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O Pássaro Azul

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O Pássaro Azul

Capítulo 27 · O Pássaro Azul

Ato Quinto - Décimo Quadro - Parte 2

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TYLTYL

É pena...

A CRIANÇA

Trabalho nela todos os dias... Está quase acabada... Queres ver?...

TYLTYL

Claro... Onde está ela?...

A CRIANÇA

Ali, pode-se vê-la daqui, entre aquelas duas colunas...

OUTRA CRIANÇA AZUL, [aproximando-se de Tyltyl e puxando-o pela manga.]

Queres ver a minha, dize?...

TYLTYL

Mas o quê, que é?...

SEGUNDA CRIANÇA

Os trinta e três remédios para prolongar a vida... Ali, nesses frascos azuis...

TERCEIRA CRIANÇA, [saindo da multidão.]

Eu trago uma luz que ninguém conhece!... [Ilumina-se inteira com uma chama extraordinária.] É bastante curiosa, não?...

QUARTA CRIANÇA, [puxando Tyltyl pelo braço.]

Vem ver minha máquina que voa pelos ares como um pássaro sem asas!...

QUINTA CRIANÇA

Não, não; primeiro a minha, que encontra os tesouros escondidos na lua!...

[As Crianças Azuis se apressam ao redor de Tyltyl e Mytyl, gritando todas juntas: “Não, não, vem ver a minha!... Não, a minha é mais bela!... A minha é espantosa!... A minha é toda de açúcar!... A dele não é curiosa... ele tirou a ideia de mim!..., etc.”. Entre essas exclamações desordenadas, arrastam os pequenos Vivos para o lado das oficinas azuis; e ali, cada um dos inventores põe em movimento sua máquina ideal. É um turbilhão cerúleo de rodas, discos, volantes, engrenagens, roldanas, correias, objetos estranhos e ainda sem nome, envoltos pelos vapores azulados do irreal. Uma multidão de aparelhos bizarros e misteriosos se lança e plana sob as abóbadas, ou rasteja ao pé das colunas, enquanto crianças desenrolam mapas e planos, abrem livros, descobrem estátuas azuladas, trazem enormes flores, frutos gigantescos que parecem formados de safiras e turquesas.]

UMA PEQUENA CRIANÇA AZUL, [curvada sob o peso de colossais margaridas azuis.]

Olhai minhas flores!...3

TYLTYL

Que é isto?... Não as conheço...

A PEQUENA CRIANÇA AZUL

São margaridas!...

TYLTYL

Impossível!... São grandes como rodas...

A PEQUENA CRIANÇA AZUL

E como cheiram bem!...

TYLTYL, [aspirando-as.]

Prodigioso!...

A PEQUENA CRIANÇA AZUL

Elas serão assim quando eu estiver na Terra...

TYLTYL

Quando, então?...

A PEQUENA CRIANÇA AZUL

Daqui a cinquenta e três anos, quatro meses e nove dias...

[Chegam duas Crianças Azuis que carregam, como um lustre pendente de uma vara, um inverossímil cacho de uvas cujos bagos são maiores que peras.]

UMA DAS CRIANÇAS QUE CARREGAM O CACHO

Que dizes de meus frutos?...

TYLTYL

Um cacho de peras!...

A CRIANÇA

Mas não, são uvas!... Todas serão assim quando eu tiver trinta anos... Encontrei o meio...

OUTRA CRIANÇA, [esmagada sob uma cesta de maçãs azuis, grandes como melões.]

E eu!... Vede minhas maçãs!...

TYLTYL

Mas são melões!...

A CRIANÇA

Mas não!... São minhas maçãs, e ainda as menos belas!... Todas serão assim quando eu estiver viva... Encontrei o sistema!...

OUTRA CRIANÇA, [trazendo num carrinho de mão azul melões azuis maiores que abóboras.]

E meus pequenos melões?...

TYLTYL

Mas são abóboras!...

A CRIANÇA DOS MELÕES

Quando eu vier à Terra, os melões terão orgulho!... Serei o jardineiro do Rei dos Nove Planetas...

TYLTYL

O Rei dos Nove Planetas?... Onde está ele?...

O REI DOS NOVE PLANETAS, [avançando orgulhosamente. Parece ter quatro anos e mal consegue manter-se de pé sobre suas perninhas tortas.]

Aqui está!

TYLTYL

Ora! não és grande...

O REI DOS NOVE PLANETAS, [grave e sentencioso.]

O que farei será grande.

TYLTYL

Que farás?

O REI DOS NOVE PLANETAS

Fundarei a Confederação Geral dos Planetas solares.

