Universo da obra
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QUINTO QUADRO
A FLORESTA
Uma floresta. — É noite. — Luar. — Velhas árvores de diversas espécies, notadamente: um carvalho, uma faia, um olmo, um álamo, um abeto, um cipreste, uma tília, um castanheiro-da-índia, etc.
* * * * *
[Entra a Gata.]
A GATA, [saudando as árvores ao redor.]
Saúde a todas as árvores!...
MURMÚRIO DAS FOLHAGENS
Saúde!...
A GATA
Este dia é um grande dia!... Nosso inimigo vem libertar vossas energias e entregar-se a si mesmo... É Tyltyl, o filho do lenhador que tanto mal vos fez... Ele procura o Pássaro Azul, que ocultais ao Homem desde o começo do mundo, e que é o único que conhece nosso segredo... [Murmúrio nas folhas.] Que dizeis?... Ah! é o Álamo que fala... Sim, ele possui um Diamante que tem a virtude de libertar por um instante nossos espíritos; pode obrigar-nos a entregar o Pássaro Azul, e estaremos, desde então, definitivamente, à mercê do Homem... [Murmúrio nas folhas.] Quem fala?... Olha! é o Carvalho... Como ides?... [Murmúrio nas folhas do Carvalho.] Sempre resfriado?... A Alcaçuz já não vos trata?... Sempre os reumatismos?... Crede-me, é por causa do musgo; pondes demais em vossos pés... O Pássaro Azul continua convosco?... [Murmúrios nas folhas do Carvalho.] Que dizeis?... Sim, não há que hesitar, é preciso aproveitar, é preciso que ele desapareça... [Murmúrio nas folhas.] Como?... Sim, ele está com sua irmãzinha; é preciso que ela morra também... [Murmúrio nas folhas.] Sim, o Cão os acompanha; não há meio de afastá-lo... [Murmúrio nas folhas.] Que dizeis?... Corrompê-lo?... Impossível... Tentei de tudo... [Murmúrios entre as folhas.] Ah! és tu, Abeto?... Sim, prepara quatro tábuas... Sim, há ainda o Fogo, o Açúcar, a Água, o Pão... Estão todos conosco, exceto o Pão, que é bastante duvidoso... Só a Luz é favorável ao Homem; mas ela não virá... Fiz os pequenos acreditarem que deviam escapar às escondidas enquanto ela dormia... A ocasião é única... [Murmúrio nas folhas.] Olha! é a voz da Faia!... Sim, tendes razão; é preciso prevenir os Animais... O Coelho está com seu tambor?... Está convosco?... Bem, que ele toque o chamado imediatamente... Ei-los!...
[Ouvem-se afastar-se os rufos de tambor do Coelho. — Entram Tyltyl, Mytyl e o Cão.]
TYLTYL
É aqui?...
A GATA, [obsequiosa, melíflua, pressurosa, precipitando-se ao encontro das crianças.]
Ah! eis-vos, meu pequeno amo!... Como tendes boa aparência e como estais bonito esta noite!... Precedi-vos para anunciar vossa chegada... Tudo vai bem. Desta vez temos o Pássaro Azul, estou certa... Acabo de enviar o Coelho a tocar o chamado, a fim de convocar os principais Animais do país... Já se ouvem na folhagem... Escutai!... São um pouco tímidos e não ousam aproximar-se... [Ruídos de animais diversos, tais como vacas, porcos, cavalos, burros, etc. — Baixo, a Tyltyl, tomando-o à parte.] Mas por que trouxestes o Cão?... Já vos disse, ele está nas piores relações com todo mundo, até mesmo com as árvores... Muito receio que sua presença odiosa faça tudo fracassar...
TYLTYL
Não pude livrar-me dele... [Ao Cão, ameaçando-o.] Queres ir embora, bicho feio!...
O CÃO
Quem?... Eu!... Por quê?... Que fiz eu?...
TYLTYL
Eu te digo que vás embora!... Não precisamos de ti, é bem simples... Tu nos aborreces, afinal!...
O CÃO
Não direi nada... Seguirei de longe... Ninguém me verá... Queres que eu me sente bonito?...
A GATA, [baixo, a Tyltyl.]
Tolerais semelhante desobediência?... Dai-lhe pois algumas pauladas no focinho; ele é realmente insuportável!...
TYLTYL, [batendo no Cão.]
Isto te ensinará a obedecer mais depressa!...
