Universo da obra
Universo da obra
Nina Falcão chegou à Galeria Avelar duas horas antes da abertura, com uma maleta de restauro numa mão e o casaco preto dobrado no braço. A entrada principal ainda recebia flores brancas, taças alinhadas e fotógrafos testando luz perto do painel da exposição. Ela entrou pela porta lateral, onde ninguém sorria para câmera e todo mundo falava baixo por medo de riscar parede recém-pintada. No salão principal, a obra que sustentava a noite ocupava o centro da parede vermelha. A Mulher de Luvas Verdes vinha protegida por vidro museológico, moldura dourada e dois seguranças que pareciam guardar dinheiro vivo. Nina parou diante do quadro por menos de um minuto e percebeu o brilho errado no canto inferior da tinta.
Bárbara Avelar apareceu logo depois, vestida de branco, com um colar pequeno demais para parecer caro e uma prancheta presa contra o peito. Cumprimentou Nina com a mesma pressa usada para conferir fornecedores e pediu que ela fizesse apenas uma vistoria superficial antes da vernissage. A ordem vinha educada, porém fechada. O quadro não sairia da parede, o vidro não seria aberto e nenhum relatório técnico deveria circular antes da venda privada marcada para o fim da semana. Nina ouviu tudo sem discutir, abriu a maleta e retirou a lanterna de inspeção. Bastou aproximar a luz para a rachadura aparecer em diagonal, fina e limpa, cortando a luva da mulher pintada até a borda da taça verde.
Teo Avelar atravessou o salão pelo lado das esculturas, falando ao telefone com um colecionador e olhando para a equipe com impaciência calculada. Era jovem para mandar daquele jeito, camisa azul sem gravata, cabelo ainda úmido, postura de quem crescera entre catálogo caro e segredo de família. Quando desligou, veio direto até Nina e perguntou se havia risco para a abertura. Ela respondeu que havia risco para o quadro, o que deveria importar primeiro. Teo baixou os olhos para a luva rachada, depois para a lanterna na mão dela, e pediu que Bárbara liberasse a sala de restauro por quinze minutos. A diretora travou a boca antes de concordar.
A sala de restauro ficava atrás do acervo, longe do barulho das taças e da música que começava a subir no salão. Nina acompanhou a transferência da pintura sem tirar os olhos da moldura. O verso trazia etiquetas de leilões antigos, selos de transporte e uma placa nova com a proveniência da Galeria Avelar. Perto da quina inferior, uma marca de cola recente entregava que a placa havia sido trocada havia pouco tempo. Ela pediu uma espátula, uma lupa e silêncio. Teo ficou encostado na bancada, sem tocar em nada, observando cada gesto dela com uma atenção que incomodava menos pela insistência e mais pela precisão.
Nina removeu uma camada mínima de verniz no canto da luva e encontrou tinta azul sob o verde. A cor não pertencia à paleta conhecida do pintor indicado no catálogo. Quando aproximou a lupa da borda, viu parte de uma assinatura apagada, duas letras curvas e um traço final que lembrava o nome de Olívia Vale, artista desaparecida nos anos noventa depois de uma briga pública com a própria galeria. Teo perdeu a expressão segura pela primeira vez. Pediu que Nina repetisse o nome. Ela não repetiu. Pegou o bloco técnico, anotou a data, a posição da marca e a alteração da placa no verso. A mão dele fechou sobre a bancada quando ela escreveu a palavra falsificação.
A porta abriu antes que Nina terminasse o laudo preliminar. Bárbara entrou com dois seguranças e disse que os convidados já esperavam a obra no salão. Nina respondeu que o quadro não poderia voltar para a parede sem registro fotográfico e lacre técnico. A diretora sorriu sem mostrar os dentes, pegou o telefone e avisou alguém que o restauro havia confirmado apenas dano superficial. Teo saiu do lugar e tentou tomar o aparelho, tarde demais. Do outro lado da porta, um funcionário já empurrava o carrinho de transporte para buscar a pintura. Nina segurou o laudo contra a prancheta e percebeu que a noite tinha acabado de escolher um lado por ela.
Quando a obra voltou ao salão, as luzes da vernissage já estavam acesas e os convidados se aproximavam com taças na mão. Nina ficou perto da parede lateral, vendo A Mulher de Luvas Verdes receber aplausos que não merecia mais. Teo apareceu ao lado dela, trouxe uma foto antiga dobrada dentro do paletó e colocou o papel entre os dois sem olhar para o rosto dela. A foto mostrava a mesma mulher, a mesma taça, a mesma luva, só que no canto inferior havia uma assinatura inteira. Olívia Vale. Nina levantou os olhos para o quadro exposto e viu que a placa nova já trazia outro número de lote. Antes que pudesse falar, alguém apagou a luz da galeria por três segundos. Quando a iluminação voltou, o laudo dela tinha desaparecido da prancheta.
Nina Falcão aceita restaurar a obra principal da Galeria Avelar para uma exposição milionária. Na primeira noite, encontra uma assinatura escondida sob a tinta e entende que o quadro mais valioso do acervo é falso. Quando tenta avisar a direção, o laudo desaparece e a galeria a acusa de ter danificado a peça. Encurralada, Nina só encontra apoio em Teo Avelar, o curador jovem que todos acham intocável. Juntos, eles descobrem que a galeria vende obras falsas, apaga nomes de artistas mortos e prepara um leilão capaz de enterrar a prova final. Para limpar o próprio nome, Nina terá de fazer a arte falar antes que a família Avelar venda a última mentira.
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