Universo da obra
Universo da obra
Quem és tu?...
TYLTYL
Tyltyl, senhor... Quando poderei pegar o Pássaro Azul?...
O CARVALHO
Tyltyl, o filho do lenhador?...
TYLTYL
Sim, senhor...
O CARVALHO
Teu pai nos fez muito mal... Só em minha família, matou seiscentos de meus filhos, quatrocentos e setenta e cinco tios e tias, mil e duzentos primos e primas, trezentas e oitenta noras e doze mil bisnetos!...
TYLTYL
Não sei, senhor... Ele não o fez de propósito...
O CARVALHO
Que vens fazer aqui, e por que fizeste sair nossas almas de suas moradas?...
TYLTYL
Senhor, peço-vos perdão por vos ter incomodado... Foi a Gata que me disse que iríeis nos dizer onde se encontra o Pássaro Azul...
O CARVALHO
Sim, eu sei, procuras o Pássaro Azul, isto é, o grande segredo das coisas e da felicidade, para que os Homens tornem ainda mais dura a nossa escravidão...
TYLTYL
Mas não, senhor; é para a filhinha da Fada Bérylune, que está muito doente...
O CARVALHO, impondo-lhe silêncio.
Basta!... Não ouço os Animais... Onde estão?... Tudo isto lhes interessa tanto quanto a nós... Não convém que nós, as Árvores, assumamos sozinhas a responsabilidade das graves medidas que se impõem... No dia em que os Homens souberem que fizemos o que vamos fazer, haverá horríveis represálias... Convém, portanto, que nosso acordo seja unânime, para que nosso silêncio também o seja...
O ABETO, [olhando por cima das outras árvores.]
Os Animais chegam... Seguem o Coelho... Eis a alma do Cavalo, do Touro, do Boi, da Vaca, do Lobo, do Carneiro, do Porco, do Galo, da Cabra, do Burro e do Urso...
[Entrada sucessiva das almas dos Animais que, à medida que o Abeto as enumera, avançam e vão sentar-se entre as árvores, com exceção da alma da Cabra, que vagueia de cá para lá, e da do Porco, que fuça as raízes.]
O CARVALHO
Estão todos aqui presentes?...
O COELHO
A Galinha não podia abandonar seus ovos; a Lebre estava fazendo corridas; o Cervo está com dor nos chifres; a Raposa está adoentada — eis o atestado do médico —; a Gansa não compreendeu, e o Peru zangou-se...
O CARVALHO
Essas abstenções são extremamente lamentáveis... Não obstante, estamos em número suficiente... Sabeis, meus irmãos, de que se trata. A criança aqui presente, graças a um talismã roubado às potências da Terra, pode apoderar-se do nosso Pássaro Azul e assim arrancar-nos o segredo que guardamos desde a origem da Vida... Ora, conhecemos o bastante o Homem para não termos dúvida alguma sobre a sorte que nos reserva quando estiver de posse desse segredo. Por isso me parece que qualquer hesitação seria tão estúpida quanto criminosa... A hora é grave; é preciso que a criança desapareça antes que seja tarde demais...
TYLTYL
Que está ele dizendo?...
O CÃO, [rondando em torno do Carvalho e mostrando os dentes.]
Viste meus dentes, velho entrevado?...
A FAIA, [indignada.]
Ele insulta o Carvalho!...
O CARVALHO
É o Cão?... Que o expulsem! Não devemos tolerar um traidor entre nós!...
A GATA, [baixo, a Tyltyl.]
Afastai o Cão... É um mal-entendido... Deixai-me agir, eu arranjarei as coisas... Mas afastai-o o mais depressa possível...
TYLTYL, [ao Cão.]
Queres ir embora!...
O CÃO
Deixa-me rasgar as pantufas de musgo desse velho gotoso!... Vamos rir!...
TYLTYL
Cala-te!... E vai embora!... Mas vai embora, bicho feio!...
O CÃO
Está bem, está bem, irei... Voltarei quando precisares de mim...
A GATA, [baixo, a Tyltyl.]
Seria mais prudente acorrentá-lo; senão fará tolices, as Árvores se zangarão, e tudo isto acabará mal...
TYLTYL
Como fazer?... Perdi sua guia...
A GATA
Eis justamente a Hera que avança com sólidos laços...
O CÃO, rosnando.
