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O Pássaro Azul

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O Pássaro Azul

Capítulo 9 · O Pássaro Azul

Terceiro Quadro - Parte 1

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TERCEIRO QUADRO

O PAÍS DA LEMBRANÇA

Um espesso nevoeiro, de onde emerge, à direita, bem no primeiro plano, o tronco de um grande carvalho munido de uma tabuleta. Claridade leitosa, difusa, impenetrável.

* * * * *

[Tyltyl e Mytyl acham-se ao pé do carvalho.]

TYLTYL

Eis a árvore!...

MYTYL

Há a tabuleta!...

TYLTYL

Não consigo ler... Espera, vou subir nesta raiz... É isso mesmo... Está escrito: “País da Lembrança”.

MYTYL

É aqui que começa?...

TYLTYL

Sim, há uma seta...

MYTYL

Então, onde estão vovô e vovó?

TYLTYL

Atrás do nevoeiro... Vamos ver...

MYTYL

Não vejo absolutamente nada!... Já não vejo meus pés nem minhas mãos... [Choramingando.] Estou com frio!... Não quero mais viajar... Quero voltar para casa...

TYLTYL

Vamos, não chores o tempo todo, como a Água... Não tens vergonha?... Uma menina já tão grande!... Olha, o nevoeiro já se levanta... Vamos ver o que há dentro dele...

[De fato, a bruma pôs-se em movimento; torna-se mais leve, clareia, dispersa-se, evapora-se. Logo, numa luz cada vez mais transparente, descobre-se, sob uma abóbada de verdura, uma risonha casinha de camponês, coberta de plantas trepadeiras. As janelas e a porta estão abertas. Veem-se colmeias sob um alpendre, vasos de flores no peitoril das janelas, uma gaiola onde dorme um melro, etc. Perto da porta, um banco, sobre o qual estão sentados, profundamente adormecidos, um velho camponês e sua mulher, isto é, o avô e a avó de Tyltyl.]

TYLTYL, [reconhecendo-os de repente.]

É vovô e vovó!...

MYTYL, [batendo palmas.]

Sim! Sim!... São eles!... São eles!...

TYLTYL, [ainda um pouco desconfiado.]

Atenção!... Ainda não sabemos se eles se mexem... Fiquemos atrás da árvore...

[Vovó Tyl abre os olhos, ergue a cabeça, espreguiça-se, solta um suspiro, olha Vovô Tyl, que também sai lentamente de seu sono.]

VOVÓ TYL

Tenho a impressão de que nossos netinhos que ainda estão vivos vêm nos visitar hoje...

VOVÔ TYL

Com certeza, eles pensam em nós; pois me sinto todo estranho e tenho formigas nas pernas...

VOVÓ TYL

Creio que estão bem perto, pois lágrimas de alegria dançam diante dos meus olhos...

VOVÔ TYL

Não, não; estão muito longe... Ainda me sinto fraco...

VOVÓ TYL

Eu te digo que estão aqui; já recuperei toda a minha força...

TYLTYL e MYTYL, precipitando-se de trás do carvalho.

Aqui estamos!... Aqui estamos!... Vovô, vovó!... Somos nós!... Somos nós!...

VOVÔ TYL

Ora!... Estás vendo!... Que foi que eu dizia! Eu tinha certeza de que viriam hoje...

VOVÓ TYL

Tyltyl! Mytyl!... És tu!... És ela!... São eles!... [Esforçando-se para correr ao encontro deles.] Não consigo correr!... Ainda tenho meus reumatismos!

VOVÔ TYL, [acorrendo também, claudicante.]

Eu também não... Por causa da minha perna de pau, que ainda substitui aquela que quebrei ao cair do grande carvalho...

[Os avós e as crianças se abraçam loucamente.]

VOVÓ TYL

Como cresceste e ficaste forte, meu Tyltyl!...

VOVÔ TYL, [acariciando os cabelos de Mytyl.]

E Mytyl!... Olha só!... Que belos cabelos, que belos olhos!... E, além disso, como ela cheira bem!...

VOVÓ TYL

Abracemo-nos ainda!... Vinde para os meus joelhos...

VOVÔ TYL

E eu, não terei nada?...

VOVÓ TYL

Não, não... Primeiro comigo... Como vão Papai e Mamãe Tyl?...

TYLTYL

Muito bem, vovó... Eles dormiam quando saímos...

VOVÓ TYL, [contemplando-os e cobrindo-os de carícias.]

