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O Pássaro Azul

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O Pássaro Azul

Capítulo 4 · O Pássaro Azul

Ato Primeiro - Primeiro Quadro - Parte 2

4 de 33 ≈ 7 min de leitura

Eu preferiria sair por ali...

A FADA, [zangando-se ainda subitamente.]

É absolutamente impossível, e é um hábito revoltante!... [Indicando a janela.] Sairemos por ali... Então!... Que estais esperando?... Vesti-vos imediatamente... [As crianças obedecem e vestem-se depressa.] Vou ajudar Mytyl...

TYLTYL

Não temos sapatos...

A FADA

Isso não tem importância. Vou dar-vos um chapeuzinho maravilhoso. Onde estão vossos pais?...

TYLTYL, [mostrando a porta à direita.]

Estão ali; dormem...

A FADA

E vosso vovô e vossa vovó?...

TYLTYL

Morreram...

A FADA

E vossos irmãozinhos e irmãzinhas... Tendes alguns?...

TYLTYL

Sim, sim; três irmãozinhos...

MYTYL

E quatro irmãzinhas...

A FADA

Onde estão?...

TYLTYL

Morreram também...

A FADA

Quereis revê-los?...

TYLTYL

Oh, sim!... Agora mesmo!... Mostrai-os!...

A FADA

Não os trago no bolso... Mas isto vem a calhar maravilhosamente; vós os revêreis ao passar pelo País da Lembrança. Fica no caminho do Pássaro Azul. Logo à esquerda, depois da terceira encruzilhada. — Que fazíeis quando bati?...

TYLTYL

Brincávamos de comer bolos.

A FADA

Tendes bolos?... Onde estão?

TYLTYL

No palácio das crianças ricas... Vinde ver, é tão bonito!...

[Ele arrasta a Fada até a janela.]

A FADA, à janela.

Mas são os outros que os comem!...

TYLTYL

Sim; mas, já que se vê tudo...

A FADA

Não lhes tens rancor?...

TYLTYL

Por quê?...

A FADA

Porque comem tudo. Acho que fazem muito mal em não te dar um pouco...

TYLTYL

Mas não, já que são ricos... Hein? Como é bonito na casa deles!...

A FADA

Não é mais bonito que na tua.

TYLTYL

Ora!... Aqui em casa é mais escuro, menor, sem bolos...

A FADA

É absolutamente a mesma coisa; é que tu não enxergas...

TYLTYL

Mas sim, enxergo muito bem, e tenho olhos muito bons. Leio as horas no mostrador da igreja, que papai não vê...

A FADA, [zangando-se subitamente.]

Eu te digo que tu não enxergas!... Como é que me vês?... Como é que sou feita?... [Silêncio constrangido de Tyltyl.] Então, responderás, para que eu saiba se vês?... Sou bela ou feia?... [Silêncio cada vez mais embaraçado.] Não queres responder?... Sou jovem ou velha?... Sou rosada ou amarela?... Talvez eu tenha uma corcova?...

TYLTYL, [conciliador.]

Não, não, ela não é grande...

A FADA

Mas sim, a julgar pelo teu ar, diriam que é enorme... Tenho o nariz adunco e o olho esquerdo furado?...

TYLTYL

Não, não, eu não digo... Quem foi que o furou?...

A FADA, cada vez mais irritada.

Mas ele não está furado!... Insolente! miserável!... É mais belo que o outro; é maior, mais claro, é azul como o céu... E meus cabelos, vês?... São louros como os trigais... parecem ouro virgem!... E tenho tantos, tantos, que a cabeça me pesa... Escapam por todos os lados... Vês aqui em minhas mãos?...

[Ela estende duas magras mechas de cabelos grisalhos.]

TYLTYL

Sim, vejo alguns...

A FADA, [indignada.]

Alguns!... Feixes! braçadas! tufos! ondas de ouro!... Sei muito bem que há pessoas que dizem não ver nada; mas tu não és dessas más pessoas cegas, suponho?...

TYLTYL

Não, não, vejo muito bem os que não se escondem...

