Universo da obra
Universo da obra
DÉCIMO PRIMEIRO QUADRO
A DESPEDIDA
A cena representa um muro aberto por uma pequena porta. É o raiar do dia.
* * * * *
[Entram: Tyltyl, Mytyl, a Luz, o Pão, o Açúcar, o Fogo e o Leite.]
A LUZ
Jamais adivinharias onde estamos...
TYLTYL
Claro que não, Luz, já que não sei...
A LUZ
Não reconheces este muro e esta pequena porta?...
TYLTYL
É um muro vermelho e uma pequena porta verde...
A LUZ
E isso não te recorda nada?...
TYLTYL
Recorda-me que o Tempo nos pôs para fora...
A LUZ
Como somos estranhos quando sonhamos... Não reconhecemos a própria mão...
TYLTYL
Quem sonha?... Sou eu?...
A LUZ
Talvez seja eu... Quem sabe?... Enquanto isso, este muro cerca uma casa que viste mais de uma vez desde o teu nascimento...
TYLTYL
Uma casa que vi mais de uma vez?
A LUZ
Mas sim, pequeno adormecido!... É a casa que deixamos certa noite, há exatamente, dia por dia, um ano...
TYLTYL
Há exatamente um ano?... Mas então?...
A LUZ
Não arregales os olhos como grutas de safira... É ela, é a boa casa dos pais...
TYLTYL, [aproximando-se da porta.]
Mas eu creio... De fato... Parece-me... Esta pequena porta... Reconheço a tramelinha... Eles estão lá?... Estamos perto de mamãe?... Quero entrar agora mesmo... Quero beijá-la agora mesmo!...
A LUZ
Um instante... Eles dormem profundamente; não se deve despertá-los de sobressalto... Além disso, a porta só se abrirá quando a hora soar...
TYLTYL
Que hora?... Falta muito esperar?...
A LUZ
Ai de mim, não!... alguns pobres minutos...
TYLTYL
Não estás feliz por voltar?... Que tens, Luz?... Estás pálida, dir-se-ia que estás doente...
A LUZ
Não é nada, meu filho... Sinto-me um pouco triste, porque vou deixar-vos...
TYLTYL
Deixar-nos?...
A LUZ
É preciso... Já não tenho nada a fazer aqui; o ano está completo, a Fada vai voltar e pedir-te o Pássaro Azul...
TYLTYL
Mas é que eu não tenho o Pássaro Azul!... O da Lembrança ficou todo preto, o do Futuro ficou todo vermelho, os da Noite morreram e eu não pude pegar o da Floresta... É culpa minha se eles mudam de cor, se morrem ou escapam?... A Fada ficará zangada, e que dirá?...
A LUZ
Fizemos o que pudemos... É preciso crer que ele não existe, o Pássaro Azul; ou que muda de cor quando o põem numa gaiola...
TYLTYL
Onde está ela, a gaiola?...
O PÃO
Aqui, mestre... Ela foi confiada aos meus cuidados diligentes durante esta longa e perigosa viagem; hoje que minha missão chega ao fim, restitua-vo-la intacta e bem fechada, tal como a recebi... [Como um orador que toma a palavra.] Agora, em nome de todos, que me seja permitido acrescentar algumas palavras...
O FOGO
Ele não tem a palavra!...
A ÁGUA
Silêncio!...
O PÃO
As interrupções maldosas de um inimigo desprezível, de um rival invejoso... [Erguendo a voz.] não me impedirão de cumprir meu dever até o fim... É, pois, em nome de todos...
O FOGO
Não em meu nome... Eu tenho língua!...
O PÃO
É, pois, em nome de todos, e com emoção contida, mas sincera e profunda, que me despeço de duas crianças predestinadas, cuja alta missão termina hoje. Ao dizer-lhes adeus com toda a aflição e toda a ternura que uma estima mútua...
TYLTYL
Como?... Dizes adeus?... Então tu também nos deixas?...
O PÃO
Ai de mim! é bem preciso... Deixo-vos, é verdade; mas a separação será apenas aparente, já não me ouvireis falar...
O FOGO
Não será nenhuma desgraça!...
A ÁGUA
Silêncio!...
O PÃO, [muito digno.]
Isso não me atinge... Eu dizia, pois: já não me ouvireis, já não me vereis sob minha forma animada... Vossos olhos vão fechar-se à vida invisível das coisas; mas estarei sempre ali, na arca, na tábua, sobre a mesa, ao lado da sopa, eu que sou, ouso dizê-lo, o mais fiel comensal e o mais velho amigo do Homem...
