é preciso ter coração para que os bons effeitos da luz aproveitem aos homens.

A chamma divina deve ser usada como meio de esclarecer, de illuminar as sombras do mundo e não como fogo destruidor.

Os que a utilisam com amor transformam o proprio odio em brandura e convertem as impurezas em perfeições.

Dos quatro iniciados tres souberam applicar o que lhes foi dado e as bençãos dos homens gratos foram os primeiros premios que tiveram.

O ultimo, homem sem estranhas, transformou a graça divina em pernicioso elemento de devastação, incendiando campos em fruto, abrasando casaes tranquillos, queimando rebanhos que dormiam.

Se o mesmo dom coube aos quatro, porque só um o havia de destinar ao mal?

Tenham os justos a recompensa que mereceram e que as cinzas do corpo do perverso sejam espalhadas no espaço para que o vento as disperse. » O summo sacerdote, que ouvira as palavras do oraculo, tornou á torre onde todos o esperavam ansiosos e, junto do altar sagrado, falou aos que nelle tinham os olhos: « O genio é um bem dos deuses, lume divino que arde no cerebro dos homens predestinados.

Os que o possuem podem chegar ás maiores glorias, mas para que mereçam os louvores dos seus pares e obtenham as graças celestiaes é necessario que saibam applicar a fortuna que possuem.

Se o genio é uma grandeza, a bondade é uma excellencia e o homem mais digno é aquelle que mais se preoccupa com o bem geral procurando, com a força do seu espirito, corrigir os males e minorar o soffrimento dos infelizes.

Dos quatro iniciados do sol tres aqui estão triumphantes e glorificados pelos proprios deuses; o outro, senhor de um lume magnifico, de tanto esplendor como o que rebrilha na lampada dos justos, é um monte de cinza maldita porque foi impiedoso, abusando da força que possuia e empregando em maldade o prestigio do seu genio.

Melhor seria que nunca se houvesse encaminhado a esta casa santa porque, assim como a luz, na mão do homem clemente e asisado, é pharol que esclarece, em poder do perverso é chamma que devasta.

Que vos sirva a lição que acabam de dar os deuses. » Disse e soprou para o ar as cinzas do homem cruel.

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Sinopse

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