Universo da obra
Universo da obra
O melro desperta e põe-se a cantar a plenos pulmões.
VOVÓ TYL
Vês bem... Basta que se pense nele...
TYLTYL, [notando com estupor que o melro é perfeitamente azul.]
Mas ele é azul!... Mas é ele, o Pássaro Azul que devo levar à Fada!... E vós não me dizíeis que o tínheis aqui! Oh! como é azul, azul, azul, como uma bolinha de vidro azul!... [Suplicante.] Vovô, vovó, quereis dá-lo a mim?...
VOVÔ TYL
Ora sim, talvez... Que pensas, Mamãe Tyl?...
VOVÓ TYL
Claro, claro... Para que serve ele aqui?... Não faz senão dormir... Nunca o ouvimos...
TYLTYL
Vou pô-lo na minha gaiola... Ora, onde está ela, minha gaiola?... Ah! é verdade, esqueci-a atrás da grande árvore... [Corre até a árvore, traz a gaiola e nela encerra o melro.] Então, de verdade, vós me dais mesmo?... Como a Fada ficará contente!... E a Luz também!...
VOVÔ TYL
Sabes, eu não respondo pelo pássaro... Bem temo que ele já não consiga acostumar-se à vida agitada lá de cima, e que volte para cá no primeiro bom vento... Enfim, veremos... Deixa-o aí, por enquanto, e vem ver a vaca...
TYLTYL, [notando as colmeias.]
E as abelhas, dize, como vão elas?...
VOVÔ TYL
Ora, não vão mal... Elas também já não vivem, como dizeis lá embaixo; mas trabalham com afinco...
TYLTYL, [aproximando-se das colmeias.]
Oh, sim!... Cheira a mel!... As colmeias devem estar pesadas!... Todas as flores são tão belas!... E minhas irmãzinhas que morreram, também estão aqui?...
MYTYL
E meus três irmãozinhos que foram enterrados, onde estão?...
[A estas palavras, sete criancinhas de tamanhos desiguais, em flauta de Pã, saem uma a uma da casa.]
VOVÓ TYL
Aqui estão, aqui estão!... Assim que se pensa neles, assim que se fala deles, cá estão os marotos!...
[Tyltyl e Mytyl correm ao encontro das crianças. Empurram-se, abraçam-se, dançam, rodopiam, soltam gritos de alegria.]
TYLTYL
Olha, Pierrot!... [Eles se agarram pelos cabelos.] Ah! vamos brigar de novo como antigamente... E Robert!... Bom dia, Jean!... Já não tens teu pião?... Madeleine e Pierrette, Pauline e depois Riquette...
MYTYL
Oh! Riquette, Riquette!... Ela ainda anda de quatro!...
VOVÓ TYL
Sim, ela já não cresce...
TYLTYL, [notando o cachorrinho que late ao redor deles.]
Aí está Kiki, a quem cortei o rabo com a tesoura de Pauline... Ele também não mudou...
VOVÔ TYL, [sentencioso.]
Não, nada muda aqui...
TYLTYL
E Pauline ainda tem sua espinha no nariz!...
VOVÓ TYL
Sim, ela não desaparece; não há nada a fazer...
TYLTYL
Oh! como estão com boa aparência, como estão gordos e reluzentes!... Que belas faces têm!... Parecem bem alimentados...
VOVÓ TYL
Eles passam muito melhor desde que já não vivem... Já não há nada a temer, nunca se fica doente, já não se tem inquietações...
[Na casa, o relógio bate oito horas.]
VOVÓ TYL, [estupefata.]
Que é isto?...
VOVÔ TYL
Ora, não sei... Deve ser o relógio...
VOVÓ TYL
Não é possível... Ele nunca bate...
VOVÔ TYL
Porque já não pensamos nas horas... Alguém pensou nas horas?...
TYLTYL
Sim, fui eu... Que horas são?...
VOVÔ TYL
Ora, já nem sei... Perdi o hábito... Ele bateu oito pancadas; deve ser o que, lá em cima, chamam oito horas.
TYLTYL
A Luz me espera às nove menos um quarto... É por causa da Fada... É extremamente importante... Vou embora...
VOVÓ TYL
Não ides nos deixar assim, no momento da ceia!... Depressa, depressa, ponhamos a mesa diante da porta... Justamente tenho uma excelente sopa de couve e uma bela torta de ameixas...
