Universo da obra
Universo da obra
ATO PRIMEIRO
PRIMEIRO QUADRO
A CABANA DO LENHADOR
O teatro representa o interior de uma cabana de lenhador, simples, rústica, mas de modo algum miserável. — Lareira com manto, onde adormece um fogo de achas. — Utensílios de cozinha, armário, arca de pão, relógio de pesos, roca, fonte, etc. — Sobre uma mesa, uma lâmpada acesa. — Ao pé do armário, de cada lado dele, adormecidos, enrodilhados, o nariz sob a cauda, um Cão e uma Gata. — Entre os dois, um grande pão de açúcar branco e azul. — Pendurada na parede, uma gaiola redonda encerrando uma rolinha. — Ao fundo, duas janelas cujas venezianas interiores estão fechadas. — Sob uma das janelas, um escabelo. — À esquerda, a porta de entrada da casa, munida de um grande ferrolho. — À direita, outra porta. — Escada que leva a um sótão. — Também à direita, duas caminhas de criança, à cabeceira das quais, sobre duas cadeiras, roupas se acham cuidadosamente dobradas.
* * * * *
[Ao erguer-se o pano, Tyltyl e Mytyl dormem profundamente em suas caminhas. A Mãe Tyl os cobre uma última vez, inclina-se sobre eles, contempla por um momento o seu sono, e chama com a mão o Pai Tyl, que põe a cabeça pela fresta da porta. A Mãe Tyl leva um dedo aos lábios para lhe impor silêncio, depois sai à direita na ponta dos pés, após apagar a lâmpada. A cena permanece escura por um instante; depois, uma luz cuja intensidade aumenta pouco a pouco filtra-se pelas frestas das venezianas. A lâmpada sobre a mesa reacende-se sozinha. As duas crianças parecem despertar e sentam-se na cama.]
TYLTYL
Mytyl?
MYTYL
Tyltyl?
TYLTYL
Estás dormindo?
MYTYL
E tu?...
TYLTYL
Ora não, não estou dormindo, pois estou falando contigo...
MYTYL
É Natal, dize?...
TYLTYL
Ainda não; é amanhã. Mas o pequeno Natal não trará nada este ano...
MYTYL
Por quê?...
TYLTYL
Ouvi mamãe dizendo que não pôde ir à cidade para avisá-lo... Mas ele virá no ano que vem...
MYTYL
Demora muito, o ano que vem?...
TYLTYL
Não é pouco... Mas ele vem esta noite à casa das crianças ricas...
MYTYL
Ah?...
TYLTYL
Olha!... Mamãe esqueceu a lâmpada!... Tenho uma ideia...
MYTYL
?...
TYLTYL
Vamos nos levantar...
MYTYL
É proibido...
TYLTYL
Já que não há ninguém... Estás vendo as venezianas?...
MYTYL
Oh! como estão claras!...
TYLTYL
São as luzes da festa.
MYTYL
Que festa?
TYLTYL
Ali em frente, na casa dos pequenos ricos. É a árvore de Natal. Vamos abri-las...
MYTYL
Pode-se?
TYLTYL
Claro, já que estamos sozinhos... Ouves a música?... Vamos levantar...
As duas crianças levantam-se, correm para uma das janelas, sobem no escabelo e empurram as venezianas. Uma viva claridade penetra no aposento. As crianças olham avidamente para fora.
TYLTYL
Vê-se tudo!...
MYTYL, [que só encontra um lugar precário no escabelo.]
Eu não vejo...
TYLTYL
Está nevando!... Lá estão duas carruagens com seis cavalos!...
MYTYL
Delas saem doze menininhos!...
TYLTYL
És boba!... São menininhas...
MYTYL
Eles têm calças...
TYLTYL
Grande entendida... Não me empurres assim!...
MYTYL
Eu não te toquei.
TYLTYL, [que ocupa sozinho todo o escabelo.]
Tu tomas todo o lugar...
MYTYL
Mas eu não tenho lugar nenhum!...
TYLTYL
Cala-te, pois, vê-se a árvore!...
MYTYL
Que árvore?...
TYLTYL
Ora, a árvore de Natal!... Estás olhando para a parede!...
MYTYL
Olho para a parede porque não há lugar...
TYLTYL, [cedendo-lhe um pequeno lugar avaramente no escabelo.]
Pronto!... Chega para ti?... Não é o melhor lugar?... Quantas luzes há! Quantas!...
MYTYL
Que fazem aqueles que fazem tanto barulho?...
TYLTYL
Fazem música.
MYTYL
Estão zangados?...