TYLTYL, [desconcertado.]

Ah, realmente?

O REI DOS NOVE PLANETAS

Todos farão parte dela, exceto Saturno, Urano e Netuno, que ficam a distâncias exageradas e incomensuráveis.

[Retira-se com dignidade.]

TYLTYL

Ele é interessante...

UMA CRIANÇA AZUL

E vês aquele ali?

TYLTYL

Qual?

A CRIANÇA

Ali, o pequeno que dorme ao pé da coluna...

TYLTYL

Pois bem?

A CRIANÇA

Ele trará a alegria pura ao Globo...

TYLTYL

Como?...

A CRIANÇA

Por meio de ideias que ainda não se tiveram...

TYLTYL

E o outro, o gordinho que está com os dedos no nariz, que fará ele?...

A CRIANÇA

Deve encontrar o fogo para aquecer a Terra quando o Sol estiver mais pálido...

TYLTYL

E os dois que se dão as mãos e se beijam o tempo todo: são irmão e irmã?...

A CRIANÇA

Mas não, são muito engraçados... São os Enamorados...

TYLTYL

Que é isso?...

A CRIANÇA

Não sei... É o Tempo que os chama assim para zombar deles... Olham-se o dia inteiro nos olhos, beijam-se e dizem adeus um ao outro...

TYLTYL

Por quê?

A CRIANÇA

Parece que não poderão partir juntos...

TYLTYL

E o pequeno todo rosado, que parece tão sério e chupa o dedo, que é?...

A CRIANÇA

Parece que ele deve apagar a Injustiça na Terra...

TYLTYL

Ah?...

A CRIANÇA

Dizem que é um trabalho terrível...

TYLTYL

E o ruivinho que anda como se não enxergasse. Ele é cego?...

A CRIANÇA

Ainda não; mas ficará... Olha-o bem; parece que deve vencer a Morte...

TYLTYL

Que quer dizer isso?...

A CRIANÇA

Não sei ao certo; mas dizem que é grandioso...

TYLTYL, [mostrando uma multidão de crianças adormecidas ao pé das colunas, nos degraus, nos bancos, etc.]

E todos aqueles que dormem — como há os que dormem! — não fazem nada?...

A CRIANÇA

Pensam em alguma coisa...

TYLTYL

Em quê?...

A CRIANÇA

Ainda não sabem; mas devem levar alguma coisa à Terra; é proibido sair de mãos vazias...

TYLTYL

Quem proíbe?...

A CRIANÇA

É o Tempo, que fica à porta... Verás quando ele abrir... Ele é muito aborrecido...

UMA CRIANÇA, [acorrendo do fundo da sala, abrindo caminho pela multidão.]

Bom dia, Tyltyl!...

TYLTYL

Olha!... Como sabe meu nome?...

A CRIANÇA, [que acaba de acorrer e abraça Tyltyl e Mytyl com efusão.]

Bom dia!... Tudo vai bem?... — Vamos, abraça-me, e tu também, Mytyl... Não é espantoso que eu saiba teu nome, pois serei teu irmão... Só agora me disseram que estavas aqui... Eu estava lá no fim da sala, empacotando minhas ideias... — Dize a mamãe que estou pronto...

TYLTYL

Como?... Pretendes vir para nossa casa?

A CRIANÇA

Claro, no ano que vem, no domingo de Ramos... Não me atormentes muito quando eu for pequeno... Estou muito contente por vos ter abraçado de antemão... — Dize a papai que conserte o berço... — É bom em nossa casa?...

TYLTYL

Ora, não é ruim... E mamãe é tão boa!...

A CRIANÇA

E a comida?...

TYLTYL

Depende... Há até dias em que temos bolos, não é verdade, Mytyl?...

MYTYL

No Ano-Novo e no Catorze de Julho... É mamãe quem os faz...

TYLTYL

Que tens aí nesse saco?... Trazes-nos alguma coisa?...

A CRIANÇA, [muito orgulhosa.]

Trago três doenças: a escarlatina, a coqueluche e o sarampo...

TYLTYL

Pois bem, se é tudo isso!... E depois, que farás?...

A CRIANÇA

Depois?... Irei embora...

TYLTYL

Valerá muito a pena vir!...

A CRIANÇA

Acaso se tem escolha?...

[Nesse momento, ouve-se erguer-se e espalhar-se uma espécie de vibração prolongada, poderosa e cristalina, que parece emanar das colunas e das portas de opala tocadas por uma luz mais viva.]

TYLTYL

Que é isto?...

UMA CRIANÇA

É o Tempo!... Ele vai abrir as portas!...

O Pássaro Azul

Sinopse

Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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