Universo da obra
Universo da obra
Ouvistes!... Se há Felicidades em tua casa!... Mas, pequeno infeliz, ela está tão cheia delas que chega a fazer saltar portas e janelas!... Rimos, cantamos, criamos alegria a ponto de empurrar os muros, de levantar os telhados; mas por mais que façamos, tu nada vês, nada ouves... Espero que, de agora em diante, sejas um pouco mais razoável... Enquanto isso, vais apertar a mão das mais notáveis... Uma vez de volta à tua casa, assim as reconhecerás mais facilmente... E depois, ao fim de um belo dia, saberás encorajá-las com um sorriso, agradecer-lhes com uma palavra amável, pois elas fazem verdadeiramente tudo quanto podem para tornar-te a vida leve e deliciosa... Eu primeiro, teu servidor, a Felicidade-de-ter-boa-saúde... Não sou a mais bonita, mas a mais séria. Reconhecer-me-ás?... Eis a Felicidade-do-ar-puro, que é quase transparente... Eis a Felicidade-de-amar-os-pais, que está vestida de cinza e sempre um pouco triste, porque nunca a olham... Eis a Felicidade-do-céu-azul, que naturalmente está vestida de azul; e a Felicidade-da-floresta, que, não menos naturalmente, está vestida de verde, e que tornarás a ver cada vez que te puseres à janela... Eis ainda a boa Felicidade-das-horas-de-sol, que é cor de diamante, e a da Primavera, que é de esmeralda louca...
TYLTYL
E sois todos tão belos todos os dias?...
A FELICIDADE
Ora sim, é domingo todos os dias, em todas as casas, quando se abrem os olhos... E depois, quando vem a noite, eis a Felicidade-dos-pores-do-sol, que é mais bela que todos os reis do mundo; e a ela segue a Felicidade-de-ver-nascer-as-estrelas, dourada como um deus de outrora... Depois, quando faz mau tempo, eis a Felicidade-da-chuva, que está coberta de pérolas, e a Felicidade-do-fogo-de-inverno, que abre às mãos geladas seu belo manto de púrpura... E não falo da melhor de todas, porque é quase irmã das grandes Alegrias límpidas que logo vereis, e que é a Felicidade-dos-pensamentos-inocentes, a mais clara dentre nós... E depois, eis ainda... Mas, na verdade, são demais!... Nunca acabaríamos, e devo primeiro avisar as Grandes Alegrias que estão lá em cima, ao fundo, perto das portas do céu, e ainda não sabem que chegastes... Vou enviar-lhes a Felicidade-de-correr-descalço-no-orvalho, que é a mais ágil... [À Felicidade que acaba de nomear e que avança dando cabriolas.] Vai!...
[Nesse momento, uma espécie de diabinho em malha negra, empurrando todo mundo e soltando gritos inarticulados, aproxima-se de Tyltyl e saltita loucamente, cobrindo-o de piparotes no nariz, tapas e pontapés inapreensíveis.]
TYLTYL, [aturdido e profundamente indignado.]
Que é esse selvagem?
A FELICIDADE
Bom! É ainda o Prazer-de-ser-insuportável, que escapou da caverna dos Infortúnios. Não se sabe onde encerrá-lo. Escapa de toda parte, e os próprios Infortúnios já não o querem guardar.
[O diabinho continua a atormentar Tyltyl, que tenta em vão defender-se; depois, de repente, rindo às gargalhadas, desaparece sem motivo, como viera.]
TYLTYL
Que tem ele? Está um pouco louco?
A LUZ
Não sei. Parece que és assim tu mesmo quando não és ajuizado. Mas, enquanto isso, seria preciso informar-nos sobre o Pássaro Azul. Pode ser que a chefe das Felicidades-de-tua-casa não ignore onde ele se encontra...
TYLTYL
Onde está ele?...
A FELICIDADE
Ele não sabe onde se encontra o Pássaro Azul!...
[Todas as Felicidades-da-casa caem na gargalhada.]
TYLTYL, [vexado.]
Mas não, não sei... Não há motivo para rir...
[Novas explosões de riso.]
A FELICIDADE
Vamos, não te zangues... e depois, sejamos sérias... Ele não sabe, que quereis?, não é mais ridículo que a maioria dos Homens... Mas eis que a pequena Felicidade-de-correr-descalço-no-orvalho avisou as Grandes Alegrias, que avançam para nós...