Meu Deus, como são bonitos e bem limpinhos!... Foi mamãe que te lavou o rosto?... E tuas meias não estão furadas!... Era eu que as remendava antigamente. Por que não vindes nos ver mais vezes?... Isso nos dá tanto prazer!... Faz meses e meses que vos esqueceis de nós, e que não vemos mais ninguém...

TYLTYL

Não podíamos, vovó; e é graças à Fada que hoje...

VOVÓ TYL

Estamos sempre aqui, à espera de uma pequena visita dos que vivem... Eles vêm tão raramente!... A última vez que viestes, vejamos, quando foi mesmo?... Foi no Dia de Todos os Santos, quando o sino da igreja repicou...

TYLTYL

No Dia de Todos os Santos?... Não saímos naquele dia, pois estávamos muito resfriados...

VOVÓ TYL

Não, mas pensastes em nós...

TYLTYL

Sim...

VOVÓ TYL

Pois bem, cada vez que pensais em nós, despertamos e tornamos a vos ver...

TYLTYL

Como, basta que...

VOVÓ TYL

Ora, tu bem sabes...

TYLTYL

Mas não, eu não sei...

VOVÓ TYL, [a Vovô Tyl.]

É espantoso, lá em cima... Eles ainda não sabem... Então não aprendem nada?...

VOVÔ TYL

É como no nosso tempo... Os Vivos são tão tolos quando falam dos Outros...

TYLTYL

Dormis o tempo todo?...

VOVÔ TYL

Sim, dormimos bastante, à espera de que um pensamento dos Vivos nos desperte... Ah! é muito bom dormir quando a vida acabou... Mas também é agradável despertar de vez em quando...

TYLTYL

Então, não estais mortos de verdade?...

VOVÔ TYL, [sobressaltando-se.]

Que dizes?... Que está ele dizendo?... Agora emprega palavras que já não compreendemos... É uma palavra nova, uma nova invenção?...

TYLTYL

A palavra “morto”?...

VOVÔ TYL

Sim; era essa palavra... Que quer dizer?...

TYLTYL

Ora, quer dizer que já não se vive...

VOVÔ TYL

Como são tolos, lá em cima!...

TYLTYL

Está-se bem aqui?...

VOVÔ TYL

Mas sim; nada mal, nada mal; e até melhor, se ainda se rezasse...

TYLTYL

Papai me disse que não se deve mais rezar...

VOVÔ TYL

Mas sim, mas sim... Rezar é lembrar-se...

VOVÓ TYL

Sim, sim, tudo iria bem, se ao menos viésseis nos ver mais vezes... Lembras-te, Tyltyl?... Da última vez, eu fiz uma bela torta de maçãs... Comeste tanto, tanto, que te fez mal...

TYLTYL

Mas eu não comi torta de maçãs desde o ano passado... Não houve maçãs este ano...

VOVÓ TYL

Não digas tolices... Aqui há sempre...

TYLTYL

Não é a mesma coisa...

VOVÓ TYL

Como? Não é a mesma coisa?... Mas tudo é a mesma coisa, já que podemos nos abraçar...

TYLTYL, [olhando alternadamente para seu avô e sua avó.]

Tu não mudaste, vovô, nada, nada... E vovó também não mudou nada... Mas estais mais bonitos...

VOVÔ TYL

Eh! não vai mal... Já não envelhecemos... Mas vós, como cresceis!... Ah! sim, estais crescendo firmes!... Olhai, ali, na porta, ainda se vê a marca da última vez... Foi no Dia de Todos os Santos... Vejamos, põe-te bem direito... [Tyltyl encosta-se à porta.] Quatro dedos!... É enorme!... [Mytyl encosta-se igualmente à porta.] E Mytyl, quatro e meio!... Ah, ah! má semente!... Como cresce, como cresce!...

TYLTYL, [olhando ao redor, maravilhado.]

Como tudo está igual, como tudo está em seu lugar!... Mas como tudo está mais belo!... Ali está o relógio com o ponteiro grande cuja ponta eu quebrei...

VOVÔ TYL

E aqui está a sopeira que tu lascaste...

TYLTYL

E ali está o buraco que fiz na porta, no dia em que encontrei a verruma...

VOVÔ TYL

Ah, sim, fizeste muitos estragos!... E aqui está a ameixeira na qual gostavas tanto de subir quando eu não estava... Ela ainda tem suas belas ameixas vermelhas...

TYLTYL

Mas são muito mais belas!...

MYTYL

E aqui está o velho melro!... Ele ainda canta?...

O Pássaro Azul

Sinopse

Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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