O CÃO, [uivando.]
Ai! Ai! Ai!...
TYLTYL
Que dizes disso?...
O CÃO
Preciso te beijar, já que me bateste!...
[Ele beija e acaricia violentamente Tyltyl.]
TYLTYL
Vamos... Está bem... Basta... Vai embora!...
MYTYL
Não, não; quero que ele fique... Tenho medo de tudo quando ele não está...
O CÃO, [saltando e quase derrubando Mytyl, a quem cobre de carícias precipitadas e entusiásticas.]
Oh! a boa menininha!... Como é bela! Como é boa!... Como é bela, como é doce!... Preciso beijá-la! Mais! mais! mais!...
A GATA
Que idiota!... Ora, veremos bem... Não percamos tempo... Girai o Diamante...
TYLTYL
Onde devo colocar-me?
A GATA
Nesse raio de lua; vereis mais claro ali... Pronto! girai devagar...
[Tyltyl gira o Diamante; imediatamente, um longo frêmito agita os ramos e as folhas. Os troncos mais antigos e mais imponentes entreabrem-se para dar passagem à alma que cada um deles encerra. O aspecto dessas almas difere segundo o aspecto e o caráter da árvore que representam. A do Olmo, por exemplo, é uma espécie de gnomo asmático, barrigudo, rabugento; a da Tília é plácida, familiar, jovial; a da Faia, elegante e ágil; a da Bétula, branca, reservada, inquieta; a do Salgueiro, mirrada, desgrenhada, queixosa; a do Abeto, longa, descarnada, taciturna; a do Cipreste, trágica; a do Castanheiro-da-Índia, pretensiosa, um tanto esnobe; a do Álamo, alegre, estorvante, tagarela. Umas saem lentamente de seu tronco, entorpecidas, espreguiçando-se, como após um cativeiro ou um sono secular; outras se desprendem dele de um salto, alertas, pressurosas, e todas vêm dispor-se ao redor das duas crianças, mantendo-se, tanto quanto possível, perto da árvore de que nasceram.]
O ÁLAMO, [acorrendo primeiro e gritando a plenos pulmões.]
Homens!... Pequenos Homens!... Poderemos falar com eles!... Acabou-se o Silêncio!... Acabou-se!... De onde vêm?... Quem é?... Quem são?... [À Tília, que avança fumando tranquilamente seu cachimbo.] Tu os conheces, pai Tília?...
A TÍLIA
Não me lembro de tê-los visto...
O ÁLAMO
Mas sim, vamos, mas sim!... Tu conheces todos os Homens, estás sempre passeando em torno de suas casas...
A TÍLIA, [examinando as crianças.]
Mas não, eu vos asseguro... Não os conheço... São ainda jovens demais... Só conheço bem os enamorados que vêm ver-me ao luar; ou os bebedores de cerveja que brindam sob meus ramos...
O CASTANHEIRO-DA-ÍNDIA, [afetado, ajustando seu monóculo.]
Que é isto?... São pobres do campo?...
O ÁLAMO
Oh! vós, senhor Castanheiro-da-Índia, desde que já não frequentais senão os bulevares das grandes cidades...
O SALGUEIRO, [avançando em tamancos e choramingão.]
Meu Deus, meu Deus!... Eles vêm ainda cortar-me a cabeça e os braços para fazer feixes!...
O ÁLAMO
Silêncio!... Eis o Carvalho saindo de seu palácio!... Parece muito doente esta noite... Não achais que ele envelhece?... Que idade pode ter?... O Abeto diz que tem quatro mil anos; mas tenho certeza de que ele exagera... Atenção, ele vai nos dizer de que se trata...
[O Carvalho avança lentamente. É fabulosamente velho, coroado de visco e vestido com uma longa túnica verde bordada de musgo e líquen. É cego, sua barba branca flutua ao vento. Apoia-se, com uma das mãos, num bastão nodoso e, com a outra, num jovem Carvalhinho que lhe serve de guia. O Pássaro Azul está pousado em seu ombro. À sua aproximação, movimento de respeito entre as árvores, que se afastam e se inclinam.]
TYLTYL
Ele tem o Pássaro Azul!... Depressa! depressa!... Por aqui!... Dai-mo!...
AS ÁRVORES
Silêncio!...
A GATA, [a Tyltyl.]
Descobri-vos, é o Carvalho!...
O CARVALHO, [a Tyltyl.]
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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