Voltarei, voltarei!... Podagroso! bronquítico!... Bando de velhos mirrados, bando de velhas raízes!... É a Gata que comanda tudo!... Eu lhe farei pagar por isso!... Que tens a cochichar assim, Judas, Tigre, Bazaine!... Au, au! au!...
A GATA
Vedes, ele insulta todo mundo...
TYLTYL
É verdade, ele é insuportável e já não se ouve mais nada... Senhor Hera, quereis acorrentá-lo?...
A HERA, [aproximando-se bastante receosamente do Cão.]
Ele não morderá?...
O CÃO, [rosnando.]
Ao contrário! ao contrário!... Ele vai te beijar muito!... Espera, vais ver!... Aproxima-te, aproxima-te, monte de velhas cordas!...
TYLTYL, [ameaçando-o com o bastão.]
Tylô!...
O CÃO, [rastejando aos pés de Tyltyl e abanando a cauda.]
Que é preciso fazer, meu pequeno deus?...
TYLTYL
Deitar-te, de barriga no chão!... Obedece à Hera... Deixa-te amarrar, senão...
O CÃO, [rosnando entre os dentes enquanto a Hera o amarra.]
Barbante!... Corda de enforcado!... Guia de bezerros!... Corrente de porcos!... Meu pequeno deus, olha... Ela me torce as patas... Ela me estrangula!...
TYLTYL
Pior para ti!... Tu o quiseste!... Cala-te, fica quieto, és insuportável!...
O CÃO
Ainda assim, estás errado... Eles têm más intenções... Meu pequeno deus, cuidado!... Ela me fecha a boca!... Já não posso falar!...
A HERA, [que amarrou o Cão como um pacote.]
Onde se deve levá-lo?... Eu o amordacei bem... Ele já não sopra palavra...
O CARVALHO
Que o amarrem solidamente ali, atrás de meu tronco, à minha grande raiz... Depois veremos o que convém fazer com ele... [A Hera, ajudada pelo Álamo, leva o Cão para trás do tronco do Carvalho.] Está feito?... Bem, agora que nos livramos dessa testemunha incômoda e desse renegado, deliberemos segundo nossa justiça e nossa verdade... Minha emoção, não vo-lo oculto, é profunda e penosa... É a primeira vez que nos é dado julgar o Homem e fazê-lo sentir nossa força... Não creio que, depois do mal que nos fez, depois das monstruosas injustiças que sofremos, reste a menor dúvida sobre a sentença que o espera...
TODAS AS ÁRVORES e TODOS OS ANIMAIS
Não! Não! Não!... Nenhuma dúvida!... A forca!... A morte!... Há injustiça demais!... Ele abusou demais!... Há tempo demais!... Que o esmaguem! Que o comam!... Agora mesmo!... Agora mesmo!...
TYLTYL, [à Gata.]
Que têm eles?... Não estão contentes?...
A GATA
Não vos inquieteis... Estão um pouco zangados porque a Primavera está atrasada... Deixai-me agir, eu arranjarei tudo isso...
O CARVALHO
Essa unanimidade era inevitável... Trata-se agora de saber, para evitar represálias, que gênero de suplício será o mais prático, o mais cômodo, o mais rápido e o mais seguro; aquele que deixará menos vestígios acusadores quando os Homens encontrarem os pequenos corpos na floresta...
TYLTYL
Que é tudo isto?... Aonde ele quer chegar?... Começo a ficar farto... Já que ele tem o Pássaro Azul, que o entregue...
O TOURO, [avançando.]
O mais prático e o mais seguro é uma boa chifrada na boca do estômago. — Quereis que eu avance?...
O CARVALHO
Quem fala assim?...
A GATA
É o Touro.
A VACA
Ele faria melhor em ficar quieto... Eu não me meto nisso... Tenho de pastar toda a relva do prado que se vê ali adiante, no azul da lua... Tenho muito que fazer...
O BOI
Eu também. Aliás, aprovo tudo de antemão...
A FAIA
Eu ofereço meu galho mais alto para enforcá-los...
A HERA
E eu, o nó corredio...
O ABETO
E eu, as quatro tábuas para a caixinha...
O CIPRESTE
E eu, a concessão perpétua...
O SALGUEIRO
O mais simples seria afogá-los num de meus rios... Eu me encarrego disso...
A TÍLIA, [conciliador.]
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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