TYLTYL
Não, mas cansa.
MYTYL
Mais uma carruagem atrelada a cavalos brancos!...
TYLTYL
Cala-te!... Olha, pois!...
MYTYL
Que é aquilo pendurado ali, de ouro, nos ramos?...
TYLTYL
Ora, os brinquedos, com certeza!... Sabres, fuzis, soldados, canhões...
MYTYL
E bonecas, dize, puseram algumas?...
TYLTYL
Bonecas?... É bobo demais; isso não os diverte...
MYTYL
E em volta da mesa, que é tudo aquilo?...
TYLTYL
São bolos, frutas, tortas de creme...
MYTYL
Comi uma vez, quando era pequena...
TYLTYL
Eu também; é melhor que pão, mas a gente tem muito pouco...
MYTYL
Eles não têm muito pouco... A mesa está cheia... Vão comê-los?...
TYLTYL
Claro; que fariam com eles?...
MYTYL
Por que não os comem logo?...
TYLTYL
Porque não têm fome...
MYTYL, estupefata.
Não têm fome?... Por quê?...
TYLTYL
É que comem quando querem...
MYTYL, incrédula.
Todos os dias?...
TYLTYL
Dizem...
MYTYL
Comerão tudo?... Darão um pouco?...
TYLTYL
A quem?...
MYTYL
A nós...
TYLTYL
Eles não nos conhecem...
MYTYL
Se pedíssemos?...
TYLTYL
Isso não se faz.
MYTYL
Por quê?...
TYLTYL
Porque é proibido.
MYTYL, batendo palmas.
Oh! como são bonitos!...
TYLTYL, entusiasmado.
E riem e riem!...
MYTYL
E os pequenos que dançam!...
TYLTYL
Sim, sim, dancemos também!...
Eles sapateiam de alegria sobre o escabelo.
MYTYL
Oh! como é divertido!...
TYLTYL
Estão dando os bolos!... Eles podem tocar neles!... Comem! comem! comem!...
MYTYL
Os menores também!... Têm dois, três, quatro!...
TYLTYL, [ébrio de alegria.]
Oh! é bom!... Como é bom! como é bom!...
MYTYL, [contando bolos imaginários.]
Eu recebi doze!...
TYLTYL
E eu quatro vezes doze!... Mas te darei alguns...
Batem à porta da cabana.
TYLTYL, [subitamente calmo e assustado.]
Que é isso?...
MYTYL, [apavorada.]
É papai!...
Como tardam a abrir, vê-se o grande ferrolho levantar-se por si mesmo, rangendo; a porta entreabre-se para dar passagem a uma velhinha vestida de verde e coberta por um capuz vermelho. Ela é corcunda, manca, caolha; o nariz e o queixo se encontram, e caminha curvada sobre um bordão. Não há dúvida de que seja uma fada.
A FADA
Tendes aqui a erva que canta ou o pássaro que é azul?...
TYLTYL
Temos erva, mas ela não canta...
MYTYL
Tyltyl tem um pássaro.
TYLTYL
Mas não posso dá-lo...
A FADA
Por quê?...
TYLTYL
Porque é meu.
A FADA
É uma razão, sem dúvida. Onde está esse pássaro?...
TYLTYL, [mostrando a gaiola.]
Na gaiola...
A FADA, [pondo os óculos para examinar o pássaro.]
Não o quero; não é bastante azul. Será preciso que vades buscar para mim aquele de que necessito.
TYLTYL
Mas não sei onde ele está...
A FADA
Eu tampouco. É por isso que é preciso procurá-lo. Posso, em último caso, passar sem a erva que canta; mas preciso absolutamente do Pássaro Azul. É para minha filhinha, que está muito doente.
TYLTYL
Que é que ela tem?...
A FADA
Não se sabe ao certo; ela queria ser feliz...
TYLTYL
Ah?...
A FADA
Sabeis quem sou?...
TYLTYL
A senhora se parece um pouco com nossa vizinha, Madame Berlingot...
A FADA, zangando-se subitamente.
De modo algum... Não há relação nenhuma... É abominável!... Sou a Fada Bérylune...
TYLTYL
Ah! muito bem...
A FADA
Será preciso partir imediatamente.
TYLTYL
A senhora virá conosco?...
A FADA
É absolutamente impossível, por causa do cozido que pus no fogo esta manhã e que se apressa em transbordar cada vez que me ausento por mais de uma hora... [Mostrando sucessivamente o teto, a lareira e a janela.] Quereis sair por aqui, por ali ou por acolá?...
TYLTYL, [mostrando timidamente a porta.]
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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