O FOGO
Muito bem, e eu?...
A LUZ
Vamos, os minutos passam, a hora está prestes a soar, e nos fará regressar ao silêncio... Apressai-vos em beijar as crianças...
O FOGO, [precipitando-se.]
Eu primeiro, primeiro eu!... [Beija violentamente as crianças.] Adeus, Tyltyl e Mytyl!... Adeus, meus queridos pequenos... Lembrai-vos de mim se algum dia precisardes de alguém para pôr Fogo em algum lugar...
MYTYL
Ai! ai!... Ele me queima!...
TYLTYL
Ai! ai! Ele me chamusca o nariz!...
A LUZ
Vamos, Fogo, moderai um pouco vossos transportes... Não estais diante de vossa lareira...
A ÁGUA
Que idiota!...
O PÃO
Como é mal-educado!...
A ÁGUA, [aproximando-se das crianças.]
Eu vos beijarei sem vos fazer mal, ternamente, meus filhos...
O FOGO
Cuidado, isso molha!...
A ÁGUA
Sou amorosa e doce; sou boa para os humanos...
O FOGO
E os afogados?...
A ÁGUA
Amai bem as Fontes, escutai os Riachos... Estarei sempre ali...
O FOGO
Ela inundou tudo!...
A ÁGUA
Quando vos sentardes, à noite, à beira das Nascentes — há mais de uma aqui, na floresta —, tentai compreender o que elas tentam dizer... Já não posso... As lágrimas me sufocam e me impedem de falar...
O FOGO
Não parece!...
A ÁGUA
Lembrai-vos de mim quando virdes a garrafa... Também me encontrareis no cântaro, no regador, na cisterna e na torneira...
O AÇÚCAR, [naturalmente hipócrita e adocicado.]
Se restar um pequeno lugar em vossa lembrança, recordai-vos de que por vezes minha presença vos foi doce... Não posso dizer-vos mais... As lágrimas são contrárias ao meu temperamento e me fazem muito mal quando caem sobre meus pés...
O PÃO
Jesuítico!...
O FOGO, [guinchando.]
Bastão de açúcar! balas! caramelos!...
TYLTYL
Mas por onde andam Tylette e Tylô?... Que estão fazendo?...
[No mesmo momento, ouvem-se gritos agudos lançados pela Gata.]
MYTYL, [alarmada.]
É Tylette que chora!... Estão lhe fazendo mal!...
[Entra correndo a Gata, eriçada, despenteada, com as roupas rasgadas, e segurando o lenço contra a face, como se tivesse dor de dentes. Solta gemidos coléricos e é perseguida de muito perto pelo Cão, que a cobre de cabeçadas, socos e pontapés.]
O CÃO, [batendo na Gata.]
Toma!... Já chega?... Queres mais?... Toma! toma! toma!...
A LUZ, TYLTYL e MYTYL, [precipitando-se para separá-los.]
Tylô!... Estás louco?... Ora essa!... Abaixo!... Queres acabar com isso!... Onde já se viu!... Espera! espera!...
[Eles são separados energicamente.]
A LUZ
Que é isto?... Que aconteceu?...
A GATA, [choramingando e enxugando os olhos.]
Foi ele, senhora Luz... Disse-me injúrias, pôs pregos em minha sopa, puxou minha cauda, cobriu-me de pancadas, e eu não tinha feito nada, nada absolutamente, nada absolutamente!...
O CÃO, [imitando-a.]
Nada absolutamente, nada absolutamente!... [A meia voz, fazendo-lhe careta.] Ainda assim, levaste, levaste bastante, e das boas, e ainda levarás mais!...
MYTYL, [apertando a Gata nos braços.]
Minha pobre Tylette, dize-me onde te dói... Também vou chorar!...
A LUZ, [ao Cão, severamente.]
Vossa conduta é tanto mais indigna quanto escolhestes, para nos dar este triste espetáculo, o momento, já bastante penoso por si mesmo, em que vamos nos separar destas pobres crianças...
O CÃO, [subitamente desanuviado.]
Separar-nos destas pobres crianças?...
A LUZ
Sim, a hora que sabeis vai soar... Vamos regressar ao Silêncio... Já não poderemos falar-lhes...
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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