[Com efeito, as altas e belas figuras angélicas, vestidas de túnicas luminosas, aproximam-se lentamente.]
TYLTYL
Como são belas!... Por que não riem?... Não são felizes?...
A LUZ
Não é quando se ri que se é mais feliz...
TYLTYL
Quem são elas?...
A FELICIDADE
São as Grandes Alegrias...
TYLTYL
Sabes seus nomes?...
A FELICIDADE
Naturalmente, brincamos muitas vezes com elas... Eis primeiro, à frente das outras, a Grande-Alegria-de-ser-justo, que sorri cada vez que uma injustiça é reparada — sou jovem demais, ainda não a vi sorrir. Atrás dela está a Alegria-de-ser-boa, que é a mais feliz, mas a mais triste; e que se tem muita dificuldade em impedir de ir até os Infortúnios, que ela desejaria consolar. À direita, está a Alegria-do-trabalho-cumprido, ao lado da Alegria-de-pensar. Em seguida, está a Alegria-de-compreender, que procura sempre seu irmão, a Felicidade-de-nada-compreender...
TYLTYL
Mas eu vi seu irmão!... Ele foi para junto dos Infortúnios com as Felicidades Gordas...
A FELICIDADE
Eu tinha certeza!... Ele tomou mau caminho; más companhias o perverteram inteiramente... Mas não fales disso à sua irmã. Ela quereria ir buscá-lo, e perderíamos uma das mais belas alegrias... Eis ainda, entre as maiores, a Alegria-de-ver-o-que-é-belo, que acrescenta todos os dias alguns raios à luz que reina aqui...
TYLTYL
E ali, ao longe, muito ao longe, nas nuvens de ouro, aquela que mal consigo ver, erguendo-me o mais que posso na ponta dos pés?...
A FELICIDADE
É a grande Alegria-de-amar... Mas por mais que faças, és pequeno demais para vê-la por inteiro...
TYLTYL
E lá longe, bem ao fundo, aquelas que estão veladas e não se aproximam?...
A FELICIDADE
São aquelas que os Homens ainda não conhecem...
TYLTYL
Que querem de nós as outras?... Por que se afastam?...
A FELICIDADE
É diante de uma Alegria nova que avança, talvez a mais pura que temos aqui...
TYLTYL
Quem é?...
A FELICIDADE
Ainda não a reconheces?... Mas olha melhor, abre teus dois olhos até o coração de tua alma!... Ela te viu, ela te viu!... Corre para ti, estendendo-te os braços!... É a Alegria de tua mãe, é a Alegria-sem-igual-do-amor-materno!...
[Depois de aclamá-la, as outras Alegrias, vindas de todos os lados, afastam-se em silêncio diante da Alegria-do-amor-materno.]
O AMOR MATERNO
Tyltyl! E Mytyl também!... Como, sois vós, sois vós que reencontro aqui!... Eu não esperava!... Estava tão só em casa, e eis que ambos subis até o céu onde irradia, na Alegria, a alma de todas as mães!... Mas primeiro beijos, beijos tantos quantos se puder!... Os dois em meus braços, nada há no mundo que dê mais felicidade!... Tyltyl, tu não ris?... Nem tu tampouco, Mytyl?... Não reconheceis o amor de vossa mãe?... Mas olhai para mim, pois, não são meus olhos, meus lábios e meus braços?...
TYLTYL
Mas sim, reconheço, mas eu não sabia... Pareces mamãe, mas és muito mais bela...
O AMOR MATERNO
Evidentemente, eu já não envelheço... E cada dia que passa me traz força, juventude e felicidade... Cada um de teus sorrisos me alivia de um ano... Em casa, isso não se vê, mas aqui se vê tudo, e é a verdade...
TYLTYL, [maravilhado, contemplando-a e beijando-a alternadamente.]
E esse belo vestido, de que é feito?... É de seda, de prata ou de pérolas?...
O AMOR MATERNO
Não, é feito de beijos, de olhares, de carícias... cada beijo que se dá acrescenta-lhe um raio de lua ou de sol...
TYLTYL
É engraçado, eu jamais teria acreditado que fosses tão rica... Onde o escondias?... Estava no armário cuja chave papai tem?...
O AMOR MATERNO
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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