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O Pássaro Azul

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O Pássaro Azul

Capítulo 28 · O Pássaro Azul

Ato Quinto - Décimo Quadro - Parte 3

28 de 33 ≈ 8 min de leitura

[Imediatamente, um vasto remoinho se propaga na multidão das Crianças Azuis. A maioria abandona suas máquinas e seus trabalhos, numerosos dorminhocos despertam, e tanto uns como outros voltam os olhos para as portas de opala e se aproximam delas.]

A LUZ, [juntando-se a Tyltyl.]

Tratemos de nos esconder atrás das colunas... É preciso que o Tempo não nos descubra...

TYLTYL

De onde vem esse ruído?...

UMA CRIANÇA

É a Aurora que se levanta... É a hora em que as crianças que nascerão hoje vão descer à Terra...

TYLTYL

Como descerão?... Há escadas?...

A CRIANÇA

Tu vais ver... O Tempo está puxando os ferrolhos...

TYLTYL

Que é o Tempo?...

A CRIANÇA

É um velho que vem chamar aqueles que partem...

TYLTYL

Ele é mau?...

A CRIANÇA

Não, mas não ouve nada... Por mais que se suplique, quando não é a vez deles, ele repele todos os que queriam partir...

TYLTYL

Eles ficam felizes de partir?

A CRIANÇA

Não se fica contente quando se permanece; mas fica-se triste quando se vai embora... Ali! Ali!... Eis que ele abre!...

[As grandes portas opalinas giram lentamente sobre os gonzos. Ouvem-se, como uma música distante, os rumores da Terra. Uma claridade vermelha e verde penetra na sala; e o Tempo, alto ancião de barba flutuante, armado de sua foice e de sua ampulheta, aparece no limiar, enquanto se vê a extremidade das velas brancas e douradas de uma galera amarrada a uma espécie de cais formado pelos vapores róseos da Aurora.]

O TEMPO, [no limiar.]

Aqueles cuja hora soou estão prontos?...

CRIANÇAS AZUIS, [abrindo caminho na multidão e acorrendo de todos os lados.]

Aqui estamos!... Aqui estamos!... Aqui estamos!...

O TEMPO, [com voz rabugenta, às crianças que desfilam diante dele para sair.]

Um a um!... Ainda se apresentam muitos mais do que é preciso!... É sempre a mesma coisa!... A mim não se engana!... [Repelindo uma criança.] Não é a tua vez!... Volta, é para amanhã... Tu também não, volta e retorna daqui a dez anos... Um décimo terceiro pastor?... Só eram precisos doze; já não há necessidade de mais, não estamos mais no tempo de Teócrito ou de Virgílio... Mais médicos?... Já há demais; queixam-se disso na Terra... E os engenheiros, onde estão?... Quer-se um homem honesto, um só, como fenômeno... Onde está o homem honesto?... És tu?... [A criança faz sinal que sim.] Pareces-me bem mirrado... não viverás muito!... Ei, vós outros, ali, não tão depressa!... E tu, que trazes?... Nada absolutamente? De mãos vazias?... Então não se passa... Prepara alguma coisa, um grande crime, se quiseres, ou uma doença; a mim, isso tanto faz... mas é preciso alguma coisa... [Avistando um pequeno que os outros empurram para a frente e que resiste com todas as forças.] Então, tu, que tens?... Bem sabes que é a hora... Pedem um herói que combata a Injustiça; és tu, é preciso partir...

AS CRIANÇAS AZUIS

Ele não quer, senhor...

O TEMPO

Como?... Ele não quer?... Onde acredita estar esse pequeno aborto?... Nada de reclamações, não temos tempo...

O PEQUENO, [que empurram.]

Não, não!... Não quero!... Prefiro não nascer!... Prefiro ficar aqui!...

O TEMPO

Não se trata disso... Quando é a hora, é a hora!... Vamos, depressa, adiante!...

UMA CRIANÇA, [avançando.]

Oh! deixai-me passar!... Irei tomar o lugar dele!... Dizem que meus pais são velhos e me esperam há tanto tempo!...

O TEMPO

Nada disso... A hora é a hora e o tempo é o tempo... Nunca acabaríamos se vos ouvíssemos... Um quer, outro recusa; é cedo demais, é tarde demais... [Afastando crianças que invadiram o limiar.] Não tão perto, pequenos... Para trás, curiosos... Os que não partem nada têm que ver lá fora... Agora tendes pressa; depois, chegada a vossa vez, tereis medo e recuareis... Olhai, há quatro ali que tremem como folhas... [A uma criança que, prestes a transpor o limiar, retorna bruscamente.] Então, que foi?... Que tens?...

