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O Pássaro Azul

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O Pássaro Azul

Capítulo 3 · O Pássaro Azul

Ato Primeiro - Primeiro Quadro - Parte 1

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ATO PRIMEIRO

PRIMEIRO QUADRO

A CABANA DO LENHADOR

O teatro representa o interior de uma cabana de lenhador, simples, rústica, mas de modo algum miserável. — Lareira com manto, onde adormece um fogo de achas. — Utensílios de cozinha, armário, arca de pão, relógio de pesos, roca, fonte, etc. — Sobre uma mesa, uma lâmpada acesa. — Ao pé do armário, de cada lado dele, adormecidos, enrodilhados, o nariz sob a cauda, um Cão e uma Gata. — Entre os dois, um grande pão de açúcar branco e azul. — Pendurada na parede, uma gaiola redonda encerrando uma rolinha. — Ao fundo, duas janelas cujas venezianas interiores estão fechadas. — Sob uma das janelas, um escabelo. — À esquerda, a porta de entrada da casa, munida de um grande ferrolho. — À direita, outra porta. — Escada que leva a um sótão. — Também à direita, duas caminhas de criança, à cabeceira das quais, sobre duas cadeiras, roupas se acham cuidadosamente dobradas.

* * * * *

[Ao erguer-se o pano, Tyltyl e Mytyl dormem profundamente em suas caminhas. A Mãe Tyl os cobre uma última vez, inclina-se sobre eles, contempla por um momento o seu sono, e chama com a mão o Pai Tyl, que põe a cabeça pela fresta da porta. A Mãe Tyl leva um dedo aos lábios para lhe impor silêncio, depois sai à direita na ponta dos pés, após apagar a lâmpada. A cena permanece escura por um instante; depois, uma luz cuja intensidade aumenta pouco a pouco filtra-se pelas frestas das venezianas. A lâmpada sobre a mesa reacende-se sozinha. As duas crianças parecem despertar e sentam-se na cama.]

TYLTYL

Mytyl?

MYTYL

Tyltyl?

TYLTYL

Estás dormindo?

MYTYL

E tu?...

TYLTYL

Ora não, não estou dormindo, pois estou falando contigo...

MYTYL

É Natal, dize?...

TYLTYL

Ainda não; é amanhã. Mas o pequeno Natal não trará nada este ano...

MYTYL

Por quê?...

TYLTYL

Ouvi mamãe dizendo que não pôde ir à cidade para avisá-lo... Mas ele virá no ano que vem...

MYTYL

Demora muito, o ano que vem?...

TYLTYL

Não é pouco... Mas ele vem esta noite à casa das crianças ricas...

MYTYL

Ah?...

TYLTYL

Olha!... Mamãe esqueceu a lâmpada!... Tenho uma ideia...

MYTYL

?...

TYLTYL

Vamos nos levantar...

MYTYL

É proibido...

TYLTYL

Já que não há ninguém... Estás vendo as venezianas?...

MYTYL

Oh! como estão claras!...

TYLTYL

São as luzes da festa.

MYTYL

Que festa?

TYLTYL

Ali em frente, na casa dos pequenos ricos. É a árvore de Natal. Vamos abri-las...

MYTYL

Pode-se?

TYLTYL

Claro, já que estamos sozinhos... Ouves a música?... Vamos levantar...

As duas crianças levantam-se, correm para uma das janelas, sobem no escabelo e empurram as venezianas. Uma viva claridade penetra no aposento. As crianças olham avidamente para fora.

TYLTYL

Vê-se tudo!...

MYTYL, [que só encontra um lugar precário no escabelo.]

Eu não vejo...

TYLTYL

Está nevando!... Lá estão duas carruagens com seis cavalos!...

MYTYL

Delas saem doze menininhos!...

TYLTYL

És boba!... São menininhas...

MYTYL

Eles têm calças...

TYLTYL

Grande entendida... Não me empurres assim!...

MYTYL

Eu não te toquei.

TYLTYL, [que ocupa sozinho todo o escabelo.]

Tu tomas todo o lugar...

MYTYL

Mas eu não tenho lugar nenhum!...

TYLTYL

Cala-te, pois, vê-se a árvore!...

MYTYL

Que árvore?...

TYLTYL

Ora, a árvore de Natal!... Estás olhando para a parede!...

MYTYL

Olho para a parede porque não há lugar...

TYLTYL, [cedendo-lhe um pequeno lugar avaramente no escabelo.]

Pronto!... Chega para ti?... Não é o melhor lugar?... Quantas luzes há! Quantas!...

MYTYL

Que fazem aqueles que fazem tanto barulho?...

TYLTYL

Fazem música.