[Tiram a mesa, arrumam-na diante da porta, trazem os pratos, as travessas, etc... Todos ajudam.]
TYLTYL
Ora, já que tenho o Pássaro Azul... E depois, sopa de couve, faz tanto tempo!... Desde que viajo... Não se encontra isso nos hotéis...
VOVÓ TYL
Pronto!... Já está feito... À mesa, crianças... Se estais com pressa, não percamos tempo...
[Acenderam a lâmpada e serviram a sopa. Os avós e as crianças sentam-se ao redor da refeição da noite, entre empurrões, encontrões, gritos e risos de alegria.]
TYLTYL, [comendo gulosamente.]
Como é boa!... Meu Deus, como é boa!... Quero mais! mais!
[Ele brandia sua colher de pau e bate com ela ruidosamente no prato.]
VOVÔ TYL
Vamos, vamos, um pouco de calma... Continuas tão mal-educado como sempre; e vais quebrar teu prato...
TYLTYL, [erguendo-se a meio corpo sobre seu banquinho.]
Quero mais, mais!...
[Ele alcança e puxa para si a sopeira, que se vira e se derrama sobre a mesa, e dali sobre os joelhos dos convivas. Gritos e urros dos escaldados.]
VOVÓ TYL
Estás vendo!... Eu bem te disse...
VOVÔ TYL, [dando em Tyltyl uma sonora bofetada.]
Toma, para ti!...
TYLTYL, [por um instante desconcertado, depois levando a mão à face, com encantamento.]
Oh! sim, eram assim as bofetadas que tu davas quando estavas vivo... Vovô, como é boa e como faz bem!... Preciso te abraçar!...
VOVÔ TYL
Está bem, está bem; há outras ainda, se isso te dá prazer...
[O relógio bate oito e meia.]
TYLTYL, [sobressaltando-se.]
Oito e meia!... [Ele larga a colher.] Mytyl, mal temos tempo!...
VOVÓ TYL
Vamos!... Ainda alguns minutos!... A casa não está pegando fogo... Vemo-nos tão raramente...
TYLTYL
Não, não é possível... A Luz é tão boa... E eu lhe prometi... Vamos, Mytyl, vamos!...
VOVÔ TYL
Deus, como os Vivos são contrariantes com todos os seus negócios e agitações!...
TYLTYL, [tomando sua gaiola e beijando todos às pressas, em roda.]
Adeus, vovô... Adeus, vovó... Adeus, irmãos, irmãs, Pierrot, Robert, Pauline, Madeleine, Riquette, e tu também, Kiki! Sinto bem que já não podemos ficar aqui... Não chores, vovó, voltaremos muitas vezes...
VOVÓ TYL
Voltai todos os dias!...
TYLTYL
Sim, sim! Voltaremos o mais frequentemente possível...
VOVÓ TYL
É nossa única alegria, e é uma festa tão grande quando vosso pensamento nos visita!...
VOVÔ TYL
Não temos outras distrações...
TYLTYL
Depressa, depressa!... Minha gaiola!... Meu pássaro!...
VOVÔ TYL, passando-lhe a gaiola.
Aqui estão!... Sabes, não garanto nada; e se a cor dele não for firme!...
TYLTYL
Adeus! adeus!...
OS IRMÃOS E IRMÃS TYL
Adeus, Tyltyl!... Adeus, Mytyl!... Pensai nos bastões de açúcar!... Adeus!... Voltai!... Voltai!...
[Todos agitam lenços enquanto Tyltyl e Mytyl se afastam lentamente. Mas já, durante as últimas réplicas, o nevoeiro do início se refez gradualmente, e o som das vozes se enfraqueceu, de modo que, ao fim da cena, tudo desapareceu na bruma e, no momento em que o pano baixa, Tyltyl e Mytyl se encontram novamente sós, visíveis sob o grande carvalho.]
TYLTYL
É por aqui, Mytyl...
MYTYL
Onde está a Luz?...
TYLTYL
Não sei... [Olhando o pássaro na gaiola.] Olha! O pássaro já não é azul!... Ficou preto!...
MYTYL
Dá-me a mão, irmãozinho... Tenho muito medo e muito frio...
PANO
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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