A CRIANÇA

Esqueci a caixa que contém os dois crimes que deverei cometer...

OUTRA CRIANÇA

E eu, o potinho que encerra a ideia para iluminar as multidões...

TERCEIRA CRIANÇA

Esqueci o enxerto de minha mais bela pera!...

O TEMPO

Correi depressa buscá-los!... Restam-nos apenas seiscentos e doze segundos... A galera da Aurora já bate as velas para mostrar que espera... Chegareis tarde demais e não nascereis mais... Vamos, depressa, embarquemos!... [Agarrando uma criança que tenta passar entre suas pernas para alcançar o cais.] Ah! tu não, por exemplo!... É a terceira vez que tentas nascer antes da tua vez... Que eu não te apanhe de novo, senão será a espera eterna junto de minha irmã, a Eternidade; e sabes que lá não há divertimento... Mas vejamos, estamos prontos?... Todos em seus postos?... [Percorrendo com o olhar as crianças reunidas no cais ou já sentadas na galera.] Ainda falta um... Por mais que se esconda, eu o vejo na multidão... A mim não se engana... Vamos, tu, o pequeno a quem chamam o Enamorado, despede-te de tua bela...

[Os dois pequenos a quem chamam “os Enamorados”, ternamente enlaçados e com o rosto lívido de desespero, avançam para o Tempo e ajoelham-se a seus pés.]

PRIMEIRA CRIANÇA

Senhor Tempo, deixai-me partir com ele!...

SEGUNDA CRIANÇA

Senhor Tempo, deixai-me ficar com ela!...

O TEMPO

Impossível!... Restam-nos apenas trezentos e noventa e quatro segundos...

PRIMEIRA CRIANÇA

Prefiro não nascer!...

O TEMPO

Não se tem escolha...

SEGUNDA CRIANÇA, [suplicante.]

Senhor Tempo, chegarei tarde demais!...

PRIMEIRA CRIANÇA

Já não estarei lá quando ela descer!...

SEGUNDA CRIANÇA

Não tornarei a vê-lo!...

PRIMEIRA CRIANÇA

Ficaremos sós no mundo!...

O TEMPO

Tudo isso não me diz respeito... Reclamai junto à Vida... Eu uno, separo, segundo o que me disseram... [Agarrando uma das crianças.] Vem!...

PRIMEIRA CRIANÇA, debatendo-se.

Não, não, não!... Ela também!...

SEGUNDA CRIANÇA, [agarrando-se às roupas da primeira.]

Deixai-o!... Deixai-o!...

O TEMPO

Mas vamos, não é para morrer, é para viver!... [Arrastando a primeira criança.] Vem!...

SEGUNDA CRIANÇA, [estendendo desvairadamente os braços para a criança que levam.]

Um sinal!... Um único sinal!... Dize-me como te reencontrar!...

PRIMEIRA CRIANÇA

Eu te amarei sempre!...

SEGUNDA CRIANÇA

Serei a mais triste!... Tu me reconhecerás!...

[Ela cai e permanece estendida no chão.]

O TEMPO

Faríeis muito melhor em esperar... E agora, acabou... [Consultando sua ampulheta.] Restam-nos apenas sessenta e três segundos...

[Últimos e violentos remoinhos entre as crianças que partem e as que ficam. — Trocam-se despedidas precipitadas: “Adeus, Pierre!... Adeus, Jean... — Tens tudo o que é preciso?... Anuncia meu pensamento!... — Não esqueceste nada?... — Trata de me reconhecer!... — Eu te reencontrarei!... — Não percas tuas ideias!... — Não te inclines demais sobre o Espaço!... — Dá-me notícias tuas!... — Dizem que não se pode!... — Sim, sim!... tenta sempre!... — Trata de dizer se é belo!... — Irei ao teu encontro!... — Nascerei num trono!...”, etc., etc.]

O TEMPO, [agitando suas chaves e sua foice.]

Basta! basta!... A âncora está levantada!...

As velas da galera passam e desaparecem. Ouvem-se afastar-se os gritos das crianças na galera: “Terra!... terra!... Eu a vejo!... Ela é bela!... Ela é clara!... Ela é grande!...”. Depois, como saindo do fundo do abismo, um canto extremamente longínquo de alegria e de espera.

TYLTYL, [à Luz.]

O Pássaro Azul

Sinopse

Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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