A FADA

Mas é preciso ver os outros com a mesma ousadia!... São bem curiosos, os homens... Desde a morte das fadas, já não enxergam absolutamente nada e nem sequer desconfiam... Felizmente, trago sempre comigo tudo quanto é preciso para reacender os olhos apagados... Que é que tiro de meu saco?...

TYLTYL

Oh! que lindo chapeuzinho verde!... Que é que brilha assim na cocarda?...

A FADA

É o grande Diamante que faz ver...

TYLTYL

Ah!...

A FADA

Sim; quando se tem o chapéu na cabeça, gira-se um pouco o Diamante: da direita para a esquerda, por exemplo, olha, assim, estás vendo?... Ele então aperta uma saliência da cabeça que ninguém conhece, e que abre os olhos...

TYLTYL

Isso não machuca?...

A FADA

Ao contrário, é fada. Vê-se no mesmo instante o que há dentro das coisas; a alma do pão, do vinho, da pimenta, por exemplo...

MYTYL

Também se vê a alma do açúcar?...

A FADA, [subitamente zangada.]

Isso nem se discute!... Não gosto de perguntas inúteis... A alma do açúcar não é mais interessante que a da pimenta... Eis aqui, dou-vos o que tenho para ajudar-vos na busca do Pássaro Azul... Sei muito bem que o Anel-que-torna-invisível ou o Tapete Voador vos seriam mais úteis... Mas perdi a chave do armário onde os guardei... Ah! quase me esquecia... [Mostrando o Diamante.] Quando se o mantém assim, vês... mais uma voltinha, e se revê o Passado... Ainda uma voltinha, e vê-se o Futuro... É curioso e prático, e não faz barulho...

TYLTYL

Papai vai tomá-lo de mim...

A FADA

Ele não o verá; ninguém pode vê-lo enquanto estiver sobre tua cabeça... Queres experimentá-lo?... [Ela põe em Tyltyl o chapeuzinho verde.] Agora, gira o Diamante... Uma volta e depois...

[Mal Tyltyl girou o Diamante, uma súbita e prodigiosa mudança se opera em todas as coisas. A velha fada transforma-se de repente numa bela e maravilhosa princesa; as pedras de que são feitas as paredes da cabana iluminam-se, tornam-se azuis como safiras, ficam transparentes, cintilam, deslumbram como as pedras mais preciosas. O pobre mobiliário anima-se e resplandece; a mesa de madeira branca afirma-se tão grave, tão nobre quanto uma mesa de mármore; o mostrador do relógio pisca o olho e sorri com amenidade, enquanto a porta por trás da qual vai e vem o pêndulo se entreabre e deixa escapar as Horas, que, de mãos dadas e rindo às gargalhadas, põem-se a dançar ao som de uma música deliciosa. Legítimo espanto de Tyltyl, que exclama, mostrando as Horas.]

TYLTYL

Que são todas essas belas damas?...

A FADA

Não tenhas medo; são as horas de tua vida, felizes por estarem livres e visíveis por um instante...

TYLTYL

E por que as paredes estão tão claras?... São de açúcar ou de pedras preciosas?...

A FADA

Todas as pedras são iguais, todas as pedras são preciosas: mas o homem só vê algumas...

[Enquanto assim falam, a féerie continua e se completa. As almas dos Pães-de-quatro-libras, sob a forma de homenzinhos em malhas cor de côdea de pão, atônitos e enfarinhados, desembaraçam-se da arca de pão e saltitam ao redor da mesa, onde são alcançados pelo Fogo, que, saído da lareira em malha enxofre e vermelhão, os persegue, contorcendo-se de rir.]

TYLTYL

Que são esses homenzinhos feios?...

A FADA

Nada de grave; são as almas dos Pães-de-quatro-libras, que aproveitam o reino da verdade para sair da arca onde se achavam apertadas...

TYLTYL

E o grande diabo vermelho que cheira mal?...

A FADA

Chiu!... Não fales tão alto, é o Fogo... Ele tem mau gênio.

O Pássaro Azul

Sinopse

Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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