MYTYL

Estão zangados?...

TYLTYL

Não, mas cansa.

MYTYL

Mais uma carruagem atrelada a cavalos brancos!...

TYLTYL

Cala-te!... Olha, pois!...

MYTYL

Que é aquilo pendurado ali, de ouro, nos ramos?...

TYLTYL

Ora, os brinquedos, com certeza!... Sabres, fuzis, soldados, canhões...

MYTYL

E bonecas, dize, puseram algumas?...

TYLTYL

Bonecas?... É bobo demais; isso não os diverte...

MYTYL

E em volta da mesa, que é tudo aquilo?...

TYLTYL

São bolos, frutas, tortas de creme...

MYTYL

Comi uma vez, quando era pequena...

TYLTYL

Eu também; é melhor que pão, mas a gente tem muito pouco...

MYTYL

Eles não têm muito pouco... A mesa está cheia... Vão comê-los?...

TYLTYL

Claro; que fariam com eles?...

MYTYL

Por que não os comem logo?...

TYLTYL

Porque não têm fome...

MYTYL, estupefata.

Não têm fome?... Por quê?...

TYLTYL

É que comem quando querem...

MYTYL, incrédula.

Todos os dias?...

TYLTYL

Dizem...

MYTYL

Comerão tudo?... Darão um pouco?...

TYLTYL

A quem?...

MYTYL

A nós...

TYLTYL

Eles não nos conhecem...

MYTYL

Se pedíssemos?...

TYLTYL

Isso não se faz.

MYTYL

Por quê?...

TYLTYL

Porque é proibido.

MYTYL, batendo palmas.

Oh! como são bonitos!...

TYLTYL, entusiasmado.

E riem e riem!...

MYTYL

E os pequenos que dançam!...

TYLTYL

Sim, sim, dancemos também!...

Eles sapateiam de alegria sobre o escabelo.

MYTYL

Oh! como é divertido!...

TYLTYL

Estão dando os bolos!... Eles podem tocar neles!... Comem! comem! comem!...

MYTYL

Os menores também!... Têm dois, três, quatro!...

TYLTYL, [ébrio de alegria.]

Oh! é bom!... Como é bom! como é bom!...

MYTYL, [contando bolos imaginários.]

Eu recebi doze!...

TYLTYL

E eu quatro vezes doze!... Mas te darei alguns...

Batem à porta da cabana.

TYLTYL, [subitamente calmo e assustado.]

Que é isso?...

MYTYL, [apavorada.]

É papai!...

Como tardam a abrir, vê-se o grande ferrolho levantar-se por si mesmo, rangendo; a porta entreabre-se para dar passagem a uma velhinha vestida de verde e coberta por um capuz vermelho. Ela é corcunda, manca, caolha; o nariz e o queixo se encontram, e caminha curvada sobre um bordão. Não há dúvida de que seja uma fada.

A FADA

Tendes aqui a erva que canta ou o pássaro que é azul?...

TYLTYL

Temos erva, mas ela não canta...

MYTYL

Tyltyl tem um pássaro.

TYLTYL

Mas não posso dá-lo...

A FADA

Por quê?...

TYLTYL

Porque é meu.

A FADA

É uma razão, sem dúvida. Onde está esse pássaro?...

TYLTYL, [mostrando a gaiola.]

Na gaiola...

A FADA, [pondo os óculos para examinar o pássaro.]

Não o quero; não é bastante azul. Será preciso que vades buscar para mim aquele de que necessito.

TYLTYL

Mas não sei onde ele está...

A FADA

Eu tampouco. É por isso que é preciso procurá-lo. Posso, em último caso, passar sem a erva que canta; mas preciso absolutamente do Pássaro Azul. É para minha filhinha, que está muito doente.

TYLTYL

Que é que ela tem?...

A FADA

Não se sabe ao certo; ela queria ser feliz...

TYLTYL

Ah?...

A FADA

Sabeis quem sou?...

TYLTYL

A senhora se parece um pouco com nossa vizinha, Madame Berlingot...

A FADA, zangando-se subitamente.

De modo algum... Não há relação nenhuma... É abominável!... Sou a Fada Bérylune...

TYLTYL

Ah! muito bem...

A FADA

Será preciso partir imediatamente.

TYLTYL

A senhora virá conosco?...

A FADA

É absolutamente impossível, por causa do cozido que pus no fogo esta manhã e que se apressa em transbordar cada vez que me ausento por mais de uma hora... [Mostrando sucessivamente o teto, a lareira e a janela.] Quereis sair por aqui, por ali ou por acolá?...

TYLTYL, [mostrando timidamente a porta.]

O Pássaro Azul

Sinopse

Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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